E no ano em que a Bauhaus sopra noventa velinhas, Casa Vogue fez uma mega matéria sobre a lendária escola alemã que sacudiria para sempre as linhas cartesianas da arquitetura e do design. Se você não viu ainda, já para bancas: tá imperdível! A começar pelo elã da coisa…
Muito mais do que uma simples reportagem, nossa big-boss-com-bossa, Clarissa Schneider, poderosa que é, teve o insight e foi à luta: escolheu um time de estetas e encomendou, a cada um deles, uma criação de inspiração bauhausiana, sob medida. Elenco: Irmãos Campana, Marcelo Rosenbaum, Cláudia Moreira Salles, Attilio Baschera, Candida Tabet, Fernando Prado, Gerson de Oliveira e Luciana Martins.
De tão especial, a coisa evoluiu para a expo mais diferentona que já se fez sobre Bauhaus por essas bandas, sem nenhuma gotinha de pretensão sequer.
Uma prévia desse resultado, você espia aqui e agora, sem delongas (o resto, só na revista). Mas para finalizar em grande estilo, deixo vocês com um fragmento do texto que Flávia Rocha tão bem escreveu sobre o assunto: leitura obrigatória.
“Não é exagero dizer que o mundo não seria o mesmo sem a Bauhaus – sua filosofia humanista, socialista, democrática, universal, carregada do espírito utópico do entreguerras, superou o seu próprio tempo. A escola, que funcionou aos trancos e barrancos entre 1919 e 1933, deixou seu traço em aberto para que qualquer um, a qualquer momento, fizesse bom proveito dele. A semente lançada num território instável – a Alemanha pré-nazista – não fincou raízes geográficas (só na Alemanha, teve três endereços: Weimar, Dessau, Berlim, dissidentes a recriaram em Chicago em 1937 — hoje Illinois Institute of Technology, e desde 1999 funciona como uma fundação, a Bauhaus Dessau, além de ter inspirado outras escolas similares mundo afora). As raízes encontraram terreno fértil nas mentes que a conceberam, arquitetos, artistas, artesãos e designers europeus que tinham em comum um desejo de revolução: simplificar, massificar, transplantar o design das oficinas para as fábricas e para as ruas, aplicar modernidade no dia-a-dia.
Bauhaus, que significa “casa de construção”, teve três dirigentes, e cada um imprimiu sua marca nas diretrizes da escola. Entre 1919 e 1928, sob orientação de seu fundador, o arquiteto Walter Gropius, tiveram prioridade as oficinas técnicas, conciliando arte e artesanato à proposta de funcionalidade, um projeto que substituía ornamentação e exclusividade por produção em massa de peças de design. Entre 1928 e 1930, sob direção de Hannes Meyer e influência marxista, a Bauhaus se voltou para projetos arquitetônicos e industriais, sobrepondo funcionalidade à estética, o que causou grande controvérsia. Nos seus últimos anos, dirigida por Mies Van der Rohe, sob uma ótica intelectual, a Bauhaus voltou a se preocupar com a criação de uma estética modernista, liderada pelo departamento de Arquitetura. Na lista negra do Nazismo, foi fechada pelo governo de Hitler, em 1933. Passaram por lá, como instrutores, algumas figuras icônicas: Paul Klee, Johannes Itten, Josef Albers, Herbert Bayer, László Moholy-Nagy, Otto Bartning, Wassily Kandinsky, Piet Mondrian, Marcel Breuer… os vestígios de suas linguagens vemos por toda a parte, e veremos ainda no futuro.”
Luminária by Fernando Prado e fruteira dos Irmãos Campana
Estante modular e luminária da dupla Gerson de Oliveira e Luciana Martins; o tapete é de Marcelo Rosenbaum
Luminária de Claudia Moreira Salles; tecido de Attilio Baschera; estante Candida Tabet
Se a fraternidade é vermelha, a liberdade é azul e a igualdade é branca, não tem pra ninguém: a novidade é amarela! Meu último post repercutiu tanto que eu resolvi fazer um segundo apanhadão em ton-sur-ton desta cor cítrico-solar que tá com tudo e não tá prosa. Por hoje é só, pe-pessoal – sem muito blablablá, porquê em dia de fechamento a coisa aqui fica preta!
