Reproduzo aqui texto que recebi do fiel escudeiro deste blog, o Targino. Ele, que torce pelo Sport, conta sua saga divertida para assistir a rodada da quarta passada, rodeado de todas as torcidas. Hoje, quarta-feira gorda de novo, tem mais.
Reencontrar por acaso um amigo torcedor do Santa Cruz três dias depois de perder o campeonato estadual para eles pelo segundo ano seguido parecia ser um recado: “Targino, esquece de ver futebol esta noite e vai dormir, rapaz”. Mas é noite de Vasco x Corinthians pela Libertadores. “Vai ser um jogão”, respondi à minha consciência.
Afinal, os dias que antecederam o jogo proporcionaram ao menos um pequeno milagre: leitores, eu vi um flamenguista torcer pelo Vasco. “Calma, é contra o Corinthians”, justificou-se o rubro-negro.
E começa o duelo brasileiro na Libertadores. Chuva pesada, gramado ainda mais. Qualquer leigo já perceberia aos 5 minutos de jogo que daquele charco que se tornou o campo, não ia sair nada. Apenas um monte de jogador enlameado, óbvio.
Fim do primeiro tempo e eis que surge na janela o vizinho vascaíno, convidando para assistir ao segundo tempo lá. Ao seu lado, um amigo trajando a camisa da… Gaviões da Fiel.
Não dava para perder uma oportunidade dessas e a pipoca que iria embalar o intervalo começava a queimar. Sem problemas, até que por descuido este que vos escreve taca açúcar na pipoca. Homersimpsonamente, o problema foi parcialmente resolvido com a adição de mais sal.
No apartamento do vizinho, os amigos e adversários torciam e provocavam um ao outro num quase-silêncio pouco usual num jogo daquela importância.
Bom humor ao encontrar um adversário três dias após a tragédia dos 107 anos (sim, meu time perdeu a final em casa e no dia do aniversário), flamenguista torcendo pelo maior rival, vascaíno e corintiano desprovidos de qualquer animosidade… bem que o futebol poderia ser assim mais vezes. Mas com um joguinho melhor na TV, por favor.
O Chelsea é o melhor time da Europa. Você pode não gostar e eu respeito. Respeito de verdade. Quase todos os argumentos sobre “futebol feio”, “muito dinheiro”, “retranca”, “panela” são válidos.
Mas se você é boleiro de verdade, de preferência não um grande craque, vai saber reconhecer também. É bonito de ver um time se defender como o Chelsea se defendeu contra o Barcelona.
Quantas vezes EU me vi em campo jogando contra um time muito melhor, em melhor fase, usando as armas que a gente tinha. Lembro de um jogo em 1990 (talvez), em que os “guerreiros” do Círculo Militar do Paraná arrancaram no futsal um empate do Pinheiros (recém Paraná Clube na verdade). Talvez tenha sido uma derrota de pouco e eu esteja enganado, mas fato é que o time deles tinha Ricardinho, Pedrinho, Tcheco, Lipatin e Batatinha. Eu passei a primeira parte da minha vida sendo surrado por essa turma. Eu, meu grande amigo até hoje Bernardo, o Constantino, o Germinal, o goleirão Alessandro, Márcio, Cassiano, ‘Dimais’ para ficar em alguns dos nossos bravos jogadores. A gente se matava para conseguir um resultado desse (empate ou derrota por pouco).
Depois, pelo time de comunicação social da UFPR, a gente arrancou uma inédita classificação para a semifinal com um time que reunia na maioria nerds e patropis contra times de Engenharia e Educação Física. Talvez tenha sido quartas ou oitavas, mas fato é que a gente caçava 11 jogadores com anúncios no mural (era futebol de campo) e eles faziam peneira e campeonato interno para definir a ’seleção’. Eu e os geniais Pedro, Xubaca, Lycio e outros, a gente basicamente se defendia, “se hidratava” e marcava um golzinho da vitória sabe-se lá como.
Mais recente, jogando os torneios de imprensa, seja pela Folha de SP em 2004 com Lúcio, Arnaldo e Bueno, quando chegamos à semifinal, seja pelo iG em 2011, quando fomos campeões com Fred, Léo, Mario, Gui e cia, em muitas vezes colocamos o time lá atrás contra as “temíveis” equipes do Lance, da Band ou da TV Record. Vitórias sofridas, muitas vezes nos pênaltis, mas muito comemoradas. Eu diria que são as vitórias mais gostosas.
