Depois da explosão amarela detonada neste blog, é hora de acalmar os ânimos e olhar para o horizonte – literalmente.
Paula Queiroz (entidade habilíssima, simbiose de jornalista e produtora, meu braço direito aqui no blog e lá na Casa Vogue) me ajudou a armar uma seleção azul do balacobaco em cima da nova tendência mundial, ditada pelos arautos das tintas.
Quem recomenda é uma grife das mais portentosas do assunto: a Coral, marca do grupo holandês AkzoNobel, acaba de lançar o “Colour Futures 2010″, estudo mundial sobre tendências e desenvolvimento de cores. Resultado da pesquisa sobre diversos elementos como arquitetura, design, artes, cultura, moda, realidades política e economia global, o estudo apresenta o tom “Céu Californiano” como a cor que guiará 2010.
Este tom claro simboliza horizontes infinitos, novos começos e energias renovadas. A cor, que pode ser associada a céu amplo, frescor da brisa e ar puro, é caracterizada pelos especialistas como otimista e com capacidade de oferecer sensação de pureza e bondade. “Tons de azul claros e etéreos como a cor de 2010 são reconhecidos por serem refrescantes, reconfortantes e liberadores, além de oferecerem grande auxílio no combate à tensão, cansaço físico e exaustão”, explica Paola Vieira, Gerente Global de Cores da AkzoNobel e integrante do time internacional de oito especialistas do Colour Futures.
As características da cor “Céu Californiano”, considerada a melhor representante do estado de espírito do próximo ano, estão associadas à mensagem-chave do Colour Futures 2010: Recuperação. A palavra remete às atuais expectativas da sociedade, que se direciona a um papel mais ativo do indivíduo. “Acreditamos que em um momento de incertezas quanto à economia, política e meio ambiente, a ideia é que as pessoas passem a valorizar mais os amigos, a família e as comunidades locais, além de cuidarem do planeta em prol de um futuro saudável”, diz Benito Berretta, Diretor de Marketing da AkzoNobel.
Segundo o estudo, “Recuperação” oferece a todos a oportunidade de rever, criar melhor, aperfeiçoar o que já existe, recuperando o sentimento de sabedoria coletiva para o futuro. E é justamente dentro desse contexto que a equipe de especialistas do Colour Futures identificou cinco temas predominantes em 2010 – e suas respectivas coleções de cores: Espaço Silencioso, Fantasia Fluida, Convicção Fundamental, Espírito Livre e Doce Lembrança.
Sacou? Para terminar o post azul com a malemolência que a cor pede, pesquei no youtube um videozinho retrô com uma música que toca fundo: “Azul da Cor do Mar”, de Tim Maia, que abocanhou a 44ª posição no hall das 100 melhores músicas brasileiras de todos os tempos. E dedico a canção ao Zé Renato Maia, sobrinho do Tim, responsável pelo design desta página choco-blue.
Muranos e cômoda Tania Bulhões; móvel de Wagner Archela para a C.O.D; cadeiras Micasa
Luminária de murano Emmanuel Babled; som Bang Olufsen; vasos Bendixt; banqueta Royal; cadeira Micasa;
Poltrona com tecido azul-bebê; vasos Evelino Antiquário; luminárias Quimera; Vaso de silicone Scandinavia Design
Potes Secrets de Famile; louça e porta-guardanapos Tania Bulhões Home
Abajur de murano Tania Bulhões Home; vasos F. Quartilho; cadeau Scandinavia; vidro Benedixt; poltrona Montenapoleone
Mesa do muralista brasileiro Paulo Werneck; poltrona de Michel Arnaud, by Atec; moringa Obra Prima Antiguidades; taças Cecilia Dale; banco laqueado Edith Diesemdruck; murano Tania Bulhões Home;
Araras Tania Bulhões Home; abajur Vila Vitória; cadeira Micasa; potiche Autore; móvel chinês Paulo Marques Antiguidades
Corais e aparador-totem Tania Bulhões Home; vaso coleção Blue & Me, Fabrizio Rollo; porcelanas Bali Express; poltrona Tania Bulhões Home
Copo Espaço Santa Helena; cadeira Mãos Art Contemporary; vasos Bittosi e Cartago; banqueta Montenapoleone; cabideiro Micasa
Poltrona Irmãos Campana; poltrona vazada e chaise Montenapoleone; pinha de bico de jaca Anno Dominni; vaso Quimera Antiguidades
Aparador e vaso Tania Bulhões Home; abajur Bertolucci; sofá de resina plástica Montenapoleone; enxoval Blue Gardenia; tapete By Kamy
Da esquerda para a direita: ambiente Wallcovering; banheiro Interbagno; parede pintada em “azul-céu californiano”, by Tintas Coral
E já saiu a listinha do 23º Prêmio Design Museu da Casa Brasileira (www.mcb.org.br), o Oscar brasuca do setor. A partir de 25 de novembro, vale dar um pulinho lá no casarão da Faria Lima (se você não conhece ainda, não sabe o que tá perdendo) para conferir, ao vivo e em cores, 56 peças selecionadas entre a nova turma de criadores que surge na praça.
