O visitante Ricardo Leão, que é da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (ou ao menos é o que indica o domínio de seu endereço de e-mail), corrige afirmações feitas aqui sobre aves, pássaros e aves passeriformes e protesta contra a afirmação de que a criação intelectual brasileira (e vai daí a academia) é medíocre. Tudo isso nos comentários à nota “Passeio dominical”, aí embaixo.
Vejamos o que interessa, a mediocridade. Tomemos uma dimensão dela, aquela que na verdade motivou a nota em questão, relacionada à criação de informação disponibilizada ao público na Internet. Tomemos algumas atividades do espírito humano: literatura, artes plásticas, biologia e suas subdisciplinas, física, o que queiram. O quê, precisamente, nossos acadêmicos oferecem para o público?
Tomem-se escritores paradigmáticos de algumas culturas. Por exemplo, Shakespeare, Cervantes, Camões. Para cada um deles há na Internet diversos lugares que oferecem suas obras completas, comentadas, às vezes ilustradas, como se queira. Tomem-se as bibliotecas nacionais de países diversos. Oferecem uma quantidade extraordinária de fontes históricas e literárias. Escolha-se um poeta importante de algum idioma. Sempre haverá um, muitas vezes vários, sítios competentes dedicados a ele. Quem compila essa informação? Fora bibliotecas estatais, trata-se de iniciativas levadas a cabo por pessoas ou grupos oriundos da academia, e que muitas vezes mantêm esses sítios sem apoio financeiro nenhum. Tomem-se agora escritores brasileiros. Onde estão suas obras?
Tome-se o maior deles, Machado de Assis. Quem primeiro se dedicou a compilar seus contos completos não estava na academia, e o fez de graça. Onde estão as obras completas de Lima Barreto? Do Padre Vieira (que não era brasileiro, mas mecereria atenção)?
Tomem-se os museus de São Paulo, e comparem-se com os grandes museus do mundo. O que oferecem? Não é nem necessário ir à Europa, aos EUA, à Ásia. Compare-se, por exemplo, com o museu de antropologia do México (aqui). Procure-se alguma exibição organizada sobre arte plumária indígena brasileira, cestaria, cerâmica. Só se vai encontrar sítios de galerias que vendem essas coisas.
Esse quadro se repete com qualquer coisa, no Brasil. Nossa elite intelectual é igualzinha à elite econômica: satisfeita consigo própria, não tem deveres para com a comunidade que a sustenta, lixa-se para a obrigação, que teoricamente teriam, de devolver alguma coisa para quem lhes paga o salário. Publicam, sim, livros caros patrocinados por empreiteiras, e que são distribuídos entre gente em geral semi-analfabeta e incapaz de compreender o que têm nas mãos.
As iniciativas que se encontram de disseminar conhecimento não vêm dessa academia autocentrada. Há coisas interessantes por aí (por exemplo, e de forma incidental, uma compilação de revistas antigas brasileiras, um acervo sobre Santos Dumont), mas é coisa pouca. No geral, é uma pobreza deprimente.