Sem essa de varinha de condão
No dia 9/11, este que vos escreve formulou aos eventuais visitantes deste blogue a seguinte pergunta: “Se estivesse em seu poder usar uma varinha mágica para dar jeito na corrupção brasileira, o que você faria?” Aí vai um apanhado das respostas. Ordeno-as em ordem decrescente conforme minhas próprias inclinações:
- Sem essa de varinha de condão. “Estou cansado das ‘balas de prata’ e das soluções mágicas” (de Renato, Marcelo Soares e Débora Lopes).
- Reduzir drasticamente o poder de nomear e investir na profissionalização dos servidores públicos (Roger, Wilson Trevizam, Antonio Pedro Ramos, Mario César Bucci).
- Ampliar a prestação de informação pelos entes públicos (Antonio Pedro Ramos).
- Tornar obrigatório o cumprimento dos orçamentos públicos (Antonio Pedro Ramos).
- Aparelhar melhor os organismos de controle (Luciano Marra).
- Reforma do Judiciário na marra (Renato).
Luiz Santilli e Lúcia Nunes apostam na educação massiva. A meu ver, o problema com isso é que educação não é início, mas fim. Presta-se educação para algo. Nenhum país investe em educação se não tem demanda para pessoas qualificadas – como é cada vez mais o caso do Brasil. De todo modo, o tema da educação é vasto e complexo, e poderíamos talvez iniciar um debate específico sobre isso.

Prof. Antônio. Seu comentário das 22:56 inicia com uma “petitio principii”.
Do Prof. Lyons (Cornell, EUA): “A experiência nos ensina que a Lei é capaz de provocar o bem mas também tem grande potencial para o mal. Ela pode resolver disputas que de outra forma conduziriam à conrovérsias particulares, ela pode prover segurança e incrementar a liberdade, mas ela também pode ser um instrumento de opressão, protegendo fraudes, inibindo a liberdade, e promovendo a escravidão. A lei não serve necessáriamente ao bem comum, nem é sempre talhada para fazer isto”, pg.18. Mais adiante, pg.19, “(…) a lei humana é moralmente falível. Ela não é necessáriamente onforme àqueles padrões pelos quais pode ser julgada”. Não podemos esquecer que Tanto Hitler quanto Stalin criaram sistemas legais. Legais, legiferantes, mas profundamnete injustos.
É fato que nos Eua e Europa não se ensina Moral em escolas?. A Moral é um valor social.Certamente que Moral não se aprende através de Manuais (como as Leis), mas nos debates que visam estabelecer valores para a sociedade que se deseja. Neste aspecto, os Eua e a Europa têm poucas Leis e pouca corrupção (também há, mas eles são humanos!). Contudo, existem intelectuais disposto à discutir “valores da Vida Pública”, “Política e Confiança”. Aqui temos algumas maluquinhas acreditando que “liberar o aborto” implica Liberdade e que a principal culpada da coisa é a Igreja Católica, por que é moralista, etc. Ora, a Cnbb e outras fazem parte da sociedade, devem fazer parte do debate de princípios. Afinal o que queremos? A pressa era da Ditadura. Estamos construído um pais ou um cabedal de Leis infindável para comentarios “ad nauseam”. Educação Moral não é fazer crianças decorarem “símbolos nacionais”, mas fornecer a possibilidade de formar o caráter. Não é técnica, mas tática educacional.
Como tento ser metódica, vamos lá: inicio pelo educação formal como caráter sine qua non de desenvolvimento de qualquer país. Sem ela e sem reforma agrária, nada avança. As cidades ficam superpopulosas,desperdiçando a formação dos jovens. Se há demandas no meio rural(em franco desenvolvimento), a especialização humanista e técnica acabam sendo descentralizadas (com maior absorção da área tecnológica, obviamente). Já a educação “puxa” a cultura: arte, música, teatro, que por sua vez retroalimentam a formação das Humanidades (na cidade e no campo). Quanto à Itália (temos que admitir, que, com os gregos, foram berço cultural do bom e do ruim do mundo ocidental. Um detalhe: toda sociedade tem crises. O domínio da máfia naquele país é fruto de uma dessas crises ao longo de sua história. Como instituição(idem ao Brasil), lá a corrupção atingiu seu pico nos anos 70/80, mas o substrato cultural deu suporte para o combate sistemático. Custou até a vida de alguns, como a do juiz Falcone. Aqui…
O problema está em pensar em causa e efeito. Não se pode ver a sociedade como uma “relação física”, estilo Comte. Ainda, quando se fala de Moralidade não se está falando de “só há uma moral válida”, estilo Bush! O ponto de vista Kelseniano: so há justiça onde há lei. Contudo, princípios de justiça não são leis e sim regras estabelecidas pela sociedade. Podem vir a ser Leis: ex. não roubar. Acontece que no Brasil a desagregação é tanta, o Relativismo é tão amado, justamente para que não se tenha de questionar a própria ação! Não entendo o que poderia ser uma evidência objetiva quanto à eficácia da Moral. Me parece coisa de Cético. Relação Causal?As evidências são construídas segundo o ponto de vista adotado e o fim desejado. Popper já nos ensinou alguma coisa disto e o Khun argumentou que “evidência”, mesmo em ciência, não é um conceito ineqüívoco, como “força” na Física. Além disto falar de ensino técnico no Brasil é uma piada: laboratórios sucateados, universidades jogadas ao léu.
