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Arquivo de outubro, 2006

19/10/2006 - 08:50

Pais e filhos

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Coluna de hoje deste blogueiro no Diário do Comércio de SP:

Leio na imprensa que a aparição do presidente Lula no Roda Viva da última segunda-feira teve como um de seus principais motes a alegação de que um presidente da República não teria obrigação de saber o que seus auxiliares fazem. Ao que se noticia, Lula teria insistido na metáfora segundo a qual um presidente é como um pai de família.

Se um filho sai por aí fazendo estripulias, o pai de família não tem obrigação de saber o que se passa. Logo, o presidente não teria obrigação de saber o que se passa com seus ministros e outros auxiliares.

Operam aí dois equívocos, ambos graves.

O primeiro é que uma família não é uma estrutura hierárquica. Numa estrutura hierárquica, como um governo, o responsável último por tudo o que acontece é o chefe geral.

E é exatamente porque não é possível a ninguém saber especificamente dos atos individuais de subordinados que se instituem nas organizações mecanismos de prevenção e controle. O chefe tem sempre obrigação de saber, não sendo admissível alegar desconhecimento. Se não sabia, deveria ter sabido.

Isso não vale só para presidentes da República, governadores e prefeitos, mas para tudo. Se a empresa de telefonia celular ou de TV a cabo de que nos servimos nos enrosca em trapalhadas com as contas, o responsável não é o operador do telemarketing, treinado para transmitir mentiras a quem lhe liga, mas o CEO da companhia. Não lhe cabe, se perguntado, dizer que não tem nada a ver com o peixe. Tem, sim, senhor, o peixe é todo dele, pois a ele caberia garantir que trapalhadas não acontecessem, que operadores de telemarketing não se especializassem em embromar o cliente e assim por diante.

Colocado de outra forma, se ao CEO não compete garantir que a empresa não descumpra suas obrigações elementares, a quem caberia? Ao operador do telemarketing?

Se alguém cobra uma propina em alguma organização, o principal responsável é quem manda. No caso de um indivíduo eleito, a responsabilidade é ainda agravada pela circunstância de sua eleição ter acontecido exatamente para (entre outras obrigações, claro) evitar que coisas como essas aconteçam.

Combater a corrupção não significa apenas gritar “pega ladrão” depois que a coisa aconteceu, mas montar mecanismos destinados a reduzir a probabilidade de a corrupção acontecer. Promover a implantação de mecanismos preventivos é obrigação do governante.

(Diga-se, a propósito, que a ficha do candidato Alckmin nesse particular é uma página em branco. Desconhecem-se iniciativas de prevenção da corrupção operadas em sua gestão no estado de São Paulo.)

O segundo equívoco do candidato Lula reside no território da projeção de imagem. Ao mesmo tempo que se desresponsabiliza, Lula pretende apresentar-se ao público como “paizão” do povo. Por um pai se tem respeito. Usualmente, suas decisões são encaradas sob o pressuposto da confiança. Conhecemos nosso pai e acreditamos que nosso pai nos conhece (é claro que isso é geralmente uma ilusão, mas nem por isso a maioria das pessoas deixa de alimentá-la).

Comumente, há uma simpatia de princípio pelo pai, e mesmo quando esta está ausente mantém-se reserva a respeito de seus defeitos mais graves. Ninguém demite um pai, por pior que ele seja. É claro que existem exemplos, mas não são muitos os filhos que processam criminalmente seus próprios pais.

Isso de um governante apresentar-se como “paizão” tem a função expressa de despolitizar a política. Instâncias brasileiras desse tipo de comportamento não faltam. Getúlio Vargas fazia isso, como também Adhemar de Barros. Um “paizão” moderno é Antonio Carlos Magalhães. Muitos dos países mais desgraçados do mundo têm “paizões” à testa.

A figura mundial que mais se associou a esse tipo de conduta foi Stalin, mas nesse caso a projeção de imagem tinha a ver com a defesa da União Soviética ante a invasão nazista. Stalin apresentava-se aos soviéticos (e em particular aos russos, embora ele próprio fosse georgiano) como o protetor da Rodina, a mãe-pátria.