Estante Biela, de Wagner Archela para a COD. O gato preto (cover do Pipoca, mascote da minha mãe) não dá azar. A cadeira é do estúdio Mãos Contemporary Art
Poltrona Charles Eames da Clássica Design, mesa lateral Saarinen reinterpretada, Tania Bulhões Home
Banco Adresse, bowl Benedixt, set de espumas com pinça Droog, da Decameron
Aparador Adresse, Way Design; cadeira Montenapoleone; luminária Wall Lamps
Cinzeiro Lenat; latas Benedixt; cadeira Micasa; mesa lateral de Pedro Mendes
Abajur Puntoluce; Poltrona Leonardo Lattavo e Pedro Moog, Schuster; Pufe Futon Company; Banco Zanine Schuster
Set de produtos Tok & Stok
Fruteira vazada Benedix; Miniatura e almofadas Futton & Home; chaise Versace Home
Os móveis da grife italiana Paolo Lenti agora podem ser encontrados no Brasil através da Regatta Tecidos
Gente, que calor senegalês é esse? Definitivamente, não fui projetado para dias quentes – ainda me mudo para a Sibéria, hora dessas. Podem me chamar de cricri, mas a-d-o-r-o inverno. Pra mim, verão só é bom quando a gente pode se jogar de corpo e alma, seja à borda da piscina, debaixo de um chuveirão no jardim (olha como eu sou cafona!), diante de uma enseada fresh ou no deque de um barco, singrando os sete mares (ficar assando feito pão de queijo na redação, enquanto o mulherio semi-nu reclama do ar-condicionado, é a maior roubada…).
Por essas e outras, achei um alento essa imagem da Regatta Tecidos (www.regattatecidos.com.br), que traz para o Brasil a coleção de móveis da grife italiana Paola Lenti.
Batizada de “Aqua”, a coleção para área externa tem como inspiração a natureza, interpretada em formas bem limpas que aparecem nos vários produtos assinados pelo designer Francesco Rota. São 14 peças, entre poltronas, sofás, cadeiras, chaises, espreguiçadeiras, mesas de apoio e pufes multiuso – boa parte deles confeccionados em “rope”, espécie de corda criada com várias espessuras e formas especialmente resistente aos temíveis raios UV, cloro e água do mar. Bonito, né? (Se bem que, se o barco fosse meu, teria um pouquinho mais de cor, em look navy, de preferência).
Por hoje é só – tô ouvindo uma buzina meio Chacrinha, que pode ser a do tiozinho do picolé.
Olá! Cá estou de volta – com meu coté forasteiro, ainda um pouco preguiçoso nesta terça-feira tempestuosa (com cara de segunda), pós-feriadão. Não que eu esteja reclamando: lá na Cote D’ Azur o sol ardia horrores (um tanto quanto excessivamente para os padrões pouco pigmentados da minha cutis pálida e sardenta).
Sangue e suores a parte, viajar é sempre bom, principalmente para sagitarianos inquietos como este que vos escreve. Mas isso é assunto para outra hora – tô preparando um tratado a respeito e depois reproduzo tudo aqui, como das outras vezes.
Para abrir os trabalhos da temporada setembrina no espírito de Nice, Eze, Saint Paul de Vence, Grasse, Cannes e adjacências, com suas marinas abarrotadas de iates e veleiros sobre águas muito azuis, recomendo uma dobradinha infalível para o próximo figurino do seu décor: azul e branco.
Não que seja a eureka da vez, ou uma senhora tendência (o duo nunca saiu de moda, convenhamos), mas o look navy funciona muito bem dentro e fora de casa, principalmente quando as temperaturas sobem – é clássico, elegante, fresh.
Os cromoterapeutas dizem que o azul, por integrar o time das chamadas cores frias, tem uma vibração mais sutil. Por isso está associado a calma, ao relaxamento, a paz interior e a fé.
Indo um pouquinho mais longe, é também a cor da consciência superior, ligada à visão espiritual do chacra frontal. Tá bom pra você?
