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Arquivo de janeiro, 2007

18/01/2007 - 13:38

Discussão torta – 1

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Há alguns dias, a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, fez observações a
respeito das concessões rodoviárias as quais deram origem a uma série de
reações.

O tema levantado pela ministra não dizia respeito à conveniência ou não de se
submeterem rodovias a concessões, nem é disso que se tratará aqui. Trata-se de
matéria de decisão política, a ser discutida
politicamente.

Ocorre que a discussão deu-se (e está se dando, agora menos exposta aos
olhares públicos) no plano errado. O fato de se discutir o assunto sob uma
óptica equivocada carrega dois riscos relacionados entre si. Um, relativo à
eficiência econômica. O outro, referente à corrupção. Eles serão discutidos nas
duas notas seguintes.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/01/2007 - 11:26

O taxista-hortelão e o hitlerzinho municipal

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Reproduzo abaixo carta que enviei ontem ao prefeito da capital paulistana. É auto-explicativa.

Exmo. Sr.

Gilberto Kassab

Prefeito de São Paulo

São Paulo, 15 de janeiro de 2007

Prezado senhor prefeito:

Escrevo-lhe em caráter pessoal para relatar fato de que tomei conhecimento. Embora trivial se comparado com os problemas gravíssimos que afetam a capital, o ocorrido deve causar preocupação, por refletir uma forma de relacionamento de servidores municipais com a população que não deveria ser admissível.

Moro em Perdizes. A padaria que freqüentamos fica do outro lado da Avenida Sumaré, em frente à Praça Irmãos Karmam. Não quero escrever sobre a padaria, mas sobre um ponto de táxi que existe na praça. Há coisa de uns seis meses, um dos motoristas que ali fazem ponto passou a cultivar, no pedacinho de terreno que fica logo atrás do abrigo coberto, plantas que as pessoas jogam fora, nas ruas.

Com o tempo, além de canteiros de flores, desenvolveu-se no local, já com a colaboração de outros motoristas, uma horta em que, conforme relatos, era possível encontrar alface, rúcula, salsinha, cebolinha, manjericão, sálvia, tomilho, talvez um pé de repolho e outro de funcho.

Pois bem, ontem ao cair da tarde caminhamos até a padaria para comprar pão. À saída, passando em frente ao ponto de táxi, lembramo-nos de que estávamos sem salsinha para temperar um omelete que planejáramos preparar. Resolvemos pedir um pouco ao pessoal do ponto de táxi, pois a plantaçãozinha servia para isso – distribuir a quem pedisse.

Frustração. Não há mais salsinha, porque não há mais horta. Conforme nos explicaram dois taxistas que ali estavam, há alguns dias ou semanas um fiscal da Prefeitura passou por lá e determinou a sua extirpação. Não contente em emitir a ordem, o valoroso representante da administração municipal ordenou que o taxista-hortelão arrancasse os vegetais ofensivos com as próprias mãos (não sei o que faria o hitlerzinho municipal caso fosse mandado àquela parte, como teria acontecido se outro fosse o interlocutor).

Observe-se que o fervor repressivo municipal abateu-se apenas sobre as plantas alimentícias. Flores, samambaias, bromélias e outros espécimes ornamentais puderam permanecer. Por algum motivo insondável, a hecatombe poupou uns pés de milho que serviam para delimitar a horta.

É difícil imaginar, senhor prefeito, o que teria motivado os labores fiscalizatórios do industrioso representante da administração municipal. Uma vez que não é crível que o poder público municipal empregue helicópteros ou fotos de satélite para identificar hortas não-regulamentares cidade afora, possivelmente a subprefeitura responsável pela área tenha recebido reclamação de morador de um daqueles prédios com porteiro, play-ground e salão de festa instalados ao redor da praça.

Quanto ao acolhimento da hipotética reclamação pela subprefeitura, atrevo-me a especular que, talvez, tenha-se considerado que a horta atrapalhasse a visão dos sacos de papel, copinhos plásticos, embalagens coloridas e do resto dos detritos multifários que se espalham por sobre a superfície da praça.

