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Arquivo de setembro, 2008

28/09/2008 - 16:23

Beleza Convulsiva

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“A Beleza será convulsiva ou nada será”, dizia André Breton. O mesmo pode-se dizer em relação aos filmes de Philippe Garrel. A imagem será convulsiva ou nada dirá.

Garrel não é pra qualquer um. Ou se ama, de cortar os pulsos, ou nada acontece. A fronteira da alvorada, “La frontière d’aube”, novo filme do francês, em exibição no Festival do Rio, é mais do que cortar os pulsos, apesar de ter dividido a opinião da crítica, na exibição no Festival de Cannes, onde esta concorrendo à Palma de Ouro.

Em “La frontière”, Garrel retorna a atmosfera onírica de “Amantes constantes” (2005), rondando como um espectro de maio de 68, as consciências de dois jovens perdidamente apaixonados. Suicídio, “langeweile”, “ennui”, sob a luz expressiva de um imaginário com pinceladas de Jean Couteau; e umas boas doses de gim; as ressonâncias são infinitas. Elas ecoam nos espaços em que nos engajamos, no silencio dos personagens em que parece caber também a nossa história.

Esse é o mérito de Garrel. Já nas primeiras cenas do filme, sentimos que François, o fotógrafo, interpretado por Louis, filho do diretor; e Carole, uma atriz infeliz no casamento (Laura Smet), vão se apaixonar. A luz parece gostar deles. A química entre os dois e a câmera é perfeita. O enquadramento é de mestre.

O resto da história é simples e trágica. Carole tem uma personalidade depressiva, o que a leva a ser internada num hospital. François, não segura a onda e a abandona, ignorando a própria dor e o amor que sente. Acaba se envolvendo com outra mulher e só se dá conta do que perdeu quando Carole se mata e ele passa a sofrer de alucinações.

Nesse momento, começa a narrativa fantástica; quando o diretor opta por introduzir um elemento sobre natural fazendo Carole aparecer, primeiramente nos sonhos de François, depois como um fantasma na vida dele, misturando ao mesmo tempo sonho, imaginário e realidade. Faz isso sem efeitos especiais mas através de uma bricolagem fotográfica, recurso usado por muitos surrealistas.

Talvez esteja aí, o único senão do filme, razão pela qual o efeito se mostra insuficiente para evocar uma aparição; toda a cinética do diretor por si só já é fantasmagórica; o efeito que a luz ganha nos filmes de Garrel, somado a textura provocada pela película em preto e branco, garantem o efeito surreal. Seria preciso, portanto, algo maior que a imagem, alguma coisa como a própria luz em estado puro, para evocar a força de uma aparição. Mas isso não acontece. Chega a ser até meio cômico, pra não dizer ingênuo, o recurso utilizado pelo diretor para introduzir Carole como expressão do inconsciente de François. É como se através do acesso a este, ele pudesse espiar a sua culpa. A culpa pela sua traição.

“O subconsciente não mente”, dispara um dos personagens do filme. Garrel parece acreditar profundamente nisso, de tal modo o seu cinema se funda naquilo que Lacan afirmou como sendo a única culpa que podemos carregar: aquela que diz respeito à traição dos nossos desejos, da nossa identidade, e do nosso ideal.

E é a isso que o cinema de Garrel se destina: a dialogar com a nossa própria memória, a memória experimental, ancestral, aquela que reside no nosso imaginário, quando éramos mudos e o nosso filme virgem. No fundo ele apela para que não nos esqueçamos do que perdemos, por que sofremos e o que amamos.

O filme é como um eletrochoque. Em dez segundos nos rendemos a ele. A trama é o que menos importa. Isso, porque mais importante do que entender as possíveis metáforas subliminares à trama, é experimentar a relação de tempo criada por ele.

Poeta do inconsciente; existencialista fora do tempo, seus filmes possuem a alma que parece faltar aos amores expressos de uma geração que se recolheu ao micro universo das relações pessoais; uma geração apolítica, que não sabe o que é viver em guerra, que não sonhou com as utopias, não viveu a grande desilusão, e por isso, desconhece o que é lutar por um ideal.

O desespero nasce dessa impotência em se engajar com o outro. Impotência da falta de consciência de si e do mundo. São sujeitos que admitem viver no mundo da felicidade burguesa, ao mesmo tempo em que traem aquilo que amam, aquilo que acreditam, e por isso, não encontram na vida, sentidos que a sustentem; pois só vale a pena viver por alguma coisa em que acreditamos. Criar um sentido para a vida é também ser político. É por isso, que François diz lá pelas tantas: “nós somos o grupo de pessoas que dorme enquanto os outros fazem a história”.

