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Arquivo de dezembro, 2005

31/12/2005 - 12:12

Amanhã vai ser outro dia

Aos visitantes deste blogue, em especial os habituais que me distinguem com
sua paciência, desejo um bom amanhã e dedico o que segue:

Apesar de Você
Chico Buarque

(Crescendo) Amanhã vai ser outro día x 3

Hoje você é quem
manda
Falou, tá falado
Não tem discussão, não.
A minha gente hoje
anda
Falando de lado e olhando pro chão.
Viu?
Você que inventou esse
Estado
Inventou de inventar
Toda escuridão
Você que inventou o
pecado
Esqueceu-se de inventar o perdão.

(Coro) Apesar de
você
amanhã há de ser outro dia.
Eu pergunto a você onde vai se
esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir em
cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando sem parar.

Quando
chegar o momento
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros. Juro!
Todo
esse amor reprimido,
Esse grito contido,
Esse samba no escuro.

Você
que inventou a tristeza
Ora tenha a fineza
de “desinventar”.
Você vai
pagar, e é dobrado,
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar.

(Coro2)
Apesar de você
Amanhã há de ser outro dia.
Ainda pago pra ver
O jardim
florescer
Qual você não queria.

Você vai se amargar
Vendo o dia
raiar
Sem lhe pedir licença.

E eu vou morrer de rir
E esse dia há
de vir
antes do que você pensa.
Apesar de você

(Coro3) Apesar de
você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai ter que ver
A manhã
renascer
E esbanjar poesia.

Como vai se explicar
Vendo o céu
clarear, de repente,
Impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a
cantar,
Na sua frente.
Apesar de você

(Coro4) Apesar de
você
Amanhã há de ser outro dia.
Você vai se dar mal, etc e tal,
La,
laiá, la laiá, la laiᅅ.

Clique aqui para ouvir
um pedacinho.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
29/12/2005 - 12:59

Junguianas

Ontem me aconteceu uma dessas coincidências que fariam Jung agitar-se na
tumba. Tenho instalado um barato do Rijksmuseum holandês que, todos os dias,
exibe no desktop do computador um novo quadro do acervo daquele museu. Ontem, o
quadro era esse aí ao lado (autor desconhecido). Os corpos pendurados são de Jan
de Witt e de seu irmão, Cornelius, linchados por uma turba-multa em 20 de agosto
de 1672, em Haia. Jan era a figura política mais poderosa da República
holandesa. O irmão Cornelius havia sido sentenciado ao exílio, sob a acusação de
ter conspirado para o assassinato do príncipe Guilherme III de Orange. Jan foi
visitar Cornelius na prisão e acabaram ambos como na pintura, sem órgãos
genitais, narizes e pontas dos dedos.

Por outro lado, acontece que estou relendo The Mathematics of Great
Amateurs
, de Julian Lowell Coolidge (Dover, sem data, originalmente
publicado pela Oxford University Press em 1949). Um dos capítulos é precisamente
sobre Jan de Witt, que escreveu coisas interessantes sobre geometria e
contribuiu para os primórdios da teoria de probabilidades.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Passeios virtuais Tags:
28/12/2005 - 16:34

Sobre a propriedade da imprensa (2)

Marcos Medeiros objeta nos comentários no sentido de que O principal meio de
comunicação restringido pela necessidade de autorização do governo é exatamente a
televisão, que você diz ser a mais independente. O que acontece é que o meio de
comunicação mais popular no pais só pode funcionar depois de fazer algum lobby
com o Congresso e com o presidente. Além disso, as emissoras – prncipalmente a
Globo – tiram uma parte consideravel da receita de propagandas para os governos
federal e estaduais [...], além de deverem – principalmente a Globo – uma
fortuna em impostos, como o Mario [Bucci] já disse. Além do que, as emissoras de
tv pertencem às mesmas oligarquias que o resto da imprensa no Norte e Nordeste
(o que correlaciona bem com o número de políticos envolvidos em escândalos),
piorando a situação.

