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30/06/2009 - 10:12
Por Tales Faria
Como toda terça-feira, hoje o Partido Democratas tem reunião marcada de sua bancada no Senado, às 12h. O líder, José Agripino Maia (RN), propõe como tema de pauta que os senadores do DEM tomem posição uniforme sobre a situação do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). Ontem, como se sabe, o líder do PSDB, Arthur Virgílio Netto (AM), subiu à tribuna para cobrar o afastamento de Sarney do cargo.
Arthur vinha fazendo discursos enfáticos contra os tais atos secretos da Mesa Diretora, que distribuíram benefícios às pencas a senadores e funcionários de todos os partidos. Até aí, nada demais. Mas, na semana passada, o tucano pediu a prisão e demissão do ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia, acusando-o de tentar chantagear senadores com a divulgação de irregularidades.
Eis que, neste fim de semana, a revista Istoé publicou reportagem segundo a qual Arthur Virgílio teria pedido e conseguido de Agaciel Maia que o Senado pagasse contas de US$ 10 mil de seu cartão de crédito, durante uma viagem do tucano e sua família a Paris. Não restou outro caminho ao senador senão partir para o tudo ou nada. Daí ele ter subido à tribuna. A princípio é uma questão pessoal, com a qual o seu partido podia solidarizar-se, sem, no entanto, fazer coro no pedido de afastamento de Sarney.
O problema é que uma tomada de posição do DEM, hoje, pode complicar a situação do presidente do Senado. E há um sério risco de o DEM tomar posição a favor do afastamento. Pelo menos, temporário. Procurado pela coluna, Agripino Maia adianta a sua posição:
– Vou propor que a bancada solicite que o presidente Sarney se licencie do cargo durante as investigações sobre os atos secretos da Mesa. O próprio Sarney enviou-nos carta, informando a todos os senadores que solicitou à Polícia Federal empenho nas apurações. Acho que cabe ao senador Heráclito Fortes (DEM-PI) comandar essas investigações, como primeiro-secretário da Mesa. E que tudo seja feito de maneira profunda, mas rápida, porque o Senado não pode ficar agonizando em torno desse tema o tempo todo.
A proposta de Agripino é forte, porque é razoável. Sarney tem sustentação política o suficiente para se licenciar do cargo e voltar por cima, se nada for comprovado contra ele. Se, do contrário, algo for comprovado, paciência…
A coluna tentou adiantar-se e apurar se o presidente do Senado estaria propenso a aceitar a proposta de afastamento temporário. Foi ouvir seu filho, o deputado Zequinha Sarney, do PV. Mas até mesmo Sarney Filho não sabia como o pai receberia a proposta.
A propósito, Zequinha é o pai de José Adriano Cordeiro Sarney, que, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, é socio de uma empresa de consultoria que se beneficiou do parentesco para intermediar convênios de bancos com o Senado Federal. O deputado disse estar tranquilo com relação às acusações contra o filho e que, “com o tempo, tudo será esclarecido”. Mas lamenta que alguns dos clientes da empresa José Adriano, como o banco HSBC, já estejam se afastando para evitar terem seus nomes envolvidos no noticiário.
– Isso é uma onda que a gente tem que esperar passar, com paciência. Minha avaliação muito pessoal é que existe, sim, um componente de ataque ao José Sarney pelo fato de ele ser um aliado do presidente Lula, mas que não é só isso. Tem também a expressão pública do próprio Sarney, que atrai os ataques como um para-raios. Mas, mais que tudo, tem a crise das instituições. Estou com o Fernando Gabeira, quando afirma que é hora de uma reforma profunda na Câmara e no Senado, enxugando os gastos do Congresso e normatizando ou pondo fim a passagens aéreas e indenizações de vários modos – argumenta Sarney Filho.
O deputado acha que seu pai tem todas as condições de comandar esse processo de reformas no Senado. Pode ser. Mas tudo indica que, antes, o patriarca da família Sarney e do PMDB terá que resolver o seu problema imediato de legitimidade no comando da Casa. A negociação de um afastamento temporário, proposta por Agripino e que pode ser encampada pelo partido Democratas na reunião de hoje, tende a ser uma solução. E pode ser adotada também pelo PSDB, como válvula de escape para o discurso de Arthur Virgílio.
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23/06/2009 - 10:45
Por Tales Faria
Estava na cara que uma hora essa briga no Senado ia parar de ser coisa entre governo e oposição, ou uma briga do PMDB contra o DEM e o PSDB. Bastava olhar a lista de presidentes e primeiros-secretários da Casa nos ultimos 10 anos –- período em que foram gestados e executados os escandalosos atos secretos da Mesa Diretora -– para ver que os três partidos dividiram o poder por ali, com umas lasquinhas para o PT e o PTB. E que, sendo assim, logo parariam de tratar o tema como uma guerra entre eles. Afinal, estão todos os partidos, de uma forma ou de outra, envolvidos.
Tanto que o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Netto (AM), foi à tribuna cobrar providências do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), mas evitou transformar o assunto em coisa partidária. Tomando como mote o fato de o peemedebista José Sarney estar na berlinda, a coluna foi ouvir os presidentes do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), e do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE). Perguntou aos dois se eles acham que Sarney deve renunciar.
Rodrigo Maia: – Estou longe desse negócio de Fora, Sarney!. Não concordo. Acho que não adianta tirar o cabeça para diminuir a pressão da sociedade. O que ocorreu no Senado foi fruto de falhas estruturais, da falta e controle sobre a burocracia. Essa é a questão que deve ser atacada. Tive uma longa conversa com o senador Heráclito Fortes (PI), que é do meu partido e o primeiro-secretário da Casa. Ele está encarregado de apresentar o relatório sobre os tais atos secretos. E disse-me que irá propor uma grande reforma estrutural como solução para o problema.