Por ocasião do lançamento de “La frontière”, o autor declarou a importância de se dar conta da doutrina criada por Sartre e Simone: “Foi necessário criar algo que pudesse ocupar o vazio criado pela descrença no homem produzido pelo nazismo”. O existencialismo ocupou esse lugar. Lugar que parece ser dele desde então, pois o mundo depois da guerra nunca mais foi o mesmo, e parece que será necessário muito tempo mais para recuperarmos o que se perdeu: “O dia em que o ultimo sobrevivente dos campos de concentração morrer vai começar a terceira guerra mundial”, diz um dos personagens da trama. Até lá, todos aqueles que ousarem falar em revolução ou utopia política, serão considerados delirante, loucos, depressivos, candidato a eletro choques.

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/09/2008 - 20:52

Autômatos Erectus ?

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Por uma ação firme, sem violência!
Por um mundo de escuta e de delicadeza!

As coisas parecem que perderam a alma, a aura. As pessoas parecem que se tornaram coisas, coisas vazias. Objetos perdidos num mundo onde nada faz sentido.O que nos resta então? Com quem dividir nossa humanidade comum? Com autômatos erectus? Despossuidos da consciência de si e do outro; incapazes de compaixão?

Eu preciso me comunicar, para isso, escrevo; canto; faço canções. Para sair de mim e me conhecer através do espelho do olhar do outro. Essa é a minha condição; a de sêr da linguagem. É assim que eu me inscrevo no mundo; como um ser dotado da capacidade de pensar sobre si mesmo e num ato de “conatus”, comunicar sua presença: eu falo, logo, manifesto a minha existência num ato moral; que é falar o que penso, e com isso provocar uma ação sobre o real.

Eu sou um ser ético. Tenho a responsabilidade sobre o que acontece comigo e com o outro com quem me relaciono. Eu sou por natureza um ser político. Eu não sou um animal; um ser vivente que sente apenas dor e prazer. Eu tenho consciência do que sou e por isso faço escolhas. O que aconteceria se eu deixasse de acreditar nisso e passasse a pensar e a agir, ou a não pensar e a não agir, desacreditando no que tenho a dizer, na linguagem ou no poder de ação dos meus atos?

Aconteceria o que acontece hoje. O mundo não é aquilo com o qual eu me identifico. O mundo é algo diferente demais de mim. Porque ele não é fruto da minha razão, do meu desejo, da minha imaginação e da minha ação. Ele é fruto da minha ausência. Da ausência do meu pensamento, do meu ato e da minha criação.

Imprevisibilidade, caos social, brutalidade. Para enfrentar o problema: uso da força pura, arbitrária, formando um estado de exceção, de violência descontrolada. Em qualquer esquina, bala perdida. Em qualquer hospital, desrespeito a vida elementar e a dignidade do ser humano. Vidas interrompidas por nada; vidas que não valem nada. Apesar de vivermos num estado de direito, com punições para delitos de todas as ordens; do mercado financeiro ao crime comum; temos nossas vidas desrespeitadas num abandono de todas as instâncias do poder institucional, e em todas as áreas da ação humana, da educação à saúde.

Não há como negar, o tecido social se esgarçou de tal maneira pela corrupção dos burocratas, pelo egoísmo das elites, pela alienação da classe artística; pela miséria intelectual e afetiva de grande parte dos grupos sociais, que fica difícil imaginar como seremos capazes de sobreviver ao acumulo de tamanha alienação.
Se não resgatarmos a nossa dignidade como seres políticos dotados de razão ficará simplesmente impossível manter a vida minimamente administrável. Não é mais possível continuarmos a viver assim. É preciso reagir já e em todas as instancias das relações. Da familiar a publica. É preciso promover um programa de educação para formação ética e moral da cidadania a fim de se trazer de volta os verdadeiros valores humanos. Valores pelos quais vale a pena trabalhar, sofrer, viver e lutar; valores que justificam a existência.

Bombardeados diariamente por imagens e sons, onde não nos reconhecemos mais, vivendo em função de satisfazer demandas totalmente supérfluas, criadas pela indústria de consumo e entretenimento, fascinados por uma tecnologia vazia de conteúdo, sem aura, sem alma, sem espírito humano criador, estamos cada vez mais nos apequenando como seres humanos e nos tornando coisas virtuais; totalmente descartáveis; deixados a morrer nas filas de espera; nos subúrbios, nas zonas de risco; nas periferias; desempregados; informais; provisórios, como objetos.

Não, nós não somos lixo. Não somos máquinas. Não somos animais. Somos seres da linguagem. Somos poetas. Somos arquitetos do mundo. Somos políticos.

Vamos pensar para votar certo. Vamos confrontar idéias. Falar com os amigos, os vizinhos. Ler e estudar. Vamos participar da vida social e política. Desde a reunião do condomínio até a reunião na escola dos nossos filhos. Temos que refazer o tecido social que se rompeu. E só poderemos fazer isso se sairmos de nós e lutarmos pelos nossos direitos. O Estado deveria ser de direito, mas o direito foi pro escambau. As instituições são governadas por seres humanos falhos. Temos a obrigação de tirá-los de lá porque fomos nos que os elegemos. Temos que lutar para inverter a relação de forças. Por uma ação firme, sem violência, por um mundo de escuta e de delicadeza.

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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