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Arquivos de 11/2008:

30/11/2008 - 14:04

Conversas aleatórias e o fim da política

Encontro no aeroporto, a caminho do Rio, um velho repórter de política de Brasília, o Tarcísio Hollanda. Ia para uma solenidade da ABI.  Foram as aparições de Tarcísio num programa de televisão chamado “Abertura” que me fizeram querer ser jornalista. Especialmente nos momentos em que Tarcísio entrevistava o ex-senador Petrônio Portela, um arenista que, na ditadura, atuava como espécie de coordenador político do processo de abertura política junto ao Congresso. Tarcísio perguntava quando iria acabar a ditadura e Petrônio, com a maior cara de pau, respondia “Qual ditadura?” Era muito interessante…

 Mas voltemos ao aeroporto. Encontro o velho colega e pergunto:

– E aí, Tarcísio, muita confusão no Congresso? 

– Confusão? Nada. O Congresso está parado. E não é só porque nada se vota. É porque parou tudo mesmo. Não há mais política.

Pois é. Como se o Francis Fukuyama, que em 1989 decretou o fim da história e a vitória definitiva do capitalismo sobre todos os regimes, tivesse baixado em Brasília. Não para decretar a vitória do capitalismo. Mas a vitória de qualquer coisa. Há uma sensação no Congresso de que todos perderam, mas que ninguém sabe de quem. Por conta da ausência momentânea de vitoriosos, está tudo parado. Decretou-se o fim das negociações, o fim das articulações e uma grande pausa na política até que se saiba para que lado, de fato sopram os ventos.

Enquanto não se encontram os vitoriosos, vão-se contabilizando os derrotados.

Num outro dia, dou de frente com o deputado Mário Heringer (PDT-MG). Ele se surpreende:

– Você vai passar o final de semana em Brasília? Tenho anos e anos de mandato e nunca, nunca mesmo, passei um final de semana por lá. Não aguento. Sempre que posso, tô fora da cidade.

De fato a maioria dos parlamentares pensa assim…

Mas aí jogo ao Heringer a bola que havia quicado com o Tarcísio:

– Parado o Congresso, né, deputado… Acabou a política?

Mineiríssimo, ele responde:

– Essas coisas você sabe que nunca acabam… Está tudo parado por dois motivos. Primeiro, porque a gente volta das eleições sem um tostão no bolso. Aí fica todo mundo meio melancólico, sem querer nada com nada. Depois, porque o presidente da Câmara, o Arlindo Chinaglia (PT-SP), não ajuda. Ele resolveu bater de frente com todos os deputados durante seu mandato e, agora, os deputados dão o troco: ele chama para as votações, esperneia, mas ninguém vai. Um fim melancólico, mas é o que ele cavou…

 

 

 

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25/11/2008 - 12:54

“Governo terá de desistir da MP 446″


O presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), é uma figura curiosa. Ao lado de Pedro Simon (PMDB-RS) e uns tantos outros, fez parte do chamado grupo ético do PMDB durante o processo de cassação do ex-presidente Fernando Collor de Mello e dos anões do Orçamento. Virou governador de seu estado, de 1995 a 2002. Acabou um pouco desgastado, por conta das alianças locais num Rio Grande do Norte, onde seu tio, o ex-ministro Aloísio Alves, e seu primo, Henrique Eduardo Alves (atual líder do PMDB na Câmara), eram os grandes caciques políticos. Garibaldi já foi oposição ao governo Lula e, agora, é tido como integrante da bancada governista.

Bem, era tido. Porque Garibaldi na semana passada tomou uma atitude completamente inesperada para o governo. Talvez o maior gesto de insubordinação de um governista de que se tem notícia, devolvendo ao Executivo a Medida Provisória 446, que prorroga os certificados de entidades filantrópicas, incluindo aquelas sob suspeitas de irregularidades. Agora Garibaldi passou a ser o arauto da reforma do mecanismo de edição de medidas provisórias.

Senador, o senhor se meteu numa tremenda confusão, não é mesmo?
– É verdade, mas eu não podia ficar só no discurso. Já havia subido à tribuna várias vezes para criticar o uso exagerado das medidas provisórias e, como presidente do Sendo, a dois meses de deixar o cargo, se ficasse sem nada fazer, seria até um gesto de covardia. Pareceu-me ainda, do ponto de vista constitucional, político e social, que esta MP 446 era completamente vulnerável. Não faz sentido anistiar entidades suspeitas. Então achei que a hora era esta.