Sérgio Guerra: – Tirar o Sarney não é solução de coisa alguma. Só temos agora uma saída, que é promover uma profunda reforma no Senado, enxugando pela metade seus custos, sua burocracia. Chega de tapar o sol com a peneira. Temos que reformar tudo por lá, pois só assim voltaremos a ter um clima razoável para votações. Quanto ao Sarney, o regime no Senado é presidencialista. Cabe a ele conduzir esse processo de reforma da Casa, e pronto.
Dito isso, a coluna quis saber a versão deles sobre como surgiu o problema dos atos secretos. Se a culpa não era do PMDB. Mas os dois presidentes de partido, muito embora até gostassem de dar uma fisgada nos peemedebistas, preferiram amenizar.
Rodrigo Maia: – Olha, não dá para falar de pessoas. Os nomes serão levantados, e os responsáveis devem ser punidos. Realmente o PMDB talvez tenha uma parcela de culpa. Mas a verdade é que as decisões sobre esse tema não foram isoladas, nem se restringiram a um senador somente, nem a um só partido. Temos que reconhecer que todos os partidos tiveram sua participação. E delegou-se poder demais à burocracia. Agora o jeito é pensar na solução do problema, e ela passa pela reforma do Senado. Deve-se buscar responsáveis, puni-los, mas é imprescindível mexer na estrutura.
Sérgio Guerra: – O PMDB tem tido, de fato, muita influência sobre o Senado nos últimos anos. Mas, neste caso, não podemos pensar partidariamente. O grupo que produziu estes atos secretos é um grupo suprapartidário, multipartidário. Um grupo que vem vencendo todas as eleições há anos e anos. Uns partidos têm mais gente nesse grupo, outros têm menos, mas o fato é que todos estão lá. Como costuma dizer o senador Marco Maciel (DEM-PE), não devemos fulanizar esse assunto. Acho que o caso começou por brigas internas. Mas não sei se foi briga no PMDB, ou do PMDB com o PT. Ou se foi mais embaixo, uma briga entre burocratas disputando poder. Alguém levantou um pequeno caso contra o outro, e isso jogou luz sobre uma área de sombra que não comportava nenhuma transparência. Acho que foi isso que fez surgir o escândalo. Darcy Ribeiro dizia que o Senado é o céu. Talvez tenha dito isso porque aqui tudo era permitido. Como no céu, pode-se qualquer coisa. Podia-se. Porque está na hora de mudar.
Pois é, caro leitor, deu para notar como eles estão afinados? Nada de guerra entre DEM, PMDB, PSDB, PT e PTB nesse assunto. As cúpulas partidárias concluíram que chegou a hora de baixar a bola, pararem com as acusações mútuas e procurarem uma solução que satisfaça à sociedade. Acham que essa solução pode ser uma reforma profunda no Senado. Resta saber se os possíveis punidos deixarão a poeira baixar, ou vão jogar o lixo no ventilador.
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21/06/2009 - 08:39
Por Tales Faria
Sempre gostei do jornalismo investigativo. E nunca fiz coro com aqueles que taxam como denuncismo aquilo que é simplesmente denúncia. E não vejo por que denunciar erros e desmandos em instituições seja uma forma de derrubá-las. Acho que, no mais das vezes, ajuda a aperfeiçoá-las.
Mas lembro muito bem um tempo em que sociólogos iluminados e arautos do conservadorismo defendiam arduamente a tese de que precisávamos parar com as denúncias. Que denuncismos não servem para preservar as instituições. Vi também o PT, de um lado do balcão, bradindo o megafone das denúncias e, depois, na época do mensalão, atacando a irresponsabilidade dos acusadores. O mundo é assim, tudo depende de que lado cada turma está. Hoje tucanos e ex-pefelistas do DEM não falam mais em denuncismo. Resolveram bater pesado no Congresso. Como acho que DEM, PSDB e PMDB controlaram a maior parte do tempo o Congresso, especialmente o Senado, não posso deixar de concluir que essas denúncias vão acabar recaindo sobre eles próprios. Aí fico meio sem entender por que, então, insistem.
Para tentar compreender um pouco, resolvi dar um passeio pela internet. Naveguei por comentários dos blogs de política. Nos que reproduzem meus artigos, vi coisas como a do leitor que se assina Helvécio Pinton (hpinton@aurortextil.com.br):
“Há muito tempo defendia a ideia de que só uma bomba de nêutrons consertaria esse país. Começo a achar que, do jeito que andam as coisas, nem várias bombas de nêutrons dariam mais jeito… Estamos definitivamente arruinados em matéria de credibilidade”.
O internauta de apelido Beto (paraty47@bol.com.br) enviou:
“Todos os que criticam o período da ditadura militar lamentam a falta de oportunidade daquele período para os escândalos a que estamos assistindo no Executivo e no Legislativo. O limite do brasileiro é realmente muito grande. Em qualquer país civilizado esse Congresso já teria caído fora. Somos todos bobos porque não sabemos defender a nossa nação. Vivemos de jeitinho e somos conhecidos por isso lá fora. A cadeia está cheia de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões mandam no país. Quem manda concordar que as decisões sejam tomadas em Brasília, um verdadeiro arraial de Festa de São João”.