A experimentação com o uso de materiais em mobiliário é um dos destaques da edição 2009 do evento, realização da Secretaria de Estado da Cultura, que neste ano contou com 576 inscrições.
Os designers de produto Paulo Alves da Silva Filho e Luís Fagner Koga Suzuki criaram a cadeira “Atibaia”. Paulo Roberto Ceschin Foggiato assina a poltrona “Bambu #5″, a mesa “Demoiselle” e a cadeira “Lapa”, uma linha feita de laminados de bambu.
Levando em conta critérios como originalidade, concepção formal, inovação tecnológica, adequação ao mercado, viabilidade industrial, qualidade, segurança e proteção ambiental, o júri empatou as 4 peças no primeiríssimo lugar da categoria Mobiliário, valorizando a investigação dos designers e a excelência do resultado.
Para a diretora Geral do MCB, Miriam Lerner, o prêmio revelou “a intensa experimentação dos designers de produto em busca de novos usos para antigos materiais”. Giancarlo Latorraca, diretor Técnico, diz que “este ano a preocupação em fazer produtos que não tragam prejuízos para a natureza está acentuada e com resultados mais concretos”.
Mesa Demoiselle; à esquerda, cadeira Atibaia; ao centro, poltrona Bambu; à direita, cadeira Lapa
Acho que já comentei aqui que o desfile de moda mais bonito que já vi foi o de Jum Nakao, em sua despedida do SPFW, em 2004. Bem, na minha opinião e na da torcida do Corinthians, né? As roupas de papel, com look meio renda, meio origami, super estruturadas e arquitetadas – e sumariamente rasgadas ao final da exibição, pelos próprios modelos, em performance apoteótico-libertária, sob as lágrimas dos fashionistas e wannabes, entraram para a história.
E vire a página, mas devagar. Com um shape meio “Costura do Invisível” (mas sem papel e sem armagedon), o próprio Jum assina o look dessa poltrona descoladérrima para a A Lot Of Concept Store. Apelidada de Renda, a peça é fabricada com chapas curvas e recortes a laser, exatamente como os dos vestidos daquela coleção. Se você quiser ver a peça ao vivo, dê um pulinho na loja ou na Casa Cor Trio, na Galeria do Design, onde ela está exposta. Aliás, Jum Nakao é tema do espaço Estudio do Estilista, ambientado pela arquiteta Clélia Regina Ângelo, que fez homenagem merecida ao gênio. Não perca – ou se rasgue inteiro!
Enfim, aperta o play e sinta a nostalgia na pele com esse registro dos bons tempos de subversão fashion em terras brasilis, puxado no YouTube (meu canal favorito de “Vale a Pena Ver de Novo”):
E no ano em que a Bauhaus sopra noventa velinhas, Casa Vogue fez uma mega matéria sobre a lendária escola alemã que sacudiria para sempre as linhas cartesianas da arquitetura e do design. Se você não viu ainda, já para bancas: tá imperdível! A começar pelo elã da coisa…
Muito mais do que uma simples reportagem, nossa big-boss-com-bossa, Clarissa Schneider, poderosa que é, teve o insight e foi à luta: escolheu um time de estetas e encomendou, a cada um deles, uma criação de inspiração bauhausiana, sob medida. Elenco: Irmãos Campana, Marcelo Rosenbaum, Cláudia Moreira Salles, Attilio Baschera, Candida Tabet, Fernando Prado, Gerson de Oliveira e Luciana Martins.
