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13/10/2010 - 16:51

Os labirintos da política

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Temos o mesmo direito de nos enganar

Nessas semanas que antecedem a votação para segundo turno das eleições presidenciais muitas dúvidas restam no ar. Para os eleitores de Marina Silva então nem se fala. Como uma cidadã em confronto com a própria consciência, saí em busca de algumas respostas, antes de tudo, para resolver em quem votar. Encontrei na filosofia de Sponville algumas pílulas para pensar. Divido com vocês então, algumas dessas reflexões. No entanto, não manifestarei aqui o meu voto. Deixo para vocês a leitura que acharem mais pertinente. Boa sorte!

“Todo poder é opressor, mas nem todas as opressões se equivalem. O poder da burguesia não é o dos assalariados, um governo civil não é uma junta militar, uma democracia não é uma tirania, as liberdades individuais não são o terror.”

“Nem todo Estado é totalitário: cabe a nós lhe impor, como seu exterior, o espaço livre de nossa ação – o que chamamos de direitos humanos, que nunca são nada mais do que os fazemos ser, antes de mais nada as próprias forças do individuo, tais como são limitadas e protegidas pelas forças do Estado contra todas as forças (inclusive estatais) que a ameaçam.”

“O direito não passa de um fato de forças. Todo poder é opressor (já que é poder), mas nem todo poder é absoluto. Cabe a nós delimitar (quantitativamente e qualitativamente) a opressão que suportamos.”

“É por todo poder ser opressivo que não há liberdade possível, para o indivíduo, senão na limitação de fato do poder. Todo direito tem que ser conquistado ou defendido: a liberdade também é um combate. Cabe a nós impor – ou manter – a nossa. É a única paz válida. Porque toda paz é a continuação da guerra, mas nem todas as pazes se equivalem; e a paz que queremos é a nossa!”

“O Estado é um organismo de classe, um organismo de opressão que permite que uma classe oprima a outra, uma maquina destinada a manter na sujeição de uma classe todas as outras classes que dela dependem. O Estado é o produto e a manifestação do fato de que as contradições de classe são inconciliáveis. Todo Estado, inclusive o mais democrático, é opressor, ditatorial, mesmo o mais democrático, pois a democracia nunca é mais que uma das formas possíveis – e, decerto, a melhor – da ditadura de classes.”

“É por isso que o Estado tem, como se diz, o monopólio da violência legitima, pois ele é a violência que se impõe como legitimidade, como legalidade.”

“As formas do Estado burguês são de uma maneira ou de outra uma ditadura da burguesia. Todo Estado operário, por mais democrático quê seja é uma ditadura do proletariado; isto é, o protelariado organizado em classe dominante.”

“O problema não é pelo menos por enquanto, suprimir a opressão. Mas substituir uma opressão por outra. O resto não passa de sonho e utopia.”

Só podemos escolher nossa forma de opressão. Um mundo mais justo significa lidar com os homens como eles são agora.

“Governar é optar contra alguém e em função do interesse de outro.”

“Indivíduos sempre estão errados ao quererem reservar seu quanto-a-si em política, ao se gabarem – apoliticismo ou não – de ter uma posição tão pessoal, tão original, tão preciosa, tão rara, que nenhum grupo natural será capaz de exprimir sua essência singular…”

“Não há política individual, não apenas porque todo desejo humano é social, mas também porque só há política da força e porque o individuo, todo individuo, é fraco. Mesmo o “grande homem” precisa de um povo, de um partido, de um exercito.”

“A política é esse lugar em que o desejo solitário se defronta com os outros desejos, num sistema sempre dado de alianças e de conflitos. A política é a coletividade de desejos. Logo, só se pode escolher seu grupo e isso vale para os que rejeitam todos eles: formam assim outro, ou vários, do mesmo modo como os que “não-fazem-politica” a fazem sim, à sua maneira, por essa própria recusa.

“A única escolha que temos é de nossa submissão (o próprio líder se submete: senão, não seria líder), e a política é, nisso, mestra da humildade.”

“Não há política individual, e não há indivíduo sem política.”

“O melhor grupo é o menos ruim. E temos o mesmo direito de nos Enganar.”

André Comte-Sponville – Os labirintos da política

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
30/06/2010 - 09:08

Cazuza: um cara que sabia dizer o que as pessoas precisavam ouvir.

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Inacreditável como o tempo voa! O tempo não para, dizia Angenor de Miranda Araújo Neto, nosso querido Cazuza. Não para, voa, e há vinte anos parece querer mudar a face do mundo.  Mudar pra continuar igual? Um museu de velhas novidades, diria Cazuza.

Hoje, não comemoramos o aniversário da morte do poeta. Não queremos a morbidez no processo de celebração. Se Cazuza estivesse vivo teria 52 anos. Um jovem senhor, como o tempo, esse tecido que costura as nossas vidas?

Penso em Cazuza e por que não, em Ezequiel Neves, soprando ao meu ouvido mentiras sinceras do liquidificador da vida. É aí que mora o amor? Esse outro, que é também senhor e que fala de um nós que ainda urge? 

Chegou tão tarde. Tarde demais pra mim, e tão cedo pra ele, que não conheceu computador, celular, e-mail, twitter. Como ele teria gostado! Todos esses badulaques ao alcance da cabeça impressionista, mestre em frases curtas: as torres gêmeas caindo, a célula artificial, o cabelo cogumelo atômico; tudo interessava a ele, principalmente o humano. Mentiras sinceras, meu bem-meu mal, não separar o sim do não, a vida da morte, o eu do outro. Passional? Absolutamente e totalmente. Cazuza se movia além da paixão, por compaixão: “Quem sabe eu ainda sou uma garotinha? Por que não me convidaram para essa festa pobre? Porque já fomos perdoados, já passou e eu já posso entender a inocência do prazer! Então fala baixo, fala baixo e sente, eu vou te dar um presente.”

Deu-nos mais do que duzentas e não poucas canções, sua presença. Nada pragmático, compunha aos borbotões. Nada tecnocientífico, no entanto, racional, sem perder a ternura. Alberto Caeiro, o alter-ego mais genial de Pessoa. Não era um porra-louca. Deixou aos 32 anos uma obra, seguindo a tradição dos grandes artistas que admirava: Allen Ginsberg, Vinicius de Moraes, Janis Joplin, Ângela Rôrô, Lupicínio Rodrigues; Clarice Lispector, só pra citar alguns.