Deixando a egotrip de lado, o Chelsea não é o Círculo Militar, a UFPR ou os ‘iGalácticos’. O Chelsea chegou a ser um dos times que mais jogou futebol no mundo nos últimos tempos. Não é mais. Mas a forma como ganhou esta Champions League, sério, você teria que ser um “não-boleiro” para achar que não foi legal ou que foi fruto “apenas do dinheiro”.
Não sou ingênuo a ponto de achar que o dinheiro não ajudou. Ajudou muito, claro. Mas convenhamos que estrelas tinham o Bayern e o Barcelona. O Chelsea era um timaço em lapidação quando foi concebido e ao longo dos últimos anos. Agora joga com jogadores bons e tímidos como Ramires e Mata, em má fase como Torres, com dois malas/importantes como Lampard e Terry, esforçados como Ivanovic, David Luiz e Cole e com dois gênios envelhecidos em carvalho chamados Petr Cech e Didier Drogba.
Gênios também do mal, diga-se. Derrubaram Felipão e Villas-Boas simplesmente porque não iam com o jeitão deles (quem nunca?). Mandaram embora jogadores que não se enquadraram na panela (quem nunca?). Puxaram o saco do chefe dando a taça para ele levantar (quem nunca? ops..).
Mas gênios vencedores. Lendas num time de bairro que demorou 50 anos para ganhar outra Premier League e mais de 100 para levantar uma Champions. Uma trajetória para entrar aos anais do futebol, como a vitória da Alemanha contra a Hungria em 1954. Um time que bateu o sangue nos olhos do Napoli, a genialidade do Barcelona e a camisa pesada do Bayern.
Cheers, Chelsea.
ps: Essa foto é emblemática. Em plena crise na Europa e no mundo, austeridade sendo discutida, o futebol para (‘pára’, para os antigos) a reunião do G8. Tudo bem que Cameron (que torce para o Aston Villa) e Merkel (que aparentemente tem simpatia pelo Energie Cottbus) têm interesses pessoais nos resultados e os outros europeus se interessam obviamente pelo futebol. Mas o Obama? Bem… que esporte é esse? Como alguém pode não gostar?
ps2.: Todos os nomes constantes neste texto são reais. Já os resultados e datas podem ser (sem querer) mera ficção. Alguns deles foram há mais de 20 anos. Favor dar um desconto.
ps3: O iGalácticos vai com tudo em busca do bicampeonato da Copa de Imprensa, que começa na semana que vem.
Se me perguntarem, eu sou partidário do “Vai embora, Neymar”, que o colunista da Folha de SP Lúcio Ribeiro levantou como bandeira ainda em 2011. É só procurar aqui nos arquivos deste blog que compartilho de opiniões parecidas. Mas para resumir, eu acho que o Brasil precisa segurar jogadores, sim, nos seus campeonatos, para elevar o nível do futebol por aqui.
Mas eu acho que antes de segurar um craque do tamanho do Neymar, a gente tem que segurar nossos médios. Repatriar todo o pessoal que está na Ucrânia, na Rússia, em Portugal, na Turquia. Jogadores que não estão nos clubes top das grandes Ligas idem.
Volta Nilmar, Alex, Fernandinho, William. Volta Denílson e Jadson (como voltaram), volta Lucas, volta Anderson. São jogadores bons, mas que poderiam estar por aqui, tornando o campeonato Brasileiro mais forte e os times voltarem a ser as grandes fontes e base da Seleção Brasileira.
Mas Neymar? Não, discordo. Neymar pode ser um Ronaldinho Gaúcho, um Ronaldo, um Romário, um Rivaldo, um Kaká, todos eles eleitos melhores jogadores do mundo. E estes foram grandes porque conquistaram a Europa, sendo a estrela de grandes clubes e vencendo nas Ligas mais difíceis do planeta.
Aqui, Neymar destoa. Em vez de nivelar, desequilibra. Em vez de aprender a encarar bons zagueiros, nada de braçada nas frágeis zagas brasileiras. Em vez de aprender a jogar em pé, é totalmente protegido pelas péssimas arbitragens brasileiras. Em vez de aprender a tocar a bola, pega ela e vai para cima em TODAS as jogadas, o que é bom para ele, mas não necessariamente para um futebol coletivo.