De tão especial, a coisa evoluiu para a expo mais diferentona que já se fez sobre Bauhaus por essas bandas, sem nenhuma gotinha de pretensão sequer.
Uma prévia desse resultado, você espia aqui e agora, sem delongas (o resto, só na revista). Mas para finalizar em grande estilo, deixo vocês com um fragmento do texto que Flávia Rocha tão bem escreveu sobre o assunto: leitura obrigatória.
“Não é exagero dizer que o mundo não seria o mesmo sem a Bauhaus – sua filosofia humanista, socialista, democrática, universal, carregada do espírito utópico do entreguerras, superou o seu próprio tempo. A escola, que funcionou aos trancos e barrancos entre 1919 e 1933, deixou seu traço em aberto para que qualquer um, a qualquer momento, fizesse bom proveito dele. A semente lançada num território instável – a Alemanha pré-nazista – não fincou raízes geográficas (só na Alemanha, teve três endereços: Weimar, Dessau, Berlim, dissidentes a recriaram em Chicago em 1937 — hoje Illinois Institute of Technology, e desde 1999 funciona como uma fundação, a Bauhaus Dessau, além de ter inspirado outras escolas similares mundo afora). As raízes encontraram terreno fértil nas mentes que a conceberam, arquitetos, artistas, artesãos e designers europeus que tinham em comum um desejo de revolução: simplificar, massificar, transplantar o design das oficinas para as fábricas e para as ruas, aplicar modernidade no dia-a-dia.
Bauhaus, que significa “casa de construção”, teve três dirigentes, e cada um imprimiu sua marca nas diretrizes da escola. Entre 1919 e 1928, sob orientação de seu fundador, o arquiteto Walter Gropius, tiveram prioridade as oficinas técnicas, conciliando arte e artesanato à proposta de funcionalidade, um projeto que substituía ornamentação e exclusividade por produção em massa de peças de design. Entre 1928 e 1930, sob direção de Hannes Meyer e influência marxista, a Bauhaus se voltou para projetos arquitetônicos e industriais, sobrepondo funcionalidade à estética, o que causou grande controvérsia. Nos seus últimos anos, dirigida por Mies Van der Rohe, sob uma ótica intelectual, a Bauhaus voltou a se preocupar com a criação de uma estética modernista, liderada pelo departamento de Arquitetura. Na lista negra do Nazismo, foi fechada pelo governo de Hitler, em 1933. Passaram por lá, como instrutores, algumas figuras icônicas: Paul Klee, Johannes Itten, Josef Albers, Herbert Bayer, László Moholy-Nagy, Otto Bartning, Wassily Kandinsky, Piet Mondrian, Marcel Breuer… os vestígios de suas linguagens vemos por toda a parte, e veremos ainda no futuro.”
Luminária by Fernando Prado e fruteira dos Irmãos Campana
Estante modular e luminária da dupla Gerson de Oliveira e Luciana Martins; o tapete é de Marcelo Rosenbaum
Luminária de Claudia Moreira Salles; tecido de Attilio Baschera; estante Candida Tabet
Se a fraternidade é vermelha, a liberdade é azul e a igualdade é branca, não tem pra ninguém: a novidade é amarela! Meu último post repercutiu tanto que eu resolvi fazer um segundo apanhadão em ton-sur-ton desta cor cítrico-solar que tá com tudo e não tá prosa. Por hoje é só, pe-pessoal – sem muito blablablá, porquê em dia de fechamento a coisa aqui fica preta!
