Sempre me empolgo quando um grande arquiteto mira a sua prancha para a concepção de produto. Afinal, o que é o design senão a própria arquitetura traçada numa escala reduzida, com todos os valores que pedem as artes humanistas? É o caso da luminária “Mayuhana”, cria do japonês Toyo Ito (o cara que projetou a Serpentine Gallery, em Londres – só isso, tá?).
Como se fosse um novelo de lã (mas com aquela lógica que os nipônicos adoram), ele trança filamentos delgados de fibra de vidro sobre um molde de forma orgânica, que tem esse look meio colmeia, meio casulo, ao mesmo tempo muito modernex. O efeito de iluminação é bacanérrimo, já que a luz filtrada brinca com o jogo de sombras à moda zen, lembrando aquelas luminárias folclóricas de papel-arroz. No Brasil, com exclusividade na Dominici (www.dominici.com.br).
E por falar em olhinhos puxados, começa hoje, no Shopping Iguatemi SP, o Japan Design, feira de produtos de arte, moda e design japoneses organizado pela JETRO – Japan External Trade Organization. “São Paulo, uma das grandes capitais do mundo, está em sinergia com o evento que já passou por Milão, Paris e Nova York. Esperamos um público seleto, consumidor de arte e design, que prima pela qualidade e sofisticação dos produtos japoneses”, explica Hiroshi Hara, Diretor Vice-Presidente da Jetro. “Moscou e Dubai serão os próximos destinos”, completa.
Até 4 de outubro, você pode conferir (e comprar) produtos tradicionais de diferentes localidades da terra do sol nascente. De Oita, por exemplo, a Aki utiliza papelão cortado a lazer em suas criações. São formas de animais, manequins e embalagens, recortadas em 3 D.
Entre tapetes e mobílias fabricadas em junco, de Kyoto vem a técnica milenar do Urushi, pintura em laca que remonta há mais de cinco mil anos, que aqui colore peças de madeira e resina com acabamento brilhante. Na onda da imagem que abre o post, a Taniguchi traz luminárias assinadas pelo premiado designer japonês radicado na Itália, Toshiyuki Kita. As peças são confeccionadas em papel artesanal washi, com técnica especial que dispensa as emendas nas cúpulas.
Paisagem de Nice, região costeira da França conhecida como Cote D’Azur ou Riviera Francesa / foto: Reprodução
Parafraseando Fitzgerald (o escritor, não a Ella), vou dar um pulinho ali na Cote D’Azur e já volto – uma work-trip daquelas, com pompa e circunstância de férias. Mando notícias do mundo de lá, na medida do possível – como faço sempre que encontro algo descolex deste nosso universo esteta. Beijão e até a volta!
Há exatos 64 invernos, em 6 de agosto de 1945, a humanidade escrevia um dos seus piores capítulos: a Segunda Guerra Mundial. Naquele ano, a ferida viva do Holocausto pulsava na civilização ocidental – levemente suturada pelo suicídio do ditador-anti-cristo Adolf Hitler, em abril –, quando o mundo testemunhou, estarrecido, outra atrocidade: a bomba atômica que os Estados Unidos lançaram sobre Hiroshima. Ali, mais de 100 mil pessoas foram varridas do mapa sem tempo de entender como e porquê – a maioria delas, camponeses indefesos, já que a cidade foi escolhida justamente por ser alheia aos armamentos e absolutamente vulnerável, recolhida entre os vales. Três dias mais tarde, um novo bombardeio em outro alvo interiorano, Nagasaki, ceifou a vida de mais de 70 mil inocentes, confirmando a eficiência demoníaca da tecnologia bélica detonada pelo presidente americano em exercício, Harry S. Truman. Na ocasião, o físico J. Robert Oppenheimer, que comandou a equipe de cientistas e engenheiros responsáveis pelo artefato, declarou: “Eu me tornei a Morte, um destruidor de mundos”. Mesmo arrependido, sua conta foi entregue: morreu de câncer 3 anos depois dos atentados.
Os EUA venceram. E Hiroshima e Nagasaki ainda sentem na pele os traumas do ataque (literalmente, já que a radiotividade nuclear imprimiu rastros que atravessaram as décadas).
O Japão, hoje uma das nações mais pacifistas do mundo, também se tornou a segunda maior potência econômica do globo. O planeta inteiro olha para ele.
