2005 outubro | Claudio Weber Abramo
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Arquivo de outubro, 2005

31/10/2005 - 22:04

Tréplicas

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De Arturo Fatturi: Não argumentei falaciosamente; [meu argumento] não foi Ad Hominen (Ofensivo ou Circunstancial), pois não questionei a verdade do que o Prof. Lamounier afirma. Não entrei no mérito de seus argumentos, conheço minha incompetência (e isto não é um Ad Misericordiam). Um bom Ad Hominen é A esquerda é Burra, dito por determinado Sociólogo. Talvez nos seja exigido, mal comparando, ler o Mein Kampf para opinar sobre Hitler ou ler toda a literatura religiosa para opinar que não se gosta de Religião. Levando a coisa a loucura: só posso questionar aquilo que sei que é falso? Como alguém afirmou, todos temos agendas. Mas e se não concordo com algumas agendas? Serei Falacioso? Isto me parece aquela atitude típica: se você não concorda comigo, então está errado. Diferenças ideológicas implicam escolhas de analistas políticos. Prefiro Zygmut Bauman. O problema das ciências Humanas é a lógica. Muito Derrida, pouco Winch. Reputações, no Brasil, normalmente não são construídas sobre argumentos.

Começando pelo fim: Algumas reputações são piores do que outras, mas a generalização me parece excessiva. Há muitíssimas reputações respeitáveis, e há outras baseadas na picaretagem. Acredito que parte da dificuldade em se separar umas de outras é o pacto do silêncio a que se entregam quase todos. Pouco se discute, de forma que, em especial no universo midiático, não se distingue quem tem sustância de quem é simplesmente esperto.

Quanto a discordar de algum autor sem lê-lo (ou ao menos sem inteirar-se do que escreve, mesmo que indiretamente) é descabido. Como é que se decide que alguém tem uma “agenda”, sem inferi-lo do que a pessoa diz? (Deixemos de lado o simples ouvir dizer.) Por outro lado, quando se afirma que alguém tem “agenda”, isso geralmente significa que teria uma intenção não-intelectual com a qual não se concorda porque seria antagônica a algum outro conjunto de convicções. Mas estas não configurariam elas próprias uma “agenda”?

Isso não quer dizer que não se possa identificar “agendas”. Acontece que elas costumam ser encontradas nas reputações erigidas sobre bases falsas. Quando a base é sólida, pode-se ainda discordar, sem atribuir ao oponente alguma intenção recôndita. Sem esquecer de mencionar que a atribuição de intenções recônditas aos outros impossibilita a discussão, pois a implicação imediata é de desonestidade intelectual — do contrário, a intenção não seria recôndita, mas explícita.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 19:28

Sem limites

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Para quem achava que o rol de explicações fantasiosas sobre as movimentações financeiras do caso do mensalão não poderia ser ainda mais enriquecido, por motivo de esgotamento da imaginação, aconselha-se assistir ao depoimento do sr. Roberto da Costa Pinho à CPMI da Compra de Votos, que está transcorrendo. O sr. Costa Pinho, que foi apanhado retirando 450 mil na boca do valerioduto segundo Simone Vasconcelos, a diretora financeira de Marcos Valério (ele afirma que foram “apenas” 300 mil), foi funcionário do Ministério da Cultura no início do presente governo. Antes, em 2001, havia prestado assessoria à prefeitura de Ribeirão Preto. Mas não recebeu nada em pagamento. Diz que “colaborava”. Em compensação, no período em que trabalhou no MinCult, recebeu os tais 450 ou 300 mil, por conta de assessoria eleitoral que prestaria futuramente ao PT, para as eleições municipais de 2004. Para onde foi o dinheiro? Ora, para debaixo do colchão.

Quer dizer, o sujeito primeiro trabalha de graça e depois recebe uma fortuna por conta, sem trabalhar. E isso enquanto era funcionário federal. Ao ser perguntado sobre se não deveria ter pedido autorização ao ministro da Cultura, Gilberto Gil, saiu-se com o seguinte: “Pois o próprio ministro não faz shows durante os fins de semana? Eu não sei cantar, então trabalhava em outra coisa.” Trabalhar? Mas o dinheiro que recebia não era na frente?

