O ENCONTRO DAS MULTIDÕES
As luzes já se acendem sobre o encontro das multidões – esse inesperado Flamengo e Corinthians. Inesperado para esta fase, claro, pois poucos poderiam supor, no início da Libertadores que o campeão brasileiro chegaria ao final da fase de grupos em último lugar e que, de cara, no mata-mata das oitavas pegaria o Corinthians, primeirão.
Mas, aí está configurado esse quadro, e o que se percebe é um Corinthians mais cauteloso nas declarações de seus jogadores e cartolas do que o Flamengo, mergulhado em grave crise, com técnico interino, grupo rachado e outros babados.
É que a turma sabe das coisas: um Flamengo em turbulência, muitas vezes, é mais perigoso do que se navegasse em lagoa serena. Ainda mais jogando no Maracanã, sob o impulso de sua torcida apaixonada.
Time por time, no papel, os dois mais ou menos se equivalem. Talvez, o Timão tenha uma defesa e um meio de campo mais bem resolvidos, além de contar com o experiente Roberto Carlos – de tão potente canhota – em fase ascendente.
Mas, lá na frente, se Dentinho anda decidindo, o mesmo se pode dizer de Wagner Love. O nó está exatamente nos mais famosos das duas equipes – Ronaldo Fenômeno e Adriano. E, pelas mesmas razões: ambos não conseguiram nesta temporada, por várias razões, entrar em forma física e técnica adequada para uma competição desse porte.
Aquele que estiver em melhores condições atléticas e emocionais o jogo, é quase certo, decidirá essa questão.
Dúvida tricolor
Ricardo Gomes partiu para o Peru com um ponto de interrogação tirando-lhe o sono: Fernandinho ou Washington? São estilos diferentes, antagônicos mesmo, mas complementares, se colocados juntos no mesmo time.
Washington é aquele centroavante típico, alto, forte, lento e goleador por vocação e hábito. Fernandinho é aquele canhoto hábil, driblador, rápido, o pontinha ideal para cruzar bolas na cabeça de Washington lá na área.
Sucede que, como Ricardo Gomes, por temperamento e formação, não é de alçar grandes voos imaginativos. Nem cogita a hipótese de colocar os dois ao lado de Dagoberto, o outro atacante, formando um trio ofensivo como já virou rotina nos centros mais avançados da Europa e até aqui, com esse Santos espantoso.
Aliás, já o fez, sem êxito. Mas, com três volantes tentando em vão abastecer esses três lá na frente. Faltou a sintonia fina de dois meias como Jorge Wagner e Marlos, que acertaram o meio de campo tricolor nas últimas partidas.
Isso, porém, exigiria a audácia de jogar com apenas um volante – ou Souto ou Hernanes. Um plano temerário a estas alturas do campeonato, concordo. Essa fórmula era para ter sido testada, com a devida insistência, lá no início da temporada.
Nas atuais circunstâncias, me parece que a manutenção de Fernandinho desde o começo da partida seria mais conveniente para dar velocidade aos contragolpes tricolores, predisposto a sofrer pressão naqueles minutos iniciais de praxe.
Depois, com o adversário mais cansado, aí, sim, poderia colocar Washington em campo, de acordo com o andar da carruagem.
E Thiago Humberto?
Pois é: só agora, lendo seu nome na Internet, foi que me dei conta de que o rapaz, revelação do Paulistão do ano passado, canhoto cheio de manhas, que tanto joga na armação quanto na zona de definição, estava lá no Beira-Rio, à sombra de um período longo de adaptação aos ares do Guaíba.
E, que, acaba de ser relacionado para a Libertadores, com possibilidades até de ir para o banco no jogo contra o Banfield, lá na Argentina.
Mesmo porque o Inter se queixa, com razão, da baixa produtividade de seu ataque, embora Walter e Alecsandro venham marcando seus golzinhos, jogo sim, jogo não. Alecsandro, do tipo oportunista, sobretudo no cabeceio, e Walter, um animal batendo de fora da área.
O problema parece estar um pouco mais atrás, onde D’Alessandro, Giuliano e Andrezinho se revezam em altos e baixos. É onde Thiago Humberto espera cavar sua primeira chance real no Colorado.
Leão e Muricy, de volta
Leão vai para o Goiás, região que lhe é familiar e clube que mantém uma infraestrutura invejável no futebol. Não deverá, pois, ter problemas, a não ser com seu próprio temperamento.
E temperamento parece ser a pedra no sapato de Muricy nos últimos tempos, depois de ter atingido o ápice da carreira com aquele tricampeonato brasileiro histórico pelo São Paulo.
Embora gente fina na intimidade, Muricy ganhou, por seu próprio gestual e discursos arrevesados, fama de malcriado e tal e cousa e lousa e maripousa. E o que de início era divertido virou antipático.
O Fluminense, que já foi padrão de excelência em organização e gestão, hoje é uma balbúrdia, fruto da administração dividida entre os cartolas do clube e o patrocinador, que mete o dinheiro e o bedelho em tudo.
E pior: não tem sequer um centro de treinamento adequado, como os dos clubes dos quais veio Muricy – Inter, São Paulo e Palmeiras.
Ora, Muricy não é do lero, como o nosso querido Natalino, Primeiro e Único, Rei do Rio. Muricy é um operário da Vila Sônia. Seu negócio é muito trabalho, muita disciplina tática, essas coisas graves da vida.
E, cá entre nós, gravidade não parece ser lei que impere nesse insólito Fluminense de hoje.
Notas relacionadas:
Autor: Alberto Helena jr. Tags: Corinthians, Flamengo, Ricardo Gomes, São Paulo


