
Direto de Johanesburgo – Para completar o gesto, Dunga tornou também secreto o treino deste domingo à noite.
Nada contra treinos secretos. Esse é um expediente utilizado há muito tempo, não só pela Seleção Brasileira como pelas demais, inclusive por clubes do mundo inteiro.
E tem lá suas vantagens. Permite ao técnico treinar algumas jogadas-surpresa, que não gostaria chegassem aos ouvidos dos adversários, além de conferir mais liberdade de ação aos jogadores, para que seus erros ou súbitas desavenças não corram as manchetes dos jornais.
Por outro lado, sonega do público e da história momentos que podem vir a ser marcantes.
Certa vez, o escritor e filósofo Aldous Huxley disse que a humanidade só atingiria a perfeita felicidade quando o último livro do mundo fosse queimado. Ironia típica de inglês. Afinal, a ignorância absoluta acabaria com o conflito de ideias, eliminaria a reflexão e o bicho homem viraria um vegetal feliz a alimentar-se da terra e do sol.
Na Idade Média, a Igreja tomou para si o monopólio do conhecimento e a humanidade regrediu séculos antes do esplendor greco-romano, até que, na esteira da Renascença, um tal de Guttemberg inventou a prensa, o que permitiu a democratização do conhecimento em níveis jamais conhecidos antes.
De Guttemberg à Internet, muita água rolou, e a informação disseminou-se de maneira avassaladora, para o bem ou para o mal, como, aliás, toda obra humana. Hoje em dia, qualquer um abre um site, um blog, um twiter, seja lá o que for, e passa a discutir com eventuais internautas os assuntos mais diversos.
Se isso traz felicidade para alguém, não sei. Só sei que o progresso, pelo menos, está intimamente ligado à livre circulação de ideias. A busca pelo conhecimento é que move o nosso mundinho, não as leis misteriosas do universo.
A paradinha… de Didi
Voltando à vaca fria, porém, lembro-me da preparação brasileira para a Copa do Mundo de 1958, na Suécia, quando nos sagramos campeões do mundo pela primeira vez.
O time ficou um tempão treinando nas estâncias mineiras, especialmente Araxá, de onde a TV Record transmitia ao vivo, em preto e branco, cada movimento de nossos craques. Uma proeza para a época anterior às transmissões por satélite.
Pois, então, numa sessão de cobranças de pênalti, estes velhos e cansados olhos – à época, jovens e expeditos – captaram um lance que entraria para a história e que, ainda hoje, é motivo de tanta discussão.
Didi, mestre em batidas de faltas e pênaltis, entre outras tantas virtudes, partiu para a bola, e, de súbito, estancou; Gilmar saltou para a esquerda, e Didi empurrou a bola, rasteira, no canto direito. Nascia naquela tarde a paradinha.
Pelé, na sequência, repetiu o mesmo movimento, incorporando-o daí pra frente ao seu vasto repertório de jogadas geniais. E recebeu, pela persistência, a patente da invenção
de Didi.
Se a história acabou sendo contada de outra forma, deve-se à ignorância do fato real. Mas, este foi devidamente flagrado pelas câmeras de TV de uma época que precedeu até mesmo ao vídeo-tape, num prosaico treino da Seleção perdido na memória coletiva.
Frangos e Júlio César
O frango inacreditável de Green, no empate por 1 a 1 entre Inglaterra e EUA, um dos melhores dessas primeiras rodadas da Copa, que tem se pautado por resultados modestos e um futebol extremamente pragmático, criou escola.
No dia seguinte, Chaouchi, goleiro da Argélia, enterrou seu time numa falha absurda: num chute longo, deixou a bola quicar e ficou com as penas nas mãos.
E isso me remete a Júlio César, talvez o maior trunfo da Seleção Brasileira nesta Copa. Sim, porque, se o amigo fizer um retrospecto do time de Dunga até aqui, verá que, nos momentos mais críticos da Seleção, Júlio César foi a tábua salvadora.
Não afirmo que nosso paredão esteja isento de cometer uma dessas besteiras, pois nesse joguinho caprichoso que é o futebol, tudo é possível. Mas, baseado em tudo o que ele fez, seja no Flamengo, seja na Inter ou na Seleção, é muito improvável. Júlio César domina todos os fundamentos da sua posição como poucos no mundo, inclusive jogar com os pés, e não me lembro de ter tomado um frango desses. Deve ter tomado, mas não me lembro.
De qualquer forma, com ele, estamos garantidos lá atrás.
A prima africana
Foi a primeira vitória dos africanos na Copa da África: Gana 1, Sérvia 0, gol de pênalti, já no finzinho da partida, quando os sérvios estavam reduzidos a dez jogadores em campo.
