Pais e filhos
Coluna de hoje deste blogueiro no Diário do Comércio de SP:
Leio na imprensa que a aparição do presidente Lula no Roda Viva da última segunda-feira teve como um de seus principais motes a alegação de que um presidente da República não teria obrigação de saber o que seus auxiliares fazem. Ao que se noticia, Lula teria insistido na metáfora segundo a qual um presidente é como um pai de família.
Se um filho sai por aí fazendo estripulias, o pai de família não tem obrigação de saber o que se passa. Logo, o presidente não teria obrigação de saber o que se passa com seus ministros e outros auxiliares.
Operam aí dois equívocos, ambos graves.
O primeiro é que uma família não é uma estrutura hierárquica. Numa estrutura hierárquica, como um governo, o responsável último por tudo o que acontece é o chefe geral.
E é exatamente porque não é possível a ninguém saber especificamente dos atos individuais de subordinados que se instituem nas organizações mecanismos de prevenção e controle. O chefe tem sempre obrigação de saber, não sendo admissível alegar desconhecimento. Se não sabia, deveria ter sabido.
Isso não vale só para presidentes da República, governadores e prefeitos, mas para tudo. Se a empresa de telefonia celular ou de TV a cabo de que nos servimos nos enrosca em trapalhadas com as contas, o responsável não é o operador do telemarketing, treinado para transmitir mentiras a quem lhe liga, mas o CEO da companhia. Não lhe cabe, se perguntado, dizer que não tem nada a ver com o peixe. Tem, sim, senhor, o peixe é todo dele, pois a ele caberia garantir que trapalhadas não acontecessem, que operadores de telemarketing não se especializassem em embromar o cliente e assim por diante.
Colocado de outra forma, se ao CEO não compete garantir que a empresa não descumpra suas obrigações elementares, a quem caberia? Ao operador do telemarketing?
Se alguém cobra uma propina em alguma organização, o principal responsável é quem manda. No caso de um indivíduo eleito, a responsabilidade é ainda agravada pela circunstância de sua eleição ter acontecido exatamente para (entre outras obrigações, claro) evitar que coisas como essas aconteçam.
Combater a corrupção não significa apenas gritar “pega ladrão” depois que a coisa aconteceu, mas montar mecanismos destinados a reduzir a probabilidade de a corrupção acontecer. Promover a implantação de mecanismos preventivos é obrigação do governante.
(Diga-se, a propósito, que a ficha do candidato Alckmin nesse particular é uma página em branco. Desconhecem-se iniciativas de prevenção da corrupção operadas em sua gestão no estado de São Paulo.)
O segundo equívoco do candidato Lula reside no território da projeção de imagem. Ao mesmo tempo que se desresponsabiliza, Lula pretende apresentar-se ao público como “paizão” do povo. Por um pai se tem respeito. Usualmente, suas decisões são encaradas sob o pressuposto da confiança. Conhecemos nosso pai e acreditamos que nosso pai nos conhece (é claro que isso é geralmente uma ilusão, mas nem por isso a maioria das pessoas deixa de alimentá-la).
Comumente, há uma simpatia de princípio pelo pai, e mesmo quando esta está ausente mantém-se reserva a respeito de seus defeitos mais graves. Ninguém demite um pai, por pior que ele seja. É claro que existem exemplos, mas não são muitos os filhos que processam criminalmente seus próprios pais.
Isso de um governante apresentar-se como “paizão” tem a função expressa de despolitizar a política. Instâncias brasileiras desse tipo de comportamento não faltam. Getúlio Vargas fazia isso, como também Adhemar de Barros. Um “paizão” moderno é Antonio Carlos Magalhães. Muitos dos países mais desgraçados do mundo têm “paizões” à testa.
A figura mundial que mais se associou a esse tipo de conduta foi Stalin, mas nesse caso a projeção de imagem tinha a ver com a defesa da União Soviética ante a invasão nazista. Stalin apresentava-se aos soviéticos (e em particular aos russos, embora ele próprio fosse georgiano) como o protetor da Rodina, a mãe-pátria.
A existência de precedentes não justifica repetir o comportamento. A tentativa presidencial de reduzir as relações entre eleitor e candidato às dimensões das relações familiares desmerece a própria história do PT.