Estante Biela, de Wagner Archela para a COD. O gato preto (cover do Pipoca, mascote da minha mãe) não dá azar. A cadeira é do estúdio Mãos Contemporary Art
Poltrona Charles Eames da Clássica Design, mesa lateral Saarinen reinterpretada, Tania Bulhões Home
Banco Adresse, bowl Benedixt, set de espumas com pinça Droog, da Decameron
Aparador Adresse, Way Design; cadeira Montenapoleone; luminária Wall Lamps
Cinzeiro Lenat; latas Benedixt; cadeira Micasa; mesa lateral de Pedro Mendes
Abajur Puntoluce; Poltrona Leonardo Lattavo e Pedro Moog, Schuster; Pufe Futon Company; Banco Zanine Schuster
Set de produtos Tok & Stok
Fruteira vazada Benedix; Miniatura e almofadas Futton & Home; chaise Versace Home
Cena assinada por Roberto Migotto para a Casa Vogue
Embora o décor não seja tão efêmero como a moda (ainda bem, porquê não dá para mudar o look da casa como quem troca de roupa, né?), variar é preciso. Nem me refiro ao estilo, que é uma coisa menos mutante, mas sim às cores que pontuam o cantinho nosso de cada dia.
Estava aqui dando uma folheada rápida num livro chamado “Fundamentos da Geocromoterapia”, da espanhola Marta Povo (Editora Pensamento, 2004), estudiosa da energia das formas e das cores na seara doméstica, e pincei um texto que radicaliza essa proposta de caprichar na paleta: “As suas casas adoecem tanto ou mais que vocês mesmos. Os espaços são como seres vivos submetidos a diversas alterações de energia. Se vocês vão ao médico, mas voltam para casa e o lugar está ‘doente’, de nada adiantam as correções feitas sobre o corpo. A sua casa deveria ser um lugar de cura e equilíbrio, que favoreça o seu caminho, e não um lugar doente que roube as suas energias. É aí que entra a Geocromoterapia, método de correção da informação celular e psíquica dos ambientes, com finalidades preventivas, equilibrantes e evolutivas a partir do layout e das cores”.
Mesa lateral ripada, Conceito; abajur Bertolucci; balde de gelo vintage, em madeira pintada, de Jorge Zalszupin
Ok, pode parecer “poltergeist” demais para internautas céticos como eu. Mas ninguém precisa comprovar cientificamente (embora seja mais do que sabido) que algumas cores são muito mais aconchegantes do que outras; que determinados tons cansam ou excitam mais e por aí vai. No final das contas, experimentar é preciso.
Meu cafofo, por exemplo, já teve sua fase “laranja mecânica” (todos os plásticos da casa eram nessa cor: dos acessórios do banheiro às panelas da cozinha – praticamente só elas sobreviveram, já que não abro mão das minhas amadas Le Creusets, conquistadas com muito suor); radicalizei para um lance meio “black is beautiful” (coleciono vasos pretos e muitas outras peças negrinhas começaram a entrar no pacote para “ornar”); depois tentei clarear tudo com uma pegada “white party” (que, definitivamente, não tem nada a ver comigo – less is more só é bonito na casa dos outros, né?); e, finalmente, descambei para o indefectível “ensaios sobre beges, crus e marrons”.
Confesso que tenho sentido falta de cor, ultimamente, e venho incrementando aos poucos. Minha aposta da vez é o amarelo. Por enquanto, a incursão solar se resume a uma Arne Jacobsen de acrílico na entrada e a uma miniatura de Panton (souvenir da Mais Design) na estante de livros, mas a tendência é abusar – depois conto aqui o que tenho em mente.
Miniatura de Verner Panton; mesa Cravo; cadeira japonesa de Teruhiro Yanagihara
Os tons cítricos, tão em alta na moda (quem viu os desfiles da última temporada da Chanel, onde as modelos desfilaram com esmaltes jade – o último grito –, sabe do que eu tô falando), funcionam super bem em casa.