Foi meu amigo. Uma inspiração. Com quem eu dialogava artisticamente. Quebrou minha cabeça e as minhas resistências. Quando nos conhecemos em 82 eu acabara de voltar da França, ele da Califórnia. Eu mais existencialista, ele beatnick. Cantamos juntos no palco. Ele de joelhos, literalmente, eu aos seus pés, desconsertada. Participou do meu primeiro disco solo, Délica, chegando ao estúdio atrasado. Esperei tanto que caí de pileque. Gravamos a voz juntos, alterando as falas. Eu sempre aprendendo. Entrega e controle. Ligar e desligar. Poderia parecer que não, mas ele sabia exatamente o que fazia.

Antes de ir para Boston passou no estúdio pra me ver. Tinha gostado de uma canção que eu tinha mostrado pra ele durante uma festa. A música falava dele. Mas como? Foi ao estúdio aonde eu ensaiava pra ouvir de novo. Coincidência? Empatia? Sei lá, nós nos espelhávamos e pronto. Contou pra mim da doença e viajou. Quando voltou, era uma pessoa diferente: ”Eu vi a cara da morte e ela estava viva”, dizia a letra de Boas Novas. Lembro-me de na época ter ficado muito impressionada com a força poética dessa frase: “Esse cara é foda”, pensei, “que talento pra sintetizar uma experiência, que capacidade de sublimação maravilhosa”. Chapei! Inspirada na letra de Boas Novas compus O Poeta está vivo. Sem musica ainda, mostrei a letra pra ele, meio envergonhada de pretender escrever alguma coisa à altura da sua verve e do seu sofrimento. Estávamos no apartamento da Lagoa. Ele escutou atentamente e disse: “você está escrevendo melhor do que eu”. Eu sabia que não, mas esse era o Cazuza: um cara que sabia dizer o que as pessoas precisavam ouvir.

Mostrei a letra uns tempos depois para Denise Barroso, irmã de Julio da Gang 90, amiga também do Cazuza e uma das personalidades mais importantes da nossa geração. Denise me disse: “Dulce, por que é que você não mostra pro Frejat essa letra. Quem sabe sai alguma coisa?”

Encontramos-nos, eu e Frejat, no apartamento dos seus pais no Flamengo para gravar a demo da canção. Frejat ainda dividia o quarto com o irmão Mauro e morava com os pais. A demo foi gravada e arquivada num k7 solto por aí, anos, sei lá. Não sei exatamente quanto tempo depois ela seria resgatada pelo Ezequiel, fechando o repertorio do Na Calada da Noite, o primeiro LP do Barão Vermelho após a morte do Cazuza. Inicialmente a canção ganhou o nome de Moinhos de Vento, só depois passou a se chamar O Poeta está Vivo, titulo dado pelo Ezequiel, cérebro, espírito, pai e pau pra toda obra do Barão e do Cazuza.

Momentos que tive com Cazuza: Ao lado da lareira perto do fogo, sua cabeça no meu colo; tomando conhaque antes de entrar no palco; tomando esporro por causa de namorado; na praia com os cachorros; no Baixo com Dé; no Vale Florido onde tínhamos casa; com Bineco Marinho, Iara Neiva, Waleska, Aninha Arantes, Bebel Gilberto. São tantas as lembranças que não caberiam aqui nessa lauda, nessa contagem de caracteres, assim como parece não caber nesse tempo corrido, todo o tempo que precisamos para gerar, alimentar, cuidar e fazer viver um Angenor igual ao Cazuza.

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): cultura pop, ficção ou realidade?, letra de musica Tags:
25/05/2010 - 12:12

Conatus

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Rio conecta conatus

Da paixão ao ato

Afeta meu corpo

Idéia dura

Regenera-me

Regenera-se

Porque somos nós

E aqui é a nossa casa

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
07/05/2010 - 22:33

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Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
09/04/2010 - 11:21

Bim Bom, Carioca, Cê e Novos Futuros!

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Ainda sobre a Entrevista do Romulo e respondendo a algumas questões que ficaram no ar.

Li com atenção a entrevista e reagi emocionalmente a ela num primeiro momento, mas discordo daqueles que aqui afirmaram que eu distorci o que ele falou. Eu não distorci, eu discordei de alguns pontos de vista. Então fica combinado que concordamos em discordar. Que um debate pressupõe idéias diferentes.

No que discordei:

1 – A Biscoito Fino hoje é a maior gravadora independente do mercado. Apesar de ter grandes nomes no seu cast, como Chico e Bethania, contem na maioria dos seus contratados, artista que vendem em torno de 1.000 CDs. Não tem como disponibilizar o seu catalogo para download gratuito senão quebra. O Radiohead pode oferecer ao seu público um disco novo e dizer que cada um paga o que quiser para baixar as suas musicas. Faz show no mundo todo, tem uma renda de um catalogo de sucessos que pode sustentar as eventuais perdas que possam vir a acontecer. Mas quase todos os artistas independentes da Biscoito estão nas mesmas condições que eu e o Rômulo, temos que ter outras atividades para sobreviver.

OBS: A Biscoito Fino é uma gravadora que fica numa casa e onde trabalham praticamente estagiários. O único cara que recebe salário mesmo é o engenheiro de som.

2 – Quanto aos arranjos do Luiz Claudio Ramos no disco do Chico. Luiz Claudio é antes de tudo violonista e segue o que de melhor a tradição do violão brasileiro nos deixou. O sincopado joaõgilbertiano, o chorinho, o samba canção e a valsa, legados dos grandes da MPB. Seus arranjos orquestrais para Carioca foram construídos, com algumas exceções, sobre a espinha dorsal desse violão autoral, mesmo violão que se encontra em grande parte na arte dos grandes compositores brasileiros, entre eles o próprio Caetano. Isso me lembra um livro que li alguns anos atrás chamado “Bim Bom, A contradição sem conflitos de João Gilberto”, de Walter Garcia, com apresentação de Caetano Veloso. Me lembrei de Walter Garcia por causa do baixo de Jorge Helder em Carioca. Walter discorre na sua dissertação de mestrado sobre a função do contrabaixo na bossa nova. Mas enfim, isso é outra discussão. O que estou querendo dizer aqui é que não há nada gratuito e sem sentido na orquestração de Carioca. Tudo foi muito pensado sob uma tradição que se construiu em um século de musica.