Vi até coisas como este comentário de Zilnard Carvalho (carvalho-43@hotmail.com):
“Quando Collor era candidato à Presidência, declarou certa vez que o Senado era um ninho de ratos e que iria acabar com isso. Ganhou, com uma avalanche de votos e foi deposto pelas intrigas do próprio Senado que soube comprar as declarações do irmão do Collor e, aproveitando-se da força da mídia, inventou, ensinou e incitou os caras pintadas de verde e amarelo a depor o presidente. Aquilo lá já deu até, como cria, chefe de quadrilha de matadores no Norte e Nordeste. Ali é o verdadeiro ninho ‘de tudo que é furto no país’, que o povo e a mídia, se querem uma nação passada a limpo, devem investigar mais ainda, e não fazer como o senhor Lula, que sempre passa a mão na cabeça deles como fez agora com o Sarney e suas trapalhadas. Será que o povo e a mídia já esqueceram que o Sarney, quando presidente do Brasil, esteve à beira do impeachement? Lembram-se quem, e o que o salvou? Pois aí está. Collor agora é da quadrilha e nós, quando povo, e a mídia continuamos a suar a camisa e fazer papel de palhaço às custas desta camarilha instalada em Brasília. O Brasil não é um país sério, disse um presidente francês. Aqui devia ter a guilhotina como teve a França. E a nossa política devia ser como no Líbano: roubou, perde a mão, estuprou é capado, e assim por diante”.
E veja o que postou o Paulo Fernando da Fonseca (paulofonseca60@yahoo.com.br) sobre artigo de outro colunista de política:
“Caro, improdutivo, escandaloso, portanto, nosso Congresso é de todo desnecessário. Sairia mais barato pagar a esses ladrões para que ficassem em suas bases”.
Pior. Em outra coluna, um internauta, dito Sergio-paulista (smassera@terra.com.br), postou a seguinte pérola:
“Este é o governo que permite tudo, desde que o apoie. Uma bomba H em Brasília resolveria todos os nossos problemas!”.
Bem, em política não há espaço para a ingenuidade. Vale perguntar por que quem resistia a dar eco a qualquer denúncia hoje finge não ouvir gritos de guerra como os dos desavisados comentaristas acima.
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18/06/2009 - 10:57
Por Tales Faria
Para não ser processado, vou contar a história sem dar nomes aos bois. Mas é tudo do conhecimento de boa parte dos jornalistas com mais de 10 anos de cobertura do Congresso.
Era uma vez um senador. Um dia sua esposa foi visitá-lo no gabinete e o surpreendeu com uma das assessoras ajoelhada. A pobre senhora fez um escândalo tão grande que foi parar nos jornais. Depois de umas tantas ameaças de separação, o senador arrumou uma vaga para sua assessora em outro gabinete (nepotismo?), e a esposa deu o caso por encerrado. Até que o tal senador – que também chegou a ministro de Estado – assumiu importante posição na Mesa do Senado. Um dos seus primeiros atos foi criar novo cargo de diretor na Casa (desses milhares agora descobertos), e entregá-lo para quem? Para o marido da tal assessora. A pobre esposa do senador ficou sabendo novamente, e dessa vez não teve dúvida, separou-se mesmo. Depois fizeram as pazes, mas isso não importa.
O que importa dessa história é mostrar até que ponto vai o envolvimento de um grupo de funcionários encastelados no poder no Congresso com os senadores para os quais trabalham. O tal diretor que assumiu graças, digamos, aos predicados de sua mulher, hoje está no centro dessa encrenca toda recentemente descoberta. Ele dividia uns pequenos segredinhos com o senador que o empossou, mas, descobriu-se depois, dividia segredos maiores com muitos outros senadores.
Se os tais atos secretos do Senado forem investigados a fundo, e se forem levantados os responsáveis por esses atos, certamente se chegará à seguinte conclusão: os atos, em si, foram concretizados pelos funcionários de alto escalão, que também são os responsáveis pela não publicação das decisões em boletins, o que os tornou secretos. Mas esses funcionários assim agiram com o conhecimento de alguns senadores. Jamais o fariam sem o aval dos políticos. Só que nunca vai dar para saber quem pressionou quem, porque esses funcionários e os tais senadores têm suas vidas pessoais de tal forma misturadas que fica difícil saber quem tem mais poder sobre quem. Quem sabe mais segredos de quem?
O presidente do Senado, José Sarney, declarou em discurso que nada tem a ver com a história. Para convencer a opinião pública disso, ele terá que apontar qual o senador que teve a ver, então, com a confusão. Ou quais deles. E não só Sarney terá que fazer isso. Ele e todos os ex-presidentes do Senado nos últimos 10 anos, período em que apareceram os tais atos secretos. Na terça-feira, enumerei aqui os presidentes do período. Falei com um deles, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN). O senador argumentou que, como presidente, não cuidava do varejo da administração do Senado. A tarefa cabe ao primeiro-secretário da Casa. Pedi à assessoria do atual primeiro-secretário, Heráclito Fortes (DEM-PI) – que, aliás, tem tido uma atuação louvável no episódio todo – a lista dos seus antecessores. Foram eles:
Efraim Moraes (DEM –Paraíba), de 2007 a 2009 e de 2005 a 2007; Romeu Tuma (DEM e PTB – São Paulo), de 2003 a 2005; Carlos Wilson (PSDB, PPS, PTB e PT – Pernambuco), de 2001 a 2003; Ronaldo Cunha Lima (PMDB e PSDB – Paraíba), de 1999 a 2001 e de 1997 a 1999; Odacir Soares (PFL e PTB – Rondônia), de 1995 a 1997; e Júlio Campos (DEM – Mato Grosso), de 1993 a 1995.
