A passagem do furacão Sandy por grandes centros urbanos nos Estados Unidos, com a ampla cobertura do iG e de toda a imprensa internacional, evidenciou algumas características das ações de gerenciamento de crises urbanas que valem a pena registrar, como inspiração de como as administrações municipais brasileiras – especialmente as que tomam posse no início do próximo ano – poderiam também adotar, até como resposta ao desafio colocado pela Lei 12.608, promulgada este ano e que dispõe sobre as novas necessidades dos sistemas de proteção e defesa civil das cidades do país.
No caso do furacão Sandy, em primeiro lugar, chamou atenção o importante papel desempenhado pela mídia, especialmente as emissoras de televisão e websites de grande alcance jornalístico e popular, que dedicaram grande parte de sua cobertura oferecendo dados e informações úteis, ajudando a prevenir perdas ainda maiores.
Ainda que transformassem o fenômeno natural em espetáculo televisivo – veja todos os vídeos do Furacão Sandy na TViG – mantiveram sempre um foco nítido na prestação de serviços, seja pelo acompanhamento da trajetória do furacão, alertas dos próximos pontos a serem atingidos e constante transmissão de avisos de evacuação e prevenção para as populações atingidas, abrindo espaço para autoridades darem orientações.
A liderança do poder público
A capacidade de mobilização de multidões, sob a orientação clara e firme dos poderes públicos locais, também merece destaque. Ficou nítido em Nova Iorque, por exemplo, que todos os agentes da administração sabiam exatamente o que devia ser feito para minimizar os efeitos, com planos de contingência preparados e ensaiados. O que reforçou a liderança e credibilidade da prefeitura.
É claro que a devastação decorrente da passagem de um furacão era em grande parte imprevisível. Mas a atitude de alertar e mapear o nível de inundações prováveis, identificar os pontos críticos, as áreas de evacuação compulsória, indicar abrigos por região e o reforço de ações preventivas foram fundamentais. Nos momentos que antecederam a crise, ninguém discutiu as atitudes antipáticas de “ficar em casa” e a paralisação de todos os sistemas de transporte e bloqueio de trajetos em áreas de risco, demonstrando perfeito alinhamento entre as lideranças da administração e os cidadãos no enfrentamento da catástrofe imimente.
A participação de todos

Solidariedade e capacidade de organização antes e depois do furacão Sandy na cidade de Nova Iorque - Foto: Cesar Cunignhant
As ruas ficaram desertas, as pessoas mantiveram-se calmas, evitaram o uso de elevadores nos edifícios e estocaram comida e água. Todos já sabiam como agir, inclusive após a tempestade, no sentido de ser solidário para preparar comida ou simplesmente oferecer sua casa para os amigos tomarem banho nos primeiros dias após a passagem do furacão. E mesmo assim houve mais de uma centena de mortes nos Estados Unidos.
As filas que se formaram em frente aos supermercados também demonstram que não havia dúvidas de que desta vez as orientações tinham que ser seguidas, ao contrário do ano passado, quando o furacão Irene demonstrava perda de força antes de chegar à cidade e praticamente não provocou qualquer consequência mais séria. Ou seja, a população reagiu com compreensão na exata medida da realidade apresentada pelos agentes públicos, em ambos os casos. Essa credibilidade é um ativo importante para a gestão estratégica das cidades, até mesmo para enfrentar os desafios cotidianos como trânsito, transporte, desastres naturais ou a eclosão de casos de violência.
Transparência na gestão das informações
De acordo com alguns brasileiros que moram em Manhattan, aenquanto toda a cidade ainda enfrentava a retirada de árvores caídas, inundações em estações de metrô e túneis e até a possibilidade de endemias pelo aparecimento de ratos por toda parte, também não havia manifestações de revolta pela demora na retomada dos sistemas de transportes, a interrupção viária ou a falta de luz.
Todos entenderam que o volume de necessidades de serviços de manutenção neste momento era maior do que a capacidade de atendimento das equipes existentes e que era preciso ter paciência. Apelo, aliás, feito publicamente pelas autoridades, sem qualquer desculpa ou dissimulação. Os locais de trabalho também cuidaram de retomar aos poucos suas atividades e as escolas e universidades dispensaram os alunos por toda semana, minimizando as demandas por serviços de transportes e dando tempo aos comerciantes para ser prepararem para o retorno do dia a dia. Uma espécie de solidariedade das instituições e das empresas com a cidade, apesar dos prejuízos decorrentes e de algumas delas não terem sido afetadas.
A tecnologia a favor
Um detalhe interessante para quem gosta de entender como a tecnologia pode ser usada a favor do cidadão e dos serviços públicos foi a divulgação do sistema de informação pública da empresa concessionária de energia de Nova Iorque, a ConEdison. No site da empresa (de todas as concessionárias de energina nos EUA), imediatamente após a calamidade já era possível visualizar todos os equipamentos elétricos com problemas, com o número de ligações domésticas e comerciais dependentes daquela substação ou transformador, a população afetada e a causa identificada.

Informações em tempo real das condições do sistema de energia em Nova Iorque, logo após a passagem do furacao Sandy. Transparência total em relação ao número de ocorrências por região, até o detalhe do equipamento com problemas, número de pessoas afetadas, causa da falha e estimativa de tempo para solução.
Trata-se de um mash-up de dados sobre a plataforma do Google Maps que apresenta em tempo real informações de interesse público, sem subterfúgios ou defesas corporativas. Muito melhor do que aquelas gravações inócuas de algumas concessionárias brasileiras. Um exemplo de transparência de gestão em favor do público consumidor e que dá a medida de que mesmo os sistemas mais complexos podem oferecer interfaces de fácil compreensão para dar satisfação pública de seu funcionamento e eventuais defeitos.
É claro que para uma cidade chegar nesse nível de esclarecimento, todos os dados precisam estar organizados e disponíveis em uma plataforma compatível, de modo a oferecer a possibilidade de cruzar informações e rapidamente dar uma idéia para o público e para a administração do número de cidadãos eventualmente afetados por qualquer ocorrência, seja um problema elétrico, o colapso de uma tubulação, um acidente ou mesmo um volume de chuvas intenso que vai provocar deslizamentos ou inundações.
Mesmo no Brasil, essa possibilidade já é real, a depender do nível de organização das informações pelas prefeituras, e pode se transformar em uma grande instrumento de modernização e transparência da administração pública, desde que haja vontade política de se implantar. A cidade do Rio de Janeiro está quase lá, com o Centro de Operações que instalou há aproximadamente dois anos e que continua funcionando muito bem, com vários episódios que demonstram que a cidade ganhou muito maior capacidade de reação às ocorrências e mais efetividade nas intervenções do poder público.