Meu argumento não era absoluto. É evidente que as grandes redes (e a Globo)
em particular são afetadas por muitos problemas. O que ocorre é que a repetidora
da Globo no Maranhão (que pertence ao Sarney) ou na Bahia (ao ACM) ou em outros
lugares (que pertecem a sátrapas locais) são obrigadas, por contrato, a
colocarem no ar o noticiário gerado pela Globo. Assim, por exemplo, os jornais
maranhenses só deram o caso Lumus (lembram-se? montanhas de dinheiro
encontradas em empresa do marido ou ex-marido de Roseana Sarney) depois que a
Globo publicou no Jornal Nacional. Antes, não houve menção.

De toda forma, televisão é o meio menos independente de todos. Depende de
concessão, como apontado, acumula dívidas, mas mesmo sem isso tende a ser
governista e evita balançar o barco. Mas mesmo a Globo é mais independente do
que o Estadão do Norte, por exemplo.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
28/12/2005 - 07:49

Sobre a propriedade da imprensa

Quando se fala de imprensa no Brasil, é sempre necessário ter em mente sua
estrutura de propriedade. Jornais, revistas, emissoras de TV e de rádio, sítios
de Internet, são empresas privadas. Em princípio, veículos de imprensa vivem de
publicidade. Venda de jornal não paga nem a tinta de impressão. Pois bem, a
“independência” de um determinado veículo depende basicamente de sua capacidade
de captar anúncios. Se um jornal tem bastante anúncio, dependerá menos (ou nada)
de favores oficiais ou privados.

Há no Brasil algumas poucas empresas de comunicação com essa capacidade,
todas elas concentradas nas capitais do Sudeste. As demais operam em lugares
(como o Norte, o Nordeste, grande parte do Centro-Oeste) cuja atividade
econômica é muito deprimida. Nesses lugares não há empresas e pessoas físicas
em quantidade suficiente para gerar sistematicamente anúncios publicitários.
Como vivem os veículos desses lugares? Ora, eles pertencem às mesmíssimas
oligarquias que dominam todo o resto da vida econômica e política — Barbalho,
Sarney, Jereissati, Alves e Maias, ACM e por aí vai. O padrão se repete nas
pequenas cidades. Os veículos de comunicação desses lugares são meros
instrumentos de sustentatação dos interesses econômicos (e, por decorrência, políticos) a que pertencem. Existem
para manter privilégios. Sua cobertura é tudo menos independente. Quando o
proprietário está no poder, malha a oposição e recebe verbas publicitárias do
governo. Quando está na oposição, malha a situação e é sustentado pelo
proprietário.

Nesse quadro, por menos intuitivo que possa parecer — e isso foi bem
apontado pelo jornalista Josias de Souza num artigo que escreveu a meu
pedido para uma publicação internacional (ler a versão em português) –, é importante o papel
das redes de televisão, em especial da Globo. Elas levam ao público
noticiário desfavorável às oligarquias locais que os veículos dessas mesmas
oligarquias não publicam. Por exemplo, o jornal do senador ACM (Correio da
Bahia
) não deu uma linha do caso Waldomiro, pois à época o senador andava
de amores com o governo. Se dependesse apenas do jornal, seus leitores não
seriam informados sobre o caso.

Em outros países a situação é parecida. Para tomar o exemplo dos EUA, a
imprensa regional é completamente dominada pelos interesses de grupos
empresariais (como os Rockefeller, por exemplo).

Há no mundo pouquíssimos veículos independentes no sentido acima delineado. É
evidente que, embora a independência econômica seja uma condição necessária para
uma cobertura mais isenta, a condição não é suficiente. Outros interesses podem
entrar em jogo, fazendo com que um veículo no geral independente penda para uma
direção ou outra. A receita “standard” para contrabalançar esses desvios é
informar-se a partir de fontes diferentes. Solução teórica, naturalmente, pois o
leitor de jornal em geral lê um só jornal. Mas esse assunto fica para outra
vez.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
27/12/2005 - 16:58

Vaticínio eleitoral

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??

