Caso real, caso triste: leia com atenção
Caros – relato com tristeza um fato real, que recentemene chegou em detalhes aos meus ouvidos (ainda que suas raízes sejam antigas), destruindo de vez o que poderia ser um grande empreendimento industrial.
- Dois sócios; um com 80% das ações, tem vocação técnica, industrial; o outro, com 20% de participação, é um estrategista, homem de idéias. O futuro mostrou que nenhum dos dois era, de fato, administrador.
- Em 20 anos, com muito esforço, ergueram um grupo que produzia a matéria-prima, o produto intermediário, o final e atuavam na distribuição atacadista. Faturamento recente andava na faixa dos R$ 200 milhões/ano.
- Num dado momento desta história, compraram uma grande e caríssima máquina, que traria grandes ganhos de produtividade, mas que começou a afundar a empresa. Motivo: ela tinha insolucionáveis problemas técnicos e nunca foi operada na plenitude. O sócio técnico dizia que a culpa era do fabricante e prometia uma solução para breve. O sócio estrategista acreditava.
- Problemas financeiros ligados ao mau desempenho da máquina levou a empresa a dar um calote histórico no BNDES, que a financiara. Isto fechou as portas da empresa para o banco federal e para a maioria dos bancos privados.
- A companhia estava tomando dinheiro de factorings, pagando até 7% a.m. e ninguém ligava. Nunca procuraram apresentar a empresa para o mercado financeiro e para as factorings, demonstrando um futuro promissor, uma estratégia. Ao contrário, deixavam faltar dinheiro para só então correr atrás de descontadores de duplicatas. Em um autêntico banquete vampiresco, as instituições de crédito sugavam a precária liquides da companhia.
- A empresa não desenvolvia, vivia enredada em dívidas e em brigas com o BNDES, até que os sócios começaram a se desentender. Mas aí o sócio minoritário veio a falecer após uma dura batalha contra o câncer.
- O filho do falecido sócio minoritário, sem experiência industrial – mas apenas no mercado financeiro – decide, em (estranho) comum acordo com o sócio majoritário, gerenciar a empresa para tirá-la do buraco.
- O novo gestor parece ter herdado o mesmo DNA empresarial do falecido pai: sua marca seria pensar na visão de longo prazo da companhia e em grandes estratégias, sempre distante do dia-a-dia dos negócios e agindo como um investidor – e não como administrador da empresa.
- Logo o negócio passaria a ser administrado pelo recém-contratado Diretor Financeiro, confiável amigo de longa data. Apesar de muito inteligente este era inexperiente no mundo industrial e pouco afeito a tratar de uma empresa em estado pré-falimentar. O presidente passa a ter, de fato, um primeiro-ministro ao seu lado, atuando de forma cada vez mais distante.
- O novo Diretor faz-tudo logo desconfia de certos números da empresa e instaura uma verdadeira inspeção contábil-financeira. Resultado: identificou uma rede de ladrões dentro da empresa.
- Lembram da tal máquina que seria a solução da empresa, mas que sou tornou um grande pesadelo? Pois é, houve um superfaturamento que transferiu algumas dezenas de milhões de dólares para o exterior. Para a conta do sócio majoritário, naturalmente. O ’sócio’ desta transação (i.e. deste roubo) era o contador da empresa, que – sob pressão – confessou tudo e por escrito.
- Porém, “em empresa de ladrão, roubar é o padrão”, descobriu-se que outros executivos, com destaque para o Diretor Comercial, também desviavam recursos de forma generalizada. Tudo às barbas do ausente sócio minoritário – e parcialmente do sócio majoritário (que era o primeiro a meter a mão na companhia).
- Advogados partem para a briga, ameaças de morte tornam-se rotina na vida do lado honesto da coisa, pois os picaretas não estavam a fim de ir para a cadeia…
- O jovem Diretor Financeiro, que descobriu a bandalheira, pede demissão (“Eu não ganhava para assumir tamanho risco de vida”), o herdeiro decide abandonar a empresa e deixa a gestão para o sócio bandido.
A empresa não vai longe e não paga ninguém. A única saída seria o acionista que a colocou nesta situação resolver trazer o dinheiro de volta e capitalizá-la e reequilibrar suas finanças. Mas não conheço um que faça isto…
A conclusão desta história poderia ser só alegria, pois empresas similares, do mesmo setor, cresceram muito neste período. Muitas delas até foram vendidas para multinacionais e seus donos tornaram-se multimilionários.
As lições que tirei deste caso são as seguintes:
- Não confie em sócio – nem que seja seu parente. Mesmo que você e seu sócio dividam as tarefas da empresa (i.e. um fica com as finanças e administração e o outro com produção e vendas), nunca feche o olho para o que outro faz. Confie desconfiando, sempre! Tenha reuniões mensais ou semanais e revise o que ele faz…e vice-versa, naturalmente.
- Não concordar com ações ou propostas do sócio é normal - e deve ser encarado com maturidade pelas duas partes. E quando não houver consenso a coisa não deve seguir em frente.
- Tolerância zero para qualquer tipo de desvio de conduta – do sócio ou de qualquer colega. Não existe empresa de um só ladrão. Maus hábitos corrompem os quase-honestos (i.e. aqueles ‘honestos’ que se desviam quando a oportunidade se apresenta).
- O exemplo vem de cima, sempre! Quando os funcionários percebem que o dono está dilapidando o negócio (i.e. deixando a empresa pobre enquanto ele sócio enriquece), soa um alarme moral na empresa: “Salve-se quem puder! O último apaga a luz! Eu vou pegar o meu!”
Vocês não fazem idéia quão freqüentemente casos como este acontecem no Brasil. E com empresas de todos os portes. E sabem por que? Porque somos um tanto frouxos na hora de confrontar situações embaraçosas…e um tanto folgados quando sabemos que tem alguém fazendo outra coisa no nosso lugar. E porque sempre levamos a coisa para o lado pessoal (i.e. nos ofendemos), acabamos não sendo profissionais e frios na hora de discutir casos complicados com sócios.
Fiquem atentos + abraços + sucesso!
Fernando