Pois, senhor prefeito, a Praça Irmãos Karmam deve ver uma equipe de urbanismo da Prefeitura a intervalos de ano ou mais. O que há ali é uma extensão de terra batida, suja e destratada pela municipalidade (e por munícipes porcalhões, é claro). O único lugar em que se vê algum cuidado é o canteiro dos taxistas. Decerto não se trata de um ajardinamento que possa competir com uma concepção de Burle Marx, mas ainda assim se trata de uma iniciativa civilizatória que se destaca em meio ao desrespeito generalizado característico da interação de boa parte da população paulistana com os próprios da cidade.

Por isso, senhor prefeito, tomo a liberdade de sugerir que o responsável pelo ato oficial anti-alimentício seja identificado e submetido a punição condizente. Por exemplo, replantar com as próprias mãos toda a hortinha dos taxistas. Ou, melhor ainda, aplicar a punição ao subprefeito da área. O exemplo deve vir de cima.

Agradecendo a atenção, despeço-me,

Atenciosamente,

Claudio Weber Abramo

Um munícipe

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
15/01/2007 - 08:00

Dicionários, que horror

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Há alguns anos, cometi na Folha de S. Paulo um artigo (aqui) com o título acima, em que comentava a desgraceira que são os dicionários brasileiros. Não é possível consultar um desses cartapácios sem se deparar com alguma imbecilidade grave, incorreção flagrante ou estupidez bacharelesca. (O artigo deu lugar a réplicas e tréplicas, bem como a desenvolvimentos ulteriores no sítio do Observatório da Imprensa. Quem tiver paciência, que procure lá.)

Hoje fui ao dicionário Houaiss que o UOL disponibiliza para seus assinantes. Estava em busca do gênero preferível da palavra “omelete”. (Os motivos pelos quais fiz isso se tornarão claros amanhã, com a publicação de uma notícula aqui.)

O dicionário em questão classifica “omelete” como “Regionalismo: Brasil”.

Então tá.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/01/2007 - 12:30

O buraco do metrô — Embromações 4

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Não se poderia concluir esta pequena série sem mencionar aspectos adicionais da nossa insigne imprensa.

1. Insistiam em chamar uma grua de “guindaste”. Grua não é guindaste e guindaste não é grua.

2. A moça da GloboNews dizia que a grua seria feita de alumínio. Imaginem só isso. Desmoronaria com o próprio peso.

3. A certa altura, o helicóptero da GloboNews pairava a uns mil metros do local do desmoronamento. A imagem era do buracão. Aí a moça fala aos telespectadores: “Sabem como é que obtemos essa imagem de perto? É um dispositivo tecnológico especial do nosso helicóptero.” Claro – o zoom da câmara.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/01/2007 - 12:20

O buraco do metrô — Embromações 3

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Prestando-se atenção no que afirmam alguns, a causa do desabamento vai ficar na conta da intervenção divina.

Não é mole o que tem de gente falando sobre inseguranças inerentes ao trabalho na várzea do rio e sobre a incidência de chuvas.

Como se as marginais dos rios Pinheiros e Tietê (sem mencionar o Tâmisa, o Reno, o Tibre, o Sena e milhares de outros) não estivessem repletas de edificações e não fossem atravessadas por pontes e túneis em profusão. De repente, ficou “inseguro” trabalhar em várzea de rio e quando chove (digam isso para os londrinos).

O que estão omitindo é que uma obra qualquer só é feita na presença de um projeto. O projeto, por sua vez, é elaborado com base em um montão de fatores, um deles sendo a sondagem do terreno.

A sondagem determina a constituição do solo sobre o qual (ou através do qual, no caso de túneis etc.) se dará a edificação, bem como diversas medidas físicas e topológicas (como se distribuem as camadas do solo etc. etc.). Constrói-se com isso uma imagem tridimensional do volume todo.

Não há possibilidade alguma de se descobrir de repente que o terreno não é aquilo que se imaginava antes.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/01/2007 - 12:16

O buraco do metrô — Embromações 2

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Os responsáveis pela obra do metrô que desabou em São Paulo são as empresas CBPO Engenharia (pertencente à Norberto Odebrecht), Queiroz Galvão, OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez.

Trata-se de informação de que o leitor de jornais e o telespectador de telejornais não dispõe. Nesses veículos, fala-se em “Consórcio Linha Amarela”, como se consórcio não tivesse participantes.

Salvo lapso, tampouco vi o nome da pessoa que fala pelo consórcio. Os jornais não dão.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
14/01/2007 - 08:56

O buraco do metrô — Embromações 1

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Como todo mundo sabe, um poço de trabalho das obras do Metrô de São Paulo desabou na última sexta-feira. Por quê desabou? Como desabou? Ainda não se sabe.