No ano passado arrematei num “brique-a-braque” uma penteadeira cinquentista, pés palito, meio detonada pelo tempo. Mandei pintar com tinta automotiva (que dá aquele efeito laqueado) e a peça ficou escandalosa de linda. Como não tenho (ainda) espaço para ela, tive que emprestá-la para a minha mãe, que não se mostrou muito disposta a devolver o móvel. Patrícia Favalle (amiga amada e jornalistona de primeira) viu, gostou e contou para outra jornalista e amiga querida, a Adriana Brito, que mandou pintar um cofre antigo (daqueles com cara de escotilha) com a mesma tinta, convertendo a peça paquidérmica num delicado criado-mudo.
Mas resolvi abrir alas mesmo para a cor depois que a Cynthia Garcia, uma das minhas divas do jornalismo e oráculo de estilo (ela sabe tudo de moda, décor e do estilo em si), me contou que pintou as portas da casa de amarelão, contrastando com batentes pretos e piso de parquê. Ousadamente chique, não?
Cerâmicas pintadas; garden seat La Boheme, by Phillipe Starck; abajur Kartell; estofado Egg
Voltando ao lado B, só para esgotar a pegada holística: o amarelo é a cor que mais contribui para a felicidade, por ser muito brilhante e alegre (é como estar em festa a cada dia). Também simboliza, ao lado da sua variação dourada, o luxo. Está intimamente relacionada ao lado intelectual do cérebro e a expressão de nossos pensamentos. Estimula o poder de discernir e discriminar, a memória e as ideias claras, o controle de decisão e a capacidade de julgar. Também ajuda a nos organizar, a assimilar inovações e contribui para a habilidade de compreender os diferentes pontos de vista. Como nem tudo são flores, também há um lance negativo: o amarelo contribui para alimentar o medo.
Impressões pessoais, pesquisas cromoterápicas e folclores à parte, vale registrar uma informação que denuncia a demanda mercadológica do tom: todo e qualquer modelo de móvel assinado, produzido hoje em dia, principalmente em acrílico e poliuretano, está disponível na cor amarela: de Charles Eames a Saarinen; de Pierre Poulin a Mies van der Rohe. Ou seja: o amarelo agrada.
Na categoria “manual prático”, aproveitando a deixa, perguntei ao Fabrizio Rollo, nosso consultor de estilo favorito, quais as suas impressões sobre o amarelo. Claro que ele fez um giro histórico e fechou com altas dicas de combinação. Confira:
“O amarelo virou moda – mas não confunda moda com tendência. É curioso como essa cor, principalmente em suas tonalidades mais vibrantes, está em alta, se você considerar que, na Idade Média, as casas dos doentes contagiosos tinham suas portas pintadas assim, em sinal de alerta, o que lhe rendeu um status nada positivo. Uma das cores puras (como o vermelho e o azul), ela está ligada aos intelectuais, pois estimula o pensamento e o raciocínio. Mas cor é uma relação muito pessoal. Encarar ou não o amarelo na decoração, tem mais a ver com o seu gosto do que com qualquer outra coisa. Se você ama, porquê não usar? Tenha em mente que é um pigmento caro (é muito mais barato pintar a casa de branco, né?).
Cofre antigo garimpado por Adriana Brito, que mandou pinta-lo de amarelão; mesa lateral by Roberta Rampazzo; garden seat Kartell e bowl de murano da Arterix
E é importante ficar atento a alguns senões. Quando forte, por exemplo, principalmente se aplicado em grandes superfícies, o amarelo enjoa muito fácil. Também há outro equívoco comum: nunca pinte uma parede só de amarelo (ou de qualquer outra cor). Não existe nada mais cafona!
Em tons muito clarinhos, como o marfim, o amarelo é sempre elegante. Mas alguma ousadia na medida certa sempre causa sensação. Na história do décor do século 20, o living decorado pela inglesa Nancy Lancaster (uma das fundadoras da marca Colefax & Fowler), era inteiramente pintado em amarelo-trator (bem Caterpillar) em plena década de 50!