O senhor considerou a MP uma afronta à Constituição e ao Congresso?
– Para ser sincero, a maior afronta não é esta MP, mas o excesso de medidas provisórias. A confusão toda foi criada menos por esta MP e mais pelo fato de estarmos todos já intolerantes com essa forma de o Executivo legislar, atropelando o Congresso.

O senhor é favorável a acabar com as MPs?
– Infelizmente, não creio que isto seja possível. Sempre haverá aqueles que acreditam ser necessário um instrumento emergencial para os momentos de crise. O pior é que todos os governos entenderam que deviam aproveitar esse mecanismo para fazerem valer a legislação que quisessem.

E como solucionar o problema?
– A questão das MPs em geral só será solucionada por meio de um projeto de emenda constitucional, que nós aqui no Congresso chamamos de PEC. Já há uma tramitando. Saiu aqui do Senado, foi para a Câmara e deverá voltar. Mas ela não põe fim ao principal problema, que é o trancamento da pauta. Os governos acabam utilizando as MPs, não só para legislarem à revelia do Congresso mas também para trancarem a nossa pauta, impedindo o Parlamento de legislar.

E quanto a esta MP especificamente?
– Aí o único jeito é desistir da MP e mandar para cá um projeto de lei, que tanto governistas como oposicionistas poderão votar em regime de urgência. Mas sem anistiar instituições em situação irregular.

Mas o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), está recorrendo contra sua decisão à Comissão de Constituição e Justiça. Lá o governo não pode vencer?
– Pode. Mas eu sofreria uma derrota com honra, e o governo sairia vitorioso com desonra. A solução conflituosa não é boa para eles.

O resultado da brincadeira é que o senhor acabou virando um oposicionista.
– Nada disso. Eu apenas tive que exercer a função institucional que me cabia. Não sou oposicionista. Estou travando uma luta institucional, só isso. Apesar de ter tocado na menina-dos-olhos do governo.

Mas cria um constrangimento para o seu partido, o PMDB, que é governista.
– Essa luta não tem a cara do PMDB. Se tivesse, eu até teria mais sucesso. Os oradores desse discurso são de todas as 11 tabas do Congresso. Todos os partidos.

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24/11/2008 - 14:05

Eles também querem consideração

A história foi contada por Fernando Collor de Mello, quando presidente da República, a seus articuladores políticos no Congresso. Ele tentava mostrar ao grupo que, às vezes, só o fato de tratar bem os congressistas já era o suficiente para manter uma boa relação com sua base parlamentar (A verdade é que o Collor tratava muito mal o Congresso e acabou sofrendo impeachment — mas isso são outros 500).

Bem, voltemos à história que o Collor contava ao grupo: Era uma vez um político do Nordeste que foi fazer campanha numa cidade daquelas do interior. Mas, quando chegou, encontrou um velho maltrapilho que se encostou a seu lado. Época de campanha, o político não teve dúvida: deu uma nota equivalente a uns R$ 10 pro velinho e foi-se embora. Mais adiante, ao entrar num boteco lotado para cumprimentar eleitores, lá estava o velinho, puxando-lhe a manga da camisa. O político deu de ombros, virou-se pro outro lado e foi em frente. Quando foi subir no palanque do comício, lá estava o velho novamente a puxar-lhe a manga da camisa. O político, então, não resistiu e voltou-se para o sujeito: “Eu já não lhe dei dinheiro?” E o velhinho respondeu: “Deu sim, mas o que eu queria mesmo era consideração”…

Digo isto para argumentar que, às vezes, mais importante do que dinheiro e poder é a, digamos, consideração.

Por que Itamar Franco tanto odeia o Fernando Henrique Cardoso, se o presidente que o sucedeu até arrumou-lhe um belo cargo de embaixador na Itália, com direito a todas as mordomias e rapapés do meio diplomático? Simples: porque, mesmo lá, à distância, Itamar ouvia histórias sobre as piadas que a Corte aqui em Brasília fazia - capitaneadas pelo próprio FHC - a respeito de seu jeito simplório. As comparações entre os dois. A nova base política de Fernando Henrique tentando entregar ao presidente de plantão todo o sucesso do Plano Real, tirando os créditos de Itamar…

Enfim, Itamar ficou tiririca porque sentiu que faltaram-lhe com consideração.

