Colaboração semanal ao Diário do Comércio de São Paulo.
Observa-se nos principais jornais brasileiros uma tendência de esfriamento do
assunto “mensalão”, que cede espaço às idas e vindas da sucessão presidencial.
Comentaristas e repórteres disputam entre si na busca de uma palavra, um
indício, uma tendência, um número que alimentem a discussão sobre se Lula será
candidato, quem será seu principal adversário, quais alianças se aprontam e por
aí vai. A rigor, uma chatice sem fim. Se o noticiário já exibe hoje, um ano
antes da eleição, esse pendor monomaníaco, imagine-se no ano que
vem.
Quando um tema começa a predominar é que outros assuntos
começam a escassear. É o que parece estar acontecendo com o mensalão. Esse
assunto, cujo desenvolvimento terá importância crucial para o futuro das
instituições brasileiras, corre o risco de perder primazia para a sucessão. E
isso não é bom. Embora a atenuação da cobertura do mensalão ainda não tenha se
configurado completamente, há o risco.
O principal problema com uma redução substancial da cobertura do mensalão é
que tornará mais distante a possibilidade de que o aprendizado do escândalo
venha a contribuir para o aperfeiçoamento das instituições. Essa tendência já
existe, notadamente na hiperexposição que se deu à versão do “Caixa 2
eleitoral”, inventada para desviar a atenção da roubalheira que esteve por trás
dos esquemas do Valério-delubioduto.
Mas há resistências à “operação abafa” promovida pelos gestores da crise. Um
dos resistentes é o relator da CPMI dos Correios, deputado Osmar Serraglio
(PMDB-PR), que na exposição de seu relatório parcial, na última quarta-feira,
fez questão de responder ao presidente da República . Disse o deputado que basta
raciocinar para se ter convicção de que houve, sim, mensalão, um esquema de
corrupção de parlamentares, operado por indivíduos situados tanto na estrutura
do Estado quanto na do partido do presidente.
Acontece que são escassas as vozes que insistem na necessidade de não se
perder o rumo das investigações e de não se deixar enganar por cortinas de
fumaça. Alguns jornalistas se incluem entre os resistentes, mas de forma alguma
são maioria.
A bola só permanecerá no alto se houver pressão de formadores de opinião, se
o assunto for sistematicamente lembrado, se as tentativas de mistificação e de
supressão da verdade forem denunciadas. Sem essa pressão, a inércia tenderá a
prosperar.
O assunto do mensalão precisa continuar a ser discutido nos foros
empresariais, sindicais, das ONGs, das organizações da sociedade de maneira
geral. É um tema muito mais relevante do que a sucessão presidencial, pois de
seu encaminhamento dependerá a proposição de mudanças que venham a reduzir a
probabilidade de que os mesmos fatos continuem a ocorrer pelo Brasil afora.
Os gestores da crise não querem isso. Os gestores da crise estão fazendo
exatamente a mesma coisa que faziam antes do escândalo vir à luz. Eles estão
negociando cargos na administração em troca de apoios parlamentares. Por
exemplo, recentemente, anunciou-se que o sr. Valdemar da Costa Neto [!?!!?]
emplacou o presidente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes,
o DNIT, organismo responsável pelo planejamento e execução de obras viárias.
O que raios quer o sr. Costa Neto com esse cargo? Será que o seu partido, o
PL, tem compromisso ideológico com a eficiência dos transportes brasileiros?
Quais outros negociozinhos de mesma natureza estarão sendo tramados e
processados na administração da crise?
Essas são perguntas que não se pode deixar de fazer. Respostas são exigíveis,
e só surgirão se o mensalão não for esquecido.