Estive fora de SP e sem acesso à Internet nos últimos dias, de forma que só consegui liberar hoje comentários oferecidos a este blogue.
Nesta semana os brasileiros foram informados dos primeiros resultados da operação da Polícia Federal apropriadamente denominada “Operação Sanguessuga”. Parlamentares federais (fala-se me mais de sessenta) introduziriam emendas ao Orçamento da União destinadas a repassar grana para que municípios realizassem a compra de ambulâncias.
As respectivas licitações eram direcionadas para uma certa empresa. Os preços pagos eram muito maiores do que a média e a diferença era repassada por propinodutos comandados pelos parlamentares e operados por seus assessores de gabinete.
Embora tenha surgido só agora, o caso é mais antigo. E não foi por iniciativa da Polícia Federal, mas da Controladoria-Geral da União. Começou em 2004, quando um funcionário da CGU lotado em Rondônia resolveu comparar os preços unitários praticados na compra de ambulâncias por municípios daquele estado com os preços médios nacionais.
Rapidamente, o funcionário descobriu o superfaturamento. A partir disso, a CGU estendeu a investigação a outros estados. No fim do ano passado, o repórter Lúcio Vaz, do Correio Braziliense, deu o assunto, a que se denominou “Máfia das ambulâncias”. As reportagens foram reproduzidas por jornais da própria Rondoônia, bem como do Amapá e de Minas. Nenhum jornal do eixo Rio-SP registrou o assunto.
Pois bem, não é sobre a cobertura da imprensa que quero escrever, mas sobre o método pelo qual o assalto foi descoberto. Não poderia ser mais simples – comparar preços unitários.
A comparação estatística de preços unitários – pois de nada adianta comparar preços agregados – permite determinar quem está comprando mais caro (ou mais barato) do que a média (dada uma margem de tolerância). Mais elementar, impossível.
O que faz perguntar por quê governos não investem e não investiram históricamente na coleta sistemática de preços unitários e dos quantitativos dos bens e serviços que adquirem.
Aí tem coisa. No Brasil nunca é muito saudável interpretar os fatos – quaisquer fatos – como decorrentes de inadvertência ou boa fé, de modo que se deve concluir que governos não fazem isso exatamente porque exibiria a roubalheira.
Imagine-se quantas sanguessugas, lombrigas e outros vermes hediondos não seriam encontrados se a análise de preços unitários e de quantitativos fosse disseminada. Está na cara que a última coisa que desejam as forças políticas que chegam ao poder, não importa qual a sua coloração, é instrumentalizar o Estado para que seja mais eficiente em suas compras.
No sentido inverso, é interessante assinalar o caso do Tribunal de Contas de Santa Catarina. O órgão fez uma parceria com a Transparência Brasil no âmbito da qual dados sobre todas licitações realizadas pelos 293 municípios do estado desde 1997 foram submetidos a análise e disponibilizados na Internet (www.licitassist.org.br/desempenho).
Além de informar quem venceu e perdeu licitações onde, o programa faz análises de competitividade – e de preços unitários de ciomento e de combustíveis (álcool, gasolina, óleo Diesel). Só isso já permite apontar para situações no mínimo esquisitas, que mereceriam exame mais atento.
Por exemplo, o município de Erval Velho tinha 4269 habitantes segundo o censo de 2000. Em 1997, comprou 66,5 quilos de cimento por habitante, pagando 23 centavos de real por quilo (a média do estado). (Note-se que isso não inclui cimento comprado por empreiteiras, é comprado direto pelas prefeituras.) No mesmo ano, o município de Ponte Alta do Norte, com 3221 almas, adquiriu 8 toneladas de cimento por 39 centavos o quilo. Para não ficar atrás, o município de Macieira, 1900 habitantes, comprou cerca de 2,5 toneladas do produto ao preço de 50 centavos por quilo.
A análise dos combustíveis revela situações igualmente interessantes. Em 1999, a municipalidade de São Bonifácio consumiu 660 mil litros de Diesel. Como Boni tinha cerca de 3200 habitantes, isso deu nada menos de 205 litros desse combustível especializado por habitante.
Em 2003, o consumo de gasolina municipal em Braço do Trombudo foi também qualquer coisa de espetacular: 94,1 litros para cada um de seus 3187 habitantes.
E por aí vai, mas vamos nós parando por aqui.