Muito além da cultura zen, tecnologia de ponta, artes marciais, inspiração purista, jardins simétricos e filosofias milenares, origamis e sushis, macarrões instantâneos e karaokês, a terra do sol nascente exportou para o mundo talentos fantásticos na arquitetura, no design e nas artes. No dia em que o país lembra um dos seus momentos mais dramáticos, fazemos aqui um registro, em forma, cor e volume, de alguns herois da estética nipônica para a casa no século 20.
Croqui do arquiteto Tadao Ando para o Centro de Arte Contemporânea de Venice
Gaveterio relovucionário que o designer Shiro Kuramata desenhou para a Cappellini, nos anos 90.
Sofá, mesa de centro e luminária do escultor, arquiteto e designer Isamu Noguchi, produzidas entre as décadas de 60 e 70
Pintura coloridíssima de Takashi Murakami, um dos responsáveis pelo status de arte dos toys, referências de rua e HQs / Cadeiras de madeira e papel reciclado de Shigeru Ban, do final da década de 90
Saideira com uma das canções mais cults da MPB, imortalizada pelo divo Ney Matogrosso, lá nos anais do Secos e Molhados:
Não agüento mais a palavra sustentabilidade – o verbete é tão exaustivamente aplicado, que quem realmente leva a coisa a sério chega a ficar com as bochechas mais coradas do que uma maçã do amor ao se deparar com tanto emprego indevido. Sabe aquela coisa de vergonha alheia? Pois é: eu tenho. Venhamos e convenhamos que responsabilidade ambiental já não era mais uma questão de opção, desde que eu nasci, lá na segunda metade da década de 70. Imagine agora, mais de 30 anos depois, com a camada de ozônio pedindo arrego, as matas cada vez mais anorexas, as águas minguando e a bicharada virando excentricidade em museu… Quem não é sustentável deveria ser banido do mercado – e do planeta. Ponto. A conversa aí em cima introduz uma tendência que não é nenhuma novidade no design, mas que vive dias de revival neste terceiro milênio de “verdades inconvenientes” (alguém aí viu o filme do Al Gore?), quando quase todas as possibilidades de forma e conteúdo foram drenadas do imaginário e os recursos se esgotam a passos largos: a biomímica ou biomimetismo (imitação das formas e funções da natureza).
No site do SPFW, o über-editor, über-antenado e über-amado André Rodriguesfez uma aposta no trabalho do designer coreano Chul An Kwak, autor dessas mesas que simulam os tentáculos de um polvo (embora o criador afirme que a inspiração real são os cavalos de corrida). A ideia de ter um móvel de look alienígena, que parece que vai sair correndo atrás da gente a qualquer momento, é um tanto quanto aflitiva. Mas a peça tem lá sua genialidade, ninguém pode negar. O fato é que Chul An Kwak tá ganhando a cena além das fronteiras de sua Seoul, caindo como um boné no gosto, digamos, meio extravagante, dos rappers. Sabe quem é o maior cliente do cara? Kanye West.
Lulalá: parece um polvo, mas não é. As mesas do designer coreano Chul An Kwak usa tentáculos de madeira nos pés
Provavelmente o Kanye não saiba que bem antes do coreano, no Brasil, logo ali nas Alagoas, um artesão conhecido como Seu Fernando já juntava troncos desmatados, raízes trançadas, tocos retorcidos, galhos secos, madeiras desprezadas e que tais, para esculpir mesas, cadeiras e bancos de efeito mimético (bloguei a história dele há alguns meses).
Resto de toco: banquinho mimético do Seu Fernando, artesão lendário da Ilha do Ferro, falecido recentemente
Talvez pelo charme brejeiro da nossa geografia, detentora de uma das naturezas mais exuberantes do mundo, a tropicália combine tanto com a estética alien-brüt (mais natureba do que marciana, no caso dos tupiniquins). Seja nas culturas caiçaras, caipiras ou urbanas desses brasis, a biomímica sempre teve espaço por aqui, com seus inúmeros sotaques. O banco assinado pela paisagista Renata Tilli (nu e cru, feito por uma artista que não é designer, mas que lida com plantas) e a luminária da Puntoluce (simbiose entre aspereza orgânica e luxo refinado) são dois exemplos categóricos.
Natureba em duas versões nada marcianas: o abajur de tronco rústico encontra a finesse da cúpula contemporânea by Puntoluce; a cadeira de galhos secos é criação da paisagista Renata Tilli
Clássicos da mesma escola (dissecados muitas vezes neste blog), Hugo França e Pedro Petry alimentam uma produção que se apropria dos resíduos florestais desprezados pelo homem, interferindo minimamente neles. Julia Krantz (uma das minhas prediletas) acompanha a toada, com seu belo traço em busca do efeito in natura.