Esteticamente, esse tour pela fatia mais glam da costa mediterrânea só endossou aquilo que a gente já tava vendo por aqui - saí do Brasil com uma vaga mancha bleu na cabeça, depois de perceber a alta dos tons nas últimas feiras de décor (tanto aqui, na Craft, Gift e Paralela, como nas mostras gringas que a gente acompanha por osmose) e de fazer a revista da Tania Bulhões Home, cuja nova coleção se inspira no colonial mineiro – Sig Bergamin, nosso craque da mistura, arrasou na combinação, como você pode notar na abertura do post.
E como mistura fina é a expressão de ordem no nosso mundinho, tome nota: azul é impecável com branco, mas cai muito bem quando diluído com todas as outras paletas também.
Aposte sem medo de errar! Olho na seleção e inté amanhã, agora sem interrupções. Palavra de escoteiro…
Há exatos 64 invernos, em 6 de agosto de 1945, a humanidade escrevia um dos seus piores capítulos: a Segunda Guerra Mundial. Naquele ano, a ferida viva do Holocausto pulsava na civilização ocidental – levemente suturada pelo suicídio do ditador-anti-cristo Adolf Hitler, em abril –, quando o mundo testemunhou, estarrecido, outra atrocidade: a bomba atômica que os Estados Unidos lançaram sobre Hiroshima. Ali, mais de 100 mil pessoas foram varridas do mapa sem tempo de entender como e porquê – a maioria delas, camponeses indefesos, já que a cidade foi escolhida justamente por ser alheia aos armamentos e absolutamente vulnerável, recolhida entre os vales. Três dias mais tarde, um novo bombardeio em outro alvo interiorano, Nagasaki, ceifou a vida de mais de 70 mil inocentes, confirmando a eficiência demoníaca da tecnologia bélica detonada pelo presidente americano em exercício, Harry S. Truman. Na ocasião, o físico J. Robert Oppenheimer, que comandou a equipe de cientistas e engenheiros responsáveis pelo artefato, declarou: “Eu me tornei a Morte, um destruidor de mundos”. Mesmo arrependido, sua conta foi entregue: morreu de câncer 3 anos depois dos atentados.
Os EUA venceram. E Hiroshima e Nagasaki ainda sentem na pele os traumas do ataque (literalmente, já que a radiotividade nuclear imprimiu rastros que atravessaram as décadas).
O Japão, hoje uma das nações mais pacifistas do mundo, também se tornou a segunda maior potência econômica do globo. O planeta inteiro olha para ele.
Muito além da cultura zen, tecnologia de ponta, artes marciais, inspiração purista, jardins simétricos e filosofias milenares, origamis e sushis, macarrões instantâneos e karaokês, a terra do sol nascente exportou para o mundo talentos fantásticos na arquitetura, no design e nas artes. No dia em que o país lembra um dos seus momentos mais dramáticos, fazemos aqui um registro, em forma, cor e volume, de alguns herois da estética nipônica para a casa no século 20.
Croqui do arquiteto Tadao Ando para o Centro de Arte Contemporânea de Venice
Gaveterio relovucionário que o designer Shiro Kuramata desenhou para a Cappellini, nos anos 90.
Sofá, mesa de centro e luminária do escultor, arquiteto e designer Isamu Noguchi, produzidas entre as décadas de 60 e 70
Pintura coloridíssima de Takashi Murakami, um dos responsáveis pelo status de arte dos toys, referências de rua e HQs / Cadeiras de madeira e papel reciclado de Shigeru Ban, do final da década de 90
Saideira com uma das canções mais cults da MPB, imortalizada pelo divo Ney Matogrosso, lá nos anais do Secos e Molhados:
Não agüento mais a palavra sustentabilidade – o verbete é tão exaustivamente aplicado, que quem realmente leva a coisa a sério chega a ficar com as bochechas mais coradas do que uma maçã do amor ao se deparar com tanto emprego indevido. Sabe aquela coisa de vergonha alheia? Pois é: eu tenho. Venhamos e convenhamos que responsabilidade ambiental já não era mais uma questão de opção, desde que eu nasci, lá na segunda metade da década de 70. Imagine agora, mais de 30 anos depois, com a camada de ozônio pedindo arrego, as matas cada vez mais anorexas, as águas minguando e a bicharada virando excentricidade em museu… Quem não é sustentável deveria ser banido do mercado – e do planeta. Ponto. A conversa aí em cima introduz uma tendência que não é nenhuma novidade no design, mas que vive dias de revival neste terceiro milênio de “verdades inconvenientes” (alguém aí viu o filme do Al Gore?), quando quase todas as possibilidades de forma e conteúdo foram drenadas do imaginário e os recursos se esgotam a passos largos: a biomímica ou biomimetismo (imitação das formas e funções da natureza).