3- Aqui chego ao ponto onde queria chegar. Hoje não podemos dizer que há somente uma linha evolutiva na MPB. Muito pelo contrário. O que se apresenta agora são muitos caminhos e muitas possibilidades de futuros. Isso me remete também a uma fala do físico e filosofo Luiz Claudio de Oliveira: a aceleração do tempo e o encurtamento das distancias entre culturas diferentes provocou uma dobradura no tempo. Hoje vivemos em vários níveis diferentes de presentes e em outras dimensões. Logo muitas possibilidades de futuros se apresentam.

4 – O Cê do Caetano é uma. O Carioca do Chico é outra. O Rômulo está lá no samba dele. Eu tento trabalhar com o sincopado do meu violão procurando aprender com todos para traçar a minha linha de fuga, a minha trajetória como artista. Não tem nada errado. Está tudo certo. A questão principal é: De onde você está falando, ocupando que função de autor, esgarçando qual tradição, com qual consciência de si e do outro.

Obrigado mais uma vez pela possibilidade do debate construtivo e regenerador.

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/04/2010 - 13:30

Fechamento

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Para encerrar o que eu tinha a dizer, pelo menos até agora, já que o feriado chega ao fim e a vida urge lá fora, gostaria de passar a palavra para dois jornalistas, críticos de musica, de dois dos maiores jornais do país. Faço isso talvez para generosamente responder a um leitor, que infelizmente não pode ter uma resposta a sua altura. Deixo com eles então a palavra, porque antes de tudo não sou cabotina, mas também não levo desaforo pra casa. Ainda mais aqui na minha pagina. Publiquei todos os comentários que me foram proferidos, mas agora me calo e volto pra composição que é o meu ambiente de trabalho. E só pra completar: já aconteceu, está acontecendo e ainda vai acontecer. Quem viver verá!

O ESTADO DE SÃO PAULO

 

Quarta-feira, 03 de novembro de 2004  

 Dulce Quental tira o pop da mesmice em novo álbum

O disco inédito de Dulce Quental é uma das duas ou três melhores notícias do ano na música brasileira

Ouça a faixa Beleza Roubada

São Paulo – O disco inédito de Dulce Quental é uma das duas ou três melhores notícias do ano na música brasileira. Ela não lançava um álbum desde o LP Dulce Quental, de 1988. Música inédita gravada por ela desde então, só Quando, faixa de abertura da sua compilação na série de CDs Para sempre, de 2001. No meio tempo, cuidou da prole e da composição. Agora, felizmente, Quando retorna com 11 novas canções em Beleza Roubada (Sony/Cafezinho Music).

Apesar de ter sua produção-solo na década de 80 – além do LP já mencionado, Délica (1986) e Voz Azul (1988), nenhum dos três lançado em CD pela EMI – alinhada a uma certa new bossa que vicejava, Dulce sempre assinou algumas sutis inflexões blueseiras. A serena melancolia de seus versos e doce balanço a caminho do mar de suas melodias colocaram sua obra a salvo da descartabilidade do Sempre Livre, sua primeira aparição no front da música pop brasileira, a ‘girls band’ do sucesso Eu Sou Free. Se em seus primeiros LPs, Dulce já havia nos legado belezinhas como Tudo É mais e Não Atirem no Pianista, no seu período de recolhimento, ela acrescentou tabelinhas com Roberto Frejat (Pedra, Flor e Espinho) ou com o Cidade Negra (Cidade Partida). Esse diálogo com o BRock e seus primos sempre marcou a carreira de Dulce. Ela gravou Herbert Vianna, Engenheiros do Hawaii e Hojerizah. Em Beleza Roubada, além de Zélia Duncan, são parceiros Moska, Frejat e Thiago Trajano.

No CD, porém, há um clima intensamente literário, como se ela tomasse seu capuccino no bistrô da Livraria da Travessa da Visconde de Pirajá com o intuito de fazer a música pop pensar e sair da mesmice. Isso faz com que haja “participações especiais” do poeta ‘beat’ americano Allen Ginsberg e do recém-falecido escritor mineiro Fernando Sabino.

Ginsberg é ouvido em Conferências sobre o Nada, dela com Frejat, recitando versos de Nota de Pé de Página para Uivo. Sabino é ouvido em O Escritor, num trecho do fonograma O Grande Mentecapto, composição de Francis Hime.

Musicalmente, acompanhada por Vinicius Rosa (violão e guitarra), Renato Fonseca (teclados), Damien Seth (programação) e Sacha Amback (teclados, baixo e programação), Dulce atualiza o seu bossa’n’blues com discretos toques de eletrônica que ajudam o ouvinte a estabelecer os elos tanto de uma Bebel Gilberto quanto de uma Adriana Calcanhoto com o passado. Porque Dulce Quental, mesmo tendo optado por se manter em segundo plano durante toda a década de 90, de certa forma nunca deixou a boca de cena. Sua nova produção deve estimular pencas de novas cantoras século 21 afora.

Arthur Dapieve

O GLOBO

 

SEGUNDO CADERNO                                                                   

Rio, 26 de outubro de 2004

Canções de (anti)exílio

Amorosa Rosa Passos

Beleza roubada – Dulce Quental

Hugo Sukman

Dulce Quental quase não saiu de Ipanema para ambientar as 12 canções de seu primeiro disco em 15 anos, “Beleza roubada” (Cafezinho Music/Sony). “Farme, Vinicius, Redentor/Baixo Leblon, você me raptou/Bar Lagoa e cinema, Estação Ipanema/Minha Nossa Senhora da Paz”, delimita na neobossa “Ipanema”, o Baixo Leblon como limite máximo de alguém que quer cantar tolstonianamente a sua aldeia.

Rosa Passos foi a Nova York, Los Angeles e Paris para gravar “Amorosa” (Sony), uma espécie de busca da batida perfeita, a batida de João Gilberto, por uma cantora e violonista que já foi, pela voz pequena e pela inventiva divisão rítmica, chamada de “a João Gilberto de saias”. “Ouvindo atentamente na vitrola/Seu jeito encantado de cantar/Eu tento resistir aos seus acordes/Mas só consigo me apaixonar”, confessa Rosa no samba sincopado “Essa é pr’o João”, que foi tão longe para também delimitar uma geografia, uma aldeia, só que estética.

Discos opostos dizem muito do estado das coisas da MPB

São discos opostos em tudo. “Beleza roubada” é eletrônico na sonoridade programada por Sacha Amback ou Damien Seth, literário no conteúdo. “Amorosa” é acústico no quarteto de piano, baixo, bateria e percussão que acompanha o violão de Rosa e na orquestra conduzida pelo argentino radicado nos EUA Jorge Calandrelli (arranjador do “Catavento e girassol” de Leila Pinheiro), e reverente a um conteúdo de canções já gravadas por João Gilberto, sobretudo as do LP “Amoroso”.