Brasileirinho: bowls de Pedro Petry, banco de Hugo França (no alto) e namoradeira de Julia Krantz
Em tempos de globalização imediata, o estilo se expande sem limites geográficos. Os europeus (principalmente os ingleses e franceses), em todas as épocas, se apropriaram da natureza para enfeitar sua mobília, a exemplo da escrivaninha garimpada por Juliana Benfatti, em Londres. Do mesmo fog, o sangue-novo Peter Marigold, formado pelo Royal College of Art, ataca com tudo no handmade, com o máximo cuidado para manter a madeira o mais natural possível, lidando com formas assimétricas e tirando partido da irregularidade como ponto alto, caso da estante Split.
London, London: escrivaninha inglesa garimpada por Juliana Benfatti e estante irregular do designer londrino Peter Marigold, com galhos secos
O espanhol Nacho Carbonell, outro nome quente no panorama atual, obcecado pela luta contra o consumismo e desperdício desenfreados, só constrói suas invenções com material eco-friendly. E leva o conceito às últimas consequências, produzindo obras que chegam a incomodar, de tão uterinas: “Vejo as minhas criações como organismos vivos, capazes de surpreender com seu comportamento, que interage com o ser humano”, contou em entrevista à Taissa Buesco, para Casa Vogue. Com tempero surrealista, uma de suas mobílias mais polêmicas parece um ninho de joão-de-barro ou coisa que o valha. E assusta os incautos!
Volta ao ninho: criações do espanhol Nacho Carbonell. As cadeiras parecem o ninho do joão-de-barro, enquanto o sofá se enche de ar quando a gente senta, levantando o galho e dando a sensação de companhia
Na outra ponta da corda, com uma matéria bem mais obediente ao manuseio, a argila, o norte-americano Peter Lane faz vasos, luminárias, móveis e outros objetos inspirados em lavas vulcânicas, colmeias de abelha, barro rachado, formações glaciais, frutas, flores, bichos. Com sua técnica de queima guardada a sete chaves, o ceramista explora esse efeito petrificado, que lembra esculturas nas rochas.
Terra do nunca: mimetismo petrificado nas cerâmicas de Peter Lane
Sintética na matéria, mas absolutamente mimética no look, a poltrona Anêmona, uma das peças mais manjadas do portfólio dos big brothers Campana, causaria espanto aos americanos que caíram no maior trote da história, armado por Orson Welles naquela transmissão de rádio em que ele alertava o mundo sobre uma invasão de extra-terrestres. Com materiais quase ordinários, repaginados em shape sci- fi glamouroso, a cadeira também parece prestes a nos engolir. Mais mimético, impossível.
Cloverfield: com seu jeito simpático de monstrengo marinho, a poltrona Anêmona, dos big brothers Campana, faz a mímese no shape, com material sintético
Acima, Michael Jackson em representação do artista Jeff Koons / foto: Divulgação
“Nenhuma polêmica manchará o impacto histórico de sua música”, disse hoje o reverendo Al Sharpton, líder da comunidade negra dos EUA e maior ativista das causas raciais no mundo. Ainda assim, há um exército sensacionalista na imprensa proliferando mais a suposta-aversão do Rei do Pop à própria etnia (entre outras bizarrices, sejam elas legítimas ou não) do que o seu legado (este sim, absolutamente autêntico).
Quem me conhece (um pouquinho de nada, que seja) sabe que, por predileção, as minhas naus sonoras navegam quase que exclusivamente pelo grande rio da música negra, em seus mais diversos afluentes: da sua gênese, no blues, no jazz, no gospel e no soul, à massificação sintetizada do pop e do r&b (sem nenhum acanhamento de confessar). Minha matriz cultural é a Motown e tudo o que saiu de lá, de alguma forma, contribuiu para a minha formação – como gente, como jornalista ou como o músico que sonhei ser um dia. Michael Jackson, o filho pródigo da lendária gravadora black, era um dos meus heróis – assim como o foi para boa parte dos adolescentes que cresceram nos anos 80-90 e acompanharam, através dele, o surto camaleônico da cultura pop, o nascimento da MTV, a evolução do videoclip, o play da era digital, o tsunami da globalização e o embrião da internet.
Quando nasci, Michael Jackson já era um astro cultuado pelo mundo – incluindo as minhas tias, então adolescentes. Lembro quando o clipe de “Thriller” foi exibido pelo Fantástico, e do impacto que aquilo causou nas pessoas. Eu sequer sabia ler, mas o grafismo das letras, escorrendo em sangue, ficou tatuado na minha memória.
