Reproduzo abaixo carta que enviei ontem ao prefeito da capital paulistana. É auto-explicativa.
Exmo. Sr.
Gilberto Kassab
Prefeito de São Paulo
São Paulo, 15 de janeiro de 2007
Prezado senhor prefeito:
Escrevo-lhe em caráter pessoal para relatar fato de que tomei conhecimento. Embora trivial se comparado com os problemas gravíssimos que afetam a capital, o ocorrido deve causar preocupação, por refletir uma forma de relacionamento de servidores municipais com a população que não deveria ser admissível.
Moro em Perdizes. A padaria que freqüentamos fica do outro lado da Avenida Sumaré, em frente à Praça Irmãos Karmam. Não quero escrever sobre a padaria, mas sobre um ponto de táxi que existe na praça. Há coisa de uns seis meses, um dos motoristas que ali fazem ponto passou a cultivar, no pedacinho de terreno que fica logo atrás do abrigo coberto, plantas que as pessoas jogam fora, nas ruas.
Com o tempo, além de canteiros de flores, desenvolveu-se no local, já com a colaboração de outros motoristas, uma horta em que, conforme relatos, era possível encontrar alface, rúcula, salsinha, cebolinha, manjericão, sálvia, tomilho, talvez um pé de repolho e outro de funcho.
Pois bem, ontem ao cair da tarde caminhamos até a padaria para comprar pão. À saída, passando em frente ao ponto de táxi, lembramo-nos de que estávamos sem salsinha para temperar um omelete que planejáramos preparar. Resolvemos pedir um pouco ao pessoal do ponto de táxi, pois a plantaçãozinha servia para isso – distribuir a quem pedisse.
Frustração. Não há mais salsinha, porque não há mais horta. Conforme nos explicaram dois taxistas que ali estavam, há alguns dias ou semanas um fiscal da Prefeitura passou por lá e determinou a sua extirpação. Não contente em emitir a ordem, o valoroso representante da administração municipal ordenou que o taxista-hortelão arrancasse os vegetais ofensivos com as próprias mãos (não sei o que faria o hitlerzinho municipal caso fosse mandado àquela parte, como teria acontecido se outro fosse o interlocutor).
Observe-se que o fervor repressivo municipal abateu-se apenas sobre as plantas alimentícias. Flores, samambaias, bromélias e outros espécimes ornamentais puderam permanecer. Por algum motivo insondável, a hecatombe poupou uns pés de milho que serviam para delimitar a horta.
É difícil imaginar, senhor prefeito, o que teria motivado os labores fiscalizatórios do industrioso representante da administração municipal. Uma vez que não é crível que o poder público municipal empregue helicópteros ou fotos de satélite para identificar hortas não-regulamentares cidade afora, possivelmente a subprefeitura responsável pela área tenha recebido reclamação de morador de um daqueles prédios com porteiro, play-ground e salão de festa instalados ao redor da praça.
Quanto ao acolhimento da hipotética reclamação pela subprefeitura, atrevo-me a especular que, talvez, tenha-se considerado que a horta atrapalhasse a visão dos sacos de papel, copinhos plásticos, embalagens coloridas e do resto dos detritos multifários que se espalham por sobre a superfície da praça.
Pois, senhor prefeito, a Praça Irmãos Karmam deve ver uma equipe de urbanismo da Prefeitura a intervalos de ano ou mais. O que há ali é uma extensão de terra batida, suja e destratada pela municipalidade (e por munícipes porcalhões, é claro). O único lugar em que se vê algum cuidado é o canteiro dos taxistas. Decerto não se trata de um ajardinamento que possa competir com uma concepção de Burle Marx, mas ainda assim se trata de uma iniciativa civilizatória que se destaca em meio ao desrespeito generalizado característico da interação de boa parte da população paulistana com os próprios da cidade.
Por isso, senhor prefeito, tomo a liberdade de sugerir que o responsável pelo ato oficial anti-alimentício seja identificado e submetido a punição condizente. Por exemplo, replantar com as próprias mãos toda a hortinha dos taxistas. Ou, melhor ainda, aplicar a punição ao subprefeito da área. O exemplo deve vir de cima.
Agradecendo a atenção, despeço-me,
Atenciosamente,
Claudio Weber Abramo
Um munícipe