Nesta quarta-feira, o novo Corinthians entra em campo, num jogo amistoso contra o Huracán. Mais uma festa, na verdade, do que jogo pra valer.
Muito provavelmente, sem Ronaldo Fenômeno, que continua sendo a grande diferença desse time campeão paulista e da Copa do Brasil do ano passado. Mas, certamente com Roberto Carlos, Tcheco, sei lá quantos mais da última leva de contratações do Timão.
Mas, a figura central será a do Sr. Centenário – Marcelinho Carioca -, o maior ídolo da Fiel, por baixo, nas duas últimas décadas, que se despedirá oficialmente dos campos para se transformar no embaixador do Timão, durante os festejos do centenário do clube fundado em 1910, sob um bucólico lampião à gás na rua dos Italianos, bairro do Bom Retiro, que, antes de ser tomado pelos coreanos, era berço dos judeus, depois de ter sido um dos portos dos italianos, que para cá vieram desde os finais do século 19, e que se concentraram ali, próximo da Estação da Luz; no Bexiga, à beira do rio Saracura, e no Brás e adjacências: Belém, Belenzinho, Mooca, Quarta Parada, Pari, Cambuci, Tatuapé…
Ah, o Tatuapé… Este logo foi invadido pelos espanhóis, que ali plantaram seus depósitos de ferro-velho e, como um ímã, colaram-se ao timão do escudo alvinegro. Sobretudo, depois de o advento do Palestra Itália (hoje, Palmeiras), cujo nome não deixa nenhuma dúvida, quatro anos depois.
O Corinthians, então, passou a ser o time dos espanhóis, enquanto o Palestra arrastava a imensa colônia italiana para suas hostes, e o Paulistano, de cujas cinzas nasceu o São Paulo, preservava seu carisma junto aos brasileiros da província.
Toda essa geografia da cidade e da alma paulistanas sofreu profundas mudanças ao longo das últimas décadas. E eis hoje esse Corinthians multirracial, cosmopolita, como, aliás, os demais grandes de São Paulo.
No decorrer desses cem anos de vida, muitos foram os ídolos imorredouros dessa jornada sem fim. O primeiro deles, sem dúvida, Neco, meia-direita ao mesmo tempo raçudo e altamente técnico, segundo os relatos de sua época – as duas primeiras décadas do século 20, campeão, ao lado de Fried, do Paulistano, e Heitor, do Palestra, do Sul-Americano de 1919, primeiro título internacional da história da Seleção Brasileira.
E que dizer do trio final (era assim que se denominava a formação básica da defesa – goleiro e os dois beques) Tuffy, Grané e Del Debbio?
Tuffy era o Satanás, não só por suas defesas diabólicas, mas, também, pelos traços levantinos que davam ao seu rosto uma expressão assustadora: olheiras profundas, olhar penetrante sob as sobrancelhas espessas e o cabelo negro eriçado. Morreu cedo e pobre o nosso Tuffy, como gerente do Cine Santa Helena, situado na Praça da Sé, num prédio maravilhosamente rococó onde se instalavam os ateliês dos artistas plásticos que a história consagrou como Grupo Santa Helena – Pennachi, Volpi, Clóvis Graciano etc. Ah, sim, e também a primeira academia de boxe de Kid Jofre, ninguém menos do que pai de Eder, o maior de todos os nossos pugilistas, certamente, o maior peso gala do mundo em todos os tempos.
Se for por aí, o amigo terá de dar um tiro no pneu do meu carro da memória (ou será carroça?) para voltarmos à vaca fria. Grané, becão seguro na defesa e temível no ataque, por força de seu petardo indefensável, chegou até a criar uma lenda em torno deste seu atributo especial.
Contava-se, anos mais tarde, que ele abandonara o futebol desgostoso por trágico episódio. Seu irmão Lara, goleiro do time adversário, negara-se a deixar a meta livre na cobrança de um p ênalti, apesar dos insistentes pedidos de Grané, que, só então disparou seu tiro mortal. Lara agarrou-se à bola e lá mesmo ficou imobilizado no chão – mortinh0 da silva.
