SE NE VA KAKÁ?
Desconfio que, se Kaká e seus representantes praticam aquele velho joguinho de arrancar do Milan um reajuste à altura da importância do craque para o clube, Berlusconi, o Duce lombardo, que, apesar da notória intimidade com a fortuna, sente uma coceirinha no bolso.
Afinal, fala-se em coisa de 140 milhões de euros oferecidos pelo Manchester City para os cofres do rossonero, que, nestes tempos de crise mundial, ganham alturas imensuráveis.
É desses bondes de ouro cravejado de diamantes que passam uma única vez na vida dos mais afortunados. Tanto para o Milan quanto para Kaká, que passaria a faturar, dizem, 1,6 milhão de reais por semana. Repito, por extenso: um milhão e seiscentos mil reais por semana, nos próximos, digamos cinco anos. Equivale a, sei lá, uma mega-sena acumulada por mês, vezes cinco. Faça a conta.
Mas, onde a coisa empaca?
Em primeiro lugar, no cotejo entre um clube de tradição sólida, milionário desde antes Berlusconi dar o primeiro vagido, e um velho cavaleiro britânico que passou o século tentando escapar da Segunda Divisão, não é preciso dizer quem leva maior vantagem.
Aliás, a maior tradição do Milan, além de estar sempre no proscênio do futebol mundial, é a de cultivar seus ídolos até a morte. E Kaká é um dos mais caros ídolos desse time na história, embora curta seja sua presença em San Siro. Se quiser, fica no Milan para o resto da vida, mesmo depois de pendurar as chuteiras, num cargo nobre e bem remunerado, ele que já deve ter amealhado grana suficiente para não se preocupar com o futuro de seus netos.
Aí, meu, o cara fica nessa situação: jovem de fina estampa, amado e reverenciado como um rei na sua aldeia, estará disposto a trocar os prazeres de Milão pela aridez de Manchester?
Mais do que isso: o que é o Manchester City, hoje em dia? É um clube sem nenhuma expressão, a não ser pela longa vida, que pretende ser o maior do mundo, graças aos caprichos de um príncipe árabe movido a petrodólares, que tem aquele mesmo Kia da MSI-Corinthians, de tão malfadada lembrança, como interlocutor.
Dá pra se atirar de cabeça numa aventura dessas?
E, se amanhã, o príncipe cansa do brinquedinho e tira seu time de campo?
Já me referi aqui ao livro do jornalista americano Steve Coll Os Bin Laden, que conta a saga de uma das famílias mais ricas do Oriente Médio e do mundo. São tão intrincados os negócios dessa gente, tão variados e oscilantes seus investimentos, que eles passam décadas no limiar entre o nirvana financeiro e a bancarrota. Perdem bilhões, ganham bilhões, e ninguém é capaz de capturar com certeza a fonte e o escoadouro desse manancial de grana que corre daqui pra lá, de lá pra cá.
Imagino que Kaká e seus conselheiros estão pesando tudo isso.
E o que vier será o que teria de vir. Digamos, o kismeth.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Kaká, Manchester City, Milan, Silvio Berlusconi