Neymar é um craque global. Internacional. E precisa provar lá isso, ao lado ou contra Iniesta, Thiago Silva, Cristiano Ronaldo, Sneijder, Messi entre outros. Tão global que é a estrela do comercial “longa metragem” da Nike para a Eurocopa (veja bem, torneio em que só jogam europeus), neste ótimo filme feito pela agência Wieden+Kennedy.
A trilha sonora, para quem curtiu, é da banda “The Eighties Matchbox B-Line Disaster” e chama Chicken.
O juiz apitou e o Manchester City foi de forma dramática campeão inglês de futebol depois de mais de 40 anos “na fila”.
Com um caminhão de dinheiro primeiro da Tailândia e depois das arábias, o City conseguiu, em pouco mais de 5 anos, o título, contratando grandes jogadores internacionais, sobretudo Yaya Touré, David Silva e Sergio Aguero para ficar nos de maior sucesso.
Quem olha desavisado pode achar que o Manchester City é uma espécie de Cosmos ou de São Caetano turbinado.
Aí que está a diferença.
O City, com toda a humilhação que ser rival da mesma cidade do Manchester United pode representar, é um time grande. Grande mesmo, destes que divide a cidade em metade azul e metade vermelha.
Tailandeses e árabes não inventaram estes clubes. Eles são centenários e a invasão de campo ao fim do jogo, como disse Mauro Cézar Pereira na excelente transmissão comandanda por Paulo Andrade na ESPN, não era de um bando de figurantes. Era de torcedores de verdade, aqueles ingleses barrigudos e branquelos que lotam o estádio e os pubs há 44 anos, de chuva a chuva, de frio a frio, em busca da chegada deste momento.
O City é grande e tinha média, nos anos 90, de 30 mil pagantes por jogo no estádio mesmo na TERCEIRA divisão. Seu estádio anterior, o Maine Road, chegou a ter capacidade para 100 mil pessoas. O atual transforma o clube no de sexta maior torcida do país. Não é um clube de aluguel. Não é um Grêmio Barueri a espera de jogadores de empresários.
Investir no City é mais ou menos como se um caminhão de dinheiro chegasse ao Atlético-MG. Time de tradição, com mais de 40 anos sem Brasileirão, com quedas de divisão e com uma massa gigantesca de torcedores apaixonados e dispostos a tudo pelo clube.
Ou ao Santa Cruz e seu mundão do Arruda.
Se me perguntarem, não gosto do modelo do City e do Chelsea. Acho dinheiro demais, sem sentido (pra não dizer irregular, provavelmente). O que eu acho porém pouco vai importar. O modelo está provando que dá certo, ou pelo menos torna os times mais competitivos. Provavelmente vai virar definitivo.
Mas que ninguém diga que City e Chelsea, antes de tudo, não sejam verdadeiros clubes de futebol.
O lendário estádio de Wembley, em Londres, não recebe jogos da Premier League. Nenhum dos vários times londrinos manda seus jogos lá. Pelo contrário, numa cidade relativamente apertada como a capital inglesa, todos usam seus estádios próprios, como Stamford Bridge, Emirates, White Hart Lane, Upton Park, Craven Cottage e The Den (entre muitos outros).
De mandante mesmo, apenas a Seleção Inglesa, que disputa amistosos e jogos das Eliminatórias. Tudo para ser um elefante branco com capacidade para 90 mil pessoas. Mas veja que interessante a agenda só de FUTEBOL (futebol, deixa shows e outros esportes para lá) de Wembley nos últimos e próximos dias.
14 e 15 de abril
Disputadas em um jogo só, as duas semifinais da Budweiser FA Cup, a Copa da Inglaterra, tiveram como sede Wembley. No dia 14, os dois grandes times de Liverpool, cidade a quase 300 quilômetros de Londres. No clássico, o Liverpool venceu o Everton por 2 x 1. Público pagante: 87 mil pessoas. No dia seguinte, dois times de Londres fizeram a outra semifinal. O Chelsea venceu o Tottenham por 5 x 1. Público pagante: 85 mil pessoas.
5 de maio
A final da mesma FA Cup foi vencida pelo Chelsea, por 2 x 1 contro o Liverpool. Público pagante: 89 mil pessoas.
12 de maio
The FA Carlsberg Trophy, acredite, é um campeonato amador (ou semi profissional) de futebol na Inglaterra. 266 times participaram este ano, com equipes que flutuam em Ligas que podem ser consideradas como quinta a oitavas divisões, por assim dizer. Neste sábado o York City enfrenta na final o Newport County em Wembley. Como curiosidade, na final do ano passado, vencida por 1 x 0 pelo Darlington contra o Mansfield Town teve público de 24 mil pessoas. Os ingressos custam de 15 a 30 libras.
