Pobreza e corrupção (2)
O visitante Marcos Medeiros pergunta sobre a diferença entre experiência e percepção. Dados sobre experiência são obtidos perguntando-se num levantamento “Você ou alguém de sua família pagou propina (no último ano, ou coisa assim) para um funcionário público para que ele cumprisse com o seu dever ou deixasse de cumprir com o seu dever?” Percepção é medida perguntando-se algo como “Numa escala de 1 a 5, onde 1 é menos corrupto e 5 é mais corrupto, como você classificaria a polícia (ou os partidos políticos, ou o que seja)?”
Respostas a perguntas sobre experiência são sujeitas à dúvida sobre se as pessoas respondem verazmente. A dúvida faz sentido, porque, afinal, pagar subornos é crime, e não se deve descartar a hipótese de os respondentes evitarem incriminar-se. Por outro lado, respostas sobre experiências pessoais com propinagem não indicam muito sobre a chamada “grande” corrupção, aquela que envolve altas autoridades, grandes negociatas, valeriodutos etc.
De toda forma, parece razoável imaginar que países mais pobres, exatamente por serem mais pobres, têm menos recursos para aplicar no aperfeiçoamento do Estado, de modo que mais provavelmente serão afetados por problemas de propinagem. É claro que em tal raciocínio minimiza-se a influência de fatores “morais”, ou “culturais”, e maximiza-se a dos fatores estruturais da administração pública. A hipótese de Arturo Fatturi é compatível com essa perspectiva.
Outra possibilidade, que é implícita no raciocínio de Mario Bucci, é associar corrupção com economia informal. Alguns economistas fazem isso, mas as correlações com outros indicadores não são altas. Quanto a medir a relação entre carga tributária e qualidade de serviços públicos, não se consegue fazer, porque não há modo consensual de medir essa qualidade. Há muitos estudiosos procurando montar indicadores de terceira geração, capazes de medir a efetividade das inversões públicas, mas isso é muito difícil porque implica medir, por exemplo, se os jovens que saem da escola sabem mesmo ler e escrever, se os engenheiros engenheiram direito etc.
Por fim, a observação de Antonio Pedro Ramos: Evidentemente, quanto mais se consegue medir um fenômeno, melhor resulta a compreensão sobre ele. Há coisas que não se consegue medir direito (corrupção é uma delas), e sobre elas se deve exercitar parcimônia quando se trata de números. Quando essa parcimônia está ausente, os riscos sao muito grandes de se errar demais. Uma das distorções nas discussões sobre corrupção é a crença nos indicadores subjetivos, do tipo percepções. Opera-se com esses números como se refletissem adequadamente o fenômeno ao qual pretensamente se referem. Isso leva a decisões sujeitas a chuvas e trovoadas. Por exemplo, a USAID está usando indicadores de percepção de corrupção para filtrar a dotação de verbas de ajuda humanitária a países miseráveis. O resultado é que alguns dos países que mais precisam desse tipo de ajuda (porque têm milhões de pessoas a morrer de fome, por exemplo) estão deixando de receber ajuda por conta de um indicador altamente inseguro.