A existência de precedentes não justifica repetir o comportamento. A tentativa presidencial de reduzir as relações entre eleitor e candidato às dimensões das relações familiares desmerece a própria história do PT.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
19/10/2006 - 08:48

Numerologia mistificadora

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Colaboração de ontem deste que escreve ao blog do Noblat:

Uma das pragas que afeta a imprensa de modo geral é sua tendência de reproduzir acriticamente aquilo que lhe é apresentado. Quanto mais “respeitável” é a fonte, e quanto mais recônditas são as informações prestadas, mais provável é que seus press-releases sejam copiados sem mais essa nem aquela.

O problema não afeta apenas publicações de países secundários como o Brasil. Ícones da excelência jornalística global também caem na esparrela com freqüência.

Quando a divulgação envolve números, então, é certo que jornais e revistas reproduzirão seja lá o que lhes for apresentado, pois jornalistas não são exatamente conhecidos por sua proficiência nessa área. Coloque-se um número na frente de um repórter e a probabilidade maior é que ele o repetirá sem ter idéia nenhuma do que se trata.

Um exemplo recente aconteceu com a divulgação, pela Transparency International, de um Índice de Países Corruptores. O indicador lista 30 países exportadores, organizados conforme a maior ou menor propensão de suas empresas recorrerem à propinagem para realizar negócios internacionais. Tal propensão teria sido medida objetivamente através da experiência descrita por importadores oriundos de 125 países. Não se trataria de sacações injustificadas, mas de experiência concreta.

A lista tem na cabeça a Suíça, vista como a menos corruptora, e no pé a Índia. O Brasil está lá, na 23ª posição, entre a África do Sul e a Arábia Saudita.

Os responsáveis pela organização Transparency International usaram o posicionamento de países nesse ranking para malhar governos. Sobre o governo brasileiro, foi afirmado que não estaria obedecendo à Convenção da OCDE que trata de propinagem no comércio exterior (de que o Brasil é signatário), porque não coíbe o pagamento de propinas por empresas exportadoras brasileiras.

Eis alguns exemplos de como tudo isso foi noticiado no Brasil: “Exportadores brasileiros estão entre os mais corruptos” (A Gazeta do ES); “Brasil tem má nota em lista de propina” (O Estado de S. Paulo); “Brasil cresce no ranking de corrupção” (Correio do Povo, RS); “Brasil é o oitavo entre os paises mais corruptos do mundo” (Correio da Paraíba) etc.

Nenhum dos redatores ou editores desses e dos demais veículos que entraram na onda se deu ao trabalho de: A) Examinar como o tal índice foi montado (possível de fazer porque o release foi acompanhado de um documento analítico em que a metodologia é explicada); B) Verificar o que é a Convenção da OCDE e determinar se a alegação de descumprimento procede; C) Perguntar para fontes que conhecem essas coisas, como por exemplo representantes do governo, ou do Ministério Público Federal, ou de outras organizações que tratam do assunto.

Como não fizeram tais perguntas, deixaram de informar seus leitores de que:

  1. Não há nenhuma garantia de que o ranking de fato reflita experiências, e não opiniões. Os indícios são de que se trata de mera percepção.
  2. A amostragem dos respondentes não tem nenhuma relação com as balanças comerciais dos países. Por exemplo, a Alemanha, que responde por nada menos que 7,5% do total de todas as importações mundiais, contribuiu com 51 pessoas na amostra à qual se fizeram as perguntas. O Benin, cujas importações são 0,01% do comércio mundial, teve 147 respondentes. E assim por diante ao longo da lista. Não há nenhuma correlação entre número de respondentes e intensidade de comércio internacional. E as balanças comerciais dos 30 países não foram usadas para ponderar os resultados.

  3. A Convenção da OCDE obriga os países signatários a abrirem processos contra empresas sediadas em seus territórios e que tenham sido objeto de denúncia no exterior. Pouquíssimos países do mundo abriram tais processos. Contrariamente ao que a Transaprency International alegou irresponsavelmente, o Brasil foi um dos raros que já fez isso, no caso de empresas que foram acusadas de propinagem no âmbito do programa “Petróleo por Comida”, da ONU, que vigorou no Iraque embargado após a invasão do Kuwait.

Em outras palavras, o tal Índice de Países Corruptores não vale nada e os comentários que propiciou são descabidos, mas tanto a imprensa brasileira quanto a internacional passaram adiante o peixe podre que compraram.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
16/10/2006 - 07:31

Séjour chileno

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Passei os últimos dias em Santiago, participando de um seminário promovido pela Escola de Direito da Universidade do Chile.

