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09/11/2008 - 11:05

“Os EUA rumavam para um tipo de fascismo”

A revista “Domingo” traz uma entrevista bastante interessante sobre a campanha de Barack Obama

NO OLHO DO FURACÃO

EM PASSAGEM PELO BRASIL, CHARLES ROSEN, RESPONSÁVEL PELA
CAPTAÇÃO DE RECURSOS DA CAMPANHA MAIS RICA DA HISTÓRIA DOS
EUA, CONTA COMO AJUDOU A ELEGER O NOVO PRESIDENTE

Repórter: CYNTHIA GARCIA
Foto: DANIEL WAINSTEIN

A campanha democrata, com ajuda da internet, arrecadou em torno de US$ 660 milhões vindos de aproximadamente 1 bilhão de donativos, e entrará para o Guinness como a maior quantia já captada numa eleição. “We made it (conseguimos)!”, disse Rosen, em êxtase, durante as rápidas 48 horas que passou, recentemente, no Brasil.

No cerne da multimilionária campanha para Barack Obama a pedido da senadora Hillary Clinton (Charles trabalhou para ela quando a mulher de Bill estava na corrida eleitoral), o publicitário nascido no Canadá (mas morador de Nova York, onde comanda a empresa de branding Amalgamated) liderou (”voluntariamente”) uma equipe cuja missão era convencer democratas, independentes ­ assim chamados aqueles que não são registra dos em partido algum ­ e indecisos a fazerem doações.

Acabou tendo visão privilegiada da acirrada disputa à cadeira mais nobre da Casa Branca. Presenciou as tentativas de difamação dos dois lados, a polarização do país, a paranóia do fator Bradley (para não ser tachado de racista, o eleitor mentiria para as pesquisas dizendo que votará num candidato negro, mas recuaria na urna) e a adesão da quase totalidade do showbusiness americano ao mantra de mudança ­ “We need change” ­ da campanha democrata (veja mais em quadro à frente). Também viu a segurança de Obama desmantelar três atentados contra ele, o último há três semanas. Aqui, lembra o espetáculo midiático que foram as eleições americanas e faz revelações exclusivas da corrida presidencial que mudou a história.

O que aconteceu que Hillary não foi escolhida como candidata?
É complicado. Havia uma disputa de poder dentro do partido democrata. Havia um grupo que sabia que teria menos poder com a volta dos Clinton. E tivemos um péssimo relacionamento com a imprensa. Eu estava presente nas primárias democratas. Quando eu ia ver a reportagem na CNN sobre a Hillary, parecia outro evento, crucificavam-na.

Por quê?
O segundo mandato de Bill Clinton (referência ao caso Mônica Lewinski) respingou nela. Os problemas que os Estados Unidos enfrentam são muito complexos, a maioria não entende, mas todo mundo sabe o que é um affair. Ele mentiu sobre isso e ficou no inconsciente coletivo.

Como foi o relacionamento com a mídia na campanha do Obama?

Houve uma articulação muito bem feita em torno da campanha. Viajando pelos estados, durante meses, dava para perceber o clima esfuziante crescendo em torno dele, nas igrejas, nos centros comunitários, nas escolas, algo nunca visto antes numa campanha.

Como analisa isso?
Qualquer movimento social, seja o de direito civil, seja a Al Qaeda, se dá por meio de pequenos grupos locais, em torno de um tema e de um líder simbólico. O senador Obama virou esse líder.

A seu ver, Hillary é mais preparada que Obama?
Há dois anos eu teria dito sim. O presidente Obama demonstrou a sua capacidade de liderança e caráter. Ele tem ótima qualidade para um líder: sabe ouvir. E tem uma calma, uma força, impressionantes.

Quando ela não venceu nas primárias, você apoiou Obama, por quê?
Tivemos uma reunião fechada, proibida para a imprensa, em maio, no hotel Mayflower em Washington, e Hillary pediu nosso apoio a Obama. Foi bem tensa, gerou briga. Alguns democratas perderam a confiança no partido, negaram apoio. Outros aceitaram a contragosto, e houve ainda os que concordaram porque perceberam uma liderança no presidente eleito.

E você?
Na realidade, não há diferenças ideológicas entre os dois. Nós, democratas, acreditamos num sistema nacional de saúde, no fortalecimento do nosso sistema educativo e dos Estados Unidos, entre outras coisas. Diferente dos republicanos, que se dividiram em cristãos conservadores, idéias conservadoras em relação aos impostos, o grupo pró-Israel etc. Mas possuem uma característica, por mais diferentes que sejam, conseguem se alinhar. Dizem: “Democrats fall in love, Republicans fall in line” (democratas se apaixonam, republicanos se alinham) (risos).

E o preconceito racial contra Obama e contra Hillary por ser mulher?
Essas questões foram levantadas o tempo todo pela imprensa de forma indireta e transformou as eleições num entretenimento midiático melhor que qualquer reality show. Nas entrelinhas era o tempo todo a questão do negro versus branco ou do homem negro contra a mulher branca.

