Para encerrar o que eu tinha a dizer, pelo menos até agora, já que o feriado chega ao fim e a vida urge lá fora, gostaria de passar a palavra para dois jornalistas, críticos de musica, de dois dos maiores jornais do país. Faço isso talvez para generosamente responder a um leitor, que infelizmente não pode ter uma resposta a sua altura. Deixo com eles então a palavra, porque antes de tudo não sou cabotina, mas também não levo desaforo pra casa. Ainda mais aqui na minha pagina. Publiquei todos os comentários que me foram proferidos, mas agora me calo e volto pra composição que é o meu ambiente de trabalho. E só pra completar: já aconteceu, está acontecendo e ainda vai acontecer. Quem viver verá!
O ESTADO DE SÃO PAULO
Quarta-feira, 03 de novembro de 2004
Dulce Quental tira o pop da mesmice em novo álbum
O disco inédito de Dulce Quental é uma das duas ou três melhores notícias do ano na música brasileira
Ouça a faixa Beleza Roubada
São Paulo – O disco inédito de Dulce Quental é uma das duas ou três melhores notícias do ano na música brasileira. Ela não lançava um álbum desde o LP Dulce Quental, de 1988. Música inédita gravada por ela desde então, só Quando, faixa de abertura da sua compilação na série de CDs Para sempre, de 2001. No meio tempo, cuidou da prole e da composição. Agora, felizmente, Quando retorna com 11 novas canções em Beleza Roubada (Sony/Cafezinho Music).
Apesar de ter sua produção-solo na década de 80 – além do LP já mencionado, Délica (1986) e Voz Azul (1988), nenhum dos três lançado em CD pela EMI – alinhada a uma certa new bossa que vicejava, Dulce sempre assinou algumas sutis inflexões blueseiras. A serena melancolia de seus versos e doce balanço a caminho do mar de suas melodias colocaram sua obra a salvo da descartabilidade do Sempre Livre, sua primeira aparição no front da música pop brasileira, a ‘girls band’ do sucesso Eu Sou Free. Se em seus primeiros LPs, Dulce já havia nos legado belezinhas como Tudo É mais e Não Atirem no Pianista, no seu período de recolhimento, ela acrescentou tabelinhas com Roberto Frejat (Pedra, Flor e Espinho) ou com o Cidade Negra (Cidade Partida). Esse diálogo com o BRock e seus primos sempre marcou a carreira de Dulce. Ela gravou Herbert Vianna, Engenheiros do Hawaii e Hojerizah. Em Beleza Roubada, além de Zélia Duncan, são parceiros Moska, Frejat e Thiago Trajano.
No CD, porém, há um clima intensamente literário, como se ela tomasse seu capuccino no bistrô da Livraria da Travessa da Visconde de Pirajá com o intuito de fazer a música pop pensar e sair da mesmice. Isso faz com que haja “participações especiais” do poeta ‘beat’ americano Allen Ginsberg e do recém-falecido escritor mineiro Fernando Sabino.
Ginsberg é ouvido em Conferências sobre o Nada, dela com Frejat, recitando versos de Nota de Pé de Página para Uivo. Sabino é ouvido em O Escritor, num trecho do fonograma O Grande Mentecapto, composição de Francis Hime.
Musicalmente, acompanhada por Vinicius Rosa (violão e guitarra), Renato Fonseca (teclados), Damien Seth (programação) e Sacha Amback (teclados, baixo e programação), Dulce atualiza o seu bossa’n’blues com discretos toques de eletrônica que ajudam o ouvinte a estabelecer os elos tanto de uma Bebel Gilberto quanto de uma Adriana Calcanhoto com o passado. Porque Dulce Quental, mesmo tendo optado por se manter em segundo plano durante toda a década de 90, de certa forma nunca deixou a boca de cena. Sua nova produção deve estimular pencas de novas cantoras século 21 afora.
Arthur Dapieve
O GLOBO
SEGUNDO CADERNO
Rio, 26 de outubro de 2004
Canções de (anti)exílio
Amorosa Rosa Passos
Beleza roubada – Dulce Quental
Hugo Sukman
Dulce Quental quase não saiu de Ipanema para ambientar as 12 canções de seu primeiro disco em 15 anos, “Beleza roubada” (Cafezinho Music/Sony). “Farme, Vinicius, Redentor/Baixo Leblon, você me raptou/Bar Lagoa e cinema, Estação Ipanema/Minha Nossa Senhora da Paz”, delimita na neobossa “Ipanema”, o Baixo Leblon como limite máximo de alguém que quer cantar tolstonianamente a sua aldeia.