No site do SPFW, o über-editor, über-antenado e über-amado André Rodriguesfez uma aposta no trabalho do designer coreano Chul An Kwak, autor dessas mesas que simulam os tentáculos de um polvo (embora o criador afirme que a inspiração real são os cavalos de corrida). A ideia de ter um móvel de look alienígena, que parece que vai sair correndo atrás da gente a qualquer momento, é um tanto quanto aflitiva. Mas a peça tem lá sua genialidade, ninguém pode negar. O fato é que Chul An Kwak tá ganhando a cena além das fronteiras de sua Seoul, caindo como um boné no gosto, digamos, meio extravagante, dos rappers. Sabe quem é o maior cliente do cara? Kanye West.
Lulalá: parece um polvo, mas não é. As mesas do designer coreano Chul An Kwak usa tentáculos de madeira nos pés
Provavelmente o Kanye não saiba que bem antes do coreano, no Brasil, logo ali nas Alagoas, um artesão conhecido como Seu Fernando já juntava troncos desmatados, raízes trançadas, tocos retorcidos, galhos secos, madeiras desprezadas e que tais, para esculpir mesas, cadeiras e bancos de efeito mimético (bloguei a história dele há alguns meses).
Resto de toco: banquinho mimético do Seu Fernando, artesão lendário da Ilha do Ferro, falecido recentemente
Talvez pelo charme brejeiro da nossa geografia, detentora de uma das naturezas mais exuberantes do mundo, a tropicália combine tanto com a estética alien-brüt (mais natureba do que marciana, no caso dos tupiniquins). Seja nas culturas caiçaras, caipiras ou urbanas desses brasis, a biomímica sempre teve espaço por aqui, com seus inúmeros sotaques. O banco assinado pela paisagista Renata Tilli (nu e cru, feito por uma artista que não é designer, mas que lida com plantas) e a luminária da Puntoluce (simbiose entre aspereza orgânica e luxo refinado) são dois exemplos categóricos.
Natureba em duas versões nada marcianas: o abajur de tronco rústico encontra a finesse da cúpula contemporânea by Puntoluce; a cadeira de galhos secos é criação da paisagista Renata Tilli
Clássicos da mesma escola (dissecados muitas vezes neste blog), Hugo França e Pedro Petry alimentam uma produção que se apropria dos resíduos florestais desprezados pelo homem, interferindo minimamente neles. Julia Krantz (uma das minhas prediletas) acompanha a toada, com seu belo traço em busca do efeito in natura.
Brasileirinho: bowls de Pedro Petry, banco de Hugo França (no alto) e namoradeira de Julia Krantz
Em tempos de globalização imediata, o estilo se expande sem limites geográficos. Os europeus (principalmente os ingleses e franceses), em todas as épocas, se apropriaram da natureza para enfeitar sua mobília, a exemplo da escrivaninha garimpada por Juliana Benfatti, em Londres. Do mesmo fog, o sangue-novo Peter Marigold, formado pelo Royal College of Art, ataca com tudo no handmade, com o máximo cuidado para manter a madeira o mais natural possível, lidando com formas assimétricas e tirando partido da irregularidade como ponto alto, caso da estante Split.