O que todo presidente em final de mandato começa a pensar é isto: como será tratado ao sair do governo? FHC era um piadista. Daqueles que perde o amigo, mas não perde a blague. Fazia isto o tempo inteiro, no governo, sobretudo com seu ministro mais íntimo, o José Serra. Ao final do mandato, imaginou: no poder, o Serra vai querer dar o trôco. Daí que todo mundo diz que FHC torceu mais pela vitória de Lula do que a de Serra nas eleições. Mais que isso, mateve uma relação extremamente cordial com Lula. Daí que, depois que assumiu, Lula viu-se origado a tratar seu antecessor com, digamos, toda consideração.

Acho que, apesar do que se diz, FHC torcia pelo Serra. Mas não custava nada garantir a boa convivência com Lula. E foi o que fez. E a mesma coisa vejo agora no Lula em relação ao próprio Serra. Uma vez fora do poder, o atual presidente quer ser tratado pelo seu sucessor com consideração. O que é garantido, se a eleita for a Dilma Roussef, sua ministra. Mas e se der Serra?

Para garantir ser tratado com consideração no futuro, não basta a amizade do passado  entre ambos (Lula costuma contar que até indicou Serra para ministro da Fazenda de Itamar Franco, mas o presidente não aceitou). É preciso também fazer alguns acenos. Acho que esse negócio da compra da Nossa Caixa pelo Banco do Brasil tem um pouco disso: uma ajudazinha ao Serra para que, caso ele suplante Dilma nas eleições, não se sinta à vontade para tratar mal o antecessor.

É o chamado Seguro consideração!

 

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23/11/2008 - 11:35

As veias abertas

Por falar em coluna imperdível do “Correio Braziliense”, não dá para perder a Entrelinhas de hoje, do Luiz Carlos Azedo:

Acabo de ler, emocionado, um artigo do escritor moçambicano Mia Couto intitulado “Se Obama fosse africano”. O tema desta coluna é correlato, mas optei por um título inspirado em Eduardo Galeano, estudioso do colonialismo e da dependência na América Latina. Vamos, pois, ao sarapatel histórico-político-antropológico.

Africanos
O que disse Mia Couto? Fez uma reflexão sobre a repercussão da eleição de Barack Obama na África, intensamente comemorada, seja em manifestações espontâneas do povo africano, seja em pronunciamentos e atos oficiais. Passada a euforia, da qual Mia Couto fez parte (diz que chorou tanto quanto na posse de Nelson Mandela na Presidência da África do Sul), pôs-se o escritor a imaginar o que aconteceria com Obama na África.

Primeiro, teria que esperar muito, porque os governantes costumam prorrogar seus mandatos e se reeleger seguidamente, em eleições fraudulentas. Seriam 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egito, 26 em Camarões. Robert Mugabe, no Zimbabwe, terá 90 ao terminar o atual mandato. Segundo, na oposição, não teria espaço para fazer campanha. Com sorte, não seria assassinado. Terceiro, poderia ter a nacionalidade contestada, pois é filho de norte-americana. É o que acontece com Keneth Kauda, líder na independência da Zâmbia, país que já governou (ops!) por 25 anos. Quarto, Obama só é negro no Ocidente; se fosse africano, seria mulato, representante de “outra raça”, a do colonizador. Seria vilipendiado por sua condição racial. Quinto, segundo ainda Mia Couto, as posições de Obama em relação às mulheres e ao homossexualismo jamais seriam aceitas pela “pureza africana”.

Brasileiros
O Brasil é um país continental por causa da esperteza da nossa antiga elite branca escravocrata. O direito à propriedade privada — um dogma liberal — foi introduzido por D. Pedro I na Constituição de 1824, outorgada por ele, depois de fechar a Constituição de 1823, para salvaguardar os proprietários de escravos. Na Independência, para proteger o tráfico negreiro, tentou anexar Angola ao Brasil Imperial, mas os ingleses não deixaram. A então colônia africana, após a expulsão dos holandeses do Nordeste, foi recuperada muito antes de Moçambique, pela esquadra armada por proprietários fluminenses sob comando de Salvador de Sá.

Havia — e ainda há em alguns lugares — escravidão doméstica na África, por causa das guerras, desequilíbrios demográficos e fome. O que os portugueses fizerem no Brasil foi resgatar a velha escravidão romana e transformá-la na forma mais abjeta e brutal de acumulação pré-capitalista do mercantilismo. O Estado brasileiro consolidou nossas fronteiras graças ao extrativismo e à pecuária, mas foi com a escravatura que se sustentou durante o Império.

