Background: Assisti (pela TV, naturalmente) tanto o show dos Stones no Rio quanto o do U2 em SP. Como show, o do U2 me pareceu bem mais potente. Observe-se que os quatro Stones tinham como suporte um tecladista, um baixista, três vocalistas, um dos quais também fazia base num violão e quatro sopros. Já o U2 tinha só os quatro caras, e na verdade quem levava a coisa era o guitarrista apelidado The Edge — nunca entendo o por quê disso, mas o cara usou umas quinze guitarras diferentes, sendo pelo menos quatro Fenders (duas Telecaster e duas Stratocaster), dois violões eletrificados (pareciam Ovation, mas não estou seguro) usados para operar sintetizador, duas Rickenbacker do tempo do Cream (só do tempo, Eric Clapton nunca usou Rickenbacker) e umas dez Gibsons, incluindo-se várias Les Paul (uma delas do primeiro modelo, de 1952), uma que parecia uma Trini Lopez standard com cabeça padrão da ES-335 e uma Explorer Electric que deve ser de 1958. É possível que tenha também usado pelo menos uma Gretsch e uma ou duas Epiphones, mas não deu para ver direito. Em quase todas as peças, o uso do delay que tanto caracteriza o som do U2. De toda forma, malgrado a grande disparidade de formações entre os dois grupos, a diferença na massa sonora foi muito marcante em favor do grupo de Bono.
O que mata o U2 é essa tendência bobocona do politicamente correto, estendendo-se numas besteiras de paz e religiões e sei lá mais o quê, que não apenas não me convencem como me provocam instantânea rejeição. Aquela mocinha chamada Katilce (e isso lá é nome?) acariciando os cabelos de Bono Vox foi inagüentável. Mil vezes os Stones e sua rebeldia fake da Simpathy for the Devil. Keith Richards teria passado a moça pelas armas ali mesmo.
Pois bem, no dia seguinte ao show do U2, o editor da Folha Ilustrada, Marcos Augusto Gonçalves, publicou umas maltraçadas cuja íntegra vai abaixo:
Bono personifica a chatice da correção política
Bono parece ser um sujeito legal. Está sempre do lado -como diria Rita Lee- dos frascos e comprimidos. Bono é a encarnação roqueira do politicamente correto. É uma espécie de Sting, o que faz dele, ao menos em parte, um chato. E também um equivocado: mal desembarcou no Brasil e já saiu correndo para emprestar seu prestígio a Lula. Nenhum questionamento, tudo beleza: a corrupção do PT e o faz-de-conta do presidente devem ser uma invenção da direita que não compra discos do U2.
Bono faz parte daqueles formadores de opinião do Primeiro Mundo Maravilha que acreditam em duendes progressistas do Terceiro Mundo. Estão sempre achando que vai brotar algo novo por aqui.
O “núcleo duro” de sua legião de fãs é a geração posterior à minha, hoje na faixa dos 35/40 e poucos. Um dos traços característicos dessa moçada é a correção política, aquela compulsão de chamar negros de “afrodescendentes”, falar em “opção sexual”, viver em permanente estado de solidariedade às minorias étnicas, colocar a culpa do terrorismo islâmico no Ocidente e recomendar filmes feitos nos cafundós do mundo sobre situações arcaicas e “humanas”.
Bem, não deixa de ser um alívio ouvir de um artista dessa geração (Nuno Ramos, em entrevista publicada no sábado) que há muita arte de “cabeça baixa”, tratando de questões imediatas: “Vivemos numa época extremamente controladora, e o pior é que aquilo que nos controla tem ótimos valores”. Realmente, assistimos a um “boom” do que chamo de “arte ongueira”, aquela produção ligada a ONGs, que se refugia no bom-mocismo para fazer sucesso.
Claro que Bono é “do bem”. Irlandeses são gente fina. A África é pobre. O futebol brasileiro é mágico. E já que Bono quer dar uma força para o Terceiro Mundo, pode fazer um show na França contra os subsídios agrícolas. Aí diríamos: ao U2, as batatas!
Leitores indignados escreveram ao jornal reclamando da opinião de Gonçalves. Basicamente, protestavam não propriamente quanto a essa opinião, o que seria perfeitamente adequado, mas quanto ao fato de o jornal permitir que suas páginas tivessem sido usadas para exprimir uma posição que denuncia o bom-mocismo. Para esses campeões da correção, só o correto pode ser expresso.
Tudo bem, mais ou menos, vá lá, sabem como é leitor de jornal.
Não tudo bem, entretanto, no que tange declarações vertidas pelo ator Sergio Mamberti (o qual encontrei ontem num vôo de volta de BSB para SP) a respeito. Mamberti, que no frigir dos ovos é um bom sujeito, vem a ser secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura. O próprio nome da Secretaria que encabeça já diz a que vem. Replico abaixo o que registrou a mesma Folha de S. Paulo sobre a reação de Mamberti à nota de Gonçalves:
Num encontro com ciganos, no Palácio do Planalto, anteontem, o secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do MinC (Ministério da Cultura), o ator Sérgio Mamberti, chamou de “autoritário” o editor da Ilustrada, Marcos Augusto Gonçalves, e classificou de “discriminatório” seu artigo “Bono personifica a chatice da correção política”, publicado na última segunda-feira.
De acordo com relato do site “Repórter Social”, Mamberti pediu “que todos os atingidos se dirijam à Folha para protestar contra a posição do jornal”.
[...] “Essa opinião do Marcos Augusto tem muitos pontos de contato com as posições da Liga Norte [partido da direita italiana] e do Le Pen [Jean-Marie Le Pen, líder da extrema direita francesa, contrário a imigrantes e minorias étnicas].” O secretário se disse “surpreso” com o artigo, segundo ele, “antagônico a certos princípios que nortearam a Folha”. Mamberti relacionou o texto de Gonçalves à reportagem “A direita sai do armário”, publicada na llustrada no dia 15 deste mês. “Eu me pergunto: será que a Folha, de certa maneira, está se alinhando com esse pensamento de nova direita que eles publicaram?”
Para [Gonçalves], “Mamberti não está entendendo nada”. “Como burocrata da cultura, ele ainda é um bom comediante. O poder, pelo visto, emburrece. O artigo não era contra a diversidade cultural. Era apenas uma provocação, um pouco iconoclasta, ao marketing engajado de Bono e aos clichês politicamente corretos que reconfortam alguns e ditam a etiqueta do bom-mocismo contemporâneo”, afirmou. [...]
Só se pode assinar em baixo do que disse Gonçalves. Burrice e falta de senso de humor são características cruciais do politicamente correto.
PS: O “Tô falando” do título tem a ver com as discussões recorrentes aqui sobre liberdade de expressão. A turma dos bem-comportados que dizem “engenheiras e engenheiros, cidadãos e cidadãs” etc etc não suporta ler ou ouvir opiniões discordantes. Partem pro patrulhamento no ato. Ao entrar nessa, Mamberti desvirtua sua posição como agente público.