Não conhecia o Chile. A área da cidade em que ficamos (Vitacura) era próspera, cheia de edifícios novos. Não se viam pobres pelas ruas. Pareceu-me esquisito.

Há um museu interessante, o de Arte Pré-Colombiana. O resto é mediocrezinho.

Três linhas de metrô servem a área vizinha (em direção ao Sul) ao rio Mapocho, que corta a cidade.

Na sexta-feira, fizemos um programa de índio: pegamos o teleférico e subimos ao topo de um morro que corta a cidade em dois.

Na verdade, valeu a pena. Deu pra ver que o tal morro divide a cidade entre a área rica e a área pobre. (Há outra área pobre mais para o norte, que se vê do alto.)

E o metrô só serve a área rica. Os pobres andam de ônibus, que são um lixo.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
10/10/2006 - 11:53

OXO

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Estive fora de São Paulo ontem e não pude comentar o debate Lula x Alckmin. Foi bom, porque me deu tempo de refletir. Se a reflexão resultou em algo que preste, não sei — deixo ao julgamento do eventual leitor. Aí vão minhas impressões, que são restritas ao assunto da corrupção e seu combate.

Em suma, nenhum dos dois candidatos sabe o que dizer a respeito de combate à corrupção. Ficaram na base do “você é corrupto”, “corrupto é você”, ou praticamente isso.

É impressionante como pessoas com experiência na chefia de Executivos, como é o caso de Alckmin e Lula, e que deveriam ter refletido na vida sobre os prejuízos causados pela corrupção, em particular os prejuízos políticos que lhes caem sobrea  cabeça, não têm idéia nenhuma de como ela acontece, de que corrupção tem causa e que, portanto, tem solução.

Não conseguem sair dos escândalos. Nenhum dos dois candidatos exibiu qualquer espécie de indício de que têm alguma noção do que estão dizendo quando se referem à corrupção. Ficam no moralismo individual.

Lula até que teria alguns argumentos a apresentar no que diz respeito ao combate à corrupção, mas evidentemente quem o cerca e planeja seu discurso não tem idéia nenhuma. Para eles, e para o presidente, corrupção é problema individual, que se reprime pela polícia. Daí essa conversa de que “nenhum pai de família pode prever o que seus filhos farão”, apresentada como justificativa para a incompreensão sobre o problema exibida pelo candidato.

Quanto a Alckmin, que se apresenta como “moderno”, na verdade não ultrapassa o limite das considerações rasas.

Como nenhum dos dois tem idéia do que estão falando, também não conseguem criticar o adversário.

Portanto, no capítulo do combate à corrupção, o debate de domingo deu OXO.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/10/2006 - 08:31

Colendos Chacrinhas

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Mais uma vez, o Tribunal Superior Eleitoral demonstra que está aí mesmo para confundir. Decidiram ontem que a cláusula de barreira, segundo a qual partidos que não obtiveram 5% dos votos nacionais distribuídos em pelo menos 9 estados, com no mínimo 2% em cada um deles, não significa isso, mas outra coisa.

Os preclaros causídicos decidiram que um partido formado após as eleições pela reunião de nanicos de forma a completar as cotas numéricas terão, sim, direito às benesses que objetivamente perderam nas eleições.

O PTB de Roberto Jefferson mais que depressa uniu-se ao Partido dos Aposentados da Nação, ou ao Partido Socioamboental Participativo, ou como se denomine um desses partidecos de aluguel que andam por aí.

Sem a menor dúvida, “juristas” serão chamados a opinar e, naquela linguagem tatibitate que os caracteriza, recorrerão a doutrinas (existem-nas para todos os gostos) e a exercícios de má gramática.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
06/10/2006 - 08:15

Toma, que o filho é teu

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Pensata deste que escreve hoje na Folha de S. Paulo:

Os resultados das eleições de 1º de outubro deram origem a uma tipologia de comentários segundo os quais, em síntese, o brasileiro teria se entregado de vez à imoralidade.

O fato de a maioria do eleitorado acreditar (certa ou erradamente, não importa) que o presidente Lula tenha tido conhecimento prévio dos malfeitos praticados por altos dirigentes de seu partido e, mesmo assim, ter-lhe dedicado quase 50% dos votos, é visto por determinados observadores como o fim dos tempos.

Entre os brasileiros, recairia sobre os paulistas dose alentada de culpa por essa pretensa decadência de costumes, por terem conduzido ou reconduzido ao Parlamento indivíduos como o sr. Paulo Maluf e uma quantidade não-regulamentar de mensaleiros e outros implicados em crimes diversos.