Quase trinta anos depois, o mundo ainda repercute o mérito do álbum homônimo como o melhor – e mais vendido – da história. A bolacha, impecável do começo ao fim, soa moderna até hoje, na versão iPod – e, por mais que alguém torça o nariz, não há argumentos contra os números. Mas as gravações que Mister Moonwalker fez entre a infância e a adolescência, à frente dos Jacksons Five ou nas primeiras incursões solo, cantando clássicos como “I Want you Back”, “Ben” ou “Music and Me”, estão entre os registros mais catárticos do seu talento – a voz daquela criança, com uma afinação e candura sem fim, é uma das coisas mais belas que já ouvi.
Numa representação feita por artista anônimo, Michael Jackson empresta seus ícones visuais para celebridades que, acreditem, ficaram muito aquém dele no quesito fama / imagem: Reprodução
Em 93, a turnê Dangerous esteve no Brasil e a Lilian, minha tia predileta, me levou ao show. Uma experiência e tanto, mesmo considerando os momentos de playback e os longos intervalos entre um número e outro. Eram outros tempos para o divo, que depois do marco de “Thriller” (jamais superado por nenhum outro artista, incluindo o próprio), recebera uma fatura alta demais: viveu loopings pessoais, escancarou seus medos privados em lugares públicos, chocou a opinião e bateu records menos honrosos, como o de celebridade mais estampada nos tablóides e revistas B – mesmo quando absolvido das acusações de pedofilia e de ter comprovado a vitiligo como causa do seu “embranquecimento”.
Paralelamente aos escândalos (voluntários ou não), Michael colecionou arte e antiguidades, girafas, elefantes, rinocerontes e traquitanas de gente morta (incluindo a ossada do “homem-paquiderme”). O link com o blog poderia ser justificado por isso: Michael amava decoração e consumia-a compulsivamente. Quem assistiu ao documentário mambembe (e devastador) do jornalista inglês Martin Bashir, há uns quatro anos, deve lembrar do cantor deixando milhões de euros num antiquário em Londres (sem falar no leilão de seus móveis e objetos).
Acima, alguns objetos decorativos de Michael que foram leiloados no começo de 2009 / foto: Reprodução
Mas o link é outro. Longe da Terra do Nunca, Michael Jackson, a lenda, é fundamental para a cultura pop, incluindo no tocante ao universo plástico. Enquanto abriu a senda para todos os artistas (brancos ou negros) que vieram depois dele, sua imagem virou mote de apropriação para pintores e escultores como Jeff Koons, inspirou estilistas, designers, cenografias, produções cinematográficas. Há quem vá ainda mais longe, afirmando que, se os Estados Unidos da América hoje têm um presidente negro, isso se deve também, à vereda que Jackson ajudou a pavimentar. Exagero ou não, o mundo hoje está com um nó na garganta. André e eu, que sempre curtimos o cara – e chegamos a cogitar um périplo londrino para assistir de camarote a sua volta triunfal -, estamos sentindo um vácuo sem fim (se você está lendo isso, provavelmente, também se importa). O Rei do Pop foi caminhar na lua, como Peter Pan.
No ar, uma prece: que os anjos digam amém à profecia do reverendo Al Sharpton. Abaixo, o vídeo de “Music and Me“, numa das performances vocais mais emocionantes de todos os tempos:
Estou dando uma folheada no interessantíssimo “Cartas a um jovem designer”, livro que os big brothers Campana lançaram há alguns dias, lá na Firma Casa (já comentei aqui, an passant), pela editora Campus-Elsevier (a detentora da série “Cartas a um jovem…”, que já publicou desde Fernando Henrique Cardoso – “Cartas a um jovem politico”, a Marília Pêra – “Cartas a uma jovem atriz” e Alexandre Herchcovitch – “Cartas a um jovem estilista”, cujo texto original fora escrito pelo saudoso amigo Ailton Pimentel; entre outros correios bem endereçados a pupilos entusiasmados).
Não vou descarregar aqui, pela enésima vez, aquele container de elogios sobre os caras, mas olha só que bacana esse trecho: “É preciso olhar para além do produto ou componente, sem preconceitos, ou seja, sem conceitos pré-formados. Só assim é possível deslocar os ralos de esgoto doméstico, feitos de plástico branco, para compor um tampo de mesa de refeição”, contam eles, entre um e outro case que combina a teoria e a prática da profissão, tanto para quem quer seguir carreira, quanto para os leitores interessados em saber um pouco mais sobre o assunto.