Del Debbio, baixinho, era ágil e cirúrgico nas suas investidas sobre os atacantes adversários. E um jogador de rara visão de jogo, o que lhe permitiu transformar-se num dos principais técnicos de futebol brasileiros nas décadas seguintes.
Voltemos, pois, aos ídolos corintianos de todos os tempos .Eespie só essa linha media antológica: Jango, Brandão e Dino Pavão. Jango, raça pura; Brandão, o diretor de harmonia, o eixo, o centro de todos os pensamentos e ações da equipe; Dino, a fineza no trato com a bola, os gestos largos e encantadores, como um pavão abrindo suas asas para atrair a fêmea desavisada.
Entre os anos 30 e 40, essa mítica linha média servia de apoio às graças de Servílio, o Bailarino, cujo apelido já diz tudo. E, principalmente, Teleco, o artilheiro implacável que, ao pendurar as chuteiras, passou a cuidar do acervo de glórias do Corinthians até morrer.
Já nos anos 50, o ataque dos cem gols: Cláudio, Luisinho, Baltazar, Carbone e Mário.
Cláudio era o Baixinho ou Gerente, um ponta-meia-direita além de seu tempo, que não só organizava o seu time aqui atrás, como abria para a direita, de onde disparava centros exatos para os cabeceios de Baltazar, um negro forte e decisivo, o Cabecinha de Ouro, que inspirou um samba e um chorinho de grande sucesso na sua época. De quabra, cobrava faltas com tal mestria que tirava a gravidade da bola e a transformava numa folha-seca, antes mesmo de Didi patentear esse trque.
Luisinho, o Pequeno Polegar, era a quintessência da irreverência. Pequenino, franzino, o loirinho canhoto, embora jogando pela meia-direita, gostava mesmo era de se divertir e divertir a Fiel com seus dribles humilhantes sobre os mais afamados defensores da época. Mauro Ramos, do São Paulo, capitão do bicampeonato mundial pelo Brasil, era presa fácil. Assim como o argentino Luís Villa, centromédio de alta classe, em todos os sentidos. Tanto, que, certa noite, depois de uma sucessão de dribles e fintas, Luisinho sentou na bola diante de Villa, que, diante da estupefação geral, simplesmente sorriu e passou-lhe a mão sobre a cabeça.
Carbone era o chamado ponta-de-lança, aquele meia incisivo, goleador e provocador, capaz de, com suas artimanhas, tirar do sério monge de pedra. E Mário, bem, Mário era o driblador compulsivo. Quando começava a driblar, não parava mais, nem se o gol de se abrisse risonho, livre, à sua frente.
Êpa, parece esta compulsão minha: começo a contar histórias e não consigo parar.
SR. CENTENÁRIO (2)
Nos escuros anos 60, quando só o Santos de Pelé e o Palmeiras das Academias brilhavam, um menino surgiu no Parque com uma canhota mágica, feita de elásticos e um poder de chute incalculável: Roberto Rivellino. O menino, de imediato, ganhou o coração corintiano, a tal ponto que a Fiel lotava o Pacaembu duas horas antes da partida principal só para ver o Reizinho do Parque se exibindo entre os aspirantes.
De 65 a 74, Rivellino reinou no Parque como um dos maiores ídolos de todos os tempos, foi campeão do mundo pela Seleção, mas, desgraçadamente, não levantou nenhuma taça importante pelo Corinthians. Finalmente, depois da inesperada perda do título paulista para o rival Palmeiras, foi negociado com o Fluminense, onde deixou seu nome gravado para sempre na alma tricolor carioca.
E Zé Maria, então, o Super Zé, cujas arrancadas pela direita deixava a Fiel em êxtase?
Na virada dos anos 70 para os 80, foi o tempo de Vladimir, Biro-Biro, Palhinha, Sócrates, Zenon, em seguida, Casagrande, para desembocarmos na virada do milênio numa seleção de ídolos que vão do goleiro Ronaldo ao atual Ronaldo Fenômeno, passando por Gamarra, Rincón, Vampeta… e, sobretudo, Marcelinho Carioca que veste pela última vez a camisa alvinegra para se transformar eternamente no Sr. Centenário.