Trata-se, tudo isso, de moralismo temperado de desinformação, não sem boa parcela de hipocrisia.

Querem esses comentaristas impingir a noção de que julgamentos de natureza moral teriam precedência sobre quaisquer outras circunstâncias nas decisões materiais, como é a decisão do voto.

Acontece que o que entra em jogo nas decisões materiais são principalmente considerações de natureza material. Para os 70% de eleitores de Pernambuco ou da Bahia que votaram em Lula, o que conta é que os R$ 60 do Bolsa Família fazem diferença concreta em suas vidas. Os números mostram isso objetivamente. O nível de consumo subiu nessas populações.

É claro que R$ 60 não são nada para o autor das presentes maltraçadas, para o eventual leitor ou para aqueles que se comprazem em condenar moralmente o sujeito miserável para quem esse dinheiro faz diferença.

O trágico nisso é que esses Torquemadas chorosos não têm noção do fato de que a vida desses miseráveis muda, sim, radicalmente por conta de miseráveis R$ 60 por mês.

Nunca foi tão verdadeira a máxima segundo a qual a pior colonização acontece na cabeça. No caso, se trata de uma colonização de classe social. Para eles, a miserabilidade brasileira é uma abstração, reduzindo-se a índices que lêem aqui ou ali. Comportam-se como freqüentadores de shopping center, convictos de que no Brasil só é pobre quem quer.

São também hipócritas, porque, sem a menor sombra de dúvida, em suas trajetórias profissionais terá havido ocasião de terem relegado a segundo plano algum julgamento moral que formaram a respeito de subordinados, superiores hierárquicos ou patrões.

Lastimam-se essas freiras do pensamento pequeno-burguês pelo futuro moral do Brasil devido ao fato de os alagoanos terem eleito o sr. Collor de Mello para o Senado. Esquecem-se de que Collor é o sátrapa local das comunicações (rede de rádio, TV, jornal diário) e que Alagoas é o fim da picada, um estado dominado pelo que há de pior entre as oligarquias rurais nordestinas. Queriam esses moralistas lacrimejantes que o alagoano analfabeto raciocinasse como Afonso Arinos?

E quanto a Maluf? Foi de fato eleito deputado federal por São Paulo. Mas foram “os paulistas” que elegeram esse senhor? Teriam “os paulistas” mergulhado de cabeça no “rouba mas faz” por causa disso e por causa de mensaleiros diversos reconduzidos à Câmara? (Quanto aos sanguessugas os patrulheiros da moral rasa se calam, sem dúvida porque o fato de terem sido rejeitados nas urnas desmente seu diagnóstico.)

Os eleitores que votaram em Maluf foram pouco menos de 740 mil num colégio eleitoral de 28 milhões, dos quais 23,77 milhões votaram para a Câmara Federal. E quem são os eleitores típicos do sr. Maluf? Formam uma direita boçal cuja preocupação fundamental na vida é saber se a rua em que moram será protegida por cancela e seguranças. Sem dúvida, esses também condenam a corrupção, mas vêem em Maluf uma resposta para seus anseios. E eles são só 740 mil, não são 24 milhões. (Celso Pitta, que segundo a teoria da decadência moral deveria ter sido eleito, recebeu 7.484 votos.)

Por fim, os mensaleiros. Entre eleitos e não eleitos, eles somaram 524.077 votos. A quem se devem esses votos?

Devem-se à imprensa. Foi a imprensa brasileira que comprou a história da Carochinha de que o propinoduto gerenciado pelos dirigentes do PT tinha finalidade eleitoral.

Muitos dos comentaristas que hoje se lastimam pela eleição de mensaleiros estiveram entre os que mais valentemente compraram a ficção do caixa dois eleitoral e que promoveram a inútil discussão travada durante meses, no ano passado, sobre financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais.

Apesar de ser absurdo dizer-se que um modelo de financiamento eleitoral, qualquer que fosse, teria alguma espécie de efeito sobre o fato de uns indivíduos receberem propina num esquema de corrupção, foi exatamente isso o que uma quantidade extraordinária de formadores de opinião comprou e vendeu em 2005. Com isso, absolveram moralmente os mensaleiros.

