Cruz-credo! Choveram mais tomates no post de ontem do que lá em Buñol, na Tomatina espanhola. Calma, minha gente! Ninguém vai bater a cabeça nas prateleiras – elas ficam suspensas, até segunda ordem. De qualquer forma, é só um projeto acadêmico-experimental (maravilhoso, diga-se de passagem, até por brincar com essa estética do ordinário e despertar tanta controvérsia numa cena assumidamente metida a besta, como é o setor moveleiro). Curtir ou não curtir, eis a questão – uma vez que gosto é igual nariz: cada um tem o seu.
Sem provocações, como quinta é dia de feira (literalmente, já que tem uma lá na porta de casa e outra aqui atrás da redação), taí o gancho perfeito para esticar a polêmica. Não que seja algum tipo de obsessão, mas já adianto que não vai sobrar caixa sobre caixa nesse blog, de tanto que tô interessado em mastigar o assunto (aliás, se você tem alguma dica bacana de reutilização desses engradados bonachões, me conta já!).
Olha só que frugal – e divertida – essa cadeira Beck, feita à moda das ripas de caixotes que carregam verduras e legumes. Sem nenhuma pretensão, a peça tem look rústico quente e apelo estético charmosão que não entrega seu passado no CEASA. A pitada sofisticadinha fica com a almofada e suas indefectíveis listras.
O lançamento é do Espaço 204, loja do shopping D&D (www.dedshopping.com.br), que anda investindo pesado em móveis ecologicamente corretos. Leva aê, freguesa!
Inovação é bom e todo mundo aqui gosta. Mas os clássicos são os clássicos – e os outros são os outros. Uma das minhas peças prediletas de design é a poltrona “Egg”, desenhada pelo “arredondado” Arne Jacobsen no final da década de 50, era do boom do design dinamarquês. E não importa nem um pouquinho se, na segunda metade do século 20, a peça tenha sido tão difundida ao ponto de virar arroz de festa em qualquer decoração: ela continua com pose de trono. Tenho visto dúzias e mais dúzias de releituras do simpático ovo no mercado, nos mais variados acabamentos, incluindo o couro de vaca à moda Ralph Lauren, by Tania Bulhões, que postei outro dia. Mas, na minha modesta opinião, nenhum acabamento alternativo tem tanto efeito como esse, de fibra natural. Prefiro a original, óbvio. Mas para dar um toque divertido – e metido a besta, como um bom ovo frito com caviar – nas geralmente caretas decorações de praia, tá valendo. Tem na Cecilia Dale (www.ceciliadale.com.br).
Tô aqui editando uma entrevista deliciosa que o Zoba fez com o poli-designer francês Patrick Jouin (em breve, na Casa Vogue) e me deparei com um baita elogio do cara sobre Sergio Rodrigues, lenda-viva do nosso design, sabe-tudo de conforto e ergonomia – quem sentou a bunda nas poltronas Mole ou Diz (peças icônicas do seu portfólio), sabe do que estou falando.
O coté bem-humorado de Sergio (figuraça, diga-se), pode ser percebido em muitas de suas criações, inclusive naquelas que ganharam prestígio internacional. Mas nenhuma delas foi tão longe quanto essa poltrona Aspa. No comecinho dos anos 60, Serjão, já visionário, organizou a expo “O Móvel como Obra de Arte”, na sua loja Oca. Lá estavam Lúcio Costa, Sergio Bernardes, Artur Lício Pontual, Marcos Vasconcelos e Bernardo Figueiredo.
Na ocasião, o designer criou a tal “Chifruda” em apenas duas unidades: um protótipo perdido; e um modelo em jacarandá e couro, comprada por um colecionador. Apesar da alcunha Aspas ser socialmente mais adequada, é como “Chifruda” que o pai da criança e todos no seu escritório se referem à peça.