O amarelo-açafrão combina muito bem com tons militares e envelhecidos, para ambientes mais rústicos, com cara de campo. O amarelo puro é ultra-moderno (pense em Mondrian ou no arquiteto Rietveld). E muito cuidado ao misturar amarelo com vermelho. Dependendo da intensidade, você pode cair naquele look fast-food. E ninguém quer uma casa que estimule o apetite…”
Os móveis da grife italiana Paolo Lenti agora podem ser encontrados no Brasil através da Regatta Tecidos
Gente, que calor senegalês é esse? Definitivamente, não fui projetado para dias quentes – ainda me mudo para a Sibéria, hora dessas. Podem me chamar de cricri, mas a-d-o-r-o inverno. Pra mim, verão só é bom quando a gente pode se jogar de corpo e alma, seja à borda da piscina, debaixo de um chuveirão no jardim (olha como eu sou cafona!), diante de uma enseada fresh ou no deque de um barco, singrando os sete mares (ficar assando feito pão de queijo na redação, enquanto o mulherio semi-nu reclama do ar-condicionado, é a maior roubada…).
Por essas e outras, achei um alento essa imagem da Regatta Tecidos (www.regattatecidos.com.br), que traz para o Brasil a coleção de móveis da grife italiana Paola Lenti.
Batizada de “Aqua”, a coleção para área externa tem como inspiração a natureza, interpretada em formas bem limpas que aparecem nos vários produtos assinados pelo designer Francesco Rota. São 14 peças, entre poltronas, sofás, cadeiras, chaises, espreguiçadeiras, mesas de apoio e pufes multiuso – boa parte deles confeccionados em “rope”, espécie de corda criada com várias espessuras e formas especialmente resistente aos temíveis raios UV, cloro e água do mar. Bonito, né? (Se bem que, se o barco fosse meu, teria um pouquinho mais de cor, em look navy, de preferência).
Por hoje é só – tô ouvindo uma buzina meio Chacrinha, que pode ser a do tiozinho do picolé.
Mesa de Zanine, 1965; espelho de jacarandá anos 50, autor desconhecido; móvel de John Graz, anos 50
Por falar em Hugo França, o Brasil dá mais uma mordida na Big Apple. A R 20th Century (www.r20thcentury.com) de Nova York, anda engrossando o seu acervo de design tupiniquim com os clássicos de sempre (Zanine, Tenreiro, John Graz, Sergio Rodrigues) e novas apostas (Hugo França, Julia Krantz). Não é de hoje que os gringos a-d-o-r-a-m as nossas criações – e nem me refiro ao pau-brasil pilhado pelos portugas na gênese da pátria amada. O fato é que muito além de folclore, praia, futebol, carnaval e café, nós também exportamos design. Não é para menos: temos madeira da boa, contenção nas linhas, calor tropical e sofisticação modernista, desde os anos dourados. Acabo de bater um papão a esse respeito com o Fabrizio Rollo, nossa enciclopédia viva de estilo. Veja as suas impressões:
Chaise de Julia Krantz, de 2005; mesa de Joaquim Tenreiro, 1965
“O forte do mobiliário moderno brasileiro está nas décadas de 50 e 60, porque é quando a nossa arquitetura passou a ter peso no país enquanto característica cultural – e o mobiliário acompanhou essa evolução. Nomes como Tenreiro, em sua carreira solo, começaram a ter mais liberdade de criação e assim traçaram os primeiros móveis ‘bacanamente’ modernos, reconhecidos por aqui, mas só muito recentemente valorizados lá fora. De poucos anos para cá (talvez uns 10) é que rolou um boom e o mundo começou a olhar para nós nesse sentido, garimpando coisas no Brasil. Daí pioneiros como Sergio Rodrigues, Ricardo Fasanello, Jorge Zalszupin, alcançaram o devido valor de seu trabalho. Foi um reconhecimento tardio.
Par de poltronas de Juliana Mafatti, 1958
Esse mobiliário nasceu da necessidade de uma arquitetura que impulsionou os designers, artesãos e criadores a trabalharem novas formas que deixassem o velho e o tradicional de lado para investir no moderno, em sintonia com a nova visão arquitetônica que se esboçava. O nosso momento áureo no século 20, tanto para aquitetura quanto para o design, é casado; porém a arquitetura deslanchou e o mobiliário ficou de escanteio. Não à toa, grandes arquitetos contemporâneos que buscam ou têm padrões estéticos inspirados (total ou levemente) nesta arquitetura moderna, têm a necessidade de usar mobília específica muitas vezes criada para casas modernistas ou concretistas desta fase, por falta de um mobiliário compatível… Depois de um longo hiato, vieram então novos criadores – e com eles, de certa forma, um olhar mais atento para o que havia sido feito até então…”, diz.