Qual a conclusão a que se chega a partir dessa lista? A de que o partido Democratas dominou a primeira secretaria – por onde os tais atos secretos certamente passaram – com algumas incursões do PSDB e do PTB. No caso da lista de ex-presidentes, o domínio é do PMDB, com incursões do DEM. O PT passou lateralmente pela história, no finalzinho do período Carlos Wilson como primeiro-secretário (embora o senador nunca tenha sido de fato um petista), e na interinidade de Tião Viana (AC) como presidente da Casa. Resultado: o PMDB está envolvido até o pescoço, mas também a oposição aparece completamente comprometida, com representantes de peso do DEM e do PSDB. E o PT e o PTB pegam uma casquinha.
Ou seja, se forem de fato mexer nesse vespeiro, os senadores irão encontrar confusão para todos os lados. Para o lado do governo, via PMDB, principalmente, mas também para o lado da oposição. Sem contar os vários pequenos escândalos pessoais que poderão aflorar. Daí por que, sinceramente, temo que isso não vá muito à frente: uma hora eles se sentem e fechem o pacto do esquecimento. Mas tomara que não consigam.
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16/06/2009 - 10:59
Por Tales Faria
Antes de mais nada, quero dizer que concordo com Fabiano Santos – professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) – quando ele (e foi lembrado no “Jornal do Brasil”, no dia 8, por Rodrigo de Almeida) denuncia o vício de certas análises sobre o Legislativo brasileiro, especialmente aquelas que, de maneira moralista e sensacionalista, transformam problemas políticos em crises institucionais de alta gravidade. Fabiano Santos fala em “indigência analítica”, patologia que atinge observadores cujas afirmações equivalem “a uma sutil acusação de ser o eleitor brasileiro ignorante e maximizador de migalhas”. Exatamente. No fundo, esses observadores fazem uma crítica conservadora, que descredencia o povão em favor do que tais sábios acham que sejam as pessoas bem informadas.
Fiz este preâmbulo todo para dizer o seguinte: não gosto de fazer coro com a crítica sensacionalista ao Parlamento. Mas, desta vez, passou do limite esse negócio de “atos secretos” da Mesa Diretora do Senado. São nomeações de dezenas, talvez centenas de funcionários – parentes de senadores e de diretores da Casa – e até a criação de novos cargos e novos benefícios, que simplesmente foram feitas às escondidas. Ao invés de serem publicizadas nos órgãos oficiais de divulgação do Senado, saíram em boletins secretos. Segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas, há “atos secretos” datados de mais de 10 anos atrás.
Vou ao site do Senado e consulto a galeria de ex-presidentes. Quem comandou a Casa nos últimos 10 anos? Vamos lá: José Sarney (PMDB-AP), de 1995 a 1997; Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), de 1997 a 1999 e de 2000 a 2001; Jader Barbalho (PMDB-PA) e Edison Lobão (DEM-MA), em 2001; Ramez Tebet (PMDB-MS), de 2001 a 2003; Sarney novamente, de 2003 a 2005; Renan Calheiros (PMDB-AL), de 2005 a 2007; Tião Viana (PT-AC), em 2007; Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), de 2007 a 2009; e outra vez Sarney, agora. Que coisa! Essa gente toda envolvida na história? Vou então ouvir um deles, mais acessível: o Garibaldi.
– O que é isso, senador?
– Olha, fico até sem graça. Acho meio canhestro, meio sem sentido sair por aí dizendo que a gente não sabe de nada. Mas, juro, eu efetivamente não sei como isto pode ter acontecido na minha administração.
– Mas, efetivamente, ocorreu na sua administração?
– Parece que sim. Eu não entendo como pode ter acontecido. Que se torne secreto o ato de uma simples nomeaçãozinha, eu até entendo. Algum sujeito se aproveitou de um assunto em que ninguém prestou atenção, e evitou divulgá-lo. Mas como é que se deixou de publicar atos que interessavam a um monte de gente? Atos que necessariamente seriam de conhecimento de muita gente, como horas extras, criação de cargos disputados, licenças de funcionários em posições disputadas, constituições de comissões… Não dá para entender. Ou estou ficando velho, ou estou ficando bobo.
– Bobo o senhor não é, senador. Deve saber quem teria condição de fazer isso.
– Olha, não quero sair acusando ninguém.
– Não se trata de acusar, senador, mas de ajudar a opinião pública a procurar a origem dessa história
– Bem, trata-se de atos administrativos. Quem cuida do varejo administrativo do Senado é a Primeira Secretaria. Mas não quero acusar ninguém. Deixa avançarem as investigações.
Volto ao site do Senado, à procura da lista dos primeiros-secretários nos últimos 10 anos. Não há lista. Vai ser um trabalho mais demorado. Por enquanto, consigo levantar apenas dois que ocuparam esse cargo: Romeu Tuma (ex-DEM e hoje no PTB de São Paulo); e Efraim Morais (DEM-PB). Em entrevista à revista Época, João Carlos Zoghbi, diretor de Recursos Humanos do Senado – que foi nomeado para o cargo por Edison Lobão e acabou afastado também por se meter em encrencas – acusou Romeu Tuma e Efraim Morais de envolvimento num suposto esquema de corrupção comandado pelo diretor-geral da Casa, Agaciel Maia, também já afastado. O problema é que, depois, Zoghbi voltou atrás. Agora, só Deus sabe como localizar os culpados.
Mas não dá para aceitar que ninguém seja responsabilizado.