Para quem gostou, a boa notícia: a poltrona será re-editada pela Mendes-Hirth (dupla premiada que assinou a poltrona Aviador, lembra?), a pedido do próprio Sergio, em peças numeradas, segundo os padrões elevados da marcenaria tradicional. Em cartaz na www.maiora.com.br
Para quem lida o dia inteiro com o duo forma & conteúdo, é um alívio saber que algumas mecas do design não relaxam com a comodidade de imitações, fotocópias, xerox e duplicatas (tão em voga em nosso metier), e vão à luta atrás das folhas mais frescas do maço. Tarefa hercúlea, principalmente numa época onde tudo já foi inventado, patenteado, reeditado, virado do avesso, dissecado. Marcus Ferreira faz exatamente o oposto pela sua Carbono (esqueça as reproduções em série que o nome sugere), que aposta em jovens talentos para promover um acervo mais customizado, diversificado, exclusivo, com atenção especial para os acabamentos handmade, tipo alfaiataria de luxe. Além de ser um dos maiores caça-talentos de valores made in Brasil, ele carimba o passaporte atrás de quem começa a fazer e acontecer lá fora. Foi num desses garimpos que conheceu as designers sérvias Natasa Ilincic e Jugoslava Kljakic. O nome é impronunciável, mas o trabalho ganhou leitura fácil, já que a dupla tem uma pegada artesanal, simples e moderna, sem recorrer às tecnologias pasteurizadas. A poltrona em cartaz na Carbono, por exemplo, consiste num quadro metálico com travesseirão recheado de camomila, que faz as vezes de estofado. Carinhosamente apelidada de Baba (bem mais simpático que o nome técnico, C26), a baixinha ganhou uma manta para arrematar o conforto.
Não sei porquê me identifico tanto com formas rotundas (qualquer semelhança não é mera coincidência). A-d-o-r-o essa poltrona suspensa Moon, tramada em apuí e junco, que a Breton Actual (www.bretonactual.com.br) tá lançando “inspirada nas tendências de Milão” – ou seria na lendária Bubble Chair sessentista de Eero Aarnio? Abafa! Seja qual for o mote, o fato é que a gorducha caberia direitinho na minha varanda. Por hoje é só, pe-pe-pessoal!
Dá para acreditar que a poltrona Up5-6, de Gaetano Pesce, tá soprando nada menos do que 40 velinhas? Moderníssima na frente e no verso, a peça chega à “idade da loba” com tudo em cima. Para celebrar, a B&B Itália, que fabrica a quarentona (uma das peças mais rechonchudas do design), levou o look futurista às últimas consequências, editando o rotundo objeto de desejo em figurino platinado. Um luxo para Botero nenhum botar defeito! Nem preciso dizer que o shape carrega vantagens extras além da plástica invejável – e que o melhor da peça é conforto, né? Não bastasse a ergonomia da poltrona, que dá aquela big sensação de abraço, o pufe bola que a acompanha é tudo aquilo que os seus pés pediram um dia. Na dúvida, faça o test-drive: se você se sentar na fofa, nunca mais vai querer levantar… Happy B-day, Lady Up-To-Date!
Pegando carona nas curvas voluptuosas da Dona Redonda, a Up é tão estilosa, mas tão estilosa, que poderia servir de trono oficial para a neo-diva (e neo-ícone fashion) Beth Ditto, vocalista do Gossip. Você sabe que tenho um certo preconceito com cantoras brancas (salvo as que cantam como negras, tipo a Rosana), mas a Beth (que não chegou nem aos 30, mas já é mais pop do que qualquer cadeira) dá tudo de si nos agudos. Aliás, ontem fomos sacudir o esqueleto em festinha descolex no Volt(lugarzinho mais batuta!), discotecada pelo über-jornalista e DJ de ocasião André Rodrigues (espia lá no rgvogue.com.br), que abalou as pick-ups com os gritinhos do Gossip e um tributo ao absoluto e saudojackson Michael. Divertidíssimo, como tudo aquilo que o André se mete a fazer! Para fechar a roda, momento “sobe o som” com ela: Beth, a Fashion!
“Quem não se comunica, se estrumbica”, dizia Chacrinha entre uma buzinada e outra do seu lendário Cassino, que morreu junto com ele no final da década de 80, deixando um vácuo na tv brasileira e um séquito de imitadores de pouca ou nenhuma personalidade pleiteando o seu posto. Se você se lembra daquele outro jargão do Velho Guerreiro, o “vai para o trono ou não vai?”, que apavorava os calouros entre um requebra da Rita Cadilac, um hit da Blitz e um voto misericordioso da Elke Maravilha ou da Terezinha Sodré, vai entender o título do post.