Enquanto o livro bomba nas boas lojas do ramo, os Campana continuam segurando a onda na elite do design internacional. Em cartaz no Vitra Design Museum (www.design-museum.com) – aquele projetado por ninguém menos que Frank Gehry, na Alemanha -, a exposição Antibodies revê os 20 anos de carreira da dupla, com um apanhadão geral dessa produção que catapultou o subversivo ao superpop, o lixo ao luxo, a reciclagem ao design estrelado, o ordinário ao extraordinário.
Agora vou lá no SPFW, que acontece no prédio da Bienal em São Paulo até o próximo dia 22, ver o que tem de bom – entre a moda e o design, existem muito mais coisas do que a nossa vã filosofia pode supor – e depois conto pra vocês. Abraços!
Looks naturebas estão entre as poucas sumidades do décor (ou quase unanimidades, para fazer jus ao bordão de Nelson Rodrigues). E é quase impossível não gostar da mobília de Hugo França, já que pouca gente respeita tanto as formas naturais quanto ele (que só trabalha com resíduos já descartados pela mãe natureza ou pelo homem – como canoas velhas, toras queimadas, vestígios de árvores e que tais – e não desmata nada, que fique bem claro).
Com traço totalmente eco-friendly, a interferência no shape é mínima, o que explica muito o sucesso internacional do artista, adepto do estilo art brut. Quer um exemplo do tal prestígio do homem? A Sotheby’s promove no próximo dia 12 um leilão dedicado às peças mais importantes do design do século XX. A seleção dos lotes vai desde as clássicas luminárias Tiffany do início do século passado, até criações de Frank Gehry.
Nesse mexidão bem transado, sobrou espaço para a chaise Taja, by Hugo, que abre o evento como uma das apostas mais bacanas do primeiro lote. França é o único designer brasileiro entre nomes como Jean Prouvè, Isamu Noguchi, Wendell Castle, Gio Ponti e Alexandre Noll.
Se você curte adesivos, cola mais. Se é adepto de mobília customizada, então… senta que lá vem história! Olha só que bacana essa dica do über-gênio André Rodrigues, editor do SPFW e alguém que, como eu, adora a subversão em prosa, verso, cor e forma: os designers Jimmie & Martin (www.jimmiemartin.co.uk), autores dos i-sticks mais descolados que eu já vi; e dos móveis que nem Alice viu em sua trip ácida pelo País das Maravilhas.
Acima, wallpaper do duo Jimmie&Martin – o adesivo pode ser muito bem usado como cabeceira fake de uma cama box / foto: Divulgação
Estetas por natureza, o ex-modelo e o ex-vendedor de design se conheceram num clube em Estocolmo, na Suécia. Rolou uma química e, quando se deram conta, estavam morando juntos. E colecionando traças e troços. “Consumíamos peças de antiquários, feiras de antiguidades e leilões. Comprávamos os objetos e, durante o processo de restauração, percebíamos que lhes faltava ousadia e contemporaneidade. Então começamos a interferir com grafites, estampas, desenhos. Foi a maneira que encontramos de tornar imperfeito aquilo que era perfeito. A perfeição é um tédio. Um dia, quando estávamos de mudança, uma pessoa viu os móveis e adorou, pediu para colocarmos à venda em sua loja. E foi assim que tudo começou“, contaram os meninos ao André, direto do seu QG em Londres.
Vieram então algumas congratulações de estofo, como os prêmios “Novos Designers do Reino Unido”, “Melhor Design de Mobiliário” e “Design & Decoration”, além da parceria com mister Phillipe Starck nos interiores do hotel St Martins Lan. Tá?
Mas além dos adesivos (grandes simuladores da realidade, como os de criado-mudo que ficam perfeitos contracenando com uma cama de verdade), eles também brincam com a proporção dos móveis e objetos, subvertendo geral numa produção divertidíssima. Cores sintéticas e fluorescentes, caveiras, grafites, pink flamingos, animal prints e frases de efeito grafitadas dão o tom no acervo (vide a seleção e tire suas próprias conclusões).
Algumas sacadas são geniais, como o móvel preto antiquíssimo que granhou uma explosão de cores nas gavetas (foto acima). “Não acreditamos que estamos destruindo as peças, pelo contrário. Estamos recriando móveis antigos porque achamos que as pessoas não querem mais madeira crua. Os consumidores buscam cada vez mais customização do produto final. Então mantemos a forma original, que é praticamente insuperável, e recriamos a estética para atrair tanto os clientes mais conservadores, que apreciam as formas clássicas, quanto os mais ousados, que buscam elementos transgressores”.
