Decidi lhe escrever porque li matérias e artigos sobre você em um monte de lugares nesta sexta-feira. Quase todas tratam do mesmo assunto e usam a expressão “céu e inferno” para se referir à sua situação no Fluminense. O clube foi atrás de vários goleiros esse ano (Felipe, Fábio Costa e, agora, Diego Cavalieri). Essa é a parte do inferno. A parte do céu, dizem os meus colegas, é que você respondeu fechando o gol tricolor na estréia na Libertadores, com defesas impossÃveis.
Este é o problema, caro FH. Você é um goleiro de defesas impossÃveis. E é justamente por causa disso que não passa nenhuma confiança. Goleiro bom é o das bolas fáceis!
Explico melhor.
Vamos pegar como exemplo um time bem montado como o São Paulo do ano passado ou o Botafogo do primeiro turno do Brasileiro. Futebol compacto, veloz, tudo funcionando bem. A bola, nestes casos, vai pouco para o gol. E, quando vai, o que se espera do goleiro? Que ele faça as defesas normais, saia com tranqüilidade nos cruzamentos, não dê rebotes bobos, não deixe uma bola besta passar por debaixo das pernas… Os jogadores até deixam o adversário chutar de longe, porque olham lá para trás e sabem que camisa 1 não vai dar bobeira. Se vier uma defesa impossÃvel é lucro.
Com você é o contrário, meu caro FH. Quando o time está completamente desorganizado – como desorganizado ainda está o Tricolor – é que você aparece. Faz aquelas defesas impossÃveis que a gente viu na noite de quarta-feira. Pontes espetaculares, saÃdas corajosas, reflexo tinindo. Você impede os gols que deveriam acontecer, aqueles que até seus zagueiros já davam como certos. Mas deixa passar as bolas que não deveriam entrar. Isso arrasa qualquer equipe.
Esqueça as bolas impossÃveis, FH. A partir de hoje, treine apenas as defesas em chutes fraquinhos, no meio do gol, aquelas em que dá tempo de agachar lentamente, como se fosse chute de criança. Ou as saÃdas banais, sem nenhum atacante para trombar com você na pequena área. Agarre estas bolas e faça cara de orgulhoso, como se fosse um grande feito. Role no chão, se quiser, depois de a bola estar encaixada. A imprensa vai estranhar no começo. Mas siga em frente.
Acredite: o grande goleiro é o da bolas fáceis. Os outros são apenas excêntricos…
As Cartas-Bombas voltaram. Toda sexta escrevo para um personagem do futebol. Ainda que alguns não queiram recebê-las…