Febre amarela

Cena assinada por Roberto Migotto para a Casa Vogue
Embora o décor não seja tão efêmero como a moda (ainda bem, porquê não dá para mudar o look da casa como quem troca de roupa, né?), variar é preciso. Nem me refiro ao estilo, que é uma coisa menos mutante, mas sim às cores que pontuam o cantinho nosso de cada dia.
Estava aqui dando uma folheada rápida num livro chamado “Fundamentos da Geocromoterapia”, da espanhola Marta Povo (Editora Pensamento, 2004), estudiosa da energia das formas e das cores na seara doméstica, e pincei um texto que radicaliza essa proposta de caprichar na paleta: “As suas casas adoecem tanto ou mais que vocês mesmos. Os espaços são como seres vivos submetidos a diversas alterações de energia. Se vocês vão ao médico, mas voltam para casa e o lugar está ‘doente’, de nada adiantam as correções feitas sobre o corpo. A sua casa deveria ser um lugar de cura e equilíbrio, que favoreça o seu caminho, e não um lugar doente que roube as suas energias. É aí que entra a Geocromoterapia, método de correção da informação celular e psíquica dos ambientes, com finalidades preventivas, equilibrantes e evolutivas a partir do layout e das cores”.

Mesa lateral ripada, Conceito; abajur Bertolucci; balde de gelo vintage, em madeira pintada, de Jorge Zalszupin
Ok, pode parecer “poltergeist” demais para internautas céticos como eu. Mas ninguém precisa comprovar cientificamente (embora seja mais do que sabido) que algumas cores são muito mais aconchegantes do que outras; que determinados tons cansam ou excitam mais e por aí vai. No final das contas, experimentar é preciso.
Meu cafofo, por exemplo, já teve sua fase “laranja mecânica” (todos os plásticos da casa eram nessa cor: dos acessórios do banheiro às panelas da cozinha – praticamente só elas sobreviveram, já que não abro mão das minhas amadas Le Creusets, conquistadas com muito suor); radicalizei para um lance meio “black is beautiful” (coleciono vasos pretos e muitas outras peças negrinhas começaram a entrar no pacote para “ornar”); depois tentei clarear tudo com uma pegada “white party” (que, definitivamente, não tem nada a ver comigo – less is more só é bonito na casa dos outros, né?); e, finalmente, descambei para o indefectível “ensaios sobre beges, crus e marrons”.
Confesso que tenho sentido falta de cor, ultimamente, e venho incrementando aos poucos. Minha aposta da vez é o amarelo. Por enquanto, a incursão solar se resume a uma Arne Jacobsen de acrílico na entrada e a uma miniatura de Panton (souvenir da Mais Design) na estante de livros, mas a tendência é abusar – depois conto aqui o que tenho em mente.

Miniatura de Verner Panton; mesa Cravo; cadeira japonesa de Teruhiro Yanagihara
Os tons cítricos, tão em alta na moda (quem viu os desfiles da última temporada da Chanel, onde as modelos desfilaram com esmaltes jade – o último grito –, sabe do que eu tô falando), funcionam super bem em casa.
No ano passado arrematei num “brique-a-braque” uma penteadeira cinquentista, pés palito, meio detonada pelo tempo. Mandei pintar com tinta automotiva (que dá aquele efeito laqueado) e a peça ficou escandalosa de linda. Como não tenho (ainda) espaço para ela, tive que emprestá-la para a minha mãe, que não se mostrou muito disposta a devolver o móvel. Patrícia Favalle (amiga amada e jornalistona de primeira) viu, gostou e contou para outra jornalista e amiga querida, a Adriana Brito, que mandou pintar um cofre antigo (daqueles com cara de escotilha) com a mesma tinta, convertendo a peça paquidérmica num delicado criado-mudo.
Mas resolvi abrir alas mesmo para a cor depois que a Cynthia Garcia, uma das minhas divas do jornalismo e oráculo de estilo (ela sabe tudo de moda, décor e do estilo em si), me contou que pintou as portas da casa de amarelão, contrastando com batentes pretos e piso de parquê. Ousadamente chique, não?

Cerâmicas pintadas; garden seat La Boheme, by Phillipe Starck; abajur Kartell; estofado Egg
Voltando ao lado B, só para esgotar a pegada holística: o amarelo é a cor que mais contribui para a felicidade, por ser muito brilhante e alegre (é como estar em festa a cada dia). Também simboliza, ao lado da sua variação dourada, o luxo. Está intimamente relacionada ao lado intelectual do cérebro e a expressão de nossos pensamentos. Estimula o poder de discernir e discriminar, a memória e as ideias claras, o controle de decisão e a capacidade de julgar. Também ajuda a nos organizar, a assimilar inovações e contribui para a habilidade de compreender os diferentes pontos de vista. Como nem tudo são flores, também há um lance negativo: o amarelo contribui para alimentar o medo.
Impressões pessoais, pesquisas cromoterápicas e folclores à parte, vale registrar uma informação que denuncia a demanda mercadológica do tom: todo e qualquer modelo de móvel assinado, produzido hoje em dia, principalmente em acrílico e poliuretano, está disponível na cor amarela: de Charles Eames a Saarinen; de Pierre Poulin a Mies van der Rohe. Ou seja: o amarelo agrada.
Na categoria “manual prático”, aproveitando a deixa, perguntei ao Fabrizio Rollo, nosso consultor de estilo favorito, quais as suas impressões sobre o amarelo. Claro que ele fez um giro histórico e fechou com altas dicas de combinação. Confira:
“O amarelo virou moda – mas não confunda moda com tendência. É curioso como essa cor, principalmente em suas tonalidades mais vibrantes, está em alta, se você considerar que, na Idade Média, as casas dos doentes contagiosos tinham suas portas pintadas assim, em sinal de alerta, o que lhe rendeu um status nada positivo. Uma das cores puras (como o vermelho e o azul), ela está ligada aos intelectuais, pois estimula o pensamento e o raciocínio. Mas cor é uma relação muito pessoal. Encarar ou não o amarelo na decoração, tem mais a ver com o seu gosto do que com qualquer outra coisa. Se você ama, porquê não usar? Tenha em mente que é um pigmento caro (é muito mais barato pintar a casa de branco, né?).

Cofre antigo garimpado por Adriana Brito, que mandou pinta-lo de amarelão; mesa lateral by Roberta Rampazzo; garden seat Kartell e bowl de murano da Arterix
E é importante ficar atento a alguns senões. Quando forte, por exemplo, principalmente se aplicado em grandes superfícies, o amarelo enjoa muito fácil. Também há outro equívoco comum: nunca pinte uma parede só de amarelo (ou de qualquer outra cor). Não existe nada mais cafona!
Em tons muito clarinhos, como o marfim, o amarelo é sempre elegante. Mas alguma ousadia na medida certa sempre causa sensação. Na história do décor do século 20, o living decorado pela inglesa Nancy Lancaster (uma das fundadoras da marca Colefax & Fowler), era inteiramente pintado em amarelo-trator (bem Caterpillar) em plena década de 50!
O amarelo-açafrão combina muito bem com tons militares e envelhecidos, para ambientes mais rústicos, com cara de campo. O amarelo puro é ultra-moderno (pense em Mondrian ou no arquiteto Rietveld). E muito cuidado ao misturar amarelo com vermelho. Dependendo da intensidade, você pode cair naquele look fast-food. E ninguém quer uma casa que estimule o apetite…”