O duo Jimmie (direita) e Martin: punk design na veia / foto: Divulgação
Os óculos com aros redondos lembram os usados pelo “macumbeiro” mais pop do planeta. Qualquer semelhança não é mera coincidência:Jeff Zimmerman, designer e artista plástico norte-americano, sempre se interessou pela alquimia das matérias. Descobriu o poder da mutação na forja do vidro e tem enfeitiçado uma legião de admiradores com sua glass art, que mixa leveza e impacto em formas etéreas, quasetão tecnológicas quanto orgânicas. Tatuado na mão esquerda, com ares de runas celtas, o símbolo químico do vidro denuncia seu pacto com o ofício que abraçou. Entre luminárias (algumas delas com proporções nababescas) e esculturas que lembram as de um outro Jeff (o Koons, com seus balões de metal superinflados), morri de amores pelos vasos de look prateado – que separei aqui para mostrar para vocês.
Reparem como o banho interno de prata dá um efeito cromado à peça, como se o recheio fosse a superfície e vice-versa. Apenas um dos truques que ele saca da manga. Fui apresentado ao Zimmerman na semana passada, durante seu périplo brasileiro, pela arc-arquiteta Fernanda Marques e pela top-produtora e fofíssima amiga Bianca Schaffer. Fiquei embasbacado com o trabalho do cara, que fala apaixonadamente sobre como acata a forma do material durante a queima e faz a direção artística a patir de então: “o fogo me fascina; observar a mutação da massa vítrea sob as chamas e determinar o que o objeto vai virar a partir do rumo que ele tomou, é um dos pontos altos deste trabalho”.
A própria Fernanda Marques, antenadíssima que é, tem causado sensação na Casa Cor São Paulo 2009 com seu espaço que, entre outros hypes, traz as criações de Jeff. Zesty Meyers, mecenas da R20th Century Gallery, que representa o trabalho do artista, é profético: “Ele está só começando”. Assino e dou fé.
Outro dia assisti um filme coreano esquisitíssimo chamado “O Hospedeiro” (confira o trailer oficial aqui), do diretor Bong Joon-ho. Carregado de mensagens subliminares, este foi, com certeza, um dos mais pertubadores que já vi. O enredo parece de uma boboseira sem fim, tipo aquela novelinha de mutantes da Record, mas é coisa séria: um cientista despeja substâncias tóxicas em um rio de Seoul, alimentando um monstrengo medonho que emerge das águas sedento por sangue.
Meio nonsense, meio sci-fi, meio dramalhão off-Hollywood, o filme é muito mais político do que parece, tocando em feridas como as relações da Coreia x Estados Unidos, ética governamental, pandemia (olha que visionários!), o urbanismo desenfreado e suas consequências óbvias, como a poluição. Na fotografia (sombria, mas fantástica), dá para notar nuances concretas de um gigante asiático que se destaca também por sua arquitetura vanguardista. Daí o link com o post de hoje.
O pavilhão Prada Transformer (sim, aquele da grife italiana), inaugurado no finzinho de abril, é a mais nova criação do gênio holandês Rem Koolhaas, um dos maiores compassos da atualidade. Composto por quatro formas geométricas – círculo, hexágono, cruz e retângulo –, o prédio de 20 metros de altura foi instalado ao lado do Palácio de Gyeonghui, no centro de Seoul, como espaço sazonal de exposições. A primeira da temporada, “Waist Down – Skirts by Miuccia Prada” , já tá no ar. Desfiles, shows e outros eventos já estão programados. Por isso a estrutura mutante.
Os moldes de aço desenvolvidos por Rem Koolhaas, com inspiração em formas geométricas – círculo, hexágono, cruz e retângulo / imagem: Divulgação
Acima, o conceito mostra que o Prada Transformer pode ser usado para desfiles, exposições de arte, projeções de cinema e eventos especiais / imagem: Divulgação
“Ao invés de ter apenas uma condição, concebemos um pavilhão que, através da rotação, adquire um caráter diferente e acomoda diferentes necessidades. É um projeto excitante por ser o primeiro híbrido entre a moda Prada e a Fondazione Prada“, diz Koolhaas. É, parece que a moda inventada porZaha Hadid (lembra do pavilhão itinerante que ela desenhou para a Chanel?) pegou mesmo. Até na Coreia!