MISTURANDO ESTAÇÕES (2)
Outro dia, ouvi uma longa e confusa entrevista ao Cláudio Zaidan, da Band, do meu querido companheiro Odir Cunha, um dos autores da pesquisa que embasa o pedido de incorporação dos títulos da Taça Brasil ao Campeonato Brasileiro, e cujo livro sobre o Santos é leitura obrigatória.
Creio que o amigo desprezou, ali, uma regrinha básica do jornalismo, ao desqualificar os opositores de sua idéia. Disse que TODOS - sem conceder a misericórdia elementar das exceções – os contrários a essa concessão são movidos por paixões clubísticas. É tão primário e comprometido esse argumento, que prefiro deixá-lo de lado, pois soa como bate-boca de torcedores na padaria da esquina.
Outro pretexto é o de que essa medida serviria para resgatar um momento mágico do nosso futebol, expresso nos timaços do Santos de Pelé, o maior de todos os tempos em todos os quadrantes, da Academia do Palmeiras, do Botafogo de Gérson, Jairizinho etc., do Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes e cia. bela, e assim vai.
Ora, esses instantes, esses times maravilhosos, já estão consagrados para a eternidade, no nicho da memória e do coração do futebol mundial. Não serão alguns títulos a mais que nos farão lembrar de suas glórias.
Desde que me iniciei neste ofício de falar sobre futebol, jamais deixei de exaltar os protagonistas desses instantes singulares de nossa história, a ponto de perpetrar um livro sobre o Palmeiras – A Eterna Academia – de que me orgulho muito, embora jamais tenha sido palmeirense. A não ser quando esse time, em campo, me encantava, assim como os demais citados.
Nessa linha de raciocínio, se assim for, teremos de recuar até o dia em que Charles Miller desembarcou em Santos com as duas bolas míticas qiue deram início a essa paixão eterna do brasileiro.
O Paulistano mereceria o título de campeão do mundo, porque nos anos 20 foi à França, e fez a Europa curvar-se mais uma vez diante do Brasil, como na canção do palhaço e compositor Eduardo das Neves em homenagem aos vôos de Santos Dumont (a outra foi a prestigiosa turnê d’Os Oito Batutas, grupo de choro comandado pelo imortal Pixinguinha).
Bem, e o que fazer naqueles dois ou três anos em que a Taça Brasil foi disputada ao mesmo tempo em que se desenrolava o Robertão? Resposta de Odir: seriam considerados dois campeões (num deles, o Palmeiras seria duplamente beneficiado), a exemplo do que acontece na Argentina, onde há um campeão do Apertura e outro do Clausura.
Um absurdo, desses nascidos de uma tentativa errática de pegar aqui e ali exemplos para justificar uma tese que não resiste a um sopro de lógica.
Se levarmos a sério tal argumento, o que dizer dos tempos – recentes, diga-se -, em que o calendário argentino era dividido entre Campeonato Metropolitano e Campeonato Nacional. No Metropolitano, incluía-se a elite dos clubes portenhos – Boca, River, Racing, Independiente, San Lorenzo etc. No nacional, incluíam-se os times de outras províncias. Para efeito de contagem de títulos nacionais lá valem os nacionais, não os metropolitanos, embora este fosse, tecnicamente, muito mais significativo.
Seria o mesmo que considerar os campeões da Taça Cidade de São Paulo, torneio que durante os anos 50/60 era disputado pelos quatro ou cinco grandes da Capital, igualmente campeões paulistas daqueles anos respectivos. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como ensinava o filósofo polonês Juarez Soares, o China.
Resumindo esse desagradável papo: façam o que quiserem, porque a mim, pessoalmente, pouco importa se este ou aquele clube vai ter mais ou menos título que o outro. Mas, diante da história e da lógica não faz o menor sentido.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Botafogo, Cláudio Zaidan, Jairzinho, Odir Cunha, Pelé, Robertão, Santos, Taça Brasil