Esse filho é deles.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
05/10/2006 - 08:32

Ainda sobre o Índice de países corruptores

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Parte da coluna deste que escreve, hoje no Diário do Comércio de São
Paulo:

Eventuais conclusões que se possam extrair desse índice precisam ser temperadas por algumas considerações.

Primeiro, embora o levantamento tivesse a intenção de focalizar a experiência concreta dos respondentes com avanços por parte de empresas exportadoras, não é garantido que todos eles tenham respondido com isso em mente. De fato, cerca de 30% do total de avaliações de países corresponderam a respondentes que opinaram sobre mais de 20 países.

Como dificilmente alguém teria experiência de corrupção com empresas de mais de 20 países, isso é indício de que as respostas não se basearam em conhecimento concreto, mas em percepções colhidas de terceiros.

Segundo, a metodologia do levantamento não levou em conta a real distribuição da balança comercial dos países. As respostas não foram compensadas pelos dados dessa distribuição. Com isso, não é impossível que em alguns casos uma quantidade desproporcionalmente alta de respondentes sobre um país era oriunda de países que na verdade mantêm comércio irrelevante na balança daquele país.

Há também no posicionamento dos países algumas curiosidades que justificam indagações que, infelizmente, não podem ser respondidas. Por exemplo, os Emirados Árabes Unidos aparecem na posição de número 14 da lista. O México aparece na 17a. posição.

Mas o quê, exatamente, exportam os Emirados Árabes Unidos e o México? Resposta – petróleo. No caso do México, para os EUA. No caso dos Emirados, para EUA e Europa.

Ora, será que é necessário à Yacimentos Petrolíferos Fiscales do México (que, aliás, é uma empresa estatal) ou a qual organismo seja que trate disso nos Emirados, subornar alguém para comprar petróleo? A partir desse raciocínio, esses países deveriam estar no topo da lista, empatados em primeiro lugar com “notas” próximas de 10.

O Brasil exporta essencialmente commodities para a América do Norte e para a Europa. Em distante segundo lugar estão bens industrializados de alta, média e baixa tecnologia, majoritariamente para os mesmos lugares. No entanto, quando se estratificam os resultados do índice, resulta que empresas brasileiras teriam mais propensão a pagar subornos em países membros do “clube dos ricos”, a OCDE, do que em países muito pobres. Não parece razoável.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/10/2006 - 11:09

Índice de Países Corruptores

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Informações sobre a metodologia do índice podem ser
encontradas aqui
(apenas em inglês).

A organização não-governamental Transparency International divulga hoje seu
Índice de Países Corruptores, englobando os 30 maiores países exportadores,
entre eles o Brasil.

O índice foi preparado no âmbito do Executive Opinion Survey do Fórum
Econômico Mundial. Consultaram-se 11.232 pessoas com experiência em negócios
internacionais, oriundas de 125 países. Responderam ao questionário 8034
delas.

Fizeram-se duas perguntas:

  1. Da seguinte lista de países, selecione os países de origem das empresas
    estrangeiras que mais comerciam com o seu país.

  2. Na sua experiência, até que ponto empresas oriundas dos países que você
    assinalou pagam propinas ou realizam pagamentos não-documentados? (escala de 1 a
    7).

Depois de submetidas a tratamento estatístico, as respostas agregadas por
país foram organizadas numa lista que teria 10 como escore máximo possível e 0
como escore mínimo.

Os resultados são resumidos na tabela seguinte.

Observe-se que, na metodologia de confecção do índice, não se pondera a
distribuição dos países de origem dos respondentes pela distribuição das
balanças comerciais dos 30 países focalizados.

Posição

País

Escore médio

Fatia das exportações
mundiais (2005)

1

Suíça

7.81

1.2

2

Suécia

7.62

1.3

3

Austrália

7.59

1.0

4

Áustria

7.50

0.5

5

Canadá

7.46

3.5

6

Reino Unido

7.39

3.6

7

Alemanha

7.34

9.5

8

Holanda

7.28

3.4

9

Bélgica

7.22

3.3

Estados Unidos

7.22

8.9

11

Japão

7.10

5.8

12

Cingapura

6.78

2.2

13

Espanha

6.63

1.9

14

Emirados Árabes Unidos

6.62

1.1

15

França

6.50

4.3

16

Portugal

6.47

0.3

17

México

6.45

2.1

18

Hong Kong

6.01

2.8

Israel

6.01

0.4

20

Itália

5.94

3.6

21

Coréia do Sul

5.83

2.8

22

Arábia Saudita

5.75

1.8

23

Brasil

5.65

1.2

24

África do Sul

5.61

0.5

25

Malásia

5.59

1.4

26

Taiwan

5.41

1.9

27

Turquia

5.23

0.7

28

Rússia

5.16

2.4

29

China

4.94

5.5

30

Índia

4.62

0.9
Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/10/2006 - 11:01

Estupidez moralista

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Coluna deste que escreve no blog do Noblat, hoje:

