No caminho do monotrilho
Uma das primeiras manifestações contrárias ao projeto do monotrilho que será implantado em São Paulo vem dos condomínios de apartamentos que ficam nas proximidades do trajeto divulgado, conforme noticiou a imprensa no início da semana.
É claro que o fantasma da degradação urbana da região lindeira das obras que oferecem pistas elevadas, como o Minhocão em São Paulo, o Expresso Tiradentes (Fura-fila) e a Perimetral no Rio de Janeiro, impacta negativamente no imaginário de todos e basta uma visita sob essas obras para entender que alguma coisa saiu errado em relação às possíveis boas idéias originais. Estas obras são exemplos notáveis de grandes investimentos públicos que não trouxeram benefício nenhum onde estão implantados e passam literalmente por cima dos problemas reais das cidades.

Minhocão (SP), Via Perimetral (RJ) e Expresso Tiradentes (SP), três exemplos de elevados que não ajudam a melhorar as regiões por onde passam - Fotos: Blog do Milton Young e Google Street View
A maior dificuldade está no caminho escolhido para a implantação de projetos de grande impacto social como o monotrilho do Metrô de São Paulo. A carência de boas soluções urbanas no Brasil é tanta e os problemas das cidades são tamanhos que quando o poder público toma a iniciativa de resolver pelo menos uma parte da questão – no caso, o da velocidade de deslocamento em transporte público – todos, inclusive os responsáveis técnicos pelas etapas de planejamento e projeto, correm o risco de atropelar o bom senso e simplificar ao máximo os estudos, para não perder a janela daquela oportunidade de fazer alguma coisa.
Benefícios para quantos?
O princípio óbvio que deve reger iniciativas como essas é o de que todo investimento público precisa trazer benefícios à maior parte da população e às atividades próximas às regiões afetadas e não só para aqueles que estarão dentro dos futuros vagãos, deslocando-se de um ponto ao outro da cidade. O próprio Metrô de São Paulo foi um dos pioneiros em defender essa tese, quando implantou a lógica conhecida pela expressão “solo criado”, que quantifica os benefícios (por que não os prejuízos também?) dos proprietários de imóveis e estabelecimentos comerciais ao longo de suas linhas e próximos às estações.

Altura dos trilhos do monotrilho de São Paulo junto a edifícios residenciais é motivo de crítica ao projeto
O monotrilho é apenas mais uma solução que, como todas as outras que envolvem obras de transporte urbano – viadutos, avenidas, estações do metrô, passagem de nível, corredores de ônibus, terminais rodoviários e ferroviários etc. -, merece ter um projeto de implantação à prova de todas as críticas, ou pelo menos da maioria delas. Não será com promessas de colocar vidros escuros que o poder público vai resolver a revolta e o efetivo prejuizo das pessoas que moram nos apartamentos e condomínios eventualmente devassados em função da altura que o projeto anunciou para os trilhos.
Também não serão o formato dos pilares ou o sistema de tração do monotrilho que justificarão sua implantação, por mais harmoniosos que se apresentem nas ilustrações divulgadas. Até porque a realidade costuma ser sempre pior do que a promessa.