O que aconteceu quando Obama se tornou o candidato do partido?
Foram dois anos de batalha árdua, e o país teve tempo para ver quem ele é. Viram como ele se comunica com o povo, como toma decisões, como passa as informações de forma radicalmente diferente da administração Bush, que desrespeitou os fundamentos democráticos americanos e estava rumando para um tipo de fascismo.

Explique.
Um pequeno grupo ficou com muito poder nas mãos. A democracia é um conceito delicado, quando a diferença entre as classes sociais fica abismal, ela se perde. Depois de 9 de setembro, passamos a conviver com o medo; em troca de segurança, perdemos boa parte de nossa liberdade como cidadãos.

Como vê os Estados Unidos em relação à comunidade internacional?
A idéia de que somos uma supernação já era. Obama irá manter um diálogo aberto com outros presidentes. A posição de McCain seria a de permanecer com o dedo em riste em relação ao mundo.

Qual cenário prevê para daqui a quatro anos?
Temos um bom tempo para ajustar os ponteiros dessa crise econômica. Acho que Sarah Palin não foi escolhida para ser vice nessa eleição nem para a presidência em 2012, mas para unificar a direita cristã e os evangélicos no partido, que não simpatizavam com a visão mais liberal, entre aspas, de McCain. E dessa maneira trazer dinheiro para os cofres republicanos. Ela deu nova vida ao partido e atraiu um grupo que McCain não conseguiu convencer.

E essa imagem de esquerda do Obama?
Dizem que ele é de esquerda, mas na verdade, ele não é tão de esquerda assim, foi o único lugar que sobrou para ele.

Mas e a relação polêmica dele com o terrorista americano Bill Ayers e o pastor Jeremiah Wright?
A audácia dos republicanos é espantosa. Acusam coisas absurdas e não olham para si. Sarah Palin desfilava nos comícios com seu bebê com síndrome de Down, como se fosse um acessório da produção de seu show. O padrasto de Karl Rove (mais importante estrategista do Partido Republicano) era gay, todo mundo sabia. A filha de Dick Cheney (vice no primeiro mandato de Bush) é gay, e esses dois condenam a união entre pessoas do mesmo sexo! Assisti a vários cultos do reverendo Wright, quando trabalhei para Hillary, quando queria que Obama perdesse a qualquer custo. Mas as palavras do reverendo são inspiradoras e baseadas em conceitos cristãos ¬ e olha que eu sou judeu! Agora, fazer como a imprensa faz, tira um pedaço aqui, edita ali, tudo sai de contexto.

Mas e o Bill Ayers?
Obama saiu da política de Chicago, que faz a de Washington parecer fichinha. Claro que em algum momento vai haver um encontro ou uma associação indevida. Mas não é razão para acabar com o caráter do presidente Obama.

Por que Hillary preferiu continuar como senadora?
O presidente precisa de alguém capaz de apoiá-lo, aconselhálo, mas que não diminua sua imagem. Não podemos esquecer a batalha das primárias de 18 meses para a escolha do candidato do partido. Uma diferença entre republicanos e democratas é que quando Obama se tornou nosso candidato à presidência, ele se tornou também o líder do partido, e com isso tem a responsabilida de de escolher seu vice. Os republicanos tomaram a decisão por McCain. A opção dele não era Sarah Palin, era Joe Lieberman, um judeu e ex-democrata. Imagine se os republicanos aceitariam um vice assim! O partido escolheu-a porque ela representa a direita, e no final foi bom para McCain. Não é oficial, mas corre ter sido Karl Rove quem escolheu Sarah Palin. Em 40 anos tivemos apenas dois presidentes democratas, Jimmy Carter e Bill Clinton; acredite, os republicanos entendem de eleições presidenciais.

O que achou da troca de agressões entre os candidatos?
É importante entender que a imprensa apelou para o sensacionalismo. McCain falou várias vezes que Obama é um homem respeitado, que está feliz por testemunhar um negro na corrida presidencial, mas coisas assim não são publicadas. Claro, ele queria vencer, mas tem a noção exata do momento histórico que estamos vivendo.

Como é Obama fora do palanque?
Pensei que ele fosse explodir com as acusações de Sarah Palin, mas nada, o homem tem uma calma fora do normal.

Depois dessa campanha de difamação, ódio e polarização do país, não teme que Obama seja assassinado?
Não acredito que isso aconteça. Quando o presidente Obama levar o país para um futuro melhor, essa animosidade muda.

O que significa ter Barack Obama como presidente?
Ele simboliza a resposta à ideologia do governo Bush. O país busca outro caminho desesperadamente para repararmos os erros cometidos pela administração atual e seguir em frente. Obama possui a visão, a personalidade, a força e a capacidade de governar a nação neste momento tão difícil.

E se McCain tivesse ganhado?
Eu me mudaria de volta para o Canadá (risos).

Enviado por: talesfaria - Categoria(s): Sem categoria Tags relacionadas:

1 comentário para "“Os EUA rumavam para um tipo de fascismo”"

  1. 10/11/2008 - 18:39 Enviado por: J Dean Pereira

    Tratando-se de crédibilidade, Obama, inica a administração com saldo altamente positivo!.Até quando(?).´”Só o tempo dirá”.

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