Ambos os discos, contudo, encontram-se no que dizem sobre o estado das coisas na música brasileira, uma música hoje estranhamente marcada por exílios. Seja o auto-exílio de Dulce, que se privou de gravar (mas nunca de compor com Moska, Frejat, Zélia Duncan, entre outros) por 15 anos, talvez por falta de lugar e sensibilidade ao seu pop-pensante. Seja no exílio, agora literal, de Rosa, que, como tantos músicos brasileiros que trilham sutilezas harmônicas, tem nos EUA, e de lá o mundo, seu imenso mercado global desbravado há mais de 40 anos justamente por João Gilberto.

Dulce Quental volta do exílio sem abrir mão de suas convicções, talvez porque o mercado em frangalhos já não tenha forças para conter certas ousadias. A dela é fazer canções pop cheias de, mais do que referências, uma ambiência literária. Ambiência que é explícita já na canção-título: “Ali entre milhões de livros descobri/Meu desconhecimento do mundo conheci/Ali, entre Foucault e Shakespeare/Todas as dores do amor experimentei/Toda beleza roubada encontrei”, diz em “Beleza roubada”.

Nem tudo é tão explícito no disco de Dulce, que, na verdade, é literário mais no espírito: ouve-se com a mesma sensação de quem lê um conto. Vamos supor que um conto sobre uma mulher peripatética, que passa os dias andando pelas ruas de Ipanema, observando tudo e tendo encontros fortuitos numa “Ipanema tão vítima da moda/Assim como eu, andarilha das esquinas”. Um encontro, por exemplo, narrado na canção “O escritor”, com Fernando Sabino. Em velho depoimento gravado, o escritor tão a ipanemense quanto Dulce irrompe a canção para dizer: “Eu gostaria de liberar o menino que existe aprisionado dentro de nós para olhar a vida através dos seus olhos como se fosse pela primeira vez…”.

Logo na faixa seguinte, “Receita de felicidade”, Dulce mostra como aprendeu a lição literária de Sabino: “Misture as palavras certas/Nuas de falsos sentidos/Que as palavras leves/Te carreguem pros campos felizes (…) Pronta você estará/Para a chegada da infância/A inocência te abandonará/Pois o poeta é também criança”, canta Dulce antes de entrar uma voz infantil cantando “Bolinha de sabão”, de Orlandivo, inocência e sutileza em forma de música.

Os encontros literários do conto/disco de Dulce, como com o poeta da beat generation Allen Ginsberg em “Conferências sobre o nada”, não prejudicam o clima ensolarado e pop do disco. A lição de simplicidade de Ginsberg (que também aparece recitando) é a mesma de Sabino: “Na noite escura da longa jornada/Você me deixou um presente/Uma onda num verão ardente”.

Revelador — e isso diz muito — que musicalmente Dulce recorra sempre à bossa nova. E que, num disco em homenagem a João Gilberto, Rosa Passos se utilize mais das síncopes características do samba dos anos 40 e 50 e do repertório pré-bossa (“Pra que discutir com madame”, “Eu samba mesmo”), pós-bossa (“Retrato em branco e preto”, “Wave”, “Você vai ver”) e standards (“Besame mucho”, “S’wonderful”) recriados por João.

Na verdade, neste seu exílio, Rosa parece querer recuperar para a música brasileira o legado de João Gilberto para a música mundial. A última homenagem a João e ao “Amoroso” foi de Diana Krall em “The look of love”, que chegou a convocar o arranjador original do disco, Claus Ogerman, mas que, de João, pegou só a caricatura. Rosa, não, vai no que João Gilberto tem de mais genuíno, a reinvenção constante do samba. O exílio de Rosa lá fora e de Dulce aqui dentro serve para aproximá-las do Brasil.

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
04/04/2010 - 11:38

Acordando sobre o assunto

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Queridos,

Depois de uma noite dormida. Depois de dormir sobre os comentários de vocês. Enfim, continuo a tagarelar, me desculpem alguns que se incomodam tanto com o que eu falo. Tem gente até achando que eu estou zozó. Tem gente achando que estou na menopausa. Que quero aparecer. Mas eu só quero agradecer. E só estou falando da minha experiência. Do meu ponto de vista. Aqui nesse espacinho onde me expresso. Quem quiser pode me visitar. Não vou barrar nenhum comentário. Mas ofensa pessoal, indelicadeza eu vou cortar oK! Então fica combinado.

Depois de dormir sobre a tréplica e o entrevistão do Rômulo faço uma meia culpa aqui e confesso que me identifiquei, mais do que me dei conta num primeiro momento, com a fala dele. Talvez por ser um pouco parecida com a minha ou por ter passado por situações que me lembraram as agruras do passado, o caminho das pedras que todo artista tem que trilhar.

Eu também já fui capa do Estadão e da Folha. Também lancei meus discos com criticas geniais por todo Brasil. E da mesma forma que acontece com ele, nada aconteceu. Isso porque só matéria boa no jornal não fura o bloqueio das rádios, não vende show.

Dito isso, gostaria de contar uma pequena história que aconteceu comigo. Não para me exibir viu gente! Mas para deixar aqui o depoimento da minha trajetória singular como artista. Os que não estiverem a fim de escutar esse é o momento.

Quando saí do Sempre Livre fui procurada pelo produtor da banda, na época uma pessoa já muito influente no meio. Esse cara esperava que eu o chamasse para produzir o meu primeiro disco solo. E eu recusei. Recusei porque buscava outros caminhos, outros sons. Enfim, anos mais tarde esse cara assumiu a direção musical da rede de TV mais importante do país e há trinta anos escolhe e opina sobre as canções que vão entrar na trilha das novelas da emissora. Eu nunca mais consegui colocar uma canção minha numa trilha. Algumas entraram meio que por acaso. Mas ele fechou totalmente as portas para mim.

Em 89, depois de gravar o meu terceiro disco pela EMI terminou o meu contrato. A gravadora quis renovar e renovamos por mais três discos. Discos esses que nunca foram gravados porque seis meses depois da renovação eu saí da gravadora. Por que saí, num momento em que todo mundo fazia de tudo para se segurar, inclusive toda sorte de concessão?