E olhe que os ganeses meteram uma bola no poste, num jogo movimentado, mas, como os demais, de técnica limitada, embora as duas escolas primam por jogadores de habilidade.
Há, porém, em todos os casos, que se descontar o nervosismo da estreia, que pega jogadores de todas as cores e latitudes, experientes ou não.
Primeira goleada
A Alemanha aplicou a primeira goleada da Copa na Austrália: 4 a 0, fechada com o primeiro gol de um brasileiro, Cacau.
Jogo dominado inteiramente pela Alemanha, que ainda teve um gol marcado por um polonês, Klose.
Isso me remete a um lance perdido na enxurrada de impropérios que recebi no post anterior, quase todos tisnados de um nacionalismo anacrônico, quando não perigoso.
Tão perigoso que, a certa altura do bombardeio, alguém chamou alguém de nazista. E, na sequência, uma jovem (suponho) pergunta: o que é nazista?
Bem, para reduzir a história, nazista é quem professa a cartilha do nazismo (Nazional Socialism, que de socialismo só tem o apelo às classes trabalhadoras), partido que assumiu o poder na Alemanha dos anos 30 e que levou o mundo à maior conflagração de sua história.
Essa nefanda ideologia se baseava num nacionalismo exacerbado, conduzido por um líder carismático, quando não patético, chamado Adolf Hitler, que defendia ser a raça ariana superior e que todas as demais deveriam se submeter a ela.
Para provar sua teoria, eliminou cerca de 6 milhões de judeus e eliminaria o resto de outras etnias, se tivesse ganhado a guerra.
Mas, a primeira vítima, nesse processo, foi a imprensa livre. Quem pensasse, falasse ou escrevesse contra o regime totalitário deveria ser calado, ou eliminado literalmente.
Só prevalecia uma idéia, um conceito, um líder. Fora disso, era antipatriotismo, traição, era torcer contra o grande destino da raça ariana e da Alemanha do Fuhrer.
Seu poder de persusão nasceu da frustração alemã pela perda da Primeira Grande Guerra e pelos insucessos práticos dos governos que a sucederam. E tomou vulto, na terra que havia gerado gênios como Beethoven, Einstein, Kant e Karl Marx, com a blitz krieg – uma guerra relâmpago, que incorporou à Alemanha o Soweto (não confundir com este daqui), parte da antiga Tchecoslováquia, e, em seguida, a Polônia, a França, e assim ia até que os Aliados – Inglaterra, EUA e União Soviética -brecassem o avanço alemão.
Hitler suicidou-se no seu bunker em Berlim, e Mussolini, seu parceiro de estrepolias, foi pendurado de cabeça pra baixo num poste de Milão ou Roma, não me lembro bem.
Mas, lembro que esses princípios totalitários e nacionalisteiros sobrevivem até hoje. Nós mesmos sofremos desse mal por duas vezes na história pós-Império: a Era Vargas e a Ditadura Militar, quando o slogan adotado por boa parte da população brasileiro era o famigerado Ame-o ou Deixei-o. Isto é: ou você ama o Brasil, ou vá embora. Amar o Brasil, então, era aceitar calado e submisso todas as mazelas praticadas pelo ditador de plantão, geralmente um general de poucas luzes e muita ambição.
Isso é nazismo, minha cara. Um movimento popular baseado nos mais primitivos instintos do ser humano, revestido de nacionalismo bocó e insuflado por um idiota qualquer que sabe, por esperteza, como manipular a massa ignara.
Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Antipatriotismo
Para os que me acusam de torcer contra o Brasil, de ser antipatriota, repito: quem torce é torcedor; jornalista não torce, nem a favor, nem contra, pois jornalista que torce, a favor ou contra, não é jornalista.
A propósito, vou além. Nessa linha canhestra e sinistra de raciocínio, de tachar quem faz ressalvas à Seleção Brasileira – nada mais do que um time de futebol que defende antes de tudo o escudo da CBF, uma entidade privada-, vale dizer que antipatriota é quem troca o samba pelo rock, quem se entope das porcarias fast-food importadas, que está transformando o esbelto povo brasileiro numa legião de balofos como os norte-americanos, quem despreza o seu próprio idioma, adotando rapidamente todas as fórmulas estrangeiras, quem desconhece sua própria história, quem nunca ouviu falar de Portinari, Villa Lobos, César Lattes, Noel Rosa, quem nunca leu Machado, Rosa e tantos outros gênios brasileiros.
E quem acha que essa bola jogada no Brasil e pelo Brasil é brasileiro.
Prefiro mesmo seguir o dístico adotado pelo meu avô catalão e por mim herdado: minha pátria é o mundo todo; meu povo, a humanidade; minha bandeira, o sol.