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09/06/2009 - 11:57
Por Tales Faria
Petistas como o deputado Cândido Vacarezza (SP) têm defendido a ideia de que o partido deve fazer tudo para facilitar a candidatura da ministra Dilma Rousseff a presidente da República. Vacarezza já iniciou até articulações, junto com os deputados Márcio França (PSB-SP) e Paulinho da Força Sindical (PDT-SP), para que o PT e o PDT ofereçam à direção nacional do PSB o apoio à candidatura do deputado Ciro Gomes (CE) para governador de São Paulo, em troca de sua desistência da disputa pela Presidência. A coluna foi procurar o próprio Ciro para falar sobre o assunto.
– Em política, não dá para a gente dizer que uma coisa dessas é impossível. Mas posso afirmar que nunca cogitei. Meu interesse é concorrer à Presidência. E nunca tive numa situação tão favorável.
– Mas, deputado, o Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, diz que não é bem assim. Que o senhor começa a campanha com 11% e termina com 4%.
– Olha, o Montenegro não entende de pesquisas eleitorais. Ele nunca acerta nada. Quem segura o Ibope nessa área é a Márcia Cavallari (diretora executiva de atendimento e planejamento). Eu conquistei 11% dos votos quando concorri contra a reeleição de Fernando Henrique Cardoso e contra o presidente Lula, em 1998. Repeti os 11% quando disputei com José Serra e Lula, em 2002. Por que cairia agora se as condições estão melhores?
– Estão melhores?
– Claro! Nunca tive um quadro tão favorável. A situação econômica joga a favor de um perfil como o meu. Estou mais velho e, portanto, mais experiente. Tenho um partido político razoavelmente forte. Na primeira disputa, eu estava no PPS, e o presidente do partido, Roberto Freire, trabalhou o tempo inteiro pelo José Serra. Na outra, a aliança PTB, PDT e PPS não ficou bem azeitada. Agora não, estou há anos numa legenda que tem quadros respeitáveis, inclusive três governadores. E eu mesmo consigo o apoio de pelo menos outros três governadores de outras legendas. Enfim, não sei de onde o Montenegro tirou que eu tendo a perder votos. A avaliação que temos é que a minha candidatura tende a crescer, consistentemente.
– Tem a história de que o senhor acaba falando impropérios no meio da campanha…
– É. Todo mundo tem seus defeitos. Eu não roubo, não sou corrupto, mas realmente às vezes falo demais, bato muito forte. Desta vez, no entanto, pretendo me controlar.
– O Montenegro acha que o senhor vai acabar desistindo. Que nem será candidato. Que talvez o presidente Lula peça ao PSB para retirar a sua candidatura.
– O comportamento do presidente Lula tem sido corretíssimo. Apoiar a Dilma? Ora, é a candidata do partido dele, é natural. Tudo, até agora, tem ocorrido dentro do previsto. Não creio que o presidente cometeria a indelicadeza de pedir ao PSB que eu retirasse a candidatura. Como meu amigo, ele poderia até vir conversar comigo sobre isto. E eu teria como mostrar que a situação corre a meu favor.
– Mas, com o Serra forte e com a Dilma crescendo nas pesquisas, ainda há espaço para o senhor?
– O Serra não está tão forte assim. Vem caindo seguidamente nas pesquisas. Não creio que ele vá despencar. Mas acabará ali pelos 34% das intenções de voto. Quanto à Dilma, cresceu rapidamente pelo apoio do presidente. Era o esperado. Ela vai até uns 25% e, daí para a frente, terá mais dificuldade. Ou seja, está mais do que claro que há necessidade de uma outra candidatura no campo próximo ao presidente Lula. Inclusive porque há muita gente que apoia o Lula, gosta do governo, mas não aceita o PT. Essa gente tende a votar em mim. Se eu sair, estarão empurrando parte desse eleitorado para a Heloísa Helena.
– E o governador de Minas Gerais, Aécio Neves?
– O meu amigo Aécio errou. Se ele tivesse saído do PSDB, seria um fortíssimo candidato a presidente da República. Mas ficou no partido, e o Serra já ocupou a área. O cavalo passou selado e o Aécio, infelizmente, não quis montar. Esteve com a vaga de presidente da República nas mãos e perdeu. Agora, talvez, possa sair candidato a vice. É o máximo que Serra e o PSDB lhe darão.
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02/06/2009 - 10:02
Por Tales Faria
É realmente instigante o tabuleiro da política. Até ontem, estava praticamente enterrada a candidatura do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, a presidente da República pelo PSDB. Com o governador de São Paulo, José Serra, disparado nas pesquisas, não havia chance de a vaga sobrar para o mineiro.
Mas eis que veio a doença da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. E, quando todo mundo esperava que o anúncio de um câncer pudesse enterrar de vez as pretensões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de fazer da moça a sua sucessora no Palácio do Planalto, a coisa teve um efeito contrário. Parece que o eleitorado se solidarizou com a dor da ministra.
Segundo pesquisa do Instituto DataFolha divulgada no domingo, a diferença entre Serra e a petista diminuiu 8 pontos percentuais em relação ao último levantamento. Serra caiu de 41% para 38% na preferência do eleitorado, e Dilma subiu de 11% para 16%. O DataFolha perguntou aos entrevistados ainda o que eles acharam de a ministra ter revelado que tinha câncer: 81% aprovam o gesto de Dilma.
Ontem foi a vez de a Confederação Nacional da Indústria divulgar a sua já tradicional pesquisa CNT/Sensus. Serra e Dilma apareceram tecnicamente empatados com 5,7% e 5,4% das intenções de voto na pesquisa espontânea, aquela em que os eleitores apresentam por conta própria o nome dos seus candidatos. Já na pesquisa estimulada, Serra ganharia com 40,4% das intenções de voto contra 23,5% de Dilma. Em março, Serra tinha 45,7% e Dilma, 16,3%. Pelo levantamento, a ex-senadora Heloísa Helena (PSOL) receberia 10,7% dos votos, contra 11% em março. Os votos em branco, nulos e indecisos somam 25,6%.