London, London: escrivaninha inglesa garimpada por Juliana Benfatti e estante irregular do designer londrino Peter Marigold, com galhos secos
O espanhol Nacho Carbonell, outro nome quente no panorama atual, obcecado pela luta contra o consumismo e desperdício desenfreados, só constrói suas invenções com material eco-friendly. E leva o conceito às últimas consequências, produzindo obras que chegam a incomodar, de tão uterinas: “Vejo as minhas criações como organismos vivos, capazes de surpreender com seu comportamento, que interage com o ser humano”, contou em entrevista à Taissa Buesco, para Casa Vogue. Com tempero surrealista, uma de suas mobílias mais polêmicas parece um ninho de joão-de-barro ou coisa que o valha. E assusta os incautos!
Volta ao ninho: criações do espanhol Nacho Carbonell. As cadeiras parecem o ninho do joão-de-barro, enquanto o sofá se enche de ar quando a gente senta, levantando o galho e dando a sensação de companhia
Na outra ponta da corda, com uma matéria bem mais obediente ao manuseio, a argila, o norte-americano Peter Lane faz vasos, luminárias, móveis e outros objetos inspirados em lavas vulcânicas, colmeias de abelha, barro rachado, formações glaciais, frutas, flores, bichos. Com sua técnica de queima guardada a sete chaves, o ceramista explora esse efeito petrificado, que lembra esculturas nas rochas.
Terra do nunca: mimetismo petrificado nas cerâmicas de Peter Lane
Sintética na matéria, mas absolutamente mimética no look, a poltrona Anêmona, uma das peças mais manjadas do portfólio dos big brothers Campana, causaria espanto aos americanos que caíram no maior trote da história, armado por Orson Welles naquela transmissão de rádio em que ele alertava o mundo sobre uma invasão de extra-terrestres. Com materiais quase ordinários, repaginados em shape sci- fi glamouroso, a cadeira também parece prestes a nos engolir. Mais mimético, impossível.
Cloverfield: com seu jeito simpático de monstrengo marinho, a poltrona Anêmona, dos big brothers Campana, faz a mímese no shape, com material sintético
Hoje fui lá na COD (Creative Original Design), a loja que ocupa aquele prédio classudão projetado por Paulo Mendes da Rocha na avenida Cidade Jardim, onde a Forma fez e aconteceu nos últimos 50 anos. Sim, o endereço continua lindo – e bem cuidado – nas mãos da nova marca, incluindo no que se refere a demanda com selo Made in Brazil, como as criações descoladas do Wagner Archela – o cara que me levou lá para apresentar o esquema, inclusive. Enquanto não mostro as últimas do Archela, separei duas peças especiais do Pedro Useche.
A primeira é este carrinho de chá simplérrimo (exatamente por isso, ultra-elegante), que borrifa um sopro de modernidade sobre uma forma já clássica, de apelo bem brasuca.
O cabideiro, também compatriota, faz menção honrosa às natureza com seu jeitão de galho seco (ou seria uma antena das civilizações pré-tv a cabo?) . Seja lá o que for, a peça se enquadra no último grito do design, que pede simbiose entre mimetismo + look alienígena (aguarde post sobre o tema amanhã).
Grande vitrine do design internacional (a COD representa as formas e volumes insuspeitos da Teperman, Rolf Benz e Herman Miller), a nova loja também destaca a porção designer de Oscar Niemeyer. Aquela chaise deslumbrante de madeira e palhinha (um dia ainda terei uma!), é um dos high-lights do espaço. www.codbr.com
Aparador Xadrez, Maria Cândida Machado para a Interni
Dica para refrescar o décor – e a cuca: mais do que as transparências, as superfícies vazadas são o máximo da leveza na decoração – desde as palhinhas dos anos dourados aos rabiscos do último grito do design. Por mais pesado que seja o material (ferro, aço, madeira ou coisa que o valha), esse efeito oxigena o look e ajuda a equilibrar as combinações.
Cena do quarto do refúgio ventiladíssimo projetado por Isay Weinfeld no litoral paulista
Falo por experiência própria: lá em casa, por exemplo, onde o aproveitamento de cada centímetro cúbico vale ouro (o apê é uma lata de atum, como vocês sabem), meu set de cadeiras Bertoia funciona como nenhum outro, fazendo o espaço, apertado, fluir melhor. Ali consigo até inserir elementos mais sólidos, de shape denso, como um banquinho brutalista de Hugo França, sem embates – só não dá para abusar muito para não comprometer a circulação.
