O PEIXE E AS ORIGENS
Não estou aqui para defender, nem atacar o técnico Muricy, por quem tenho apreço pessoal e admiração profissional pelo craque que foi e treinador de futebol que é.
Mas, apenas para fazer algumas reflexões em cima dos murmúrios na Vila sobre sua eventual investida contra o DNA do Peixe, como bem propalou o presidente Luís Álvaro. E aqui já se inicia uma arqueologia ontológica. DNA é a estrutura básica do ser humano, representada graficamente como uma escadinha em caracol que, até onde se sabe, determina quem é quem.
E o Peixe simboliza o início da espécie humana, vinda da água para se transformar, ao longo dos milênios, no rei do planeta. Por isso mesmo, talvez, o símbolo do cristianismo, que, segundo seus prosélitos, representava o renascimento, um novo começo para a humanidade.
Se tentarmos uma simbiose dos dois, poderíamos chegar à conclusão de que o DNA do Peixe significa um recomeço, uma volta às origens do futebol brasileiro, feito da exata combinação entre a eficiência e a arte.
Mas, deixemos de lado essas abstrações, que podem perfeitamente não passar de uma bobageira, e voltemos à vaca fria, que, se devidamente assada, cozida ou frita, nos deu energia para chegarmos até aqui.
Pois bem. Quem somos para invadir a alma de Muricy e saber o que lá reside, seus mais recônditos desejos, essas coisas?
Seus atos dizem por si, de acordo com as circunstâncias e as necessidades. No São Paulo, por exemplo, foi um grande vencedor, adotando uma postura mais defensiva. No Flu, foi campeão buscando um jogo mais franco, embora não tenha podido chegar ao paroxismo de escalar ao mesmo tempo Conca, Deco, Emerson e Fred, nem uma única e escassa vez, no período em que esteve nas Laranjeiras.
Mas, esse era seu desejo óbvio. Se tivesse conseguido isso, com todos os craques em plena forma, talvez esse Fluminense campeão brasileiro teria entrado para a história como um exemplo bem acabado dessa combinação de eficiência e arte.
Ao desembarcar na Vila, o que Muricy encontrou? Um sistema defensivo falho, um armador do tamanho de Ganso voltando de longa recuperação e prestes a cair de novo na enfermaria, como ocorreu, e, lá na frente, apenas Neymar, um fora de série. E, na reserva dessa turminha de elite, só alguns meninos de futuro promissor mas incerto.
Isso, sem tempo para respirar, pois era uma decisão atrás da outra, em duas frentes de batalha: o Paulistão e a Libertadores.
O que fez Muricy? O óbvio. Fechou seu time e atirou sobre Neymar toda a responsabilidade de decidir as coisas lá na frente. E, Neymar, com seus gols e assistências, até agora, tem resolvido.
Muricy, pois, fez o que qualquer técnico, do passado ou do presente faria.
O termo técnico define tudo, pois, segundo o velho livro, antes do peixe e de toda a Criação, veio o Verbo, a palavra. E técnico designa aquele cara pragmático, que resolve problemas pontuais quando eles se oferecem.
Muricy não tem cabedal nem espírito para vagar pelas ondas da teoria. No seu íntimo, imagino, bem que gostaria de montar um time que deslumbraria o mundo, como o Santos de Pelé ou o Barça de Messi, para citarmos dois tempos tão distantes entre si..
Mas, entre isso e a necessidade de escapar do jogo seguinte, prevalece a segunda hipótese.
Dessa forma, não está agindo em nada diferente dos seus mais ilustres predecessores.
Raríssimos foram os treinadores na história do futebol brasileiro que ergueram a cabeça além do horizonte dos resultados. Pode-se contar no dedo um Flávio Costa, autor da Diagonal, que prevaleceu durante os anos 40/50; um Zezé Moreira, que implantou a marcação por zona, hoje adotada no mundo inteiro, nessa mesma época.
Mas, paramos por aí. De resto, sempre foi a busca pela vitória por qualquer preço, inclusive Telê, mestre de Muricy, basicamente um treinador que buscava sempre um futebol, tecnicamente, bem jogado. Uns mais toscos; outros mais ousados.
O desconhecimento teórico sobre o desenvolvimento histórico das táticas e estratagemas, entre os atuais técnicos, mesmo os tidos como “estudiosos”, é espantoso, para quem, como este aprendiz de escriba, os ouve com certa frequência.
São técnicos, práticos, em geral, ex-jogadores, alguns ex-craques, outros nem tanto. Caras que conhecem os mistérios das quatro linhas e até desenvolveram treinamentos específicos eficazes para montar e manter uma equipe.
Mas, não estão ligados na evolução da espécie. Muito menos na volta às suas origens.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Muricy Ramalho, Santos, técnico