Chegou a vez de detonar o design, no melhor sentido da expressão. Quem dá a dica é Sergio Zobaran, decano do décor (um dos meus jornalistas prediletos, inclusive), que ensina que “a décadence avec elegance” é a tendência da vez.
Cadeira verde da Conceito: firma casa; sofá da tre-uni; mesa lateral / de apoio da ,ovo
Olho no texto que ele escreveu sob medida para o In Casa:
“Em altíssima no mundo que dita a decoração (= Europa, onde o estilo é denominado ’shabby’ na Inglaterra, ‘pauvre’ na França, ou ‘povero’, na Itália, mas sempre seguido de ‘chic’), estão os móveis detonados, com aquele algo mais que apenas a pátina do tempo. Normalmente são um destaque na casa, mas com cuidado, para “seu cafofo não ficar com uma cara brecholenta”, como me disse o colecionador João Pedrosa, antecipando a minha mudança de casa mais recente – e o modismo. Mas agora eles aparecem direto, e preenchem até lugares públicos, como um restaurante inteiro: o Derrière, em Paris, detonadaço em todos os seus ambientes, como os de uma casa.
Mesa bandeja da Oficina de Agosto; cadeiras da Vila Nova; vaso da l’oeil
O que antes era encoberto, como um buraco na forração de couro de um sofá Chesterfield, agora é explícito, fazendo charme decadente e contrastante em um ambiente moderno, por exemplo. Além dos couros, os tecidos dos estofados podem permanecer os mesmos, velhos, ainda que poídos, rotos, esfarrapados, ou mesmo as suas imitações envelhecidas propositalmente. E vale ainda a forração nova feita em saco de aniagem, para reforçar o conceito. As mesas e cadeiras antigas de ferro, que um dia estiveram ao tempo, nos jardins, entram em casa no estado em que lá foram abandonadas – ou seja, azinhavradas, enferrujadas. As madeiras nem sempre ganham restauração sob este novo olhar, uma releitura (sorry!) excêntrica que Juliana Benfatti sempre fez tão bem em sua loja-garimpo sofisticado paulista. Ouça ainda Christian-Jack Heymès (que adora um restauro, mas mantém alguns exemplares ‘no estado’ em seu antiquário Patrimônio, nos Jardins): “preste atenção desde a arte – duas das mais famosas obras mundiais que estão no Louvre foram mantidas como encontradas: a Vênus de Milo e a Vitória de Samotrácia”.
Portanto, veja bem: nada em arte e decoração é tão novidade assim. Afinal, quem cresceu nos anos 1960 viu passar a moda do decapé (reveja exemplares novos na Artefacto Beach&Country), e dos espelhos oxidados, contanto que tivessem boas molduras – e, ainda nos 1970, eles ornaram paredes inteiras nas boates, halls de entrada e lavabos do primeiro time. O secular mobiliário da Provence também ganhou novamente espaço em lojas especializadas, entre nós, a partir dos 80, com seu ar branquinho, porém desgastado. Mas o excesso do seu uso praticamente nos fez enjoar dele, ainda que continuem a existir e até mesmo a ganhar novos endereços. O espírito do eixo Tiradentes-Vila Madalena preencheu ambientes de móveis supostamente velhinhos, ou envelhecidos artificialmente por sucessivas pinturas (e descascamentos) de cores diversas. Encheu também – com raras exceções originais ou muito bem (re)feitas, como tudo o que vinha da Jacaré do Brasil, ainda viva em Trancoso, mas sem sua filial paulista.
Seleção de móveis patinados e em madeira de demolição, tudo da Artefacto Beach and Country
Enfim, agora é a vez dos detonados, encontrados desde os brechós, passando pelas vendas em garagem, família muda-se, etc, e nos antiquários mais sofisticados. Até quando a moda dura? Sei não… se as peças forem ricas de origem (em estilo e material) acho que por muito tempo. Tanto quanto a qualidade de seus móveis… Como diria o dono de antiquário e decorador belga Axel Vervoordt: “qualquer peça, se é boa, tem uma eterna contemporaneidade”.