Que atire a primeira marreta quem nunca adentrou os recônditos de uma obra e calcou sua pegada no cimento fresco…

É muito comum, no âmbito da construção civil, mestres de obras, pedreiros e serventes, inventivos que são, criarem mesas, cadeiras, bancos, camas e outros móveis efêmeros (para uso pessoal e intransferível) a partir de descartes de madeira e o que mais estiver ao alcance das mãos. Por trás desse design tosco, quase marginal, está o suor de uma das labutas mais ingratas (e fundamentais para a sociedade), além do senso de ergonomia e pureza de uma gente que quebra o coco, mas não arrebenta a sapucaia. É a máxima da funcionalidade, que rechaça toda e qualquer vaidade em nome do uso. Há, nisso tudo, uma poesia que quase ninguém enxerga. Marcio Kogan e companhia (Beatriz Meyer, Carolina Castroviejo, Diana Radomysler, Eduardo Chalabi, Eduardo Glycerio, Gabriel Kogan, Lair Reis, Maria Cristina Motta, Mariana Simas, Oswaldo Pessano, Renata Furlanetto, Samanta Cafardo, Suzana Glogowski e Álvaro Wolmer), não só notaram a graça da coisa, como vislumbraram ali um universo estético imaculadamente criativo e potencialmente antenado (com questões atualíssimas como as tendências que apontam para a frugalidade no desenho e para o reaproveitamento de materiais em nome do meio ambiente).

Acabo de bater um papo com o arquiteto sobre a nova (e genial) coleção de móveis que leva assinatura do seu StudioMK27, para a Micasa.
Batizada de “Próteses e Enxertos”, com ares – absolutamente despretensiosos – de instalação de arte, os móveis são de uma simplicidade absurda, mas é claro que têm um quê de engenhosidade e vanguarda típicos da trupe de Kogan.

Resgatados dos canteiros de obras dos projetos do escritório, os móveis construídos por trabalhadores anônimos ganharam pequenas – e notáveis – intervenções (as tais próteses e enxertos). Nesse contexto, uma mesa de tábuas pregadas foi condecorada com uma luminária de cobre importada; outra tem embutido um modernoso porta-joias automatizado; há também uma no melhor estilo “do lixo ao luxo”, que mistura madeira ordinária com ouro, entre outras tantas. A minha peça predileta, o banquinho Bo (em homenagem a legendária arquiteta Lina Bo Bardi), evoca o “apoio girafa” com toque lúdico levado às últimas consequências, em versão mirim.

Aliás, no catálogo da mostra (por sinal, poderosíssimo, com projeto gráfico e textos bacanérrimos de Gabriel Kogan, o herdeiro do homem), há uma frase de Lina que sintetiza bem o conceito: “o povo faz por necessidade coisas que tem relação com a vida”. Simples assim.