Com a América espanhola esquartejada pelo manto libertador em repúblicas instáveis, dominadas por suas elites “crioulas”, nenhum país da América do Sul foi páreo para o Brasil, nem mesmo a aristocrática Argentina. O Paraguai bem que tentou, com Solano Lopes, ao ensaiar uma revolução industrial. Mas ameaçou interesses da Inglaterra e foi massacrada pela Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai). A consolidação de nossas fronteiras por Rio Branco pode ser considerada juridicamente perfeita, porém, deixou ressentimentos. Que o digam o Paraguai, a Bolívia e, agora, para nosso espanto, o Equador, com o qual não temos fronteiras.

Somos um país de mestiços, apesar de “embranquiçado” por D. Pedro II na segunda metade do século 19. A imigração européia sedimentou uma divisão geopolítica que às vezes opõe o Brasil meridional ao setentrional. É mais fácil a política oficial de cotas raciais — com a qual não concordo, apesar de ser pardo – agravar essa divisão do que acabar com a discriminação. Ainda mais porque não vai ao fundo da questão: a desigualdade social. Restringe-se às decadentes universidades públicas, dominadas pela classe média, enquanto a “elite branca” manda os filhos estudarem nas melhores universidades norte-americanas e européias. Nos Estados Unidos, a integração racial começou para valer com a doutrina Sullivan, que obrigou as empresas norte-americanas a ter um diretor negro na África do Sul e implodiu o apartheid. O resto foi conseqüência. Hoje, Obama é o presidente eleito e a política de cotas nas escolas norte-americanas está sendo revista pela Suprema Corte. 

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23/11/2008 - 11:24

O Desequilíbrio dos Poderes

Sociólogo e Presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra (marcoscoimbra.df@diariosassociados.com.br) escreve aos domingos, no jornal “Correio Braziliense” uma coluna imperdível sobre política. Hoje, sobretudo, faz uma análise bastante interessante sobre o desequilíbrio entre Judiciário, Legislativo e Executivo. Veja: 

Às vezes, coisas importantes recebem registro pequeno, enquanto outras, de relevância duvidosa, ganham destaque. No noticiário político isso é até comum, o que está longe de justificá-lo.

Veja-se a atenção com que são tratadas algumas declarações do presidente Lula que, a rigor, pouco significado têm. No que se refere à crise econômica, por exemplo, ele tem primado por manifestações inócuas, que em nada contribuem para melhorar a compreensão do que seu governo está pensando e fazendo. Enquanto insiste em afirmações que subestimam a gravidade da situação, a política governamental sinaliza o oposto. Senão, por que seria necessário injetar R$ 400 bilhões na economia?

Esta semana, ao mesmo tempo em que vimos Lula batendo na sua tecla, seu antecessor fez algumas declarações de grande significado. Pouca gente, no entanto, prestou atenção ao que disse Fernando Henrique Cardoso.

Ele mesmo é culpado pelo escasso impacto de suas opiniões. Por se envolver de maneira excessiva com a vida política diária, FHC perdeu condições de ser uma referência para o debate das grandes questões nacionais, como caberia a um ex-presidente. Esse papel exige uma posição quase suprapartidária, algo que ele parece não conseguir assumir.

É pena, pois Fernando Henrique tem atributos pessoais e intelectuais mais que suficientes para desempenhá-lo. Lembremos o que disse.

Foi por ocasião da comemoração, promovida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), dos 20 anos da Assembléia Nacional Constituinte. Em duas oportunidades nesse dia, FHC falou sobre o modo como se dão, na atualidade, as relações entre os Três Poderes e para onde estão indo, se nada for feito em contrário.

Para ele, foi um “grave erro” permitir que as Medidas Provisórias trancassem a pauta do Congresso, após tramitar por 45 dias. A regra fez com que o presidente tivesse o poder de “bloquear o Congresso”, como terminou ocorrendo no fim de seu governo e durante o de Lula. Disse que tinha consciência disso, mas que anuiu com a mudança, pelo qual hoje se penitencia.

Na opinião de Fernando Henrique, essa medida subtraiu parte do poder do Legislativo e o transferiu ao Executivo. Bastaria ela para provocar um desequilíbrio indesejável.

