Meu caro Caio Júnior,
Estava esperando por uma sexta-feira como esta, de Flamengo nas alturas, para lhe escrever novamente. Se lhe mandasse uma carta-bomba na derrota, iria parecer coisa de aproveitador…
Eu não acredito que seu Flamengo vá brigar pelo título. Mas a Libertadores “está logo ali” e seria um resultado de respeito na sua gestão à frente do Rubro-Negro. Particularmente tenho a maior simpatia por ver surgir um técnico diferente, no discurso e no jeito de trabalhar, um sujeito low profile, em um ambiente onde o legal, o que é valorizado, é ser estressado, marrento, mandão.
Está aí o “x” da questão, meu caro treinador… Longe de mim ensinar padre nosso ao vigário. Não sou treinador. Sou repórter. E por isso mesmo gosto de conversar com os jogadores, os seus colegas, os dirigentes… Acho que você gostaria de saber o que se diz a respeito do seu trabalho por aí.
Todo mundo no Palmeiras diz que você fez um trabalho importante lá. E aí tem o “mas”… Que você é, como posso usar um termo adequado, “vacilão” demais. Um técnico sem muita convicção das coisas que faz quando chega o momento da pressão, do “vamos ver”. Você sabe, Caio… Por incrível que pareça, a maioria dos jogadores e dos dirigentes (jornalistas também, eu lhe informo) gosta desses técnicos que são cheios de certeza. Mesmo quando fazem a maior bobagem, eles se mostram seguros de que deram uma tacada de gênio. E isso, de certa forma, deixa os boleiros e os dirigentes mais confiantes de que estão “em boas mãos”.
É sobre isso que, conversando aqui e ali, as pessoas se queixam de você. Fico mais à vontade para escrever isso depois de um 5 x 0 no Coritiba (que resultado…!). A manchete que eu mais tenho lido no Flamengo é “Caio Júnior em dúvida”. Você me parece ser um treinador sempre em dúvida, meu caro. É isso o que, agora, gente aí do seu time tem contado a seu respeito também.
“Quer tirar um jogador do time, tira logo! Mas mostra firmeza do que está fazendo. Não vem com ‘olha, hoje eu pensei que pode ser melhor para o time usar um outro jogador… Mas você é importante, vou precisar de você mais pra frente’”. Essa “queixa” quem me disse foi um atleta aí do seu time. Curioso. Se meu chefe conversar comigo nestes termos (e ele conversa), eu acharia ótimo. Mas parece que no futebol os caras gostam de quem mostra “autoridade”. Ou “convicção”, “firmeza”, chame do que quiser.
Justamente aquilo que eu mais admiro em você, um técnico novo e com idéias novas surgindo no futebol, é aquilo que os boleiros parecem menos gostar. Talvez não seja problema seu. Talvez nem seja problema. As coisas simplesmente parecem ser assim no futebol. De minha parte, eu torço (bastante) pelo seu sucesso. Espero que as coisas que escrevi, de alguma forma, possam ajudá-lo. Nem que seja ignorando-as…
Um bom fim-de-semana para você, prezado treinador.
