Mano virou, mexeu, remexeu e acabou caindo no lugar-comum ao escalar nossa Seleção com três volantes contra a Escócia: Lucas Leiva. Ramires e Elano.
Sei bem que Elano não é exatamente um volante típico. Tampouco, um meia-armador de ofício e estilo, muito menos um meia ponta-de-lança, hoje chamado de meia-atacante. Fica num meio-termo entre um e outros, que rende quando atua pela direita, quase como um ala, de onde dispara centros perfeitos e tiros certeiros a gol, além de distribuir passes exatos, mas não necessariamente surpreendentes.
É lento nos movimentos e na resolução das jogadas, mas tem excelente senso de colocação e outros méritos com a bola parada. Para compensar isso, Ramires chega bem de trás, com velocidade e arrojo, como cansou de demonstrar no Cruzeiro e, agora, no Chelsea.
Mesmo porque quem deve fazer a função de armador nesse time brasileiro será Jadson, que cumpre tal tarefa no Shaktar, a grande surpresa da Liga dos Campeões da Europa.
Particularmente, para essa posição de meia-direita, gostaria de ver o menino Lucas desde o início. Não só porque é veloz, hábil e tem fúria ofensiva, atributos básicos pra se romper uma retranca histórica com a escocesa. Mas, sobretudo, para dar-lhe um tempo de estreia antes de um segundo em que o garoto possa realmente produzir o que sabe.
Assim como para redirecionar a Seleção em direção aos rumos propostos por Mano ao assumir nosso: os da renovação de nomes e tática.
Afora isso, teremos a oportunidade de ver em ação o lateral-esquerdo Marcelo, que vem esmerilhando no Real, e a novidade do prodigioso salto de Leandro Damião, do noviciado auspicioso no Inter para a titularidade da Seleção.
Por fim, a volta de Lúcio, senhor da área da Inter, campeã do mundo e outros bichos. Lúcio já entrou para a história do nosso futebol como um dos maiores zagueiros de todos os tempos. Logo, se convocado, tem de ser escalado. O diabo é que a dupla David Luís e Thiago tem funcionado tão bem que é um pecado desfazê-la agora.
De qualquer forma, prepare-se o amigo para um jogo difícil, pegado, se não tedioso nesta manhã de domingo.
EDER E MICHAEL
Na véspera das celebrações dos 75 anos de idade de Eder Jofre, o Galo de Ouro, o primeiro campeão brasileiro do mundo e ícone do nosso boxe, o iniciante Michael Oliveira, menino de vinte anos sobre o qual repousa enorme expectativa, enfrentou Abel Adriel, outra promessa do boxe argentino.
Ambos se equivalem em idade, peso e cartéis. A diferença é o poder de punch – enquanto o brasileiro é pegador emérito, o argentino, em dez lutas, só obteve dois nocautes, o que revela sua baixa potência nos golpes.
O argentino, porém, foi muito superior tecnicamente ao brasileiro. E somou tantos pontos, mesmo para os que não são especialistas no assunto, que a vitória de Michael, ao final dos dez rounds, soou como um esbulho. Sobretudo, pela contagem dos juízes, que, em média, deram de cinco a seis pontos de diferença para o brasileiro.
Michael é extremamente resistente, mas não sei se o teria sido diante de um adversário mais potente nos golpes. Sua esquerda baixa permitiu ao oponente desferir uma infinidade de cruzados de direita que o deixou com o lado esquerdo do rosto com fortes hematomas, ao fim do combate.
Já o gringo saiu ileso da refrega.
Michael terá de se esmerar muito na sua técnica, melhorando sua guarda e os cruzadinhos de esquerda e direita, disparados quase sempre com o lado interno da luva e não como manda a cartilha com os punhos. Além de enxugar seu tórax e sua linha de cintura, já tão cedo acumulados de gordurinhas preocupantes.
Muito provavelmente nunca chegará a ser um novo Eder Jofre. Isso seria exigir demais do garoto. Eder foi um fenômeno como poucos na história do boxe mundial. Tanto que é o único brasileiro a inscrever seu nome na galeria dos imortais do Hall da Fama de Nova York, como o melhor peso galo da história do boxe planetário.
Não só era perfeito tecnicamente, fosse na defesa, fosse no ataque, como tinha um poder incrível de assimilação dos golpes do inimigo, e batia – sobretudo com a esquerda – com a potência de duas categorias acima da sua, num tempo em que a divisão de pesos era menos fluida.
Além do talento natural para a coisa, embora gostasse mesmo de ser ponta-esquerda do Peruche e desenhista nas horas vagas, Eder teve o privilégio de ser treinado desde a mais tenra infância por seu pai, o inesquecível Kid Jofre, o grande escultor de campeões de sua época.
Acompanhei sua trajetória desde quando amador, época em que pensou seriamente em abandonar o boxe, simplesmente porque não gostava de bater nos outros.
A não ser em duas ocasiões especiais, já quando profissional.
Quando enfrentou o colombiano Bernardo Caraballo, que lhe arrancara a chance de disputar o título olímpico, por inferência dos juízes. E quando defendeu seu título mundial diante do galês John Caldwell, no Ginásio do Ibirapuera, que havia desfeito do brasileiro na imprensa mundial.
Nesses dois casos, Eder adiou o nocaute o quanto pôde, só para se comprazer com as sucessivas quedas dos oponentes.
Assim como viva está na memória a antológica disputa com o argentino Ernesto Miranda, quando Eder teve de recorrer a um truque dramático para finalmente colocar o gringo na lona.
Miranda era um lutador de pouca potência, mas lisol feito quiabo. Alto, esguio, braços longos e pernas ágeis, na primeira luta, no Pacaembu, manteve Eder à distância o tempo todo. No Luna Park, de Buenos Aires, na revanche, idem com batatas. Os dois confrontos, pois, terminaram empatados.
Na negra, aqui, a coisa rolava do mesmo jeito até que Eder, ao receber um direto de Miranda, bambeou no centro do ringue e recuou até as cordas, como se estivesse grogue. Miranda, argentino malandro, ainda hesitou um pouco: será? Por fim, resolveu acreditar na cena, e partiu pra cima de Eder, encurtando a distância o suficiente para o brasileiro desferir um daqueles petardos de esquerda que mandou Miranda à lona definitivamente.
Depois, vieram os filipinos Leo Espinosa e Danny Kidd, ambos nocauteados, e a série em Los Angeles diante de Joe Medel e Eloy Sanches, em disputa pelo título mundial aberto pelo abandono do boxe por outro mexiano, Joe Becerra, desgostoso por ter matado um adversário em luta anterior. Bateu ambos, embora tenha sofrido diante de Medel.
Mas, o que me deu certeza de que Eder seria um boxeador singular foi uma de suas primeiras lutas como profissional, contra o argentino Raul Castro. Estava ali na fila do gargarejo, e vi o gringo desferir um upper de direita na ponta do queixo de Eder, golpe mortal pra qualquer lutador. Eder permaneceu em pé, embora seu olhar estivesse mortiço. Nocauteado, mas em pé. Por puro instinto, disparou vários golpes para manter o adversário longe até o gongo soar.
Na volta, atirou o gringo por entre as cordas.
E nunca me saiu da memória o ensinamento de Kid Jofre, o pai: “O verdadeiro campeão tem um cabide na alma que não o deixa cair, nem quando está nocauteado”.
Parabéns, Eder. E obrigado por tudo.