
A primeira da série “Eu vim lá do Peru” carrega boa dose de afeto material (somos humanos, fazer o quê?). De ponta a ponta, o artesanato daquele país é farto, sobretudo nas cercanias de Arequipa e Cusco. Tudo a ver com uma banda onde o turismo corresponde a 70% da economia. Pelas alamedas estreitas e brejeirinhas cercadas pelo casario de influência espanhola (herança dos corsário-colonizadores que pilharam o ouro e deixaram seus “bons” costumes calcados na cultura local), barraquinhas e tendas se emendam em feiras livres onde se vê de tudo um pouco e um pouco de tudo.
Em Pisac, cidadela rústica a 30 quilômetros de Cusco, região do Vale Sagrado, está um dos sítios arqueológicos mais expressivos daquelas bandas – e um dos mercados abertos mais disputados pelos turistas, que podem apreciar um cuy à peruana (churrasco de porquinho-da-índia, assado com cabeça e tudo, que eu não tive coragem de encarar), entre um garimpo e outro de traquitanas.
Um prato cheio para este consumista confesso que vos escreve, um lunático que sempre volta com excesso de bagagem e falência declarada na fatura do cartão. Tanto que não resisti quando vi a ânfora de cerâmica inspirada nos tesouros pré-incaicos cavados ali séculos antes.
Estava só no começo da trip, com quatro vôos e uma viagem de trem programados pela frente, mas, por mais que tenha ponderado a respeito do estorvo (ele pesa exatos quatro quilos), não resisti ao óbvio: não encontraria um vaso igual em nenhum outro lugar. E não paguei barato por ele, embora se trate de uma réplica quase ordinária sem nenhum valor histórico. Carreguei o dito cujo como um filho durante a semana que se seguiu (sabe aquela coisa de levar a caixa no colo, na plena classe econômica?) e, entre as outras aquisições que faria nas muitas feiras que viriam pela frente (você não achou que eu ia me contentar só com um vasinho, né?), comprei um colar turquesa de pedras na borda de um cânion de Arequipa, especialmente para incrementar a futura vedete da minha casa.
Pois exatamente no último dia da viagem (Lei de Murphy, artigo 19, parágrafo 5º) seduzido pelo ócio do hotel Las Casitas (Colca, no Vale dos Vulcões) e atordoado pelos irresistíveis piscos servidos ali, vacilei na hora de guardar o meu “filhote” e ele despencou em slow motion, bem na minha frente, fazendo um “crac” que ecoou com o “croc” do meu coração partido. Desembrulhei as 83 voltas de plástico bolha que tentavam em vão proteger a ânfora, no afã de ter a medida exata do prejú e, para minha surpresa, ele se desmanchou em 150 lascas – ou algo perto disso.
No desespero, convoquei um workshop básico de mosaico no meu quarto, mas ninguém deu conta de resolver o quebra-cabeças, desencorajando a minha sessão- restauro. Contrariando a trupe, guardei caquinho por caquinho na mala e fiz todas as emendas com durepox líquido (tentei Super Bonder, mas não colou). Muitas queimaduras e band-aids depois, cá está ele, com o colar turquesa-arequipenho e tudo, temperando a minha varandinha com um perfume inca! Duro mesmo vai ser remover as placas de cola que estão grudadas nos meus dedos… Moral da história: feliz é o Robaldo Ésper, que garimpa seus vasos muito mais perto de casa.