Curioso é que, na pesquisa do DataFolha, Dilma já força a realização de um segundo turno e, na pesquisa CNT/Sensus, está muito próxima disso. É aí que nascem os problemas todos com o sucesso, para os governistas.
Primeiro, porque se Dilma continuar crescendo muito rapidamente, os tucanos podem começar a achar que Serra tem um teto, e que Aécio Neves, embora esteja ainda sem um grande eleitorado, tem maior potencial de crescimento. Aliás, essa é uma tese que corre solta em muitos corações tucanos e que ganhou força agora.
Depois, porque um crescimento grande e rápido de Dilma pode levar Ciro Gomes (PSB) a desistir de concorrer à Presidência. E os números ainda não garantem um segundo turno para Dilma. Com Ciro na disputa, o segundo turno é mais provável.
Bem, por fim, este colunista resolveu provocar o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, que havia declarado aqui sua convicção de que Dilma será derrotada, provavelmente ainda no primeiro turno das eleições. Montenegro não se dá por vencido:
– Olha, eu continuo com a mesma opinião. Defendo tudo aquilo que disse antes. Na minha análise, Dilma foi muito mal nessas pesquisas. Não estou levando em conta os números da espontânea, porque acho que este tipo de dado é pouco significativo a esta altura do campeonato. Voltando: Dilma foi mal porque as pesquisas mostram que ela já é conhecida de cerca de 80% do eleitorado. Serra é conhecido de 90% e tem manifestações de votos próximas de 40%. Dilma, com 80% de conhecimento, só tem 16% das pessoas dispostas a elegê-la. Acho que a ministra, sim, está chegando ao teto. Vamos olhar a rejeição à Dilma: bateu em 32,4%. É muito alto. Maior do que a do Aécio e a do Serra. Acho que, de fato, o anúncio da doença pode ter aumentado a velocidade de crescimento da ministra, neste momento, mas continuo na tese de que esta questão do câncer não irá refletir nas urnas. Nem contra, nem a favor. E também continuo achando que, contra a Dilma, o Serra será eleito em primeiro turno. Não vai ser fácil para a Dilma explicar, na campanha, essa história de que foi terrorista e assaltou banco. Brasileiro não gosta disso. Só haverá segundo turno se ficarem muitos candidatos na disputa. Mas acho que o Ciro Gomes, por exemplo, vai acabar desistindo.
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01/06/2009 - 10:16
Por Tales Faria
Na terça-feira esta coluna publicou entrevista com o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), na qual o peemedebista falava do interesse do partido em apoiar a candidatura presidencial da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, oferecendo até o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), como vice da chapa. Mas o líder cobrava do PT a contrapartida de apoio nos estados. Ao longo da semana o PT, na figura do presidente da legenda, Ricardo Berzoini, veio a público dizer que estava disposto a negociar e abrir mão de algumas posições regionais em favor do PMDB para ter o apoio do partido à candidatura Dilma. Os problemas são mais ou menos conhecidos.
Em Minas Gerais, o PMDB tem hoje o candidato mais bem colocado para governador: o ministro das Comunicações, Hélio Costa, mas o PT tem dois nomes fortes: o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel e o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social). A situação é delicada, porque ainda tem o atual governador, Aécio Neves, que deve sair para o Senado e a quem o governo quer adular para não fazer forte oposição à candidatura de Dilma Rousseff, e o ex-presidente Itamar Franco, um fortíssimo nome para senador. Ou seja, se quiser ajudar Dilma Rousseff em Minas, o PT terá que abrir mão da candidatura a governador e convencer Patrus e Pimentel de que só um deles pode sair para o Senado.
No Rio, a retirada da candidatura do prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias, em favor da reeleição do governador Sérgio Cabral (PMDB), não é lá muito difícil. Já está próxima de se concretizar. No Pará, também não é impossível costurar para que a governadora Ana Júlia (PT) apoie a candidatura do deputado Jader Barbalho (PMDB-PA) ao Senado. Em Mato Grosso do Sul, a ideia é convencer o PT a apoiar a reeleição do governador André Puccinelli e convencer o PMDB local a destinar as duas vagas de uma eventual aliança local para o Senado aos petistas Zeca do PT e Delcídio do Amaral.
PMDB e PT têm outros problemas nos estados para a composição de vagas do Senado. No Piauí, por exemplo, o peemedebista Mão Santa deve disputar a reeleição para senador contra o atual governador, Wellington Dias (PT). Em Sergipe, Almeida Lima (PMDB) enfrentará o ex-senador e presidente da BR Distribuidora José Eduardo Dutra (PT). Na Bahia, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), não aceita apoiar a reeleição do governador petista Jaques Wagner se o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, concorrer contra ele ao Senado. No Paraná, o problema é o governador Roberto Requião (PMDB), que será candidato ao Senado, e gostaria de não concorrer com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo (PT).
Enfim, são problemas, mas não são insolúveis. Seriam mais difíceis se o PT de hoje fosse o partido de antigamente, mais intransigente. Os tempos mudaram, e a legenda está mais sob as rédeas do presidente Lula do que jamais esteve. Cederá na maior parte dos pontos acima. E, onde não der para ceder, o PMDB compreenderá. Mais do que nunca, os dois partidos têm interesse em se acertar. Não tanto pelo peso eleitoral que o PMDB tenha no apoio a Dilma Rousseff.
