Vigora entre os treinadores de futebol brasileiros uma ética vesga, segundo a qual aquele que não estiver oficialmente no comando da Seleção Brasileira sente-se impedido dar palpite algum a respeito do time nacional.
Trata-se de uma besteira colossal. Afinal, o Brasil inteiro – torcida, cartolas, imprensa, o diabo – critica, escala a Seleção, cada um segundo sua própria ótica, e só o técnico de futebol, justamente o que, por ofício, é o mais habilitado a opinar, está impedido de fazê-lo por esse preceito castrador e inócuo.
Sim, claro, eles partem do pressuposto de que, se estivessem lá, não gostariam que um de seus pares metesse a colher no seu prato. Quer dizer: no fundo, no fundo, não estão preservando o técnico da Seleção de plantão; estão se preservando diante de uma eventual subida ao trono, no futuro.
Sem falar que caminham sobre aquele fio tênue entre o corporativismo e a rivalidade que une e separa as pessoas do mesmo ofício, em geral, que pode levá-los a extremos, como aquele célebre episódio, ás vésperas da Copa de 70, envolvendo o então técnico da Seleção, meu saudoso e querido amigo João Saldanha, e Yustrich, treinador do Flamengo á época.
Yustrich deu entrevistas criticando a Seleção do Saldanha, que andava rateando nos amistosos e jogos-treinos, depois de brilhante campanha nas Eliminatórias da Copa. João, irritado, muniu-se de um revólver e, numa noite de segunda-feira, quando a concentração da Gávea só abrigava alguns jogadores do tipo come-e-dorme, invadiu o recinto, na linguagem policial, e fez um tremendo auê: “Cadê o Yustrich? Quero lhe dar uns tiros na bunda!”. Coisas desse tipo.
Claro, João sabia que Yustrich não estava lá e também que não daria tiro em ninguém, mas era seu estilo. O destempero, porém, foi a gota dágua que o tirou da Seleção, substituído por Zagallo dias depois. A história de que foi demitido porque era comunista é balela. Pois, João era comunista de carteirinha desde sempre e, mesmo assim, foi alçado técnico da Seleção, no período mais cruel da ditadura militar.
Já não há João Sem Medo por aí, e, no máximo, o técnico de plantão viraria a cara para o outro, amuado. Ou estabeleceria uma polêmica pela imprensa, o que é sempre muito saudável, se elevarmos esse tipo de debate ao nível acima da fofoca, do disse-que-disse.
E aqui me lembro de Cláudio Coutinho, oficial do Exército na reserva em plena ditadura militar, que assumiu a Seleção num gesto imperial de outro militar, o Almirante Heleno Nunes, presidente da Arena fluminense e da então CBD (hoje, CBF), contra o senso comum de que o cargo deveria ser entregue a Rubens Minelli, tricampeão brasileiro, dois pelo Inter e um pelo São Paulo, em plenas Eliminatórias de 78.
Minelli, obviamente, ficou indignado, com toda razão. A simples enunciação do nome de Coutinho provocava urticária em Minelli.
Pois, um dia, vésperas da convocação final para a Copa da Argentina, Coutinho, que apesar de ser militar de carreira era um sujeito de índole mansa e de uma inteligência fulgurante, sabendo de minha amizade com Minelli, pediu-me que promovesse um encontro entre ambos.
Coutinho queria colher, sobretudo, informações detalhadas sobre os estilos, virtudes e
defeitos, detalhes, enfim, sobre o futebol de Caçapava, Batista, Falcão e Chicão, volantes com os quais Minelli trabalhara tão recentemente.
Quando propus a Minelli o encontro, sua primeira reação foi um salto na cadeira. Mas, economista formado na USP, lúcido observador da vida e do futebol, Minelli aceitou. E a reunião se deu na minha casa do Morumbi, com a presença extra de Mário Travaglini, então, supervisor da Seleção e amigo de longa data de Minelli, desde os tempos em que ambos jogaram no Ypiranga e no Nacional da Capital.
Foi um papo memorável, que transcrevi no dia seguinte na minha coluna do JT.
O que quero dizer com todo esse parangolé é que um técnico da Seleção Brasileira de mente aberta receberia com prazer qualquer observação vinda de qualquer outro de seus pares de fora. Selecionaria, obviamente, o que lhe convém e refletiria sobre isso. Só teria a ganhar com isso. E os que expusessem suas opiniões estariam contribuindo para a melhora do time nacional mais do que tentando preservar o colega com suas omissões