13 de maio
The FA Carlsberg Vase é uma competição parecida com esta acima, mas com clubes ainda abaixo da oitava divisão (licença poética, já que não tem esse nome). São clubes amadores nas piores colocações do sistema geral inglês, conhecido como National League System. É como meu time que joga às quintas-feiras ter a chance de jogar uma final no Maracanã. Este ano, Dunston UTS e West Auckland Town farão a final em Wembley. Ano passado, com um público pagante de 8 mil pessoas, o Whitley Bay, maior vencedor do torneio com 4 conquistas, venceu o Coalville Town por 3 x 2. Ingressos a 25 libras.
19 de maio
A segunda divisão na Inglaterra tem um jeito próprio de classificar equipes para a Premier League. Os dois primeiros (que este ano foram Reading e Southampton) sobem direto. a Terceira vaga na elite é decidida entre o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto colocados na Segunda Divisão. Eles jogam uma semifinal (terceiro x sexto, quarto x quinto) e uma final. Essa final é disputada em Wembley todos os anos. Desta vez, o West Ham, time londrino, enfrenta o Blackpool. No ano passado, na partida em que o Swansea bateu o Reading por 4 x 2, o público pagante foi 86 mil pessoas.
26 de maio
O acesso da terceira divisão para a segunda (League One para Championship) tem o mesmo sistema. Classificam direto os dois primeiros e os quatro seguintes disputam playoff com os dois vencedores fazendo a grande final em Wembley. Ano passado este jogo não foi disputado em Wembley por conta da final da Champions League, mas a final de 2010 entre Millwall e Swindow Town teve público de 73 mil pessoas. O dupla que fará a final em 2012 ainda não está definida.
27 de maio
O acesso da quarta divisão para a terceira (League Two para League One) segue o mesmo procedimento. Então, no dia 27 de maio, times da quarta divisão entrarão em Wembley para decidir o terceiro classificado para a terceira divisão. Em 2010, o Rotherham United perdeu por 3 x 2 para o Degenham & RedBridge, time de Londres, com público de 32 mil pessoas.
2 de junho
A Inglaterra recebe a Bélgica para o último amistoso antes da Eurocopa. Ingressos já estão esgotados.
Enfim…
Wembley receberá nos próximos 15 dias jogadores de todas as divisões da Inglaterra, de salários diversos, que vão de jogadores que não ganham um tostão a Wayne Rooney, que ganha uma fortuna por mês. Todos eles têm em comum o que eu e você temos: paixão pelo esporte. E Wembley é o cenário de sonho, não importa seu salário.
Fico pensando aqui no nosso simpático e central Pacaembu e como ele vai sobreviver ao Itaquerão, ao Novo Palestra e ao Morumbi. Talvez seja só uma questão de organizar calendários e promover jogos e torneios diferentes. Só fico na dúvida se o brasileiro gosta tanto de futebol como os ingleses gostam.
Essa foi a pergunta que eu mais ouvi na semana que passou.
A semana que passou, aliás, vai ser difícil ter outra tão emocionante. Os embates Chelsea x Barcelona e Bayern x Real Madrid foram antológicos. Cada um do seu jeito, foram espetaculares para dizer o mínimo.
E o mais engraçado de acompanhar estes jogos, seja conversando com as pessoas, sendo vendo os comentaristas, seja lendo as redes sociais e blogs, foram as defesas ferrenhas desta ou daquela posição.
Pouca gente assistiu indiferente a estes dois jogos. Eu ouvi de tudo.
1) Gente torcendo contra o Barcelona “porque ganha tudo”, “porque o Messi não é tudo isso”, “porque torço pelo mais fraco”, “porque o Barcelona precisa de uma lição”, “porque futebol é para macho”, “porque eu fui barrado no aeroporto de Barcelona”, ”porque sou torcedor do Chelsea” e uma infinidade de outros motivos.
2) Gente torcendo pelo Barcelona porque “ama o futebol bonito”, “porque o Chelsea é o anti futebol”, “porque o Chelsea é só dinheiro (como aliás, era o maior argumento quando todos torceram pelo Napoli)”, “porque odeio o Cristiano Ronaldo”, “porque eu sou fã da Shakira”, “porque sou torcedor do Barcelona” e mais uma infinidade de outros motivos.