Como bem lembrou ontem o sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, em artigo no jornal Correio Braziliense, o PMDB, como legenda, só encanta a 5% do eleitorado. Não se sabe quantos destes estariam dispostos a votar para presidente em um nome de outro partido sugerido por peemedebistas. Ou seja, o PMDB estaria dando muito pouco voto para um esforço tão grande do governo.
Mas não é pelo peso eleitoral do PMDB que Lula e o PT querem o apoio do partido. Em 2002, os peemedebistas uniram-se no apoio formal à candidatura do tucano José Serra a presidente, e quem se elegeu foi o petista Luiz Inácio Lula da Silva.
Lula e Dilma querem o apoio do PMDB, porque o partido é forte no Congresso. Se os peemedebistas quiserem tumultuar na Câmara e no Senado, aí, sim, terão um forte poder. E isso poderia refletir-se nas eleições. É o caso da CPI da Petrobras, por exemplo. PSDB e DEM deram ao PMDB um verdadeiro presente de Natal ao lutarem pela criação desta CPI. Os peemedebistas tornaram-se ainda mais necessários, a ponto de ressuscitarem o ex-presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL). Agora, serão adulados pelo PT e pelo governo até outubro de 2010. No mínimo.
Correção Online
Recebi o seguinte email do presidente da BR Distribuidora, José Eduardo Dutra (PT):
Caro Tales.
Gostaria de fazer uma pequena correção na sua coluna de hoje. Em Sergipe, as relações entre PT e PMDB são as melhores possíveis. Não haverá disputa entre eu e o Senador Almeida Lima por uma vaga no senado. Até porque não sou candidato a senador. Se for candidato a alguma coisa será a deputado federal. A briga em Sergipe é dentro do próprio PMDB. O deputado Jackson Barreto, que é quem controla o partido no estado, é primo e inimigo figadal do Senador Almeida Lima. E já disse públicamente que é candidato ao senado e que se Almeida quiser ser candidato deve procurar outro partido.
É estranho que a cúpula do PMDB inclua Sergipe como um estado onde haja problema entre os dois partidos pois eles estão carecas de saber a real situação.
É isso. Qualquer coisa, estou à disposição.
Um abraço.
José Eduardo Dutra
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26/05/2009 - 10:41
Por Tales Faria
Houve um tempo, no primeiro governo Lula, em que o líder do PMDB na Câmara podia não durar um só dia no cargo. O partido estava rachado, uma brigalhada sem fim entre aliados e opositores do Palácio do Planalto. Mas, depois que Henrique Eduardo Alves (RN) assumiu o posto, em fevereiro de 2007, a liderança nunca mais mudou de mãos. Isso aconteceu porque o líder passou a falar, de fato, pela franca maioria do partido. E foi para auscultar essa maioria que a coluna resolveu procurar o deputado. Primeiro, para saber dessa história de que o PMDB estaria apoiando um terceiro mandato para o presidente Lula. E Henrique Eduardo Alves não titubeou:
– Estão falando isso porque o deputado Jackson Barreto (SE) é do PMDB e defende a tese do terceiro mandato. Posso dizer com segurança que o partido não está nessa história. Essas coisas só vingam quando o presidente da República quer. Fernando Henrique Cardoso queria a reeleição. E o PMDB, que era governo, apoiou. Sarney, quando presidente, precisou manifestar-se a favor da tese do mandato de cinco anos, e só assim obteve a adesão de sua base parlamentar. Já o presidente Lula disse que não quer o terceiro mandato. Então, não vai haver nada disso. Digamos que o terceiro mandato de Lula ficou, talvez, para 2014, que é quando a Constituição permite que ele volte. A verdade é que essa coisa de terceiro mandato seria o mesmo que enterrar a candidatura presidencial da ministra Dilma Rousseff, e isso não nos interessa.
Nesta hora é inevitável perguntar ao líder se o PMDB não tem mesmo interesse em derrubar a candidatura Dilma. Afinal, o partido pode estar mais propenso a ir para o lado do candidato tucano, provavelmente o governador de São Paulo, José Serra.
– Nada disso. Vamos ser francos: o PMDB está no governo e tem interesse, majoritariamente, em seguir apoiando a candidatura da ministra Dilma Rousseff.
Pergunto, então, o que falta para fechar o apoio. E o líder responde que falta o PT se dispor a conversar:
– Isso, sim, me preocupa. Não podemos deixar essa conversa para mais tarde. Temos que sentar e começar a discutir agora, com firmeza e lealdade, as nossas prioridades. O PMDB é um partido forte nacionalmente, porque é extremamente forte nos estados. Para nós, o acordo nacional passa por acordos regionais sérios. A prioridade do PT é eleger a sucessora de Lula? No PMDB, a prioridade é eleger governadores, mas o PT é o partido que mais pode nos atrapalhar. Então, precisamos conversar logo, porque depois pode ficar tarde demais para um acordo dessa magnitude.
Conto ao deputado que eu acabara de conversar com o senador Paulo Paim (PT-RS). E que o parlamentar defende a candidatura própria do PT no Rio Grande do Sul, mesmo com a ministra Dilma Rousseff tendo surgido na política gaúcha e estar precisando tanto do apoio dos peemedebistas por lá. E mesmo com o PMDB tendo em José Fogaça um candidato forte no estado.
