Alguns poucos entre os eventuais leitores desta coluna hão de lembrar-se do filme “Mon Oncle” (Meu Tio), do cineasta francês Jacques Tatit. Além de dirigir, Tatit por vezes representava suas produções, casos em que assumia o personagem do excêntrico M. Hulot (uma grande realização sua é “Les Vacances de M. Hulot”, As Férias do sr. Hulot). Procurem nas boas videolocadoras (não há muitas, mas sobraram algumas).
“Mon Oncle” conta as peripécias de M. Hulot com a família de sua irmã, casada com um burguês daqueles que só a França é capaz de produzir em toda a sua pretensão. Hulot visita o sobrinho (daí o título do filme), acontecimento que rende retratos impagáveis do vazio da vida burguesa.
Uma cena que me ficou para sempre na memória mostra Hulot a aproximar-se da casa do sobrinho.
A casa é uma mostruosidade modernosa, à qual se chega por um caminho sinuoso que corta um jardim de pedregulhos. Quando entra no caminho, Hulot olha de frente para a casa. A irmã e o sobrinho estão cada qual em uma janela circular. Hulot acena, a família acena de volta, Hulot vai andando e continua a acenar.
Acontece que o caminho serpenteia. Hulot, que é um tanto desligado, vai seguindo a trilha e vai acenando as mãos, mas não vira o corpo. Acena sempre para a frente, não importa a direção em que caminhe. Assim, ora gesticula em direção ao vizinho da esquerda, ora ao da direita.
Muitos dos protagonistas dos escândalos recentes fazem a mesma coisa. Não por serem desligados, mas ao contrário, porque são ligadões.
É o que aconteceu com caso do Mensalão, conforme cansativamente apontado nesta coluna, e é o que está acontecendo no episódio da Máfia das Ambulâncias, também conhecida como dos Sanguessugas.
Presta-se uma atenção danada nos deputados que inseriram emendas ao Orçamento do Executivo, as quais depois resultaram em licitações dirigidas em municípios, e não se dá a menor importância nem aos municípios nem ao ordenador primário das transferências, a saber, o Ministério da Saúde.
A imprensa vai direitinho atrás do que o mestre mandou (no caso, as “fontes” brasilienses) e não faz as perguntas mais elementares, a saber:
- Como é que o Ministério da Saúde (e os demais ministérios, naturalmente) meramente manda uma grana para um município e lava as mãos quanto ao modo como o numerário é usado?
- Como é que os Tribunais de Contas dos estados deixam a coisa andar solta nos municípios?
- Qual é o desperdício de recursos (não só por causa de corrupção) que acontece na esmagadora maioria dos municípios brasileiros, que não são submetidos a nenhuma espécie de controle, seja interno, seja pela Câmara de Vereadores (faz-me rir), seja pelos tais Conselhos “cidadãos”, seja pelos meios de comunicação locais (com raríssimas exceções controlados pelos mesmíssimos sujeitos que desbaratam o erário)?
Há em Brasília, no Congresso Nacional, na Esplanada dos Ministérios, nos dois Setores Comerciais (onde ficam as sucursais de nossos jornais e revistas) um verdadeiro exército de senhores Hulot. Caminham pela vida acenando para o lugar errado. Com isso levam a tigrada de trambolhão.
Exprimem-se indignações a respeito de deputados sanguessugas e mensaleiros e piranhas e vampiros, brada-se por sua cassação (justa, é claro), mas quanto à raiz dos problemas, necas.
Não adiantará nada trocar um deputado sanguessuga por outro, um mensaleiro por um desconhecido, uma capivara por um neófito, caso não se alterem as condições que originaram as malfeitorias. Em três tempos se verificará entrutações dos substitutos, em operações Bactéria, Celenterado ou que nomes a Polícia Federal passar a dar a suas ações depois que a lista de animais superiores esgotar-se.
Os problemas que originam a corrupção estão em alguns artigos da Constituição, em certas leis e regulamentos, mas muito mais fundamentalmente na inépcia administrativa que grassa na União, nos estados e nos municípios.
Acenar para o vazio não resolverá esse problema.