O pior, segundo ele, é que ela aconteceu em paralelo a outra, que veio em função da descoberta, pelo Judiciário, especialmente pelos Tribunais Superiores, de que a Constituição lhes dava o poder de normatizar os dispositivos que ficassem sem a devida regulamentação. Essa descoberta levou a um substancial incremento do papel do Judiciário na proposição de normas, chamado hoje em dia “judicialização”, que terminou por retirar do Legislativo outra fatia de suas atribuições.

Espremido entre um Executivo cada vez maior e um Judiciário cada vez mais ativo, o Legislativo brasileiro se atrofiou e ficou menos relevante. Se a isso somarmos que, pelos seus próprios descaminhos, o Congresso tem sido pouco capaz de merecer o apoio da sociedade, vemos a gravidade do problema que temos. Sem legitimidade, não lhe resta sequer apelar ao país para que sua importância seja restabelecida.

Vozes como a de Fernando Henrique, quando diz coisas assim, deveriam ser mais ouvidas. Questões institucionais parecem, algumas vezes, ser tão abstratas que só interessam aos especialistas. É um equívoco, no entanto, que não devemos cometer, pois elas podem trazer conseqüências muito concretas para nossas vidas e as de nossos filhos, se não forem tratadas.

Os vinte e poucos anos que temos de democracia moderna mostram que andamos um bom caminho, em tempo tão curto. Mas mostram, também, que falta muito para fazer e que já é hora de corrigir os erros cometidos.

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20/11/2008 - 11:19

Do líder do PMDB: a culpa é do governo

O líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN) é primo do presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), e um bom termômetro de como bateu dentro do partido essa encrenca da medida provisória 446. Perguntei se o PMDB vai ficar do lado do governo ou do Garibaldi:

- Pois é, colocaram o partido numa confusão. Nós estamos em plena campanha para eleger o Michel Temer presidente da Câmara e não, pretendíamos, neste momento, nos envolver em polêmicas. Mas a verdade é que o governo está sendo teimoso.

Como assim?

- Ora, essa MP não faz sentido. Expõe o governo de maneira desnecessária, em defesa de entidades em situação irregular. Todo mundo sabe disso. Até o próprio José Múcio (Monteiro, coordenador político do Palácio do Planalto) já tinha admitido. Mas aí veio o Henrique Fontana (PT-RS, líder do governo na Câmara) e diz que a medida está correta, que é isso mesmo, que ela foi mal compreendida. Ou seja, deu o sinal de que o governo ia insistir na história, pura teimosia. Aí obrigou o presidente do Senado a tomar uma atitude. Não quero entrar no mérito da decisão, nem trazer essa encrenca para o PMDB da  Câmara, que está procupado com a eleição do Temer. Mas que o governo errou, errou.

Bem, quem conhece as entrelinhas do discurso peemedebista sabe que, embora o líder diga que quer ficar fora da encrenca, na verdade o PMDB já está nela até o pescoço. Mais: quem conhece a malemolência do partido, sabe que eles vão tirar alguma vantagem dessa história. O gesto de Garibaldi, na verdade, é um sinal para o Palácio: cuidado que o PMDB não é fraco, não. Primeiro eles mandam o sinal, depois apertam o garrote, depois afrouxam. E, no final, cobram a conta.

Mas que o líder está certo, lá isto está, mesmo: o governo está teimando com uma medida provisória incongruente. Na verdade, está teimando com toda essa história de medidas provisórias. Já era hora de elas acabarem mesmo. Não serem mais usadas.

 

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18/11/2008 - 16:59

Quixote, Sancho Pança e Suplicy

O senador Pedro Simon (PMDB-RS) aproveitou o dia morno, ontem, no plenário do Senado, para anunciar uma tese gelada que dificilmente mobilizará multidões: ele, seu colega Cristovam Buarque (PDT-DF) e o paulista Eduardo Suplicy (PT) vão percorrer o país para debater a eleição presidencial de 2010.

Aproveitando-se da mídia recente em torno das eleições americanas e da escolha de Barack Obama, Simon defende a realização de prévias para a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sugere, explicitamente, que o Brasil poderia seguir o exemplo dos EUA, que escolhem seu presidente “num longo processo democrático que mobiliza o país”.

Bem, antes de mais nada, é preciso dizer que esse processo de escolha de presidente americano não é tão democrático assim. Colégios eleitorais inteiros, nos estados, são obrigados a votar num único candidato, vitorioso nas prévias, mesmo quando a diferença de votos não foi tão alta. Uma anomalia que resultou, oito anos atrás, na eleição de George Bush para presidente, com minoria. Naquela época, falou-se muito mal do sistema. Agora que deu Obama, temos essa onda aí, de que, nos EUA, a democracia é uma beleza.