Você mencionou a Itália: eu não conheço o sistema de ensino por lá, mas de qualquer forma é um país com uma tradição humanista muito forte e, portanto, não é de se estranhar que a educação humanista seja forte por lá. Isso, no entanto, não evitou que esse país não tenha enfrentado, e continua enfrentando sérios problemas de corrupção. Entre os países de seu nível de desenvolvimento econômico a Itália parece não ser dos menos corruptos.
Meu ponto continua sendo o mesmo: ensinar mais Humanidades – algo que, sem dúvida, seria muito bem vindo – não reduzirá a corrupção em nosso país, ou em qualquer outro. E mesmo que isso tenha algum efeito sobre o nível de corrupção de algum país, acho que isso seria muito indireto. Acredito que existem formas bem mais diretas de atacar a questão da corrupção. Obs: a educação tecnológica também não vai bem das pernas no Brasil.
Cara Lúcia, eu posso estar errado, mas eu não tenho certeza que corrupção seja uma questão cultural em nosso país ou em qualquer outro. Se você olha, por exemplo, as regras do jogo político, nosso legislação super-burocrática, a questão da execução orçamentária etc, enfim as regras formais, escritas, do mundo público, eu acho que tudo isso contribui muito mais para a corrupção do que a “cultura”. Se por cultura você esta chamando as regras infomais, aquelas que não são escritas, mas permeiam a vida cultural, eu acho que existe uma certa permissividade em nossa “cultura” que favorece a corrupção. Mas uma vez, no entanto, temos de ver se isso é “causa” da corrupção ou mais uma conseqüência da ação das regras formais.
Não é um debate trivial a relação entre educação e corrupção; é um dado cultural em nosso País. Prof. Ramos, sou jornalista, e longe de mim, aprofundar questões éticas e morais, mas quero contribuir para o debate. Penso que a educação é o fulcro da questão porque depois da ditadura (e durante sua vigência por vinte anos) houve, a meu ver (e na faculdade até estudei um pouco isto) a priorização da visão tecnológica em substituição à humanista nos currículos. O meu próprio deu esta guinada no final da graduação. No ensino médio, desde os anos 80 há ênfase na tecnologização. É verdade, um sinal dos tempos. No entanto, meu sobrinho está no ensino médio na Itália e a ênfase é em Humanidades; já o outro,que está no final do fundamental, com a naturalidade de um “expert” falou-me do que havia aprendido sobre proteção ao meio-ambiente, em nível local e global, com profundidade! Tenho sobrinhos aqui;uma já iniciando sua faculdade. Ela é capaz e interessada, mas enfrenta o desinteresse geral…
Eu gostaria de iniciar um debate sobre a educação no Brasil: a questão que mais me interessa é porque não há demanda por gente qualificada por aqui. Isso esta longe de ser uma discussão trivial, inclusive muitos não concordam que não existe tal ausência de demanda aqui nos trópicos.
Com todo o respeito, eu acho que vocês estão cometendo um “erro” comum,: acham que o problema da corrupção no Brasil é causado por falta de moralidade e que essa ausência de moralidade vem da falta de educação da população brasileira. Como já foi discutido em outro pôster (MERITOCRACIA), eu acho que a relação causal, se é que existe, é inversa: as oportunidades para corrupção é que baixam a moralidade no país. As pessoas estão em primeiro lugar preocupadas consigo próprias e depois com o resto do mundo, se tanto. Se houver oportunidades para a corrupção e isso não tiver altos custos e riscos então haverá corrupção. Como acabar com essas nefastas oportunidades? Melhorar as regras do jogo do mundo público já ajudaria bem.