A campanha eleitoral de 2006 decerto explorará muito o tema da corrupção. Mas
já se pode imaginar que a oposição se limitará a mostrar filmes e fotos de Lula
com Delúbio Soares, José Genoíno, Valdemar da Costa Neto, Severino Cavalcanti
etc. A situação entrará na Justiça para evitar a veiculação dessas imagens, sob
uma alegação ou outra. É evidente que nada disso contribuirá para mover as
instituições brasileiras um milímetro na direção do aperfeiçoamento de uma maior
integridade.

O que seria exigível tanto da oposição quanto da situação seriam sugestões
concretas no sentido de minorar a probabilidade de a corrupção acontecer, por
via da redução dos cargos de confiança, da obrigatoriedade do cumprimento do
orçamento, do fortalecimento dos órgãos e instituições de controle, dao
incremento da comunicação entre eles e por aí vai. Isso é o que deve ser
perguntado a candidatos e cabos eleitorais.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
24/12/2005 - 15:17

Baratos digitais

Haohao, por Hichitaro Masuda. Clique e arraste o ponteiro do
mouse em algum lugar do espaço à esquerda para criar uma célula generativa.
Pressione “S” para alterar a nitidez. Pressione a barra de espaço para mudar o
tipo de representação. [É necessário que você tenha instalado o Java. Se não
tiver, o seu navegador vai sugerir a instalação. Pode instalar sem sustos.]

Existem diversas linguagens abertas disponíveis na Internet para criar
aplicações diversas. Este exemplo foi feito com a linguagem proce55ing. Veja
mais exemplos aqui.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/12/2005 - 15:07

Sucessão atropela mensalão

Colaboração semanal ao Diário do Comércio de São Paulo.

Observa-se nos principais jornais brasileiros uma tendência de esfriamento do
assunto “mensalão”, que cede espaço às idas e vindas da sucessão presidencial.
Comentaristas e repórteres disputam entre si na busca de uma palavra, um
indício, uma tendência, um número que alimentem a discussão sobre se Lula será
candidato, quem será seu principal adversário, quais alianças se aprontam e por
aí vai. A rigor, uma chatice sem fim. Se o noticiário já exibe hoje, um ano
antes da eleição, esse pendor monomaníaco, imagine-se no ano que
vem.

Quando um tema começa a predominar é que outros assuntos
começam a escassear. É o que parece estar acontecendo com o mensalão. Esse
assunto, cujo desenvolvimento terá importância crucial para o futuro das
instituições brasileiras, corre o risco de perder primazia para a sucessão. E
isso não é bom. Embora a atenuação da cobertura do mensalão ainda não tenha se
configurado completamente, há o risco.

O principal problema com uma redução substancial da cobertura do mensalão é
que tornará mais distante a possibilidade de que o aprendizado do escândalo
venha a contribuir para o aperfeiçoamento das instituições. Essa tendência já
existe, notadamente na hiperexposição que se deu à versão do “Caixa 2
eleitoral”, inventada para desviar a atenção da roubalheira que esteve por trás
dos esquemas do Valério-delubioduto.

Mas há resistências à “operação abafa” promovida pelos gestores da crise. Um
dos resistentes é o relator da CPMI dos Correios, deputado Osmar Serraglio
(PMDB-PR), que na exposição de seu relatório parcial, na última quarta-feira,
fez questão de responder ao presidente da República . Disse o deputado que basta
raciocinar para se ter convicção de que houve, sim, mensalão, um esquema de
corrupção de parlamentares, operado por indivíduos situados tanto na estrutura
do Estado quanto na do partido do presidente.