Depois, é preciso ser bem claro sobre qual a questão que está levando Simon, Suplicy e Cristovam a quererem percorrer os estados. Não é nenhum sentimento menor. Mas é preciso falar claro: querem um candidato alternativo à ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff – nome escolhido pelo presidente Lula – para presidente.

Disse Simon, em plenário, que, pela primeira vez depois de cinco eleições, o nome de Lula não constará da cédula de uma campanha presidencial: “Esta será uma eleição diferente, não existe candidatura natural, o próprio PT ainda não acatou o nome apoiado por Lula, da ministra Dilma Rousseff”, argumentou. E insistiu que o PMDB é o maior partido do país, mas “que, da forma como é dirigido, ficou reduzido a um acessório nas eleições presidenciais”. Simon afirma que não defende explicitamente a candidatura própria, “porque a direção do PMDB vai usar isso para negociar com o PT ou o PSDB”.

Tem razão o velho senador. Quando o presidente nacional do PMDB, Michel Temer, fala em candidatura própria, ele só está querendo, de fato, aumentar o valor do PMDB na barganha. O próprio Simon já foi usado assim: lançaram-no candidato para melhor negociar com o presidente da época, que era Fernando Henrique Cardoso.

É uma pena, mas essa caravana de Simon, Cristovam e Suplicy é a caravana dos rejeitados. São três senadores da melhor qualidade, mas têm andado meio na contramão eleitoral. Cristovam foi um pouco além dos 2% como candidato a presidente nas últimas eleições. E, agora que o presidente de seu partido, Carlos Lupi, entrou de cabeça no governo, dificilmente o PDT lhe dará a legenda novamente. Suplicy – meio que boicotado pela direção nacional do PT – elegeu-se senador com uma pequena margem sobre Guilherme Afif, do ex-PFL.

Mas nem tudo está perdido para eles. Simon e seu grupo reelegeram o prefeito de Porto Alegre, José Fogaça. Não têm voz no PMDB nacional, mas mantêm seu pequeno império no Sul. E Suplicy, como sempre, teve o destino a seu favor. A derrota de sua ex-mulher, Marta Suplicy, acabou com o último nome com força eleitoral em São Paulo – que não o do senador – para a disputa a governador em 2010.

Lula e o PT não morrem de amores pelo companheiro de partido, mas, sem ele, sairão com quem? Aloizio Mercadante queimou-se completamente nas eleições anteriores, quando foi derrotado por José Serra em meio a boatos de fabricação de dossiês contra os tucanos. José Dirceu e Ricardo Berzoini, os dois nomes de peso dentro do partido no estado, não têm grande patrimônio eleitoral. Faltam-lhes votos!

Lula pode não gostar de Suplicy. Mas, se decidiu eleger Dilma Rousseff, talvez tenha que fazer o sacrifício de colocar o senador na campanha, trazendo apoios para sua candidata. Afinal, escolher um poste no resto do Brasil e, ainda, escolher outro poste para tentar eleger no principal colégio eleitoral do país seria mais do que temeridade. Seria burrice mesmo. E o presidente já deu mostras de que não é burro.

 

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17/11/2008 - 14:28

Mercado tem cara, boca e jeito de jacaré

Pelo que me consta, foi Leonel Brizola o primeiro a usar a piadinha na política: se a coisa tem cara de jacaré, boca de jacaré e dente de jacaré, pode estar certo de que é um jacaré.

É uma piada muito apropriada para a política porque, nesse campo, o que mais se faz é a turma tentar convencer o pobre do cidadão de que uma coisa não é uma coisa. De que o jacaré pode ser um príncipe, uma lagartixa, mas nunca um jacaré.

Pensando bem, não é só na política que se age assim. Na economia também. Hoje os sites todos vieram mais ou menos assim:

“A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) abriu o pregão desta segunda-feira em queda acentuada, influenciada pelo pessimismo global em relação à economia. Investidores assimilaram mal as determinações da reunião do G-20 (grupo das maiores economias) que esteve discutindo a crise financeira no fim de semana.