Vocês dizem que o comprimento de determinados tipos de normas (regras de trânsito, etc) é maior em países onde a educação é melhor. Certo, não discuto isso. Agora, como provar que existe relação causal entre essas duas coisas? Percebam que se, de fato, mais educação traz mais moralidade, então os mais educados, que via de regras são os mais ricos, devem ser sempre mais “morais” que os menos educados e isso entre países com diferentes níveis de educação mais também entre classes sociais de um mesmo país.
Por que? Simples: a graduação é vista como um momento de formação e não um lugar onde alguém vai aprender um conjunto específico de técnicas. O sujeito entra numa boa graduação para ganhar “literacy”, “numeracy”, cultura geral e aprender a pensar por conta própria, ter iniciativa intelectual. Já moralidade…As Universidades por lá também dizem que visam formar a moralidade das pessoas, só que eu não acredito muito nisso: na sei se é em cursos de Álgebra linear, História ou mesmo Ética que o sujeito desenvolve a moralidade… E já que vocês têm tanta certeza sobre isso gostaria que me mostrassem evidências…
Eu sou professor Universitário e certamente na vejo educação como ensino técnico, muito pelo contrário: apesar de achar que o ensino técnico de qualidade tem seu lugar, o que se vê por aí hoje me dia é ensino técnico de baixa qualidade e fora de lugar. Acho que o fundamental na educação é o processo de formação intelectual e isso não é considerado no Brasil. Nas Universidades Americanas, por exemplo, país considerado excessivamente pragmático, a educação, pelo menos nas melhores Universidades, é vista como um processo de formação: lá o sujeito se forma em Inglês ou Matemática em Harvard, Yale, Chicago, UCLA, etc e não vai ser professor dessas matérias: vai trabalhar em qualquer coisa, até mesmo em mercado financeiro. Alias, que eu saiba, nas faculdades de elite da gringolândia nem existem cursos de graduação em administração de empresas, por exemplo. Por que? Simples: a graduação é vista como um momento de formação e não um lugar onde alguém vai aprender um conjunto específico de técni
Somente hoje pude me comunicar. Entendo que há uma relação estreita entre educação e moralidade pública, tanto quanto os sistemas de ordenamento(manutenção) de regras para o funcionamento das sociedades mais avançadas é um fato. As pessoas cumprem as regras sem necessidade de multas, a não ser quando bêbados, drogados. Aqui, o caos se estabelece… Pior ainda: um verdadeiro aparato policial é montado para que sejam evitadas mortes de torcedores desavisados, aliás em geral, os pacíficos. É claro que a educação, como dizem por aí -”começa em casa”. O problema é que a desagregação social da sociedade brasileira chegou ao nível do desespero. A escola tenta minorar o problema, mas a falta de outras “esperanças” acaba anulando tal esforço educativo. Heroicamente tem resistido no nível básico, fundamental e médio. Mas,devido ao baixíssimo poder aquisitivo(comida,cultura&educação,lazer,etc.), na verdade, as “gentes” do Brasil vivem na berlinda de tudo. A desigualdade está afundando o País.
A Lúcia e o Santilli, para mim, estão corretos. Educação não é ensino técnico. Qualificação, para nossa pobre realidade, já temos. Faltam-nos escolas que eduquem cidadãos. Para isto não é necessário “demanda de mercado” cada pessoa faz parte da civilização. A visão da educação como formação de “torneiros mecânicos” e “apertadores de botões” é enviesada pois confunde ensino tecnológico com educação. A única forma de criar cidadãos é pela educação. A criação de regras é formalismo necessário em casos de selvageria desenfreada como no Brasil. Se não há relação entre moral e educação é por vermos moral como assunto da sacristia e educação como assunto técnico. Nossa crença é que educação “é pra ganhar grana” e moral é coisa de padre, pastor ou prof. de Filosofia.A religião é uma fonte da moral, mas há também a própria moral da vida pública. Neste sentido se pode falar de “moral pública”. Esta moral é que deve ser ensinada. Mas onde estão os pedagogos interessados em educar para a moral?
Interessante como poucos se interessaram pelo debate…
Outra coisa: eu não se se eleitores mais “educados” votam melhor, qualquer que seja a definição de melhor. Uma coisa, entretanto, eu penso: se as regras do mundo público continuarem a gerar incentivos para corrupção, políticos mais educados seriam apenas corruptos mais sofisticados, com maior capacidade de fazer estragos. Finalmente, não veja relação entre clara entre educação e moralidade.
Por que será que não há demanda por qualificação no Brasil? Isso, por si só, é uma questão bastante interessante, uma vez que um país subdesenvolvido como o nosso deveria(?) estar faminto por pessoal qualificado. Por que será?