Set de cadeiras de jacarandá de Joaquim Tenreiro, anos 60
Trocando em miúdos: Yes, we have design! Bom saber que enquanto os Campana puxam o cordão da vanguarda brasileira lá fora (alguém aí já viu a expo-retrô dos caras no Vitra Design Museum? Vou contar tudo aqui, dia desses…), seguidos por nomes quentíssimos como Rodrigo Almeida (já mandei ficar de olho nele, né?), nossos veteranos fazem e acontecem. Fabrizio dá o exemplo: “Dois anos atrás, numa das minhas visitas a Tefaf, feira de Maastrich, na Holanda, que reúne o que há de melhor em mobiliário no mundo, fiquei muito feliz em ver que uma galeria belga colocou uma poltrona do Jorge Zalszupin entre gigantes como Hans Wegner e Gio Ponti”. Que nossos criadores carimbem cada vez mais seus passaportes!
Adoro posts polêmicos – será que tô me especializando neles? Se for, juro que é involuntário! Só para esclarecer: claro que a poltrona Beck postada aqui ontem não é feita com caixotes de frutas, mas sim inspirada neles. O parece-mas-não-é não passa de madeira açoita natural, em ripas. Desculpe o auê!
Continuando os trabalhos do dia, mais uma da série “reciclagem, para que te quero”: revisteiro “Anzol”, by Hugo França.
Particularmente, não gosto muito de revisteiros à mostra – acho que a sala fica com cara de espera de consultório médico. Prefiro organizar as publicações que coleciono numa estante e assumir os números recentes no décor (pelo menos aqueles que estou lendo), empilhadinhos sobre um móvel, com algum objeto em cima, tipo um bowl, vaso ou cinzeiro de fácil manejo (como fazemos com os livros de arte, por exemplo).
Mas confesso que fiquei com uma quedinha por essa peça. O lançamento do bombadíssimo França – que só trabalha com madeira desprezada pela natureza – é ecológico até não poder mais: neste caso, é esculpido com a sobra da sobra, já que utiliza resíduos dos próprios móveis confeccionados por ele – e que estão rodando o mundo.
Cruz-credo! Choveram mais tomates no post de ontem do que lá em Buñol, na Tomatina espanhola. Calma, minha gente! Ninguém vai bater a cabeça nas prateleiras – elas ficam suspensas, até segunda ordem. De qualquer forma, é só um projeto acadêmico-experimental (maravilhoso, diga-se de passagem, até por brincar com essa estética do ordinário e despertar tanta controvérsia numa cena assumidamente metida a besta, como é o setor moveleiro). Curtir ou não curtir, eis a questão – uma vez que gosto é igual nariz: cada um tem o seu.
Sem provocações, como quinta é dia de feira (literalmente, já que tem uma lá na porta de casa e outra aqui atrás da redação), taí o gancho perfeito para esticar a polêmica. Não que seja algum tipo de obsessão, mas já adianto que não vai sobrar caixa sobre caixa nesse blog, de tanto que tô interessado em mastigar o assunto (aliás, se você tem alguma dica bacana de reutilização desses engradados bonachões, me conta já!).
Olha só que frugal – e divertida – essa cadeira Beck, feita à moda das ripas de caixotes que carregam verduras e legumes. Sem nenhuma pretensão, a peça tem look rústico quente e apelo estético charmosão que não entrega seu passado no CEASA. A pitada sofisticadinha fica com a almofada e suas indefectíveis listras.
O lançamento é do Espaço 204, loja do shopping D&D (www.dedshopping.com.br), que anda investindo pesado em móveis ecologicamente corretos. Leva aê, freguesa!