Rosa Passos foi a Nova York, Los Angeles e Paris para gravar “Amorosa” (Sony), uma espécie de busca da batida perfeita, a batida de João Gilberto, por uma cantora e violonista que já foi, pela voz pequena e pela inventiva divisão rítmica, chamada de “a João Gilberto de saias”. “Ouvindo atentamente na vitrola/Seu jeito encantado de cantar/Eu tento resistir aos seus acordes/Mas só consigo me apaixonar”, confessa Rosa no samba sincopado “Essa é pr’o João”, que foi tão longe para também delimitar uma geografia, uma aldeia, só que estética.
Discos opostos dizem muito do estado das coisas da MPB
São discos opostos em tudo. “Beleza roubada” é eletrônico na sonoridade programada por Sacha Amback ou Damien Seth, literário no conteúdo. “Amorosa” é acústico no quarteto de piano, baixo, bateria e percussão que acompanha o violão de Rosa e na orquestra conduzida pelo argentino radicado nos EUA Jorge Calandrelli (arranjador do “Catavento e girassol” de Leila Pinheiro), e reverente a um conteúdo de canções já gravadas por João Gilberto, sobretudo as do LP “Amoroso”.
Ambos os discos, contudo, encontram-se no que dizem sobre o estado das coisas na música brasileira, uma música hoje estranhamente marcada por exílios. Seja o auto-exílio de Dulce, que se privou de gravar (mas nunca de compor com Moska, Frejat, Zélia Duncan, entre outros) por 15 anos, talvez por falta de lugar e sensibilidade ao seu pop-pensante. Seja no exílio, agora literal, de Rosa, que, como tantos músicos brasileiros que trilham sutilezas harmônicas, tem nos EUA, e de lá o mundo, seu imenso mercado global desbravado há mais de 40 anos justamente por João Gilberto.
Dulce Quental volta do exílio sem abrir mão de suas convicções, talvez porque o mercado em frangalhos já não tenha forças para conter certas ousadias. A dela é fazer canções pop cheias de, mais do que referências, uma ambiência literária. Ambiência que é explícita já na canção-título: “Ali entre milhões de livros descobri/Meu desconhecimento do mundo conheci/Ali, entre Foucault e Shakespeare/Todas as dores do amor experimentei/Toda beleza roubada encontrei”, diz em “Beleza roubada”.
Nem tudo é tão explícito no disco de Dulce, que, na verdade, é literário mais no espírito: ouve-se com a mesma sensação de quem lê um conto. Vamos supor que um conto sobre uma mulher peripatética, que passa os dias andando pelas ruas de Ipanema, observando tudo e tendo encontros fortuitos numa “Ipanema tão vítima da moda/Assim como eu, andarilha das esquinas”. Um encontro, por exemplo, narrado na canção “O escritor”, com Fernando Sabino. Em velho depoimento gravado, o escritor tão a ipanemense quanto Dulce irrompe a canção para dizer: “Eu gostaria de liberar o menino que existe aprisionado dentro de nós para olhar a vida através dos seus olhos como se fosse pela primeira vez…”.
Logo na faixa seguinte, “Receita de felicidade”, Dulce mostra como aprendeu a lição literária de Sabino: “Misture as palavras certas/Nuas de falsos sentidos/Que as palavras leves/Te carreguem pros campos felizes (…) Pronta você estará/Para a chegada da infância/A inocência te abandonará/Pois o poeta é também criança”, canta Dulce antes de entrar uma voz infantil cantando “Bolinha de sabão”, de Orlandivo, inocência e sutileza em forma de música.
Os encontros literários do conto/disco de Dulce, como com o poeta da beat generation Allen Ginsberg em “Conferências sobre o nada”, não prejudicam o clima ensolarado e pop do disco. A lição de simplicidade de Ginsberg (que também aparece recitando) é a mesma de Sabino: “Na noite escura da longa jornada/Você me deixou um presente/Uma onda num verão ardente”.
Revelador — e isso diz muito — que musicalmente Dulce recorra sempre à bossa nova. E que, num disco em homenagem a João Gilberto, Rosa Passos se utilize mais das síncopes características do samba dos anos 40 e 50 e do repertório pré-bossa (“Pra que discutir com madame”, “Eu samba mesmo”), pós-bossa (“Retrato em branco e preto”, “Wave”, “Você vai ver”) e standards (“Besame mucho”, “S’wonderful”) recriados por João.
Na verdade, neste seu exílio, Rosa parece querer recuperar para a música brasileira o legado de João Gilberto para a música mundial. A última homenagem a João e ao “Amoroso” foi de Diana Krall em “The look of love”, que chegou a convocar o arranjador original do disco, Claus Ogerman, mas que, de João, pegou só a caricatura. Rosa, não, vai no que João Gilberto tem de mais genuíno, a reinvenção constante do samba. O exílio de Rosa lá fora e de Dulce aqui dentro serve para aproximá-las do Brasil.