Porque superestimei o meu poder no mercado. Porque me recusei a fazer certas concessões. Porque me faltou inteligência emocional para lidar com questões que envolvem um negocio que é arte, mas também indústria. A fábrica não pode parar para fabricar um produto que não vende. Custo e benefício. Eu não consegui resolver totalmente as minhas contradições. E porque também me faltou preparo, tempo, estudo. O sucesso veio rápido demais e de maneira errada, eu não estava preparada. Mas será que estamos ou estaremos algum dia?

O diretor artístico na época queria indicar o Mazola para produzir o novo disco e eu achava que não tinha a ver comigo. Que ele não seria capaz de entender o que eu buscava. Naqueles tempos não havia produtor para musica pop. Só Liminha. Não tinha técnico de som, com referencias próximas as da nossa geração. Era tudo tão precário. O cenário tão sem alternativas.

Percebi que a partir daí, para continuar gravando, eu teria que fazer concessões ao repertório, gravar o que eu não queria. Avaliei então, que com o nome que eu já tinha, com os quatros LPS gravados, eu poderia me virar sozinha, sem gravadora. E fui fazer show. Pequenos shows. Intimistas, que tinham Herbert Vianna na platéia e Bebel Gilberto, e Ezequiel Neves, meus amigos. E eu cantava Cole Porter, Arrigo Barnabé, Caetano, Luis Melodia. Cantei até não dar mais. Minhas ultimas apresentações foram no Uruguai, Paraguai, Argentina e Chile, numa mini tournée pelo chamado MERCOSUL, fazendo workshop com alunos de musica.

E aí fui estudar jornalismo,me casei, tive uma filha. Tive que cuidar da cabeça. Recomecei a compor. Para Barão Vermelho, Cidade Negra, Leila Pinheiro e Ana Carolina. Com Moska, Zélia Duncan, Ezequiel, Frejat e Celso Fonseca.

Fiz um disco independente em 94, com Nilo Romero, produtor de Cazuza. Nesse disco tem Jaquinho Morelembaun, Sergio Dias, até então também no ostracismo, e um bando de músicos novos. Disco gravado na casa do Nilo. Guitarra no banheiro. Em fita Adat, porque não existia ainda o pro tools. Corri as gravadoras com esse disco, mas quem eu encontrava quando batia na porta? O meu diretor artístico da EMI. Que migrou depois pra Sony e depois para a BMG, enfim. Eu não tinha mais para onde ir. Fiquei quase 14 anos sem gravar. O mercado teve que mudar. Os independentes se profissionalizarem. Até chegar 2004, quando vendi meu carro, larguei o trabalho na livraria e fui gravar “Beleza Roubada”, com cinco mil pratas no bolso, grana financiada pelo meu colega de jornalismo, hoje dono do Cinemateque e do Teatro Odisséia na Lapa, mais meia dúzia de amigos. E aí pega direito autoral daqui, mistura as despesas da casa com as do disco, até ficar sem um puto no bolso. O disco é distribuído em Portugal, você embolsa alguma grana pra pagar a remasterização e o rombo do estúdio. Consegue mais uma grana lá com a Sgae, licenciando o produto para a Espanha. Se filia a Central Digital para pode receber os direitos digitais no mundo todo. Enfim, consegue que o disco saia no Brasil pela SONYBMG, isso porque mudou a galera de lá e agora tem uns caras que entendem o que vocês esta fazendo; até porque eles não tem produto pra lançar, não tem dinheiro pra gravar. Estoura o auge da crise da industria. O mercado no Brasil cai 80%. Os artistas não tem para onde ir, onde gravar, quem os distribua. Surge então a Biscoito Fino. Corre todo mundo pra lá. Mas e os novos, alguém perguntou, lá só tem gente de 50 pra cima?

Eu não falo pela Biscoito, mas da minha experiência de 30 anos de indústria, como artista, como produtora fonográfica, como autora e compositora e como prestadora de serviço em ponto de venda, livrarias especializadas em musica, marketing especial, coisa que fiz na Travessa e no Armazém Digital.

Uma gravadora tem que formar catálogo. É o catálogo que gera receita a médio e longo prazo e que possibilita a sobrevivência do próprio negócio. Os novos certamente chegarão a Biscoito. Acredito que não chegaram ainda porque a casa está sendo arrumada e também por que não dizer, o negócio todo. Eu acredito que a massa ainda comerá os biscoitos finos que o Rômulo produz. Estou torcendo pra isso e da minha parte farei o que for possível para que isso aconteça. Nem que seja apenas gravando uma de suas canções. Agora eu não tenho todas as respostas, não sou dona da verdade, não sei ler o futuro, conto a minha história e vivo e escrevo a minha ficção. Estou ainda indo à luta como uma iniciante Quero morrer brigando, discutindo, escrevendo e se puder cantando e tocando junto com vocês.

Saudações!

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/04/2010 - 23:10

Um gato aos pés do Rio

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Um Gato Aos Pés Do Rio
por Dulce Quental

18/06/06

Ele faz cinema, ele faz cinema, ele é demais! Aprendeu o domínio da linha do tempo com a literatura e hoje é a maior expressão da Música Popular Brasileira. Escreve romances e faz músicas que levam anos pra amadurecer. Quando prontos, caem sobre nós com um poder que só o sabor da fruta fresca tem. Ele é Chico Buarque, carioca, poeta, escritor, homem, amante; um gato aos pés do Rio; a mais perfeita tradução dessa cidade; que há de penar para estar a altura de tamanho criador.

Seu novo disco Carioca é encantador. Mas não pega agente de primeira; não é como aqueles amores à primeira vista; não; Carioca é um conquistador contemplativo; vai se insinuando aos poucos; quando vemos, virou trilha sonora das nossas vidas.

Chico é uma ilha de tranqüilidade e sofisticação dentro do caos do Rio. Um homem delicado, com alma feminina. Ama de verdade as mulheres. Arrisco a dizer que, igual a ele, só tivemos Vinícius; não é à toa que no filme de Miguel Farias a melhor definição do poeta tenha partido de Chico.

Mas o que faz de Carioca um disco excepcional a cada audição é sem dúvida nenhuma a contribuição do violinista e arranjador Luiz Cláudio Ramos que acerta em cheio na criação da atmosfera do disco. Luiz Cláudio criou uma moldura mais do que perfeita para a voz e a poesia de Chico ao optar por criar uma espécie de trilha sonora para cada canção, como se cada obra individualmente fosse o plano de um filme, composto de partes e movimentos, como numa sinfonia.

