Por Maurício Targino
Em seus primeiros minutos, The Game of Their Lives (que no Brasil foi “fielmente traduzido” para Duelo de Campeões) até promete ser um filme se não excelente, ao menos honesto em sua intenção de resgatar um dos fatos mais impactantes da história do futebol: a vitória da modesta Seleção dos EUA sobre a poderosa Inglaterra na Copa de 1950.
Nas arquibancadas do estádio Robert F. Kennedy em Washington, minutos antes de começar o All-Star Game da Major League Soccer em 2004, está Dent Mcskimming, o único jornalista norte-americano que cobriu a ida do time norte-americano ao Mundial do Brasil. Em off, ele narra a história.
O fato de que o verdadeiro Dent McSkimming morreu em 1976, a princípio não chega a incomodar. Afinal, se está diante de um típico filme norte-americano de Sessão da Tarde. Mas os problemas da película dirigida por David Anspagh começam aí.
No início de 1950, numa pequena comunidade de St Louis, alguns jovens veteranos da II Guerra Mundial começam a se destacar jogando soccer. Quando a Federação Norte-Americana resolve fazer uma seletiva para escolher os jogadores que representarão o país na Copa do Mundo de 1950, eles vêem uma oportunidade de mudar suas vidas e entrar para a história. Sim, você já viu esta história com outra embalagem em outros filmes.
Daí em diante, vemos a preparação, os conflitos, os dramas, tudo contado de forma mais do que convencional (e repleto de inaceitáveis “liberdades criativas”) até a apoteótica vitória sobre os esnobes ingleses.
O elenco tem algumas caras conhecidas como Gerald Butler (300), como o goleiro Frank Borghi, Wes Bentley (Beleza Americana), como o capitão do time Walter Bahr, além de Patrick Stewart como o velho Dent McSkimming. Todos em atuações corretas, mas nada que influencie positiva ou negativamente suas carreiras.
As cenas de futebol são irregulares, pouco convincentes em vários momentos. Mas não chegam a ser o que torna The Game of Their Lives um filme ruim. Isso cabe às já citadas “liberdades criativas” do roteiro de Angelo Pizzi, inspirado no livro homônimo de Geoffrey Douglas. Isso sem contar a intragável trilha sonora de Angelo Roos, que mata por completo qualquer possibilidade de gostar do filme.
Joe Gaetjens, atacante de origem haitiana que marcou o gol da vitória sobre os ingleses, é retratado de maneira ridícula e seu triste fim (desapareceu durante a ditadura de Papa Doc Duvalier no Haiti) não é mencionado.
Dentre as distorções históricas do roteiro, a que mais irrita é a relacionada à campanha dos EUA na Copa. A partida de estréia, derrota por 3×1 para a Espanha em Curitiba, sequer é mencionada. Quem não sabe o mínimo de história do futebol imagina que a vitória sobre a Inglaterra no estádio Independência em Belo Horizonte (ridiculamente encenado no estádio da Laranjeiras, no Rio, com os prédios ao redor aparecendo várias vezes) foi a estréia da equipe.
Recife, onde os EUA fizeram sua derradeira partida na Copa (derrota por 5 a 2 para o Chile) é citada apenas como o local de uma base norte-americana que irá disponibilizar um avião para levar a equipe até Belo Horizonte. Como o filme mostra a equipe hospedada no Rio de Janeiro, mesmo sem ter realizado nenhuma partida lá (exceto nas filmagens), fica a impressão de que foi mera desculpa para a equipe do filme curtir a Cidade Maravilhosa.
Curiosidades: Stan Mortensen, craque inglês da época, é interpretado por Gavin Rossdale, vocalista da banda Bush, que fez relativo sucesso em meados da década de 1990; e o correspondente da BBC no Brasil, Tim Vickery, aparece rapidamente como locutor da rádio BBC na partida retratada no filme.
Ao final dos noventa minutos do filme, fica a sensação de ter assistido uma partida de amadores jogando sem vontade. Mas é um caso típico de filme ruim que deixa uma lição importante: a de como é possível estragar por completo uma grande história através da maneira de contá-la.
PS: não confundir com o documentário de 2002 também chamado The Game of Their Lives, que fala da Seleção Norte-Coreana que disputou a Copa de 1966. Esse sim é um grande filme.