O deputado e pré-candidato à presidência da República, Ciro Gomes (PSB-PB), tem dito aos colegas parlamentares que o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), está acuado pela imprensa com as denúncias de malversação dos recursos da cota aérea. Para ele, Temer tomou decisões precipitadas e deveria enfrentar a crise, não reagir de forma afoita através de decisões de cúpula.
Ciro acredita que a Câmara deveria explicar para a população o que é e como funciona uma cota aérea. Pensou até mesmo em convocar embaixadores de outros países, como Inglaterra e França, para explicar como são seus sistemas de passagens para parlamentares.
Após isso, a decisão sobre o tema deveria ser tomada numa comissão Geral, ou seja, com a presença de todos os parlamentares.
Suas ideias foram bem recebidas por diversos parlamentares. No fumódromo da Câmara, por exemplo, os deputados fumantes se espremeram num espaço de três metros quadrados para reclamar das novas medidas em relação à cota.
Silvio Costa (PMN-PE) foi um dos mais aguerridos no fumódromo. E também no plenário da Casa. Disse que o impedimento de usar a cota para viajar com a esposa de seu Estado para Brasília acabaria com seu casamento. Chegou a dizer que, “daqui a pouco”, para ser deputado, “o cara vai ter que”, digamos assim, mudar sua orientação sexual – para colocar em bons termos.
Ciro, acusado por jornais de ter levado sua mãe para o exterior e pago as passagens com recursos da Câmara – “mesmo ela não tendo sequer visto para os Estados Unidos quando dizem que ela foi” – garante que há algo muito errado nas recentes divulgações. De homônimos a maldade.
Ele passou a tarde com uma planilha mostrando os gastos dos poderes com passagens aéreas em 2008. São os seguintes:
Executivo – R$ 661,4 milhões
Congresso (Câmara e Senado) – R$ 90 milhões
Justiça Superior e Federal – R$ 28,5 milhões
Ministério Público – 6,5 milhões
Frente aos dados, o deputado questiona porque a Câmara é o alvo da ação e porque o Ministério Público vazou dados de uma investigação que, segundo ele, sequer foi formalizada.
Nesse compasso, Ciro ainda criticou Fernando Gabeira (PV-RJ), que se antecipou a denúncias e disse ter se arrependido do uso de sua cota aérea para levar a esposa ao exterior. “Ele está querendo ser a flor no lodo?”, questionou, completando que Gabeira está, com essa ação, denegrindo seus pares e uma instituição a qual ele gastou dinheiro e energia para entrar.
No fumódromo, outro deputado entra. Também defende a cota, acha um absurdo as mudanças provocadas por Temer. Ele, contudo, conta uma anedota. Fala de um promotor, que tal como nesse caso, preferiu entregar suas investigações para a imprensa que submetê-las a um processo formal. “A Justiça rápida”, brincou o parlamentar.
Sem dúvida a generalização do escândalo não é benéfica para o parlamento e para o que ele representa. Isso sem contar que informações incorretas começam a aparecer e, no caso de Ciro, fazem com que sua mãe, de 80 anos, passe por constrangimentos que não deveria passar.
Porém, nessa briga toda, a imprensa pode e comete erros. O essencial é que os repare com isenção e mesma publicidade de seu ataque.
Mas essa reparação, na prática, é tão difícil quanto esperar que os próprios parlamentares acabem, por livre e espontânea vontade, com o patrimonialismo, ou que a Justiça condene um corrupto graúdo e o segure na cadeia por mais de dois dias.
Podem tentar culpar a imprensa pelas mazelas do Congresso, como fez ACM Neto (DEM-BA). Podem culpá-la por cometer excessos sem dar o direito de resposta a contento. Ela pode ser acusada de tudo. A única coisa que não podem falar da imprensa é que, no caso das passagens, ela está em desarmonia com os interesses e com o tempo da população.
(Severino Motta, da reportagem)