Acontece que são escassas as vozes que insistem na necessidade de não se
perder o rumo das investigações e de não se deixar enganar por cortinas de
fumaça. Alguns jornalistas se incluem entre os resistentes, mas de forma alguma
são maioria.

A bola só permanecerá no alto se houver pressão de formadores de opinião, se
o assunto for sistematicamente lembrado, se as tentativas de mistificação e de
supressão da verdade forem denunciadas. Sem essa pressão, a inércia tenderá a
prosperar.

O assunto do mensalão precisa continuar a ser discutido nos foros
empresariais, sindicais, das ONGs, das organizações da sociedade de maneira
geral. É um tema muito mais relevante do que a sucessão presidencial, pois de
seu encaminhamento dependerá a proposição de mudanças que venham a reduzir a
probabilidade de que os mesmos fatos continuem a ocorrer pelo Brasil afora.

Os gestores da crise não querem isso. Os gestores da crise estão fazendo
exatamente a mesma coisa que faziam antes do escândalo vir à luz. Eles estão
negociando cargos na administração em troca de apoios parlamentares. Por
exemplo, recentemente, anunciou-se que o sr. Valdemar da Costa Neto [!?!!?]
emplacou o presidente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes,
o DNIT, organismo responsável pelo planejamento e execução de obras viárias.

O que raios quer o sr. Costa Neto com esse cargo? Será que o seu partido, o
PL, tem compromisso ideológico com a eficiência dos transportes brasileiros?
Quais outros negociozinhos de mesma natureza estarão sendo tramados e
processados na administração da crise?

Essas são perguntas que não se pode deixar de fazer. Respostas são exigíveis,
e só surgirão se o mensalão não for esquecido.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
23/12/2005 - 14:04

Não mais na CBN

Hoje foi ao ar a derradeira edição do comentário da Transparência Brasil das sextas-feiras na rádio CBN. A colaboração, que durou alguns meses, chega ao fim porque não foi possível compatibilizar as expectativas da emissora e a concepção deste que vos escreve quanto à abordagem que o programa deveria ter em relação ao tema da corrupção no Brasil.

Fica o agradecimento à emissora.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/12/2005 - 11:14

Ouvidorias de São Paulo funcionam mal

A Transparência Brasil divulga hoje relatório sobre estudo que realizou sobre
53 Ouvidorias de organismos públicos do estado de São Paulo. O estudo (acessível
aqui) conclui que essas Ouvidorias cumprem apenas
parcialmente seu papel. Em especial, esses organismos não produzem relatórios
publicamente acessíveis, tornando impossível determinar se desempenham
algum papel na transformação da máquina pública — que é a função mais
importante de qualquer Ouvidoria. 

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
22/12/2005 - 08:47

Um país sem respeito

Colaboração quinzenal de ontem ao blogue do Noblat.

Há na atmosfera brasileira um miasma que a tudo penetra, um ácido corrosivo que destrói as mentes e as reduz a uma pasta complacente. O brasileiro médio, educado para ser pusilânime e subalterno, está aí para ser desfrutado pelos canalhas que prosperam como doença incontrolável por todos os setores da vida.

Muitos consideram essa inércia brasileira uma coisa boa. A indisponibilidade de agir na defesa dos próprios direitos, o desconforto que o brasileiro manifesta ante a própria idéia da diferença, é às vezes simpaticamente teorizado como “cordialidade”.

Mas é uma cordialidade que nos condena à danação. Vivemos uma sociedade quase perfeitamente relativista, em que se garante o direito de as pessoas dizerem o que querem, mas se coíbe por métodos insidiosos o debate daquilo que se afirma. Nessas circunstâncias, é claro que levam enorme vantagem aqueles que, por um motivo ou outro, por seu poder econômico ou político e por sua articulação, têm acesso à comunicação com o público.