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 17:32

Favas contadas

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Na estampa, o deputado José Dirceu ouve o caso contra si no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

A coisa aqui tá preta

Processo contra o cadáver do papa Formoso. Água-forte de Lodovico Pogliaghi em Francesco Bertolino, Storia d’Italia, Medio Evo (Milão: Fratelli Treves Editori, 1892). Em fevereiro de 897, procedeu-se em Roma ao “Sínodo do terror”, em que facções inconciliáveis se digladiaram pelo controle da Igreja. Numa dessas, o corpo do papa Formoso, que morrera mais de um ano antes, em abril de 896, foi submetido a julgamento.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 17:00

De volta à labuta

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Esclarecido o mistério das pirâmides exposto abaixo, voltemos ao que interessa.

Josias de Souza comenta, em seu blogue (aqui), a indignação do senador amazonense Artur Virgílio (líder do PSDB no Senado) ao denunciar, da tribuna da Casa, que haveria alguém espionando a sua vida, alguém esse alegadamente pago pelo PT. Josias observa que, se hoje o clima está assim, imagine-se o que acontecerá em 2006.

Vem em reforço do que se escreveu hoje aí em baixo na nota “No mundo da lua”, sobre as ilusões palacianas a respeito do esvaziamento da crise. A crise só vai aumentar. E é bom que aumente. Apesar do risco de dizimação das lideranças políticas e ascensão de dirigentes e candidatos inexpressivos e aventureiros (alertado pelo cientista político Carlos Ranulfo Melo, em entrevista a Lillian Witte Fibe hoje no UOL — aqui, para assinantes), o acirramento se dará pela revelação de novos fatos, os quais, por sua vez, poderão apontar mais claramente para as causas reais da corrupção. Por enquanto, esse banho-maria no qual as CPMIs e Conselho de Ética estão sendo cozinhados está funcionando mais como supressor de sintomas do que como penicilina. O furúnculo está ali, queimando. Não desapareceu, contrariamente ao que desejariam muitos, tanto da situação quanto da oposição.

E o furúnculo não são as regras eleitorais, mas os mecanismos propiciadores da corrupção: o primeiro deles, a excessiva liberdade de nomeação de pessoas para ocupar de confiança, com o conseqüente loteamento do Estado entre quadrilhas que passam a se dedicar ao saque do erário.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 16:46

Ahhh!

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Tiago Chiavegatti explica — O UOL colocou um link pra cá na sua página principal. Obrigado, UOL.

Aos visitantes que chegaram aqui hoje pela primeira vez, fica o convite para voltarem.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 16:27

Impossibilidade estatística

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Este blogue tem experimentado uma visitação que cresce moderadamente. Caracteriza-se por números baixos. Hoje, de repente, a visitação explodiu. Se continuar nesse andor, amanhã de manhã, quando agregarei os dados do dia, é certo que a visitação de hoje ultrapassará o total de todos os dias anteriores. É possível que isso esteja acontecendo por acaso. Contudo, estatisticamente é tão improvável quanto o Delúbio Soares entregar os nomes das pessoas de quem recebia ordens.

O que aconteceu? Solicito dos eventuais visitantes o obséquio de esclarecer, se possível. Onde foi que vocês me acharam? O blogue saiu em rede televisiva nacional? Osama bin Laden foi descoberto escondendo-se atrás de uns bits abrigados aqui? Alguém importante me xingou? Ganhei um prêmio e não fui notificado? Ó dúvida!

Please, bitte, prego, por que vocês todos decidiram me visitar de repente?

(A propósito — não se trata de tramóia para aumentar a audiência. Não pedi a ninguém que ficasse enviando requests. A quantidade de e-mails enviados ao Delcidio Amaral e ao Osmar Serraglio também aumentou às pampas.)

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 14:29

Descobri!