Dois takes registram a versão do muxarabi contemporâneo de Weinfeld na casa de praia
Mas o mote inspirador do post veio da arquitetura: há dois anos, publicamos na Casa Vogue um refúgio de praia fabuloso, em Iporanga (Guarujá, litoral norte de Sampa), assinado pelo Isay Weinfeld (na minha modesta opinião, o melhor projeto residencial traçado por ele nos últimos anos). Observe como o Isay equilibra as linhas retas e puras do desenho com o sotaque étnico dos muxarabis (treliça característica da arquitetura moura, de grande identidade estética e uso estratégico: possibilita ver sem ser visto, como pede o estilo low profile das mulheres árabes).
Da esquerda para a direita: cadeira Pantosh, da Lattog; poltrona de Aristeu Pires; chaise Rodolfo Dordoni para a Atrium; poltrona Espaço Casa; banquetas Reinhad Dienes
Mais conceitual ainda (e exótica) é a casa japonesa dos arquitetos Masahiro & Mao Harada, batizada de “Sakura House” (ou “Casa Cereja”). Totalmente de vidro, a morada recebeu, para efeitos de proteção, uma segunda pele de aço inoxidável, composta por painéis furados sistematicamente com desenhos que simulam as folhas da cerejeira, símbolo nipônico de prosperidade. O visual modernex traz mais do que apelo vanguardista: a casa é absolutamente ventilada e iluminada, mesmo estrangulada pelo terreno minúsculo (uma realidade em Tóquio).
No alto, chaise Spine, de André Dubrevil; à esquerda, poltrna de Estevão Toledo e mesa de Ferrucio Laviani, Montenapoleone
Sean Godsell, um dos papas da arquitetura contemporânea, assina a Glenburn House, incrustada no alto de um morro no vale do rio Yarra, uma das mais belas regiões da Austrália, entre florestas de eucaliptos, vinhedos e fazendas. Toda ripadinha, a casa se estende pela paisagem quase como um código de barras. A construção é uma investigação profunda da ideia de varanda como espaço fluido, com jogos de filtros e sombras. Genial!
Day bed étnica Indoasia; estante Freecell; cadeira Bertoia e mesa de centro Linea
Na pegada “ventilada” dos muxarabis das mil e uma noites, dos furinhos orientais e das ripas australianas, armei (junto com a Paula Queiroz, jornalista e produtora cheia de gás – e talento) uma seleção de mobília vazadinha que funciona como coringão em qualquer canto – e combina com qualquer estilo de décor. Tem de tudo um pouco e um pouco de tudo: das Bertoias da minha sala de jantar (aqui também em versão Diamond) à cereja do bolo do design italiano – garimpado na Montenapoleone e na Atrium –, dos traços tétricos de Konstantin Grcic, via Micasa, às linhas bem esticadas dos nosso Aristeu Pires e Estevão Toledo. Tudo para a sua casa respirar melhor! Oxigênio já!
Aparador Claudio Bambrilla, Montenapoleone
Seleção pinçada na Artefacto: mesa lateral e chaise Karim Rashid; poltrona Pigalle, do filipino Kenneth Cobonpue
Casa projetada por Sean Godsell na Austrália
Cadeira de Jum Hashimoto; cadeira de Konstantin Grcic; poltrona Toque da Casa; cadeira de Patrick Jouin; Bertoia em versão Diamond
Cadeira de raquete de tênis by Punga & Smith; cadeira plahinha Velha Bahia; cadeira Clarissa, Toque da Casa; poltrona de tiras versao clara, Toque da Casa; poltrona Armando Cerello
Cadeira Artefacto Beach & Country; versão de cadeira Konstantin Grcic com pés de inox; banquetas ripadas Abitare; mesa de apoio Catallogo e gardean seat Artefacto Basic
Para quem é do metiê, o nome Jacqueline Terpins é quase uma senha quando se pensa em vidro. Designer e artista plástica com vinte anos de riscado, ela construiu um legado vítreo que vai do meramente decorativo ao mais engenhoso utilitário, dos objetos em cristal soprado ao mobiliário em vidro plano (particularmente, acho chic – muito chic – tudo o que sai do seu forno). Jacque, formada em Belas Artes, também estudou sopro na Penland School of Art and Craft e na Pilchulk Glass School (EUA), além de cursar design na Byam Shaw School of Painting and Drawing (Inglaterra). Esse estofo todo, somado ao feeling estético e ao impulsivo criativo, levou-a a experimentar outros materiais, sem abrir mão da sua matriz translúcida – alguém aí lembra dos objetos que ela fez a partir de resíduos de inox e prata para a Riva?