Os resultados das eleições realizadas no último domingo têm levado uma porção
de observadores a fazer comentários catastróficos a respeito de uma pretensa
tendência de o brasileiro não ligar para a corrupção. Para esses comentaristas,
o Brasil teria ingressado definitivamente em algum círculo do inferno moral.

Esses comentaristas sofrem de um desequilíbrio grave. Falta-lhes informação,
conhecimento e simples bom senso. E sobra-lhes moralismo pequeno-burguês.

Os seguintes exemplos são mencionados:

  1. O fato de a grande maioria dos eleitores acreditar que o presidente Lula tem
    alguma responsabilidade nos diversos escândalos em que seu governo e o PT
    estiveram envolvidos e, ao mesmo tempo, isso não se refletir no voto. (Não estou
    dizendo que o presidente da República tenha responsabilidade, por exemplo no
    dossiegate, mas que a maioria dos eleitores assim acredita.)

  2. A eleição de Fernando Collor de Mello ao Senado por Alagoas.
  3. A eleição de Paulo Maluf à Câmara dos Deputados por São Paulo (e de outros,
    como o ex-prefeito cassado de Londrina, Antônio Belinatti, deputado estadual
    pelo Paraná).

  4. A eleição da quase totalidade dos mensaleiros.

Vejamos o que acontece com cada um desses exemplos. Antes de passar a eles,
convém lembrar que qualquer pesquisa que se faça no Brasil a respeito de
tolerância à corrupção resulta em números muito expressivos. O brasileiro
condena a corrupção (para os que se lembram de uma recente pesquisa Ibope que
foi apresentada com conclusões opostas ao que se está dizendo aqui, ocorre que a
interpretação divulgada não se sustentava nos números da própria pesquisa).

1. O caso Lula. Quem condena o eleitor brasileiro por ter votado em Lula
mesmo em face de um julgamento moral que lhe é desfavorável pratica um misto de
hipocrisia e ignorância. Hipocrisia porque ninguém (nem o eventual leitor, nem
este que escreve, nem os comentaristas-moralistas) toma decisões exclusivamente
com base em julgamentos morais. Podemos fazer um julgamento moral desfavorável a
respeito de alguém ou de uma situação e, ainda assim, decidir desconsiderar esse
julgamento em nossos atos.

Acontece que entram em jogo outros fatores, e entre tais fatores os mais
importantes são os de natureza material. Tenho certeza de que, em muitos
momentos da vida, jornalistas que ficam por aí cagando regra na cabeça dos
eleitores desconsideraram julgamentos morais desfavoráreis que tinham em relação
a subordinados, superiores, fontes, patrões e assim por diante, em nome de
alguma obrigação profissional.

Por que deveria ser diferente para o eleitor distante, em especial aquele
eleitor miserável pernambucano ou baiano, que deu 70% de seus votos para a
reeleição do presidente Lula?

Para esse sujeito, R$ 50 reais a mais na renda familiar, propiciados pelo
Bolsa Família, significa um verdadeiro salto em qualidade de vida. Os números do
IBGE mostram isso claramente. É claro que R$ 50 não querem dizer nada para este
que escreve, para os que eventualmente lêem, para os
comentaristas-moralistas.

A desgraça é que esses comentaristas não se dão conta de quão importantes são
R$ 50 reais para os eleitores de Lula.

2. O caso Collor. Ora, Collor é o oligarga local das comunicações. Controla
todos os principais veículos do estado, da repetidora da Globo ao jornal mais
vendido, a uma rede radiofônica. Alagoas, por outro lado, é um estado
atrasadíssimo, em que a pobreza campeia e a informação é quase nenhuma. Não se
produz quase nada, não se arrecada quase nada. É o nordestão lascado,
secularmente subjugado pelo atraso promovido pelos usineiros. O que os
comentaristas de Sodoma e Gomorra queriam? Que os eleitores alagoanos se
comportassem de acordo como suas fantasias?