As Bolsas de Valores da Europa começaram a semana no terreno negativo, com a decepção quanto à falta de um plano prático na reunião do G20. Na Ásia, a bolsa de Tóquio encerrou o pregão em alta, apesar de o país ter anunciado que está em recessão. O índice Nikkei encerrou os negócios com ganhos de 0,71%. As outras Bolsas fecharam sem direção comum. “

Enfim, se você lê atentamente, vê que ninguém está seguro de nada e que, na falta de explicações, vale qualquer coisa. Amanhã, é provável que a bolsa suba um pouquinho (não muito), porque o pessimismo se foi, graças ao vento sudoeste que bateu sobre a economia francesa. Ontem, a desculpa foi que não gostaram dessa ou daquela declaração. Anteontem, que tudo subiu porque os investidores passaram a ver uma luz no horizonte, que logo se dissipará permitindo novas especulações…

Desculpem, mas eu estou de saco cheio dessa história. Me sentido enrolado. Acho que tem é muita gente especulando.

Há crise? Há! Ela se reflete na bolsa? Sim! Mas tem muita bobagem aí servindo para explicar que essa gente toda do mercado, embora tenham cara de jacaré, dente de jacaré, boca de jacaré, são apenas lagartixas tentado sobreviver à onda das finanças mundiais.

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11/11/2008 - 17:39

Internet e política

A propósito do post anterior, veja o texto de hoje da Folha de S.Paulo, que me foi enviado pelo amigo Sérgio Costa.

Boom de sites de campanha não explora interatividade
Número de páginas de candidatos cresce 317%, mas políticos ignoram recursos da rede

Dados são de pesquisa da UNB; para especialistas, experiências de Obama nos EUA e Gabeira no Rio podem estimular campanha on-line

ITALO NOGUEIRA
DA SUCURSAL DO RIO

A internet, terreno em que as campanhas de Barack Obama e Fernando Gabeira fizeram sucesso neste ano, é ocupada cada vez mais por candidatos, mas poucos sabem explorá-la.

Segundo pesquisa da UnB (Universidade de Brasília), houve crescimento de 317% no número de sites de candidatos no Brasil, em comparação com as últimas eleições municipais. Mas o boom não foi acompanhado da interatividade, como fizeram o presidente eleito dos EUA e o candidato derrotado à Prefeitura do Rio.

Os dois mobilizaram jovens para suas campanhas, criando “pontos de encontro” de adeptos em seus sites. As páginas tinham espaços em que voluntários organizavam ações sem a tutela dos candidatos, mas em favor deles. Eleitores de Gabeira, por exemplo, fizeram uma doação de sangue em massa, imagem que depois foi usada na campanha oficial.

O mesmo não ocorreu com os demais candidatos. Segundo estudo de Francisco Brandão, pesquisador da UnB, 9.254 candidatos a prefeito e vereador criaram sites de campanha, contra 2.218 em 2004. Mas a maioria ignorou recursos interativos, usando as páginas como “folders eletrônicos” -com fotos, textos e vídeos apenas.

A falta de legislação clara sobre propaganda na internet e o receio em descentralizar a campanha frearam, segundo especialistas, a interatividade. Neste ano, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) adotou para a internet as regras na campanha de TV e rádio, o que gerou dúvidas entre candidatos.

“Muitas vezes o candidato tem insegurança de fazer determinado evento e depois ser questionado pela Justiça Eleitoral”, diz Brandão.

Sem milagres

Especialistas afirmam que as experiências de Obama e Gabeira vão obrigar os demais a ampliar o uso de ferramentas digitais. Mas não crêem no surgimento de um fenômeno eleitoral só a partir da rede.
“Se um candidato de pouquíssima relevância usa a internet muito bem, isso não vai necessariamente alçá-lo a uma posição melhor”, diz o cientista político Francisco Paulo Jamil, da UFMG.

A pesquisa de Brandão indica justamente que a internet serviu, até agora, a candidatos com forte estrutura de campanha. A proporção de candidatos “conectados” é maior nos principais partidos e entre políticos que já exercem mandato.

“É preocupante, porque a internet pode apenas repetir distorções que existem no nosso sistema eleitoral e político. Mas mostra a força desse meio, porque os atores mais influentes já estão interessados nele”, diz.

A campanha de Obama afirma ter recebido doações de 3,1 milhões de pessoas na internet. Gabeira tentou arrecadar pela rede, mas não conseguiu autorização do TSE, que promete regulamentar esse tipo de doação para a próxima eleição.

O avanço sobre a rede tem como alvo uma fatia de 34% da população que acessa a internet, segundo o Comitê Gestor da Internet. O percentual chega a 60% entre os jovens.