Para isso, deu um acabamento clássico às canções inscrevendo-as dentro de uma sonoridade atemporal; ao escutarmos Carioca temos a impressão de estar flanando sobre uma linha de tempo; como se estivéssemos suspensos, assistindo nossas próprias vidas passarem, enquanto vivemos.

Não seria essa a função da canção popular, fazer com que o ouvinte tenha a impressão que o que está sendo cantado, não só é possível de acontecer, como esta acontecendo no momento exato em que a canção está sendo tocada? Essa sensação de aproximação, de intimidade com o interlocutor, é a grande arte da canção. Ao aproximar o canto da fala, e criar uma dicção própria, o compositor se torna para o ouvinte uma espécie de confidente, sussurrando conversas intimas ao pé do ouvido.

Se além da habilidade com as palavras ele for também um bom melodista, o serviço estará completo, pois é a melodia que carrega o texto e transporta a experiência. No caso de Carioca, eu diria que os arranjos de Luiz Cláudio Ramos deram milhões de outras vozes às melodias de Chico, de modo que essa sensação de ser transportado para um outro lugar, um outro espaço, essa sensação de transcendência que a canção evoca, se materializou de forma perfeita tornando Carioca, um clássico instantâneo da Música Popular Brasileira.

Instrumentos como clarinete, flauta, violoncelo, acordeom, tuba, banjo, pandeiro e violão, sob a regência de um maestro a serviço da poesia, fazem de Carioca um manifesto de delicadeza. Em todos os meus 46 anos de praia nunca escutei tamanho requinte num só álbum, nem mesmo no clássico LP Amoroso de João Gilberto, regido por Claus Oberman. Talvez encontremos paralelo na Obra de Jobim, com seus arranjos polifônicos, mas pra mim, Carioca é um disco inaugural, uma espécie de marco na MPB. Escuto nele as infinitas possibilidades de se sonhar uma música popular brasileira e universal; uma música que se projete no mundo contemporâneo com o que de melhor ela criou; nos fragmentos de discurso amoroso de Carioca podemos encontrar o melhor da nossa tradição; do choro ao samba, da valsa à bossa, passando pelo baião e pelo rap-repente.

Não saberia dizer, quais das canções gostei mais. Acho que entre todas, minhas prediletas talvez estejam entre: Sempre, Outro Sonho, Ela Faz Cinema, a já conhecida parceria com Tom Imagina, Dura Na Queda, As Atrizes, Bolero Blues e Porque Era Ela, Porque Era Eu. Há frases de uma simplicidade latejante, mas que, ditas na hora certa, soam perfeitas, como em Dura na Queda: “A dor não presta, felicidade sim”, citação acidental de uma frase de Vinícius: “Tristeza não tem fim felicidade sim”.

Bolero Blues evoca com o seu atonalismo melódico um universo meio que esquecido pelos cariocas e previamente explorado pelas vanguardas paulistas, Arrigo e afins. Com uma letra absolutamente original de Chico e música de Jorge Helder, percorre três momentos distintos dentro de uma mesma linha de tempo, ao construir a sua narrativa evocando um sonho passado, fazendo-o acontecer no presente, e nos levando a antecipar o seu futuro. Faz assim cinema em forma de música pois cada imagem sintetizada numa cena se desenvolve como se estivesse na nossa frente, acontecendo no instante em que a canção se desenrola. Pura magia.

Em As Atrizes, o homem-poeta se desnuda com uma coragem que só costuma acometer mulheres. Chico dá como uma mulher; ele se entrega, se desarma e conclui com um paradoxo infalível: “com tantos filmes na minha mente é natural que toda atriz presentemente represente muito pra mim”; a palavra ‘represente’ aí toma uma dupla conotação irresistível, oferecendo dois pontos de vista diferentes: o daquele que representa como um ator para alguém e o daquele que como observador toma o que o outro faz como significante; as mulheres representam muito para Chico; interpretam, mentem, mas nem por isso deixam de significarem, pelo contrário, essa espécie de mentira sincera lhe interessa. Tanto, que em Leve, parceria com Carlinhos Vergueiro, apesar do poeta reafirmar a brevidade das relações, e a peculiaridade do querer masculino – “não me leve a serio, passou esse verão, outros passarão” – o homem Chico não deixa de expor a ambigüidade também do seu desejo – “meu coração parece que perdeu um pedaço”, “não se esqueça depressa de mim” – típicas de quem está também apaixonado e não quer perder o seu objeto de paixão.

Nesse sentido, parece haver um mapa escondido dentro da cartográfia de Carioca. Um mapa que se inscreve além das esquinas, ruas, cemitérios e quiosques da cidade. Podemos decifrá-lo seguindo as pistas que Chico nos oferece quando canta as possibilidades das relações amorosas nos dias de hoje.

Apesar do romantismo latente nas canções, o discurso de Carioca é duro e realista: o coração inflama, nunca estamos onde o outro está, há um lapso de tempo entre o olhar do nosso desejo e a realidade das nossas histórias; o mundo das bundinhas e peitinhos comuns é errante, lá nos perdemos e nos enganamos, com nossos eternos olhos infantis: “penso que todos os passos perdidos são meus”, conclui Chico em Renata Maria.

Para as mulheres segue algumas pistas; o ponto de vista de um olhar delicado; olhar de um homem e seu filme canção apontando novos sentidos.

Como ele nos filma?

Não devemos nos atirar do terraço, nem perder a cabeça. Melhor evitar muita cachaça e se possível levar a vida mais na brisa. Não levar os homens muito a sério. Ir devagar. Não esquecer suas marcas rápido demais, no entanto, deixar passar os amores; como passam as estações; como passam os verões.

Chico acende a esperança das cariocas: encontrar um amor de alma delicada num tempo de total brutalidade.

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
03/04/2010 - 16:12

Tréplica e outras coisinhas mais

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Queridos,

Antes de tudo gostaria de agradecer os comentários e me desculpar pelos erros de português. Ainda cometo muitos e o meu copy desk anda trabalhando demais e não teve tempo de me ajudar.

Agradeço especialmente ao Romulo pelo cuidadoso comentário e espero que possamos aproveitar a oportunidade para discutir idéias e ações e levar essa discussão para um outro nível que possa enfim, nos regenerar a todos. Digo isso porque a barra anda pesada pra todo mundo.

O que me incomodou no entrevistão do Romulo não foi exatamente o que ele disse, mas a maneira como disse. Para explicar isso talvez eu precise entrar na questão da própria composição.

