iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade

23/02/2009 - 19:07

O SAMBA, ANTES DO FUTEBOL

O som dos tamborins me despertam lembranças antigas, lá dos princípios dos anos 60.

Estou numa mesa de bar – o Ferro´s, reduto de artistas, jornalistas, escritores, pintores da época, antes de se transformar em quartel-general do lesbianismo paulistano – trocando ideias com Dalmo Ferreira.

Dalmo era um negro alto, forte, cabeça raspada a navalha muito antes de Ronaldo Fenômeno marcar o tipo, idealizador e diretor do grupo de teatro negro Quilombos, bom de papo e de capoeira, que me transmitiu os ensinamentos básicos dessa dança-luta nas horas de folgança.

Minha idéia era ir na contramão da pesquisa histórica de Mário de Andrade, o Pai da Semana de Arte Moderna em 22 – quanta pretensão! -, que buscara as origens do samba paulista nos seus focos primevos: o samba-de-lenço de Santana do Parnaíba e as festas de Pirapora, onde a tocada do cateretê era mais marcante do que o samba balançado dos baianos e cariocas.

Onde, afinal, estavam fincadas as raízes do samba urbano paulistano? Certamente, não estavam nas veias de um Adonirã ou de um Paulinho Vanzolin, duas vertentes mais recentes, à época, desse tipo de expressão musical, ambos brancos, filhos de imigrantes e geniais criadores.

Dalmo nem pensou a respeito. No dia seguinte, me apresentou Geraldo Filme de Souza, que se imortalizou como Geraldo Filme e era tratado por simplesmente como Geraldão.

Geraldão, que acabara de sair de cana, onde foi segurar a bronca de um amigo, como ele costumava dizer, diretor do Peruche, conhecia todos os caminhos desse labirinto da memória e seus personagens. Pegou-me pela mão e saímos nas quebradas do samba paulistano e suas tramas, papeando com os velhos sambistas. E chegamos ao plantio da semente – o Largo da Banana, onde os negros, nas duas primeira décadas do século passado, ex-escravos e descendentes, descarregavam os engradados da fruta, na encruzilhada das várias ferrovias, na Barra Funda.

Recebiam como paga quilos de bananas que trocavam nos botecos da região por pão, mortadela e cachaça, a mesma cachaça que adubava as rodas de samba na praça. Ali se praticava o samba-duro, uma roda de pernadas que muitas vezes terminava em pancadaria geral.

Mas, o primeiro conjunto musical – misto de regional, grupo vocal e bloco carnavalesco foi o Grupo Barra Funda, fundado por seu Aristides, um negro de óculos e ares professorais, que, décadas depois, quando o conheci, tocava a célebre banca de jornais da Praça da Sé, logo à saída da rua Direita.

E foi em homenagem a esses pioneiros que decidimos – Geraldão e eu – batizar o conjunto que reunimos para sair por aí revelando essas relíquias somadas à obra do próprio Geraldo Filme, simplesmente irretocável, fossem os sambas-de-enredo que fizera e fazia para o Peruche, o Vai-Vai ou o Paulistano da Glória, que ele mesmo refundou mais tarde, ou seus sambas originais, com ou sem a parceria de Jorge Costa, um alagoano cheio de balanço que percorria a noite paulistana batendo um tantã, sempre se anunciando, quando invadia um bar ou uma boate, com o refrão infalível: “O cantador quer beber!”.

Este Grupo Barra Funda redivivo era formado por Geraldão, ritmo e vocal, Menezes, no cavaquinho, João Sem Medo e João Valente (o único branco), nos violões, e a dupla Silva e Souza, vocal e ritmo. Souza, mais tarde, passou a ser conhecido como Zeca da Casa Verde, quando foi figura preponderante nos carnavais dos anos 70, antes de morrer precocemente.

Saímos, então, por aí, em bares, faculdades e cursinhos universitários, contando e cantando essa história, até então praticamente desconhecida pelas novas (velhas, no caso) gerações.

Percurso seguido, mais tarde, pelo meu considerado e saudoso Plínio Marcos, ator e dramaturgo de gênio.

Ficaria horas aqui falando dessas coisas, mas o que os tamborins do desfile das escolas paulistas me despertam de fato é um episódio singular.

Lá pelos meados dos anos 60, assisti à cena mais deprimente da história do samba paulista. O desfile, que já tivera seu auge na Avenida São João, décadas antes, se transformou numa indigente volta pelo Ginásio do Ibirapuera, no centro do qual se instalara um ringue daquele abominável concurso de dança de resistência, que Robert Altmann havia consagrado no seu filme com Jane Fonda – A Noite dos Desesperados.

Geraldão e eu achamos que aquilo era o fim da picada. Para escapar da extinção total,
era preciso reunir a tropa. E foi o que fizemos, numa noite, no barracão de música e judô da escolinha de Dona Irene, minha mãe, na esquina da avenida Brasil com a David Campista, onde hoje funciona o Laboratório Fleury.
 
Geraldão conseguiu a proeza de reunir ali a aristocracia do samba paulistano: Dona Eunice, presidente da Lavapés; Pé Rachado, do Vai-Vai; Inocêncio Mulata, do Camisa Verde; Nenê, da Vila Matilde, com seu chapéu de banda; Carlão, do Peruche; Sinval, da Flor Azul do Marujo, o mais poético e enigmático nome de cordão ou escola que tenha conhecido, o representante do Fio de Ouro, que não me lembro etc.

Cada um tinha uma mágoa de outro, e a reunião serviu para que todos fizessem a catarse indispensável para que nascesse ali a União das Escolas de Samba de São Paulo.

Quarenta anos depois, aí estão o Sambódromo e um desfile tão variado e rico que já pode almejar um dia alcançar o deslumbramento do carioca.

Confesso que essa disputa nas passarelas não me atraem mais como antigamente, mesmo porque o samba virou marcha, e marcha é música de salão.

Mas, durmo feliz, ao som dos tamborins.

Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Música Tags: , ,
Voltar ao topo