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22/09/2009 - 06:34

Memórias, receitas e declarações de amor: o bolo fanta

Quando eu era pequena, minhas tias moravam com a gente. Elas se chamavam Ivete e Maria – Má e Tita, para os íntimos, respectivamente.

Cresci cercada de quitutes saborosos, embora fosse daquelas crianças que, mesmo não chegando a ser o que chamam hoje de ‘picky eaters’, tinha lá minhas restrições e frescuras. Por exemplo, eu não comia aspargos, porque eles me pareciam palmitos magros e estragados quando minha mãe os tirava do vidro de conserva. Claro que hoje me arrependo… Mas enfim. Dentre os quitutes saborosos que me cercavam, um dos meus favoritos era o bolo fanta. Geladinho e molhado, ele era diferente porque era feito com o refrigerante no lugar do leite.

O bolo fanta era obra da Má. Eu gostava de vê-la fazendo a massa; primeiro, tinha que separar as claras das gemas dos ovos, procedimento que eu achava absolutamente fantástico. Depois, ela batia as claras em neve e, numa tigela separada, misturava as gemas com açúcar e manteiga, mais tarde acrescentando ali o refrigerante gelado, a farinha e o fermento – e juntando, por fim, as claras em neve.

Clara em neve boa, elas me diziam, era aquela que, mesmo com a tigela de cabeça para baixo, permanecia grudada lá no fundo e não caía. Essa era minha segunda coisa favorita, depois de ver a delicadeza com que ela separava as gemas das claras: segurar a vasilha das claras em neve de ponta cabeça, maravilhada com o fato do creme, tão branquinho, desafiar a lei da gravidade.

Mas nem tudo era mágico quando eu acompanhava a receita do bolo fanta, do alto dos meus oito ou nove anos de idade. Sobrava para mim a pior parte: untar a forma. Imagine só: eu, que tinha nojo de aspargos, tinha que melecar meus dedinhos na manteiga e espalhar aquela gordura por toda a forma. A parte legal, de colocar a farinha e ir batendo e fazendo ela grudar na manteiga, era reservada às mais velhas. Não confiavam na minha coordenação motora para tanto.

Ontem eu fiquei com saudades do bolo fanta e da minha tia, então resolvi fazer a receita. Enquanto separava as claras das gemas, me lembrei de como eu achava aquilo incrível. Depois, misturando a manteiga e o açúcar naquela pasta amarela, fui me lembrando de como a Má foi público para todas as minhas peças de teatro, projetos de revista, vídeos experimentais e exposições de desenhos – sempre rindo, elogiando, achando tudo aquilo muito bonito.

Quando chegou a hora de untar a forma, me lembrei que, como eu ainda não tenho filha (ou uma sobrinha que more comigo), ainda tenho que encarar a meleca eu mesma. Mas pelo menos posso fazer a adorável parte da farinha. Sacudindo a forma no ar, virando-a para que os cantinhos também peguem farinha, tomando cuidado para não fazer sujeira (acabei enfarinhando toda a pia, de forma que sou obrigada a dar razão às minhas tias e minha mãe quando não me deixavam cuidar desta parte).

Todo mundo deve ter uma receita infantil que, feita pela mãe, por uma tia ou avó, lembra a infância. Mas mais legal ainda é, se você sabe fazer essa receita hoje, poder se lembrar de como essa pessoa fez parte da sua vida!
Como toda boa receita de família, a do bolo fanta também tem algumas medidas e tempos feitos “a olho”. Mesmo assim, para quem quiser experimentar, copio a seguir a receita do bolo fanta da Má, como ela me passou:

“Bolo fanta
Para a massa
Ingredientes
3 xícaras de farinha de trigo
3 xícaras de açúcar
1 colher (sopa) de manteiga
1 garrafa pequena de fanta  (gelada)
4 ovos  (claras em neve)
1 colher de (sopa) de pó royal

Modo de fazer
Bater as gemas, açúcar e a manteiga; acrescentar a farinha e a fanta (sempre batendo). Desligue a batedeira,  jogue as claras e o fermento, só misturando com a colher. Coloque em uma assadeira untada e enfarinhada (não me pergunte o tempo de forno!).

Para a cobertura
Ingredientes
1 vidro de leite de coco
1 lata de leite condensado
1 lata de leite comum
Coco ralado

Modo de fazer
Depois do bolo assado, misture todos os ingredientes; fure bem o bolo com um garfo, espalhe a mistura por cima, corte em pedaços e embrulhe em papel laminado. Mantenha-o na geladeira.

Se conseguir, deguste no dia seguinte. Fica muito mais gostoso.”

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Autor: Clarissa Passos - Categoria(s): Receita Tags:

53 comentários para “Memórias, receitas e declarações de amor: o bolo fanta”

  1. July disse:

    RONALDO…..

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