Agora ela ataca novamente, mirando a prancheta para a madeira e os estofados: “Gosto de usar minha liberdade de criação para pesquisar várias matérias-primas e suas diferentes formas de expressão. Quero voltar meu olhar para outros materiais sem nenhuma restrição. Mas jamais vou abandonar o vidro, pois a construção de minha carreira foi baseada na pesquisa e observação da sua incandescência, fluidez e transparência”. Talvez por isso, suas peças em madeira tenham um certo balanço, um swingue, um lance que parece fazê-los flutuar, mesmo quando a espessura e os volumes são mais densos. “A madeira está muito perto do humano, com seu calor e sua textura”, diz sobre as peças, que por trás da aparente simplicidade formal, escondem a expertise de uma esteta que sabe das coisas. “Em todos os meus trabalhos, procuro encontrar formas que ocupem pouca área de apoio. Tento criar as peças com o menor número de apoios possíveis, buscando a leveza, mesmo trabalhando com uma matéria-prima como a madeira, que é visível por sua opacidade, ao contrário do vidro com sua presença/ausência.”
Luciana Martins e Gerson de Oliveira, a clara e a gema por trás da ,ovo (um dos endereços mais tarimbados do décor brasuca, com direito a eco internacional), acabam de rechear seu omeletão com novos ingredientes fresquinhos: dois modelos de estante, quatro de sofás e uma série de estampas especiais (desenvolvidas pela Locomotiva, com técnicas de estamparia digital que permitem trabalhar com padrões menos repetitivos, explorando mais e melhor as cores, geometrias e grafismos).
Com o pensamento modular que alçou a duplinha ao pódio do design (suas peças podem ser encontradas no MoMa de NY, por exemplo), os novos móveis somam a concisão de formas e a inteligência conceitual a uma nova maturidade projetual. Nos sofás, ela se expressa em soluções originais pensadas para proporcionar extremos de conforto físico sem abrir mão da presença instigante (os sem-design que nos perdoem, mas beleza é fundamental). Nas novas estantes, se traduz tanto na rima de leveza e solidez de estrutura, como na combinação quase escultórica de funções e formas.
De largura generosa e acabamento chanfrado, que esconde os pés e reforça a impressão de leveza dos volumes, a linha Vice-Versa, por exemplo, é a evolução para quem busca um sofá que funcione como “ninho” doméstico. Fixada ao corpo do sofá por um sistema original de abotoamento, uma manta de pluma cobre assento e encosto. Por ser preenchida por ar e plumas soltas, ela se molda ao corpo, emprestando ao sofá a sensação do edredom e o conforto térmico da pluma, que refresca no calor e aquece no frio. Almofadas soltas, de proporções irregulares, compõem o encosto, oferecendo apoio a quem senta ou deita.
Já na estante Wireframe (o nome vem da estrutura aramada que antecede o estágio de renderização nos projetos em 3-D), a simplicidade das linhas são as marcas visuais, esculpidas em aço tubular e pranchas de madeira com pintura em microtextura. Por trás da aparente leveza, porém, a estante esconde um engenhoso sistema de estruturação, baseado em encaixes, apoios e aletas. O resultado é que, apesar do aspecto formal absolutamente econômico, é capaz de sustentar uma biblioteca portentosa, o que a qualifica como solução elegante para demandas pesadas de armazenamento e organização. Tudo muito fit – o que só atesta o bom colesterol da marca.
Um salve para a Ana Paula Assis (vulgo Naomi), jornalista da nossa equipe, que se encontra com Balzac hoje (cá entre nós). Happy Rap B-day, nêga!