CGU e sanguessugas
O visitante Beraldo cobra:
[...] Os jornais (Folha, Merval Pereira, no Globo) demonstraram grosseira manipulação de dados pela CGU. Não importam, no caso, oposição ou governo. Interessa assegurar à sociedade instrumentos adequados para o controle da ação estatal. Nesse sentido foi má, péssima, a ação da CGU. Deu tiros em nossos pés. Não há assim como admitir que o fulano, em sendo mau, não seja do mal. Foi sim. E muito. Ele não está ali para fazer política; está para fazer o que ainda não fez: controle e de maneira isenta. Pau para todo mundo, em palavras chulas. Por último, é importante a manifestação da Transparência, que visa ser necessária ferramenta da sociedade nesse segmento, porém mantém ou manteve atividade conjunta, mediante recebimentos, com a mesma CGU. Não deveria ficar silente.
Observo que a Transparência Brasil não costuma se manifestar por comunicados oficais a respeito de cada evento que ocorra no âmbito de escândalos.
Quando perguntados pela imprensa, nos manifestamos. Ninguém nos perguntou nada sobre o episódio.
Às vezes, comento aqui.
De fato, a última intervenção da CGU a respeito dos sanguessugas poderia ter merecido comentário aqui.
Embora as circunstâncias sejam irrelevantes, os visitantes habituais haverão de notar que a assiduidade da inserção de comentários aqui nos últimos dias não tem sido grande. Conforme já observei antes, há outras coisas na vida além de blogue.
Seja como for, quanto ao tema, assinalo o seguinte:
Pareceu-me que a CGU pisou na bola no episódio. Não poderia ter apresentado dados parciais a respeito do caso da Máfia das Ambulâncias da forma como o fez, delimitando um certo período e focalizando distribuições partidárias. Conforme observado por diversos visitantes, o ministro Jorge Hage agiu mais como membro do governo do que como gestor de um organismo de Estado.
Devem-se, contudo, fazer também as seguintes observações:
- As informações prestadas pela CGU eram de domínio público antes. Quem apresentou emendas, quando e para quê são dados consignados no cadastro de emendas da Câmara dos Deputados. Não se fez nenhuma “revelação” que não fosse acessível a qualquer um antes.
- Não houve manipulação de dados, mas focalização seletiva em determinado período. A informação deverfia ter sido dada de forma completa, e não como foi feito.
- O esquema da Máfia das Ambulâncias não nasceu no governo Lula, mas antes.
- Além da Planan, outras empresas controlados pelos Vedoin venciam licitações fraudadas, mas a imprensa tem se concentrado na Planan. Isso distorce os montantes. A grana que rolou antes de 2003 não é tão pequena quanto pode parecer examinando-se apenas os dados referentes à Planan.
- O esquema foi detectado no final de 2004 pelo escritório da CGU em Rondônia.
- O Ministério da Saúde foi alertado e não fez nada.
- Tanto o governo FHC, quando o esquema nasceu, quanto o governo Lula são responsáveis por não exercerem controles adequados sobre as verbas orçamentárias transferidas a estados e municípios.
A co-responsabilidade do Executivo federal quanto ao escândalo tem sido por mim apontada na imprensa, em debates televisivos, em artigos (alguns reproduzidos aqui).
Como o governo é também o governo da CGU (conforme o episódio em questão mostrou), acredito que a imputação de que estaríamos “aliviando” em relação à CGU não tem fundamento.
