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Arquivo de outubro, 2010

13/10/2010 - 16:51

Os labirintos da política

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Temos o mesmo direito de nos enganar

Nessas semanas que antecedem a votação para segundo turno das eleições presidenciais muitas dúvidas restam no ar. Para os eleitores de Marina Silva então nem se fala. Como uma cidadã em confronto com a própria consciência, saí em busca de algumas respostas, antes de tudo, para resolver em quem votar. Encontrei na filosofia de Sponville algumas pílulas para pensar. Divido com vocês então, algumas dessas reflexões. No entanto, não manifestarei aqui o meu voto. Deixo para vocês a leitura que acharem mais pertinente. Boa sorte!

“Todo poder é opressor, mas nem todas as opressões se equivalem. O poder da burguesia não é o dos assalariados, um governo civil não é uma junta militar, uma democracia não é uma tirania, as liberdades individuais não são o terror.”

“Nem todo Estado é totalitário: cabe a nós lhe impor, como seu exterior, o espaço livre de nossa ação – o que chamamos de direitos humanos, que nunca são nada mais do que os fazemos ser, antes de mais nada as próprias forças do individuo, tais como são limitadas e protegidas pelas forças do Estado contra todas as forças (inclusive estatais) que a ameaçam.”

“O direito não passa de um fato de forças. Todo poder é opressor (já que é poder), mas nem todo poder é absoluto. Cabe a nós delimitar (quantitativamente e qualitativamente) a opressão que suportamos.”

“É por todo poder ser opressivo que não há liberdade possível, para o indivíduo, senão na limitação de fato do poder. Todo direito tem que ser conquistado ou defendido: a liberdade também é um combate. Cabe a nós impor – ou manter – a nossa. É a única paz válida. Porque toda paz é a continuação da guerra, mas nem todas as pazes se equivalem; e a paz que queremos é a nossa!”

“O Estado é um organismo de classe, um organismo de opressão que permite que uma classe oprima a outra, uma maquina destinada a manter na sujeição de uma classe todas as outras classes que dela dependem. O Estado é o produto e a manifestação do fato de que as contradições de classe são inconciliáveis. Todo Estado, inclusive o mais democrático, é opressor, ditatorial, mesmo o mais democrático, pois a democracia nunca é mais que uma das formas possíveis – e, decerto, a melhor – da ditadura de classes.”

“É por isso que o Estado tem, como se diz, o monopólio da violência legitima, pois ele é a violência que se impõe como legitimidade, como legalidade.”

“As formas do Estado burguês são de uma maneira ou de outra uma ditadura da burguesia. Todo Estado operário, por mais democrático quê seja é uma ditadura do proletariado; isto é, o protelariado organizado em classe dominante.”

“O problema não é pelo menos por enquanto, suprimir a opressão. Mas substituir uma opressão por outra. O resto não passa de sonho e utopia.”

Só podemos escolher nossa forma de opressão. Um mundo mais justo significa lidar com os homens como eles são agora.

“Governar é optar contra alguém e em função do interesse de outro.”

“Indivíduos sempre estão errados ao quererem reservar seu quanto-a-si em política, ao se gabarem – apoliticismo ou não – de ter uma posição tão pessoal, tão original, tão preciosa, tão rara, que nenhum grupo natural será capaz de exprimir sua essência singular…”

“Não há política individual, não apenas porque todo desejo humano é social, mas também porque só há política da força e porque o individuo, todo individuo, é fraco. Mesmo o “grande homem” precisa de um povo, de um partido, de um exercito.”

“A política é esse lugar em que o desejo solitário se defronta com os outros desejos, num sistema sempre dado de alianças e de conflitos. A política é a coletividade de desejos. Logo, só se pode escolher seu grupo e isso vale para os que rejeitam todos eles: formam assim outro, ou vários, do mesmo modo como os que “não-fazem-politica” a fazem sim, à sua maneira, por essa própria recusa.

“A única escolha que temos é de nossa submissão (o próprio líder se submete: senão, não seria líder), e a política é, nisso, mestra da humildade.”

“Não há política individual, e não há indivíduo sem política.”

“O melhor grupo é o menos ruim. E temos o mesmo direito de nos Enganar.”

André Comte-Sponville – Os labirintos da política

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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