3) Gente torcendo contra o Real Madrid “porque o Mourinho é muito arrogante”. “porque o Cristiano Ronaldo só quer saber de se ver no telão”, “porque o Bayern é um timaço”, “porque sou torcedor do Bayern” e mais uma infinidade de motivos.
4) Gente torcendo pelo Real Madrid “porque no Playstation eu sou Real”, “porque ninguém aguenta mais a marra do Barcelona”, “porque eu a-mo o Kaká”, “porque o Bayern vai amarelar”, “porque o Cristiano Ronaldo é um gênio”, “porque o Mourinho é o máximo”, “porque sou torcedor do Real” e mais uma infinidade de motivos.
E sabe o que é mais legal? Todo mundo tem razão. Ninguém é melhor ou pior por escolher torcer para este ou aquele time. Os argumentos são definitivos, dos dois lados. Chatos são os caras que ficam querendo ensinar. Que acham que só eles sabem. Que consideram que o futebol europeu tem que seguir elitizado, longe das TVs abertas, dos jornais populares ou dos comentaristas mais folclóricos.
A única certeza é que você, em pleno 2012, não vai deixar ninguém ficar te dizendo para quem você tem que torcer ou o que você precisa sentir. Abaixo aos chatos!
Futebol é isso. Quando é bom, as pessoas tomam partido. Viram “torcedores desde criancinha” de timaços da Catalunha ou de endinheirados clubes de bairro de Londres.
Está no Mundo Deportivo de hoje. O Barcelona está na luta para ser campeão europeu em cinco modalidades diferentes. Além do incrível time de futebol, o basquete e o futsal já estão nas semifinais. O hóquei e o handebol também podem conquistar a Europa.
Mas a escola do Barcelona parece que é balela, certo Andrés Sanchez?
Messi se tornou o maior artilheiro da história do Barcelona ontem ao marcar seu gol 234 com a camisa catalã. Confesso que fiquei curioso e fui buscar em outros grandes clubes essa estatística para ver o tamanho de uma conquista dessa, ainda mais aos 24 anos.
O maior artilheiro da história do Real Madrid é Raul. Ele passou 17 anos no clube e marcou 323 gols. Interessante o fato de que ele segue na ativa, como Messi, o que dá um cartaz ainda maior ao futebol atual.
Barcelona e Real Madrid têm seus maiores artilheiros na ativa.
Na Inglaterra, o Manchester United vive situação parecida. Se o maior artilheiro da história do clube foi Bobby Charlton, com 249 gols, não será surpresa se Wayne Rooney, aos 26 anos e com 174 gols pelo clube, ultrapassar o lendário Sir. Uma outra particularidade dos Red Devils é que outros 2 jogadores na ativa, Paul Scholes e Ryan Giggs, figuram no top 10 dos artilheiros de todos os tempos do clube.
Situação muito diferente vivem os times italianos. Milan e Inter vivem do passado em matéria de artilheiros históricos. O Milan ainda mantém Pipo Inzaghi no top 10 mas sem nenhuma chance de alcançar o sueco Gunnar Nordahl que na década de 50 marcou 221 gols pela equipe. Na Inter, o mais próximo de ser atual na lista é o aposentado Cristian Vieri, mas muito abaixo de Giuseppe Meazza, o líder.
Para ilustrar, veja o futebol brasileiro e a lista dos maiores artilheiros de gols marcados em apenas um clube do site RSSSF:
Muito mais do que ingleses e espanhois, brasileiros e italianos têm motivos para o saudosismo.
Ps: alguns números da lista brasileira divergem de informações em sites oficiais. Por ex. Heitor, que no site do Palmeiras tem pelo menos mais 30 gols. Mas as fontes do RSSSF são boas – no caso do Palmeiras, o livro de Orlando Duarte – e, além disso, o ponto do Blog é indiferente com 10, 20, 30 gols a mais ou a menos nesta lista de craques.
O que não quer dizer também que Lucas seja de todo ruim.
Não é culpa do Lucas essa supervalorização. Toda vez que algum comentarista elenca a “grande nova geração do futebol brasileiro”, enumera Ganso, Neymar e Lucas. Lucas vai meio no embalo, não entendo bem como chegou ali.