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Faz algum tempo que este que vos escreve tem se debatido com a seguinte questão: Como é possível que esse pessoal do mensalão continue a afirmar que não aconteceu nada, que tudo não passou de erros, deslizes, escorregadelas, que ninguém é responsável, que não há crimes a punir, que não há culpados? Descobri por que.

Os culpados somos nós.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 13:46

Corrente do listão

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Até este momento, 387 pessoas enviaram ao senador Delcídio Amaral e ao deputado Osmar Serraglio o e-mail cobrando-os pela lista de pessoas nomeadas para ocupar cargos de confiança no governo federal, juntamente com a identificação de suas respectivas “cotas” partidárias (ler o texto aí em cima, ao lado do Pinóquio). O número é pequeno, o que sem dúvida é reflexo da pequena visitação deste blogue (pequena, porém qualificada, é claro). Sugestão ao visitantes habituais e não-habituais: Distribuam o e-mail nas listas de que participam. Se o senador e o deputado receberem 10 ou 20 mil mensagens, não poderão continuar a fingir que o assunto não existe.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 13:30

No mundo da lua

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Ultimamente, temos sido informados de que prosperaria no Palácio do Planalto a teoria segundo a qual a crise estaria chegando ao fim. A intenção de apressar um desenlace que se imaginava expedito estaria por trás da expectativa presidencial de que o deputado José Dirceu fosse cassado rapidamente. Esteve também na alegada contrariedade planaltina quando à resistência de deputados do PT em renunciar a seus mandatos. A eclosão do caso “rum do povo” teria causado maior consternação não pelo fato alegado em si, mas porque teria atrapalhado a chegada do fim da crise.

Sinceramente, sem piada, sem blague, a sério, imaginar que a crise poderia esgotar-se em curto prazo parece revelar alienação em grau terminal, mesmo imaginando que o caso do rum não tivesse eclodido. A crise do mensalão ainda não produziu quase nada. Conforme nos informam integrantes das CPMIs, jornalistas e observadores, a documentação em poder das Comissões mal foi arranhada. Fora revelações escabrosas que poderão surgir da análise desses documentos, há uma enorme quantidade de cúmplices, cumpinchas, operadores, portadores de malas de dinheiro, uma escumalha inqualificável que, a esta altura, decerto está a achacar os mandantes em troca de seu silêncio. Nem todos serão aplacados. Quando confrontados pelo Ministério Público, alguns contarão o que sabem. De forma que a esperança de um desenlace sem maiores traumas não pode ser alimentada por alguém com acabeça no lugar.

Tampouco faz algum sentido o que se noticia a respeito da oposição, em particular o PSDB. Embora seja perfeitamente crível que esse partido não pretenda facilitar a vida de ninguém para o exame dos malfeitos que tenha produzido, não tem cabimento a idéia de que, em troca de proteger um senador apanhado com a mão na burra, o PSDB negociaria tréguas de alguma espécie com o Planalto. Seria como concordar em não cobrar uma dívida de 1 milhão em troca de ter perdoados 10 reais.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
31/10/2005 - 11:16

Brasil ainda mais real

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Já na Paraíba, conforme despacha o jornal O Norte, o ex-prefeito de Pilõezinhos, Humberto Alves de Souza (PMDB, não reeleito em 2004), e a Construtora Signus foram condenados pelo Tribunal de Contas da União a devolverem cerca de 100 mil reais referentes a uma tramóia envolvendo casas populares. Vejam só como é que se fazem as coisas pelo Brasil afora, conforme o jornal (ver):

Os recursos eram destinados à reconstrução de 16 casas. Apenas três delas receberam parcialmente os serviços do convênio, e alguns moradores sequer tinham ciência de que seus nomes estavam inclusos na lista do plano de trabalho. O empreendimento foi executado em apenas 10,78%.

Conforme o Atlas do Desenvolvimento Humano do Brasil do IPEA, em 2000 Pilõezinhos tinha 5430 habitantes e as taxas de desenvolvimento humano que se poderia esperar.

Autor: Claudio Abramo - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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