Sabe-se, porém, que o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (CREA) de São Paulo, pela palavra de seu presidente, entrevistado pela Globo News, realizou fiscalização da obra.

Em que consiste a fiscalização? Sempre acompanhando o presidente desse ente cuja justificativa de existência é zelar pelo exercício profissional de engos, arqs e agros, a fiscalização consiste em determinar que a documentação das empresas e dos engos responsáveis está em ordem. Fim de fiscalização.

De forma a poder cumprir essa valorosa função, o CREA recebe uma grana de engos, arqs etc. e, também, cada vez que emite um de seus “atestados”. Esses “atestados” atestam seja lá o que for que os declarantes (empresas e profissionais) declararam ao próprio CREA a respeito dos lugares em que estudaram e aos projetos de que participaram.

Para quê é necessário um intermediário entre quem declara e quem lê, ninguém sabe. Mas isso sustenta a existência de mais um cartório inútil.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/01/2007 - 17:47

Jungmann deveria licenciar-se

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A despeito de suas posições e atitudes que o têm distinguido da média da Câmara dos Deputados, o deputado Raul Jungmann (PPS-PE), que foi citado em denúncia do Ministério Público do Distrito Federal como suspeito de implicação em tramóias envolvendo contratações de empresas de eventos na época em que ele era ministro do governo FHC, deveria licenciar-se da função de deputado enquanto o inquérito correr.

O raciocínio que leva a isso é o mesmo que aplicamos quando um ministro é acusado de malfeitorias: deve afastar-se.

De quebra, como se vê mais uma vez, o escândalo gira em torno de empresas de intermediação de recursos, no caso promotoras de eventos.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
12/01/2007 - 16:54

Só pode ser provocação

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Recebo do sr. Francisco Seabra o comentário abaixo:

Caro Abramo, Na qualidade de astrólogo e pesquisador da Universidade de Brasilia, gostaria de fazer seu mapa astrologico incluindo previsoes para os proximos meses. tenho certeza que assim o senhor defendera o estudo da astrologia nao só na UnB, como também nas demais universidades brasileiras. Grato Francisco Seabra Francisco Seabra | seabrafrancisco@hotmail.com | 12/01/2007 17:10.

Acontece que, em 23 de fevereiro do ano passado, publiquei aqui a nota cujo texto reproduzo abaixo:

Abaixo-assinado

Atletas e atletos:

Como esta é a semana da correção política, este blogue prestará homenagem especial à inclusão de gênero nas aberturas das notas.

Este blogue lança nacionalmente abaixo-assinado pedindo o fechamento imediato da Universidade de Brasília, a demissão com desonra de todos os seus professores e funcionários e o retorno de seus estudantes ao 3º ano ginasial, por motivo de permissividade generalizada e incompatível com a vida em sociedade.

Acontece que o Decanato de Extensão daquela Universidade está patrocinando o VI Curso de Astrologia para Pesquisadores. Conforme informado em cartazete impresso com dinheiro público, as aulas, que se iniciaram em 15/12/2005 e se estenderão até o próximo dia 7 de março todos os dias das 8h00 às 18h00, é ministrado pelo professor Hiroshi Matsuda, engenheiro metalúrgico e professor da dita-cuja, por Ricardo Lindemann, diretor-presidente do Sindicato dos Astrólogos de Brasília (SINABRA) e docente de Cálculo Astrológico da Escola Emma C. Mascheville; e por Marcelo Cintra, que é administrador, astrólogo e professor de Metodologia da Pesquisa. Todos, naturalmente, pagos com os impostos que nos assolam.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
11/01/2007 - 09:14

O Brasil no Relatório Global de Integridade

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Foi lançada ontem a edição 2006 do Relatório Global de Integridade, um balanço bianual de cerca de 290 de indicadores institucionais de mais de 40 países. O Brasil é um deles.

Este que escreve foi o responsável pela elaboração dos indicadores relativos ao Brasil. Marcelo Soares, coordenador do projeto Deu no Jornal, foi um dos leitores (escolhido pela direção do projeto, não por mim).

Clique na imagem para ver os indicadores sobre o Brasil.

Sugestão: Os escores numéricos e comparações com outros países não são o mais importante. Interessa mais examinar cada indicador.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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