Beleza Convulsiva

“A Beleza será convulsiva ou nada será”, dizia André Breton. O mesmo pode-se dizer em relação aos filmes de Philippe Garrel. A imagem será convulsiva ou nada dirá.
Garrel não é pra qualquer um. Ou se ama, de cortar os pulsos, ou nada acontece. A fronteira da alvorada, “La frontière d’aube”, novo filme do francês, em exibição no Festival do Rio, é mais do que cortar os pulsos, apesar de ter dividido a opinião da crítica, na exibição no Festival de Cannes, onde esta concorrendo à Palma de Ouro.
Em “La frontière”, Garrel retorna a atmosfera onírica de “Amantes constantes” (2005), rondando como um espectro de maio de 68, as consciências de dois jovens perdidamente apaixonados. Suicídio, “langeweile”, “ennui”, sob a luz expressiva de um imaginário com pinceladas de Jean Couteau; e umas boas doses de gim; as ressonâncias são infinitas. Elas ecoam nos espaços em que nos engajamos, no silencio dos personagens em que parece caber também a nossa história.
Esse é o mérito de Garrel. Já nas primeiras cenas do filme, sentimos que François, o fotógrafo, interpretado por Louis, filho do diretor; e Carole, uma atriz infeliz no casamento (Laura Smet), vão se apaixonar. A luz parece gostar deles. A química entre os dois e a câmera é perfeita. O enquadramento é de mestre.
O resto da história é simples e trágica. Carole tem uma personalidade depressiva, o que a leva a ser internada num hospital. François, não segura a onda e a abandona, ignorando a própria dor e o amor que sente. Acaba se envolvendo com outra mulher e só se dá conta do que perdeu quando Carole se mata e ele passa a sofrer de alucinações.
Nesse momento, começa a narrativa fantástica; quando o diretor opta por introduzir um elemento sobre natural fazendo Carole aparecer, primeiramente nos sonhos de François, depois como um fantasma na vida dele, misturando ao mesmo tempo sonho, imaginário e realidade. Faz isso sem efeitos especiais mas através de uma bricolagem fotográfica, recurso usado por muitos surrealistas.
Talvez esteja aí, o único senão do filme, razão pela qual o efeito se mostra insuficiente para evocar uma aparição; toda a cinética do diretor por si só já é fantasmagórica; o efeito que a luz ganha nos filmes de Garrel, somado a textura provocada pela película em preto e branco, garantem o efeito surreal. Seria preciso, portanto, algo maior que a imagem, alguma coisa como a própria luz em estado puro, para evocar a força de uma aparição. Mas isso não acontece. Chega a ser até meio cômico, pra não dizer ingênuo, o recurso utilizado pelo diretor para introduzir Carole como expressão do inconsciente de François. É como se através do acesso a este, ele pudesse espiar a sua culpa. A culpa pela sua traição.
“O subconsciente não mente”, dispara um dos personagens do filme. Garrel parece acreditar profundamente nisso, de tal modo o seu cinema se funda naquilo que Lacan afirmou como sendo a única culpa que podemos carregar: aquela que diz respeito à traição dos nossos desejos, da nossa identidade, e do nosso ideal.
E é a isso que o cinema de Garrel se destina: a dialogar com a nossa própria memória, a memória experimental, ancestral, aquela que reside no nosso imaginário, quando éramos mudos e o nosso filme virgem. No fundo ele apela para que não nos esqueçamos do que perdemos, por que sofremos e o que amamos.
O filme é como um eletrochoque. Em dez segundos nos rendemos a ele. A trama é o que menos importa. Isso, porque mais importante do que entender as possíveis metáforas subliminares à trama, é experimentar a relação de tempo criada por ele.
Poeta do inconsciente; existencialista fora do tempo, seus filmes possuem a alma que parece faltar aos amores expressos de uma geração que se recolheu ao micro universo das relações pessoais; uma geração apolítica, que não sabe o que é viver em guerra, que não sonhou com as utopias, não viveu a grande desilusão, e por isso, desconhece o que é lutar por um ideal.
O desespero nasce dessa impotência em se engajar com o outro. Impotência da falta de consciência de si e do mundo. São sujeitos que admitem viver no mundo da felicidade burguesa, ao mesmo tempo em que traem aquilo que amam, aquilo que acreditam, e por isso, não encontram na vida, sentidos que a sustentem; pois só vale a pena viver por alguma coisa em que acreditamos. Criar um sentido para a vida é também ser político. É por isso, que François diz lá pelas tantas: “nós somos o grupo de pessoas que dorme enquanto os outros fazem a história”.
Por ocasião do lançamento de “La frontière”, o autor declarou a importância de se dar conta da doutrina criada por Sartre e Simone: “Foi necessário criar algo que pudesse ocupar o vazio criado pela descrença no homem produzido pelo nazismo”. O existencialismo ocupou esse lugar. Lugar que parece ser dele desde então, pois o mundo depois da guerra nunca mais foi o mesmo, e parece que será necessário muito tempo mais para recuperarmos o que se perdeu: “O dia em que o ultimo sobrevivente dos campos de concentração morrer vai começar a terceira guerra mundial”, diz um dos personagens da trama. Até lá, todos aqueles que ousarem falar em revolução ou utopia política, serão considerados delirante, loucos, depressivos, candidato a eletro choques.
Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
muito lúcida a sua análise
Caramba! Certeira, precisa. Total. Você precisa me autorizar a usar esse seu texto na sala de aula, Dulce!!! Posso?
achei o texto ótimo, Dulce, com análises afiadas.
mas, uma coisa: “Les Amants Réguliers” não foi traduzido para “Amantes Constantes” no Brasil?