O Palmeiras subiu o morro, e voltou de Quito com 3 a 2 no lombo.
O São Paulo, tricampeão brasileiro, seleto e abrangente elenco, recebeu o modesto Independiente de Medellin no Morumbi, e suou sangue pra obter o empatezinho por 1 a 1, já quando o juiz aspirava o ar para soprar o apito final.
Obra das costumeiras maquinações da traiçoeira bola, ou meras circunstâncias do jogo e do acaso?
Na verdade, se o Palmeiras impressionou pela súbita e inesperada ascensão neste início de temporada, o São Paulo não enganava ninguém.
E, tanto Palmeiras quanto São Paulo poderiam ter saído dessas duas partidas com a vitória no placar, o que mudaria o tom das conversas e o clima nos centros de treinamentos vizinhos, lá na Barra Funda.
Afinal, se bem espremido o jogo de Quito, o Palmeiras sucumbiu a dois gols defensáveis e a um outro fruto da extrema habilidade do argentino Manso. E o São Paulo chutou trinta bolas ao gol de Bobadilla, enquanto o placar dos escanteios estampava este absurdo: 17 a 0 para o Tricolor.
Mas, o fato é que no jogo jogado ambos estiveram aquém do desejado e do necessário.
Diante do desempenho do Verdão durante aquelas nove mágicas vitórias, a queda foi grande.
O São Paulo, porém, não se afastou demais do nível habitual de suas performances, seja nesta temporada, seja na conquista do tricampeonato brasileiro.
Quando ganha – e ganhou muito mais do que perdeu -, tudo são flores. Quando perde, o técnico é uma besta, fez isso, não fez aquilo e tal e cousa e lousa e maripousa.
Sucede que essa foi a escolha do próprio São Paulo na era Muricy, se não já antes dele, ao abdicar de vez do conceito de vencer através de um jogo bem elaborado e bem executado, em favor da simplória tese de ganhar, não importa como.
Por isso, o São Paulo é tão refém das bolas paradas de Jorge Wágner, da presença de um grandalhão lá dentro da área, da marcação implacável em todos os cantos do gramado, dos três renitentes zagueiros lá atrás etc.
Quando o técnico Muricy, depois de uma das tantas vitórias do seu time, vira-se para a câmera e sentencia – Quem quer ver espetáculo vá ao teatro -, sacramenta essa visão estreita do que venha a ser o futebol como a combinação harmoniosa e indissolúvel de competição e engenho, técnica e empenho, criatividade e força.
Vivemos um tempo de resultados imediatos, onde esse discurso prolifera não só nos campos de futebol, mas nos demais setores da sociedade humana, que, em última análise, esse jogo apaixonante reflete, através de suas tramas e personagens no palco verde cercado por quatro riscas brancas.
A cada jogo, desenrolam-se dramas, comédias, pantomimas, cenas épicas a tragédias. E a cada campeonato, conta-se uma longa história de amor, horror, suspense e muita ação, até o desfecho final.
O diabo é que, como nos ensina o velho sábio, a história final sempre será contada pelos vencedores, embora até essa regra básica tenha sido quebrada pelo futebol.
Não fosse assim, e as Seleções Húngara de 54, a Holandesa de 74 e a Brasileia de 82 não ocupariam um lugar eterno no coração dos amantes do futebol, muito mais do que os quase esquecidos vencedores da hora.