Criada pelo designer belga Edmond van Wijngaarden, a poltrona De Troon (“o trono”, em português), é novidade quente na praça. O design é 100% holandês, com execução e matérias-primas brasileiríssimas: madeira ecológica na estrutura (de demolição, rústica e lavada) + encosto e assento de vidro temperado, 12 milímetros).
À primeira vista, pode parecer um tanto quanto assustador se sentar numa poltrona de vidro, mas é muito mais seguro do que qualquer fatia de mdf estofado, por exemplo, até para pessoas de silhuetas mais rechonchudas, como este jornalista de dieta que vos escreve.
Se eu tivesse que descrever o look para os iniciados em design, diria que o shape tem um quê de Carlinhos Motta com Jacqueline Terpins. Mas aqui o jurado é você: vai para o trono ou não vai?
Editada pela Velho Brasil (www.velhobrasil.com), a peça faz parte de uma coleção que mistura madeira de demolição com materiais antagônicos, como vidro temperado, laca, aço inox, corian e couro sintético, com desenho up-to-date. E esse é o grande barato da marca, veterana no mercado externo, que já surge como caloura nota dez na paulicéia – a previsão de abertura da loja, que vai ocupar o número 137 da badalada Gabriel Monteiro da Silva, é para agosto. Estamos de olho!
Outro dia o Zé Renato Maia (caso você não saiba, o idealizador do layout deste blog bonitão que cintila em marrom-bombom e azul-tendência na sua telinha), mostrou um site japa superbacana: o www.kyouei-ltd.co.jp . O estúdio tem uma pegada bem vanguardista, tanto no conceito do desenho (seco, purista, futurista) como nos materiais alternativos que explora. Exemplo disso é esta Composition Chair, feita em camadas de malha metálica que parecem aquelas telinhas de galinheiro. E nada mais – a poltrona não leva nenhum outro material na estrutura ou no recheio: o que sustenta a peça é o próprio alumínio, recortado numa espessura firme, mas flexível (cerca de 3 milímetros).
Apesar do impacto e da frieza da matéria, o efeito é muito leve, por conta dos furinhos que “oxigenam” o móvel. Não sei se é ergonômica (test drive, por enquanto, só em Tóquio), como outras peças aramadas, tipo o jogo de Bertoia que tenho lá em casa – e que acho confortabilíssimo. Mas aprovo o look. E você?
Com pouco mais de dez anos de carreira, Julia Krantz (www.juliakrantz.com.br) está em altíssima conta no “estrangeiro”. A R 20th Century Gallery, maior galeria de arte para mobiliário brasileiro em Nova York, define o trabalho da designer paulista com pompa e circunstância: “Com seu entalhe manual, Julia Krantz incorpora a escala e as curvas orgânicas de ícones do design brasileiro como Sergio Rodrigues e José Zanine, trazendo ainda referências do inigualável mestre da minúcia, Joaquim Tenreiro”.
De fato, a obra desses ícones compatriotas (e de escandinavos como Hans Wegner e Tapio Wirkkala) inspira Julia. Tanto quanto as formas sugeridas pela própria natureza. Mas sua habilidade em esculpir curvas sensuais a partir de madeira de manejo sustentável, rendeu-lhe uma autenticidade preciosa.
Formada em Arquitetura e urbanismo pela USP, em 1997, ela dirige, desde 2000, o próprio estúdio, a Movelaria, de onde exporta coisas lindas como a Cadeira Slide, o Banco Bigorna e a Mesa Baum, postadas aqui.
Apesar da monocromia milanesa que contagiou o mercado internacional sob o pretexto da crise (vide comentários do Fabrizio Rollo no post anterior), alguns designers se permitiram extrapolar na hora de colorir seus móveis. O suíço Philippe Bestenheider que o diga. Sua poltrona Binta (foto acima), fabricada pela todo-poderosa Moroso, é um exercício de cromoterapia. Inspirada nas curvas da baobá (árvore africana que dá uma madeira especialíssima) e nos trajes de festa senegaleses, a peça faz um patchwork de matizes e estampas em grande efeito.
A base de poliuretano (sempre ele!) ganhou revestimento almofadado em resina, para não pecar no quesito conforto. Maiores informações no Dezeen.com, a fonte deste post. Viva a febre da cor, abaixo a gripe do bacon!