– Nesse caso, não vejo problema. A Dilma pode, de fato, ter dois palanques no Rio Grande do Sul. Basta que PT e PMDB no estado disputem com lealdade. Mas há outros lugares, como Mato Grosso do Sul, onde temos um pré-candidato com 70% de apoio do eleitorado e o PT local quer insistir em lançar um nome quase sem chances. Para quê? Não seria melhor, nesses momentos, demonstrar boa vontade com um aliado? Enfim, há muitas questões regionais que precisam ser resolvidas logo. Não podem ser deixadas para o ano que vem. Temos que chegar à Convenção já com as arestas aparadas, caso contrário as divergências regionais impedirão uma convergência nacional.
Por falar em convergência, pergunto se já há unidade no PMDB para a escolha do vice da chapa de Dilma. O líder responde:
– Havendo a vaga, Michel Temer seria praticamente o candidato único. Como presidente do partido, sua indicação para vice daria um caráter mais do que institucional à aliança. Sem contar a questão de São Paulo. Lá, o Orestes Quércia está muito próximo do Serra. Se o partido, no resto do país, bancar o Temer, vai resolver-se a questão em São Paulo a favor da Dilma. Enfim, teria todas as vantagens. Agora, se o critério fosse mais regional, o nome teria que ser do Nordeste. Nesse caso, o ministro Geddel Vieira Lima seria uma opção.
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25/05/2009 - 10:17
Esta coluna publicou entrevistas com Marcos Coimbra, presidente do instituto de pesquisas Vox Populi, e Carlos Augusto Montenegro, do Ibope, no dia 28 de abril. Em linhas gerais, eles diziam que o câncer da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, não influenciaria o eleitor na sua escolha para presidente da República em 2010. Coimbra ia além, argumentando que quem tentasse utilizar isto na campanha – tanto a ministra como seus adversários – poderia, este sim, sair prejudicado.
Lamento informar, mas acho que Coimbra e Montenegro erraram, apesar de serem dois dos melhores analistas de opinião pública que há por aí. A julgar pela pesquisa divulgada pelo PT na sexta-feira – de autoria do próprio Vox Populi – Dilma está se beneficiando da doença, sim. Nos cinco cenários pesquisados pelo instituto, a ministra ficou entre 19% e 25% das intenções de voto. Nunca antes ela havia alcançado nada assim. E a sondagem foi feita entre os dias 2 e 7 de maio, portanto depois do anúncio de que precisou retirar um tumor maligno do organismo.
Tenho a impressão de que, se o câncer da ministra mostrar-se curado, o medo de que a doença atrapalhe sua atuação administrativa será muito menor do que o sentimento de solidariedade do eleitor. E ela poderá se beneficiar disso na campanha, se não cometer exageros. Lembro quando Ciro Gomes era candidato em 2002 e se descobriu que sua mulher, a atriz Patrícia Pillar, tinha câncer. A moça até raspou a cabeça. Ficou linda, fez anúncios na TV. O grau de simpatia pelo marido cresceu absurdamente. Ciro acabou naufragando porque teve sua imagem desconstruída pela equipe de José Serra. E o próprio candidato se entregou aos seus costumeiros destemperos verbais. Mas que havia se beneficiado do tema, isso é inegável.
Ainda a propósito das entrevistas publicadas naquela coluna do dia 28, vale destacar outro detalhe: Montenegro parece ser quem errou mais. Nosso amigo disse que Dilma dificilmente passaria dos 15% a 17%, e que tudo indicava que o tucano José Serra venceria as eleições para presidente ainda no primeiro turno. Pois a tal pesquisa mostra que Dilma já praticamente assegurou a realização de um segundo turno.
O curioso da história é que na semana passada, poucos dias antes da divulgação da tal pesquisa, voltou a circular a conversa de terceiro mandato para Lula. O desconhecido deputado Jackson Barreto (PMDB-SE) ganhou manchetes dizendo que apresentará projeto de plebiscito para que se autorize a re-reeleição do presidente. Essa é uma conversa que todo mundo que está próximo de fato de Lula sabe que não conta com o seu apoio. Jackson Barreto obteve seus 15 minutos de fama. Mas esse papo só serve mesmo para dar a entender que a candidatura de Dilma Rousseff não é para valer. Falar em terceiro mandato de Lula é o mesmo que dizer que Dilma não tem chances de vencer. Então é uma prosa que interessa mais aos adversários de Dilma do que aos aliados de Lula. Daí porque a oposição sempre bate o bumbo quando se fala em terceiro mandato.
E já que estamos brincando de derrubar mitos, que tal falarmos dessa história de que o PMDB está preocupado com a doença de Dilma? Caro leitor, pense bem: se um candidato fica doente, quem é o primeiro beneficiado? O vice, é claro. Quem deveria ter preocupação era o PT, não o PMDB. Os peemedebistas estão doidos para fechar acordo com Dilma em 2010. Tudo que o presidente do partido, Michel Temer, o ministro da Integração, Geddel Vieira Lima, e o governador do Rio, Sérgio Cabral, mais querem é essa vaga de vice. Muito embora jurem o contrário. E, no PT, as figuras hegemônicas do partido – leia-se José Dirceu, Aloizio Mercadante e Marta Suplicy – já foram convencidos pelo presidente Lula a encampar a candidatura Dilma. Estão nisso até a alma.
Garotinho
O ex-governador do Rio Anthony Garotinho enviará no dia 1° de junho ao presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer, uma carta na qual comunica seu desligamento do partido. Garotinho argumenta que quer se candidatar a governador, mas que sabe do interesse do PMDB em apoiar a reeleição de Sérgio Cabral. Portanto, não lhe restava outra opção que não a de procurar outro partido. No caso, a legenda escolhida (e já acertada) é o PR. O ex-governador está em campanha frenética pelo interior do Estado.
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