3. O caso Maluf. Paulista gosta de ladrão, tanto é que votaram no Maluf.
Assim vai o raciocínio de moralistas nacionais e internacionais. Esquecem-se que
Maluf foi eleito deputado federal com pouco menos de 740 mil votos, enquanto o
total de eleitores que votaram para a Câmara dos Deputados foi de cerca de 24
milhões. Ou seja, os paulistas não “votaram no Maluf”. Votaram em outros. Além
disso, quem são os eleitores de Maluf? Resposta: É uma direita que baba no
sutiã, cuja visão de mundo reduz-se à proposição de que bandido tem mais é que
ser entregue à sanha da violência policial. Não há dúvidas de que esses
eleitorado minúsculo também rejeita a corrupção. Mas acha mais importante votar
num sujeito que diz que vai colocar a ROTA na rua.

4. Os mensaleiros (os sanguessugas foram majoritariamente rejeitados nas
urnas, ou nem se candidataram; aliás, tipicamente, como o caso dos sanguessugas
vai contra a “tese” dos comentaristas-moralistas, eles se eximem de levá-lo em
consideração).

Sabe o eventual leitor a quem se deve a eleição dos mensaleiros? À imprensa,
doutores. Sim, pois foram comentaristas políticos, pauteiros, editorialistas,
diretores de jornal, apresentadores de shows de rádio etc. que engoliram com
casca e tudo a versão absurda de que o dinheiro do valerioduto teria tido como
finalidade pagar dívidas de campanhas eleitorais.

Lançada a isca, meses e meses se passaram numa discussão completamente
imbecil a respeito de financiamento público exclusivo de campanha eleitoral,
como se o assunto tivesse alguma coisa a ver com o fato de um deputado
desclassificado tomar grana por debaixo do pano de um esquema industrializado de
corrupção administrado pelos representantes máximos de um partido político.

Assim, em vez de culparem o eleitor, esses comentaristas deveriam é passar a
exercer o ofício com um pouco mais de competência e deixar de praticar o
jornalismo declaratório que caracteriza a maior parte da imprensa brasileira
(“Fulano disse tal coisa sobre Beltrano. Ouvido pela reportagem, Beltrano
afirmou que Fulano tem não sei qual interesse”).

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/10/2006 - 16:09

Não vote em Mensaleiros — balanço

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Cobram-me um balanço da campanha “Não vote em Mensaleiro” (e sanguessugas e anelídeos etc.). Pretendia fazê-lo mais tarde, mas aí vai.

  1. Uma campanha como essa não é passível de balanço. Se faço uma campanha convidando pessoas a doarem dinheiro para uma causa, o balanço é possível pela medida de quanta grana entrou. No caso em questão, havia muita informação correndo em torno dos assuntos pertinentes, sendo impossível identificar quais influências foram importantes para quais eleitores. Só seria possível responder caso se tivesse feito uma pesquisa empírica perguntando algo como “Você ouviu falar da campanha Não vote em Mensaleiro? Em caso afirmativo, deixou de votar em algum celenterado por causa disso?”
  2. Se mirarmos os sanguessugas, é evidente que foram majoritariamente rejeitados pelos eleitores. A maioria deles não se reelegeu (e alguns desistiram de concorrer).
  3. Se mirarmos os mensaleiros, a maioria foi reeleita.

É interessante indagar-se por quê raios mensaleiros passaram em branco. Acredito que o eleitorado “comprou” a história da Carochinha inventada para justificar o propinoduto administrado pelo publicitário Marcos Valério.

Para isso concorreu valentemente a imprensa brasileira, habituada a comprar qualquer peixe podre que se lhe é oferecido e cobriu o escândalo do Mensalão como se fosse um problema de caixa dois eleitoral. Em vez de rejeitar a manobra e denunciá-la como inventada para desviar a atenção, nossos ilustres pauteiros e comentaristas políticos embarcaram de cabeça na idiotíssima discussão sobre financiamento público exclusivo de campanha eleitoral como “remédio” para evitar que deputados levem grana por baixo do pano em esquemas de corrupção industrializados.

Como todo mundo desculpou o Mensalão, incluindo-se a oposição, não é de espantar que os mensaleiros tenham sido eleitos.

Não nos esqueçamos de que eles foram indiciados na Justiça. No mínimo, agora vão tentar cancelar os processos. Esperem e verão.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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