Na minha experiência como compositora aprendi que o mais importante numa musica não é a letra e sim a melodia, a inflexão, o tom da conversa, e olha que eu sou letrista, de uma geração de canto falado, gritado, rock and roll. Mas enfim, tive que me render ao fato de que a melodia é que interpreta a letra, é ela que repassa a experiência do vivido para o ouvinte. A letra é claro, é importante, o som é importante, o ambiente, a definição da câmera escura, do espaço onde vai entrar o som é fundamental. O espaço vazio é tudo. Nesse sentido, falando aí do Chico, o fato dele se preocupar com uma cacofonia não pode ser interpretado como uma coisa menor ou menos importante que o som, entende?  Eu me coloco no lugar dele, eu que trabalho com a palavra, e fico me imaginando chegar ao estúdio na hora de gravar e descobrir uma cacofonia que estava na minha cara e eu não escutei. De repente o ouvido do outro me denuncia. Eu ficaria louca! Talvez para muitos, isso possa ser nada, mas para um cara que trabalha com a palavra é tudo. Alguém aí comentou dos meus erros de português. Enfim, eles me incomodam, mas vou tentando corrigir aos poucos. Eles não me impedem de escrever. Escrevo com erros assim mesmo porque dentro do contexto o erro não tem importância nenhuma. Ao mesmo tempo, pode dizer tudo, ser um ato falho, uma fala obscura, sei lá…O Outro me denuncia. Que bom! O movimento se constrói com o Outro no meu pé.

Então fica combinado que vamos trocando figurinhas. Que ninguém quis dizer o que disse e que a musica permanecerá nas nossas vidas custe o que custar.

Quanto aos arranjos de Luis Claudio Ramos. O Romulo não gosta. Eu achei o máximo! “Bolero Blues”, “Ela faz Cinema”, “Imagina”. Pra mim, “Carioca” é um clássico, e não é só pelo alto nível das composições, mas pela enorme contribuição do Luis Claudio Ramos. Foi o disco que mais me influenciou nos últimos anos e na minha humilde opinião não se compara ao Cê, do Caetano, é infinitamente melhor. Mas isso é muito pessoal. E acho que quando o Romulo emite essas “opiniões” do jeito que emitiu, está sendo pessoal, assim como eu agora. É só uma opinião, não é uma sentença.

Sandra de Sá pode estar fazendo discos parecidos com os que ela fazia antes, eu não sei, mas ela tem uma trajetória como artista que precisa ser respeitada. Enfim, muita gente fez concessão demais ao mercado. Muitos fizeram nada de concessão. Cada um sabe de si, mas depois não reclama.

Eu reclamo? Reclamo. Reclamo porque gostaria de viver de musica e não estou conseguindo. Fico evitando pegar um “job” qualquer –  isso porque já peguei e não agüentei -  achando que as coisas vão melhorar, mas não melhora. Só pioraJ

Agora, eu adorei o cuidado que a geração de vocês tem com o som. Se conseguir algum dinheiro para gravar meu disco esse ano prometo que vou procurar ajuda para tirar um som melhor que “Carioca”. Quem sabe não será essa a contribuição original, e por que não dizer histórica da geração de vocês?

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
02/04/2010 - 18:39

Desabafão ou Uma Coisa Diferente

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“A massa ainda comerá o biscoito fino que eu produzo”

 Oswald de Andrade

Hoje é sexta-feira da paixão e em vez de apaixonada aqui estou eu mais uma vez me metendo em confusão. Meto o meu bedelho no que não me diz respeito porque aqui na minha casa mexeu com quem eu gosto mexeu comigo. Trocando em miúdos: mexeu com Chico Buarque, Luiz Claudio Ramos, Biscoito Fino, Kati Almeida Braga e Sandra de Sá, mexeu comigo. Diz-me respeito, fala de mim, me fala ao pau, ou como diria uma cantora amiga minha, mexeu com a minha passarinha.

O entrevistão, melhor dizendo, desabafão do artista plástico e musico Rômulo Fróis me tirou o sossego. Me fez sair do sério, não só por me obrigar a quebrar o meu silencio sabático, que já dura há alguns anos, desde que parei de escrever as Caleidoscópicas regularmente como fazia aqui no Screammy, mas porque agora mesmo me rouba o pouco do tempo que tenho e da atenção que preciso para terminar a gravação das minhas novas composições.

Mas fazer o que, se o meu inconsciente é quem manda? Já que li a entrevista até o final, ufa! Então, talvez eu mereça um pouco da atenção de vocês, espectadores, ouvintes desse nosso universo virtual. Quem sabe não respondo algumas das questões que muito nos afligem e que podem também, se não esclarecer, jogar um pouco mais de delicadeza e bom senso nesse papo todo.

Delicadeza sem perder a contundência, viu Rômulo Fróis! Pois no cenário em que nos encontramos nesse momento tudo o que não precisamos é nos agredir mutuamente.

Na minha humilde opinião a questão é mais política que musical. Estamos todos de um modo ou de outro fora do mercado, simplesmente porque não há mais mercado. Melhor dizendo, só há mercado e não um espaço de convivência fora do olhar da câmera midiática e das maquinas. Hoje olhar é trabalhar. Quando vemos um anúncio de tv ou compramos um produto numa loja, não estamos só nos divertindo ou suprindo uma necessidade. Estamos trabalhando para um sistema que se abastece e se legitima com os nossos atos. Existe hoje uma nova espécie de mais valia que nos é extorquida sem que nós saibamos. Nas embalagens dos produtos, com a sedução das imagens, estão roubando a nossa atenção; porque não dizer, a nossa alma. E porque não dizer também, a nossa platéia. Não há platéia para a nossa arte, para a nossa musica. Nem para a sua, nem para a minha. Não porque ela não exista. Ela existe, mas está olhando para outro lugar. Para o lugar que estão direcionando ela. Ela não sabe. Acha que tem o livre arbítrio da escolha. Não sabe que estão escolhendo por ela. Mas isso não é nada novo. No inicio do nascimento da sociedade de massas, outros artistas plásticos, assim como você, já tinham sacado isso. Naquele tempo ainda era possível manipular os significantes e o lixo da indústria e criar outros sentidos com eles escrevendo numa nova caligrafia, um novo alfabeto que pudesse afirmar e denunciar: sim esse é um espaço vazio; o livre arbítrio do artista; sua soberania, a função de autor, qualquer um pode se apoderar. Andy Warrol fez isso. Duchamp antes dele. E depois o nosso Caetano e os tropicalistas. E agora nesse momento Calcanhoto e sua musica de poeta.