Para Jamil, os candidatos com eleitorado jovem têm mais chance de “lucrar” com a internet, mas devem adequar o site. “Se o candidato defende propostas para os jovens, e esse eleitor entra no site e só há uma foto e um texto chato que está desatualizado, esse vínculo é quebrado.”

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11/11/2008 - 12:23

A grande revolução de Barack Obama

Confesso que o título acima pode se tornar meio exagerado. Pode ser que a revolução de que eu vou falar não seja a única, nem a grande revolução promovida pelo presidente negro dos EUA, Barack Obama. Se, com ele, sobrevier uma revolução nos costumes americanos, colocando uma pá de cal no racismo, esta será, sim, a grande revolução. Se o futuro presidente dos EUA acabar com a mania dos americanos de se acharem os donos do mundo, esta também será uma grande revolução. Enfim, outras tantas possibilidades de grandes revoluções se abriram com a eleição de Barack Obama. Daí essa onda de otimismo que se instalou, mesmo em meio a uma das maiores crises financeiras da História.

Mas, por enquanto, fico com a grande revolução mais à mão, aquela que a eleição de Obama já está promovendo: a entrada definitiva da internet na política.

Segundo reportagem publicada ontem no site do jornal The Washington Post, assessores e aliados do presidente eleito dos Estados Unidos estão preparando uma expansão do sistema de comunicação da Casa Branca, cujo objetivo é permitir que o democrata mantenha contato com seus apoiadores, mobilizados ao longo dos 21 meses de campanha pela internet. A reportagem afirma que Obama quer continuar a usar a rede para se manter próximo à população. Cuidará de uma base de dados com endereços de e-mail de 10 milhões de pessoas. Desse total, cerca de 3,1 milhões fizeram doações para a sua campanha e os outros se apresentaram como voluntários que organizaram grandes comícios e fizeram campanha boca a boca.

Desde o início da candidatura, o presidenciável Obama optou por fazer uma campanha sem investimentos privados, usando apenas as arrecadações de seu eleitorado. Em uma atitude inédita, decidiu que a forma prioritária de divulgação de sua propaganda eleitoral seria a rede mundial de computadores. Por meio de vídeos postados no YouTube que se tornaram verdadeiros hits, o candidato pediu pequenas contribuições que se multiplicaram. Acabou entrando para o Guinness como a maior quantia já captada numa eleição: graças à internet, a campanha democrata, arrecadou em torno de US$ 660 milhões.

Aqui no Brasil, quem mais percebeu este fenômeno foi o candidato do PV a prefeito do Rio, Fernando Gabeira. Ele também priorizou a internet, inclusive para contribuições de campanha. Tanto que, já no primeiro turno, ultrapassou em arrecadação o bispo Marcelo Crivella - com todo o poder da Igreja Universal do Reino de Deus. Valendo-se da internet, Gabeira acabou se tornando a grande surpresa das eleições no Rio, mesmo tendo chegado em segundo lugar.

No caso dos EUA, Segundo informa a tal reportagem do Washington Post, Barack Obama entendeu que, de fato, a internet traz uma nova dimensão para a política. Terminadas as eleições, sua equipe mandou, na semana passada, uma mensagem eletrônica aos apoiadores, afirmando que esta não seria a última a ser enviada pela turma do presidente. Que se preparassem os eleitores para permanecerem em linha direta com o eleito. Na quarta-feira, o próprio Obama enviou um texto aos auxiliares, no qual insistiu que a eleição deve ser o começo e não o fim desse tipo de movimento político iniciado na sua campanha. Daí que já foi criado um novo site , que dá informações sobre a transição do governo, põe à disposição um blog e um formulário de sugestões. O projeto aponta com clareza o tipo de interação com a população que a administração de Obama pretende estabelecer.

Deu para entender? Votou no sujeito, e ele manterá você em linha direta com seus auxiliares no governo. Os apoiadores de campanha continuarão opinando e - até! - participando de sua administração. É ou não é uma grande revolução?

Não sei que tipo de antropofagia a democracia americana fará deste tipo de democracia direta que a internet tende a produzir, à medida que se vai aproximando da política. Mas a movimentação da política em direção à rede mundial de computadores, produzindo um novo tipo de democracia direta, parece inevitável. Ainda mais agora que foi apadrinhada pelo presidente dos EUA.

Enviado por: talesfaria - Categoria(s): Sem categoria Tags relacionadas:
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