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31/10/2008 - 11:33

Meu caro Dunga,

Assim que anunciaram Maradona como técnico da Argentina, eu pensei em você. Em como reagiu com a notícia. Corrija-me se estiver errado, mas aposto que você pensou algo como “eu aqui trabalhando seriamente e esses jornalistas de merda achando o máximo que um palhaço como o Maradona assuma a seleção argentina. Por isso que eu não respeito essa imprensa. Vão lá aplaudir o Maradona”.

Se foi isso o que você pensou mesmo, eu entendo. Mas, prezado treinador, agora tente compreender por que boa parte dos jornalistas ficou maluco com essa notícia. Conheço sua visão sobre o que é uma seleção: ganhar taças, ponto final. Mas eu – e a maioria das pessoas, creio – acha que é muito mais que isso… Além de ganhar (claro que é fundamental!), uma seleção tem que divertir e orgulhar um país. Porque uma seleção também é, no caso do Brasil, nosso mais forte sinal de “identidade nacional”. É uma das poucas coisas que une o gaúcho da fronteira ao seringueiro da Amazônia. A Seleção é uma das poucas coisas que esse conceito amplo e vago chamado “povo brasileiro” consegue chamar de “nossa”.

Você, jogador vencedor que foi, deve achar esse papo uma tremenda chatice…

Eu sempre fui fã do Dunga que suou as camisas de Inter, Corinthians, Vasco, Fiorentina, Seleção… Adorava vê-lo em campo. Mas sabe por que você, como treinador, não desperta a simpatia nos brasileiros como Maradona para os argentinos? Porque o brasileiro não consegue se enxergar em você, ou na “sua” seleção. Você nem faz o menor esforço para isso… Sua seleção é triste, sisuda, aguada, mal-humorada. Quase uma Alemanha.

O brasileiro se enxergava na seleção de 1982, com Falcão, Sócrates e Zico. Mesmo perdendo. E é isso o que deixa você maluco da vida, não é? “Ganhei uma Copa, mas os caras só ficam falando do meio-campo de 1982, que perdeu”. Perdeu, Dunga, mas o brasileiro (que acha que é alegre e faceiro) se viu bem representado ali, no time do Telê. Fazer o quê?

O argentino olha para o Maradona e enxerga “Argentina” escrito naquela testa gorda. El Pibe tem aquela coisa de se achar muito mais do que realmente é (Maradona foi um monstro, mas é também a exata definição daquele ditado do “compre-o pelo que ele vale. Venda-o por aquilo que ele acha que vale e ficará rico”). Maradona é um tango. Dramático, chorão, apaixonado. Maradona é Argentina na veia. E por isso os hermanos, creio, serão felizes, terão orgulho da seleção deles. Eu confesso: sinto inveja da grama do vizinho.

Sei que você, se ler esta carta, vai soltar algo como “mais um jornalista de m…”. Tudo bem. Fiquei com vontade de lhe escrever nesta semana, porque no fundo achei que poderia fazer você ver as coisas por um outro ângulo.

Espero que estas linhas não piorem ainda mais a sua relação com a Revista Placar… Estamos tentando entrevistar você há meses e esta carta é de minha responsabilidade. Na semana que vem, nem estarei mais na revista, pois vou cuidar do jornal que a Editora Abril vai lançar dia 10. Fale com a revista, prezado treinador. Talvez Placar (e seus leitores) consiga entendê-lo melhor depois disso…

Autor: André Rizek - Categoria(s): Seleção Tags: ,
29/10/2008 - 11:43

Maradona x Dunga

Diego Armando Maradona foi a maneira que a seleção argentina achou para dar um recado: chega de treinadores de verdade, aqueles sujeitos estudiosos e que “manjam” de tática como Daniel Passarella (1998), Marcelo Bielsa (2002), Peckerman (2006) e Alfio Basile. Eles já tiveram vários “treinadores de verdade” nos últimos tempos, dirigindo autênticos timaços no papel, e nada aconteceu. Recorreram, então, a um símbolo. Se apostassem agora em Carlos Bianchi ou Miguel Angel Russo (o técnico que lidera o campeonato no comando do San Lorenzo), seria como apostar em mais do mesmo.

Maradona treinador nada mais é que um símbolo. Terá o velho amigo Bilardo do seu lado (o treinador de 1986), para ser o lado “tático” dessa comissão técnica. Por Maradona mesmo vai ter a função de fazer discursos inflamados (nas entrevistas e dentro do vestiário), de convocar jogadores que representem o “verdadeiro espírito argentino”, de escalar um time para frente, “como a Argentina deve jogar”. Vai ter o respeito (sincero) de muitos jogadores que, como qualquer argentino, terão a certeza de que estão diante de um Deus. Pelo menos no começo…

Curioso nessa escolha é que os argentinos adoram e levam a sério esse negócio de tática, a ponto de discutir sobre “duas linha de quatro” na mesa de boteco – o brasileiro vê o futebol de maneira bem diferente, mais como festa, como celebração do nosso “talento natural”. Os argentinos amam tática. Mas amam Maradona muito mais. Vai dar certo? Eu não tenho a menor idéia.

De toda forma, quando você tem Messi, Riquelme, Gago, Aguero, Tevez, Iguain etc, fica muito mais fácil de as coisas funcionarem. O treinador tem importância menor. E um símbolo pode bastar, para que dentro de campo os jogadores resolvam.

Apostar em um símbolo para técnico também foi a saída do Brasil. Um símbolo diferente deles, evidentemente. Quando Dunga foi escolhido, representou a aposta de que tínhamos os melhores jogadores do mundo. Que “só” precisávamos de um sargento para colocar esses caras na linha. Hoje, sabemos que não temos uma geração tão maravilhosa assim. E que, precisamos, isso sim, de um “técnico de verdade”, que tenha repertório para montar um time, para testar jogadores e esquemas diferentes. Justamente aquilo que a Argentina tentou fazer, sem sucesso, nos últimos anos… No futebol, às vezes você faz as melhores escolhas, mas elas simplesmente não funcionam. Não dá para cobrar lógica empresarial no futebol o tempo todo. E por isso mesmo ele é tão fascinante…

De toda forma, em um cenário cada vez menos importante no futebol mundial – o das seleções nacionais – a chegada de Maradona é um alento. Esse troço vai ser engraçado pra caramba… Invejo os vizinhos. Eles vão se divertir com a seleção deles. O brasileiro sabe. Tão importante quanto ganhar, é ver a Seleção dar orgulho e divertir. Seleção é (também) a identidade de um país. A Argentina larga na frente da gente neste caso…

Autor: André Rizek - Categoria(s): Seleção, futebol internacional Tags: ,
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