Mas agora é diferente, a formula não funciona mais. “Sozinho”, de Peninha, gravado por Caetano, e “Buchecha e Claudinho”, por Calcanhoto, até que funcionou um tempo. Para eles serviu. Mas não serve pra todos. O feitiço virou contra o feiticeiro. Foucault, Agambem, Zizek e tantos outros pensadores do político e do bio- poder estão aí para nos dizer. Não há mais dentro e fora. Estamos todos fora. Trata-se de uma invasão do poder sobre os nossos corpos, nossas relações privadas, dês-possuíndo-nos de uma vida qualificada, condenando-nos a uma vida nua, uma vida nula, reduzindo todos a uma animalidade, normatividade, numa mediocrização do humano, da cultura e da arte.

Digo todos, e aí me lembro de algumas iniciativas “privadas”, porque ainda temos ainda na iniciativa privada e no empresariado nacional alguém interessado em investir em musica. Esse alguém se chama kati Almeida Braga, a banqueira a quem você se referiu no seu desabafão. Pois é; essa empresária está criando a maior gravadora independente do país. E não é só porque ela possui dentro do seu cast artistas como Maria Bethânia e Chico Buarque, ou o catálogo de Jobim e Vinícius, mas porque investe em centenas de artista de diversos segmentos cobrindo praticamente toda MPB; de A de Arnaldo Antunes e Adoniran Barbosa, passando por Baden Powell e Bibi Ferreira, isso para não falar de Carlos Lyra, Caetano e Chico Cesar, porque não posso me esquecer de Dorival Caymmi e Dona Ivone Lara, só pra não falar de Edu Lobo e Elza Soares, falarei de Guinga e Herivelto Martins, Jacó do Bandolim, Jards Macalé e Joyce; insisto; não posso me esquecer de ninguém; mas me desculpe, ainda estou na letra J; falta Lenine, Luis Melodia, Martinália, Mestre Bimba; Monica Salmaso, Nó em Pingo D’agua, Orquestra Pixinguinha, Orquestra Sinfônica Brasileira, Orquestra Sinfônica do Recife, assim vai ficar difícil, é até covardia cara; Paulinho da Viola, Paulo Moura, Pixinguinha, chega, não vou chegar até a letra Z, esquece! Você entendeu o recado. A Biscoito Fino é a nossa cara, cara! É a nossa Continental.Você poderia estar lá. Eu gostaria de estar. Para isso venho trabalhando. Passando também sufoco. Fazendo show no Cinemateque com dez gatos pingados. Cachê baratinho. Músicos recebendo quase nada. Muito arroz integral e legumes pra segurar a onda. E humildade cara, para aceitar que a batalha é longa, e cheia de desafios.

Um dos mais difíceis é conviver com o passado. Com os primeiros trabalhos mal feitos; com as roubadas que agente entra sem querer; com a inocência perdida. E aí você vai lá e em vez de tentar apagar os seus primeiros passos, de negar a sua história, você incorpora, você aprende a conviver. De certa forma o seu Losango Caqui foi meu Sempre Livre. Mas no meu caso não deu pra apagar. Entrou em “domínio público”. Então eu incorporo, como uma antropófaga, como uma verdadeira tropicalista. Sou a Dulce Quental do “Eu sou free”, mas sou também aquela da “Natureza Humana  de Michael Jackson e Wally Salomão. Sou Cazuza, Moska, Herbert Vianna e Arrigo Barnabé. Sou totalmente outra nesse trabalho que estou gestando agora, e já faz três anos que estou na chocadeira. Como você disse bem: disco independente demora um século. Ainda mais se agente quer fazer do jeito que sente e concebe na cabeça. Tem que buscar recursos, colocar na lei, captar. E aí não consegue captar, vence o certificado, o dinheiro acaba, você tem que arrumar um subemprego para se sustentar. São raros os artistas que vivem somente da arte hoje em dia. Isso no mundo inteiro. A maioria tem que se virar. Mas o tempo vai passando, a gaveta de canções enchendo. Aí você um dia se cansa e resolve gravar em casa mesmo. Violão e voz. Flat. Sem efeitos. Sem mentira.

Enfim, meu caro, até que ir ao Chacrinha não é tão mal assim. Eu fui muitas vezes e achei bem divertido. A alegria é a prova do nove, dizia o mestre Oswald de Andrade. Naquela época, no inicio dos anos 80, a alegria era maior que o preconceito e o movimento maior que a historia de cada um. E olha que eu acabara de chegar da França, cheia de udigrude na cabeça, aplicada de cinema e literatura, depois de correr a cortina de ferro com uma mochila nas costas e uma utopia no coração. Mas a emoção foi mais forte e eu escolhi segui a veia do coração. Joguei-me nos braços da minha geração e fui cantar “Eu sou free” que não tinha nada a ver comigo, mas ao mesmo tempo traduzia o inconsciente coletivo da época, quebrando a sisudez do discurso da geração anterior, mal tratada pelos anos perversos da ditadura. Então, por que não a alegria e o dês-compromisso de um rock and roll de bermudas? A Banda passou e a minha geração viveu o seu desbunde.  Agora é a sua vez. Aproveita cara! Ou você vai querer ser o Lobão da nova geração? Basta um só tiro no pé.

Me dê noticias! Quero muito ouvir falar de você. Não vou estar com a TV ligada no Serginho Groissman ou no CPC. Sei que agora as coisas são diferentes. Você sabe melhor do que eu. Periga agente se encontrar por aí na internet. De vez em quando, dou umas passadas pelo Screammy. De qualquer maneira, espero que você faça muito sucesso cara! Desencana. Não é tão ruim assim. Tem que ter culhão pra sustentar. É igual oposição quando chega ao poder. Muda a perspectiva. Muda tudo. Você precisa mudar a perspectiva e cair no mundo. Não precisa tocar no Faustão. Mas se pintar por que não? Ele também já foi jovem e sonhador. Tinha um programa chamado Perdidos na Noite porque começava a meia noite e varava noite a dentro, totalmente porões do rock, alternativo. Eu fui lá. Arnaldo Antunes, os Titãs e todo mundo foi. Aprender a lidar com isso. Faz parte também do trabalho do artista ir onde o povo está, como dizia Milton. E o povo está olhando pra lá. Então vamos pra lá pra ver se eles olham para agente. Quem sabe eles não sacam uma coisa diferente. Sacando, quem sabe não comem o biscoito fino que você produz?

Autor: caleidoscopicas - Categoria(s): Sem categoria Tags:
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