Tanto fizeram, que Lucas acreditou. Ele para na frente de um adversário na ponta e ensaia movimentos e dribles de Neymar. Tudo muito constrangedor para quem assiste. Se alguém fizer uma estatística séria verá que ele não completa nem metade de suas jogadas. Mário Tilico, que não era lá essas coisas, era objetivo perto dele.
Ano passado, quando Lucas jogou como meia, não conseguiu completar nenhuma jogada que recebeu de costas para o gol. Em alguns momentos, dava para ver que companheiros como o ex-jogador Rivaldo (ex mesmo, já ano passado) ficavam sem jeito de tentar tabelar com ele. A bola simplesmente jamais voltava. Leão, com ele na ponta, agora, talvez seja o que melhor entendeu suas limitações. Não teria problema algum ter Lucas na ponta, mas o problema é que ele acha que precisa resolver todos os jogos, ir para cima como Neymar. E Lucas não é Neymar. Lucas jamais será Neymar. Lucas pode ser outra coisa…
Aqui entra Julio Baptista. Se você teve preconceito ao ver o título deste post, peço licença para dar uma pincelada rápida no currículo de Júlio.
Baptista jogou como atacante e zagueiro na base do São Paulo antes de virar volante no time principal. Limitado tecnicamente (qualquer semelhança…), impressionava pelo seu vigor físico (qualquer semelhança…) e alternava boas jogadas com pixotadas incríveis (qualquer semelhança…).
Vendido, foi para o Sevilla encontrar a glória. Com o vigor físico que sempre teve, foi cada vez mais a frente e num time cujo forte era contra-atacar, virou o segundo atacante, ou o meia mais ofensivo, e marcou época arrancando para o gol (foram 50 deles). Tornou-se La Bestia, o jogador mais valorizado da Espanha.
Julio foi para o Real Madrid. Não se pode dizer que deu certo ou errado. Afinal, como assim alguém compra o Júlio Baptista para jogar no Real Madrid de Zidane, Ronaldo, Figo, Beckham, Figo e Raul?
Julio foi para o Arsenal. Lá, nunca conseguiu trocar passes como Henry e Fabregas, mas mesmo assim fez bonito e, entre seus feitos, está ter marcado 4 gols contra o Liverpool. Na época, na seleção de Dunga, foi um dos responsáveis pela aula de futebol na final da Copa América com a humilhante vitória contra a Argentina de Messi e cia, com o mais bonito dos gols sendo dele.
Do Arsenal, Julio foi a Roma. Esboçou ser La Bestia de Sevilla mais uma vez. Brilhou num rendimento que deixaria Adriano Imperador com vergonha de sua passagem pelo time da capital. Agora, no Málaga, depois de duas contusões, tem a sua temporada ameaçada, mas segue como um dos principais jogadores da Liga no circuito “off Real e Barcelona”.
Recapitulando: Júlio jogou no São Paulo, no Sevilla, no Real Madrid, no Arsenal, na Roma e no Málaga. Tem mais de 100 gols na carreira, alguns muito importantes. Nos dois maiores times que defendeu, São Paulo e Real Madrid, não se destacou. Nos outros, foi (é) um jogador que qualquer treinador gostaria de ter no elenco. Na Seleção, não deveria ter ido para a última Copa mas certamente tem seu lugar na história com o golaço contra a Argentina em 2007 em Maracaibo.
Volto para o assunto deste post.
O principal gol do Lucas foi contra os reservas da Argentina num amistoso. O gol foi de Sevilla, não de Real Madrid, já que Lucas pegou a bola na intermediária e saiu num contra-ataque fulminante. No São Paulo, quando pega a bola limpa na frente, pode vir coisa boa. Se precisar pensar, não vai rolar. Se tiver algum marcador ao lado, não vai passar. E eu não to falando de Baresi ou Gamarra, mas sim do fulano do Santa Cruz que o anulou ano passado no jogo de ida da Copa Brasil. Pode até parecer pra torcida que ele vai pra cima e “tenta”. Mas está errado. Ele e o cara que falou pra ele que ele tem condição de ir pra cima. Ele é um bom corredor e um bom chutador, e que pode ainda melhorar suas poucas virtudes.
Júlio Baptista é um vencedor no futebol. Sua carreira é impecável e ele pode não figurar em listas dos melhores mas certamente fez um bom papel na profissão que escolheu.
Existe uma chance de salvar Lucas. É só colocar na cabeça dele que, se ele se esforçar muito, talvez ele possa vir a ser o novo Julio Baptista.