A quantidade de tentativas de mistificação e embromação a que se é submetido todos os dias é qualquer coisa de espantoso. A crise do mensalão tem representado um rico manancial de experimentações nessa linha por parte de seus gestores. A medida em que o público resulta convencido por tais esforços é difícil de aquilatar diretamente. Mas, a julgar pela desenvoltura com que os mensaleiros se movem pela cena nacional, os sinais não são muito animadores. Vejamos.

  1. Uma turma de políticos foi surpreendida retirando dinheiro vivo da boca do caixa do banco. Isso por si só já deveria ser suficiente como prova de venalidade, dispensando-se outras considerações. Não obstante, Romeu Queiroz, o primeiro deputado a ser julgado por seus pares por conta disso, foi absolvido.
  2. Contra outro, Sandro Mabel, pesava a acusação, escudada em testemunho, de que havia oferecido grana para outra deputada mudar de partido. Mabel foi absolvido.
  3. De forma a tentar obscurecer o fato de dinheiros terem circulado ilicitamente entre partidos e indivíduos, a turma inventou a história do “caixa dois” eleitoral, ou melhor, a história de que a finalidade desses dinheiros não era corruptiva, mas o pagamento de dívidas eleitorais. Um dos maiores mensaleiros, Valdemar da Costa Neto, renunciou antes de ser julgado, mas não perdeu a pose. Aparece na televisão numa boa, a fazer propaganda de seu partido, o PL. Ou seja, basta aos indivíduos afirmarem que a grana tinha finalidade eleitoral para que tudo tivesse ficado bem, e sequer se faz a pergunta evidente: mas a história é verdadeira? Quer dizer, se o dinheiro foi usado para pagar prostitutas, comprar cocaína, entesourar, custear viagens à ilha de Samoa, ninguém quer saber. Basta a versão.
  4. O principal promotor da lustradinha no caixa dois foi o presidente da República, que saiu pela televisão não como presidente, mas como militante de seu partido, a afirmar que as atividades ilegais do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, haviam sido só “um erro”.
  5. A partir dessa história completamente artificial de caixa dois, procurou-se forçar o país a adotar o financiamento público exclusivo de campanhas eleitorais, como se a existência do financiamento privado legal tivesse alguma coisa a ver com a formação de caixas escondidos.
  6. O foco de toda a operação caixa-dois-financiamento-público-exclusivo sempre foi desviar a atenção da origem do dinheiro do valerioduto. Capitaneados pela Igreja Católica, inúmeros formadores de opinião saíram por aí repetindo o que seu mestre mandava. A adoção da panacéia não vingou (até agora, mas quem sabe o que o futuro reserva), mas uma coisa essa “operação abafa” tem conseguido – fala-se pouquíssimo na origem da grana, a qual, a menos que se acredite que dinheiro nasce em árvore, só pode ter saído de propinagem da grossa. E por que se pode afirmar isso? Pela mesma razão que a presença de uma trolha fedorenta no chão nos permite inferir que algum bicho defecou ali. Podemos não saber dizer qual específico bicho foi, mas certamente podemos dizer que aconteceu.

A turma está defecando no cérebro brasileiro coletivo. Esses mensaleiros vão a jantares, estouram garrafas de champanhe, articulam-se, continuam a negociar cargos mesmo depois de terem renunciado ou sido cassados. E quem nomeia faz exatamente o mesmo jogo que fazia antes: loteia o Estado em troca de apoios parlamentares. Será que a motivação de quem passou a ocupar esses cargos é diferente da motivação dos sujeitos apanhados com a mão no cofre nos Correios? O mecanismo é o mesmo, os atores são os mesmos e o resultado é o mesmo.

A turma só pode mover-se dessa forma porque está convicta da indisponibilidade brasileira em chamá-los à ordem. Ou será que se acredita que num país com um mínimo de auto-respeito algum desses meliantes poderia sair à rua sem que fosse alvejado com a mesma matéria que usa para alimentar a credulidade do público?

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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