E ser um novo Júlio Baptista é muito bom.
Ps: Ilustro este post com alguns dos momentos de La Bestia
Ps2: Juro fazer um post mais curto na próxima…
Ps3: Lucas pode acabar com um jogo essa semana, faz parte da vida do caboclo que se mete a escrever e dar opinião queimar a língua. Mas vai ter que nascer de novo pra mudar a minha opinião.
Ano passado, pelo Malaga
Pelo Arsenal, fazendo 2 contra o maior rival do time, o Tottenham, no empate de 2 x 2
Pelo Real Madrid, Julio marca contra o BARCELONA
Pelo Arsenal, fazendo 4 gols contra o LIVERPOOL
Pela Roma, gol da vitória, de bicicleta, aos 46 minutos do segundo tempo
Pela Seleção, o golaço que abriu caminho pra vitória na final da Copa América 2007
Messi sabe tudo, mas ainda lhe falta Victor Hugo Morales.
Em campo, não falta nada.
Ele joga muito, faz muitos gols, é gênio, focado no trabalho, obcecado em ser o melhor de todos os tempos. Tem apenas 24 anos e está galáxias na frente de seu único adversário contemporâneo que é Cristiano Ronaldo. Nada pode mais ameaçar a sua condição de melhor jogador de sua época (talvez apenas o Taison hihihi).
Então, o que é que falta?
Eu acho que mesmo os imortais precisam ter seus momentos humanos.
Pense no que significa ser argentino e em Diego Armando Maradona. Compare à frieza e objetividade de Messi.
Maradona tem a seu favor o drama, o tango, a emoção. Tem as falhas também, como Pelé, Zidane, Ronaldo e tantos outros que vira e mexe descem do pedestal de mitos e engatam seus momentos estúpidos e humanos.
E Maradona ainda tem Victor Hugo Morales.
Victor Hugo Morales é jornalista, radialista e escritor uruguaio, mas fez carreira na Argentina. Seu grande feito é narrar o gol mais bonito da história das Copas, o de Maradona contra a Inglaterra em 1986, quando driblou “a tanto inglés” até empurrar a bola para o gol.
Um gol para a história. Uma emoção em lágrimas que extrapola o futebol. Um momento sublime, uma nação em êxtase, vingada, com a alma lavada. Um momento épico do futebol que você vê e ouve ao clicar play neste vídeo abaixo.
Não sou da turma que acha que Messi precisa ganhar uma Copa do Mundo para se tornar o melhor de todos os tempos. Bobeira. Mas tenho convicção que ainda falta a ele sair de sua frieza espetacular, quase irritante, para mostrar o coração que existe debaixo daquela camisa. Ele nos emociona com seu futebol, mas parece não se emocionar com o que está alcançando. Ainda que ele comemore seus gols com gana. Ainda que ele lute o tanto que luta. ‘Es para llorar, perdónenme’, mas Messi precisa ter o seu momento Victor Hugo Morales.
Porque no futebol, não falta nada.
Ps: Eu tenho uma camiseta que na frente tem o esquema com todos os movimentos de Maradona até chegar ao gol e, nas costas, a narração de Victor Hugo Morales. A “letra” eu reproduzo aqui:
La va a tocar para Diego, ahí la tiene Maradona, lo marcan dos, pisa la pelota Maradona, arranca por la derecha el genio del fútbol mundial, deja el tendal y va a tocar para Burruchaga… ¡Siempre Maradona! ¡Genio! ¡Genio! ¡Genio! Ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta-ta… Gooooool… Gooooool… ¡Quiero llorar! ¡Dios Santo, viva el fútbol! ¡Golaaazooo! ¡Diegoooool! ¡Maradona! Es para llorar, perdónenme… Maradona, en una corrida memorable, en la jugada de todos los tiempos… Barrilete cósmico… ¿De qué planeta viniste para dejar en el camino a tanto inglés, para que el país sea un puño apretado gritando por Argentina? Argentina 2 – Inglaterra 0. Diegol, Diegol, Diego Armando Maradona… Gracias Dios, por el fútbol, por Maradona, por estas lágrimas, por este Argentina 2 – Inglaterra 0.
É jornalista, sócio da agência de conteúdo mob36, e mantém este BlogdeBola (entre idas e vindas) desde 2002. Pelo iG, onde trabalhou entre 2002 e 2006 e de onde nunca se desligou totalmente, foi para a Copa de 2006 e Olimpíada de 2008.