06/09/2009 - 00:27

Congelei na tela da tv o close de Maradona: os traços e a expressão lembravam uma daquelas máscaras mortuárias dos nativos andinos feitas para rituais mágicos e de sacrifício.
Exangue, pois toda sua energia se voltara para as vésperas do grande jogo, fatal para os argentinos: promoveu uma guerra psicológica contra os brasileiros, reuniu sua tropa, infundiu-lhes vigor pátrio, desafiou-os a entregar seus corações nessa partida, levou-os à igreja, fê-los ajoelhar-se aos pés da Cruz, acendeu uma vela a San Gená, conduziu Brasil e Argentina para o campo de Rorsário, onde a pressão seria maior do que no estádio de Nuñes, dançou um tango e jogou uma flor à estrela da manhã, nas suas primeiras cintilações.
Só não cuidou de dar um mínimo de segurança à sua defesa, que geme ao mais leve toque do adversário.
Resultado: 3 a 1 para o Brasil, que nada fez para tanto, a não ser defender-se com precisão quase cirúrgica, enquanto os argentinos tomavam conta da bola de cabo a rabo da partida, sem, contudo, conseguirem levá-la à meta adversária. E, nas raras vezes em que o conseguiram, lá estava Júlio César, um paredão.
Sim, houve uma pálida oportunidade que deu certo – um disparo longo e certeiro de Datolo, no ângulo esquerdo de Júlio César. Mas, aí, la vaquita já se embrenhara no brejo até o pescoço.
Pois, o Brasil, ainda no primeiro tempo, em duas pontadas obtivera seus dois gols, em jogadas nascidas de cobranças de faltas por Elano. Na primeira, Luisão surge só e lampeiro para meter de cabeça. Na segunda, a bola espirra na barreira, cai nos pés de Kaká, na esquerda, que centra rasteiro, e, pebolim!, Luís Fabiano, livre e solto, empurra para as redes vazias.
E, para maiores pecados de Maradona e cia., os argentinos sequer tiveram tempo de celebrar aquele gol de Datolo, que prenunciava a virada épica, pois Kaká recebe na meia-direita, pela intermediária gringa, uma daquelas bolas solitárias que escapavam da nossas defesa, domina, mira e executa passe milimétrico para Luís Fabuloso tocar por cima do goleiro.
O amigo sabe que tenho a maior aversão por retrancas que enfeiam o jogo e enfumaçam o brilho de uma vitória. Mas, para tudo, há exceção. E a exceção foi essa retranca brasileira deste sábado luminoso. Afinal, não se tratava de um jogo qualquer, nem mesmo apenas um dos tantos clássicos com nosso mais feroz adversário. Resumia em si toda a campanha de quase quatro anos de Dunga à frente da Seleção e a conquista, com antecipação inédita, da vaga à próxima Copa do Mundo.
Ali, naquela hora, diante de um adversário cuja potência ofensiva é notável, não havia espaço para nenhum outro pensamento a não ser fechar todos os espaços. Sobretudo, depois de ter aberto dois gols de vantagem.
Ora, somos o único futebol do planeta que nunca ficou fora de uma Copa do Mundo. E não seria agora que poríamos em risco mais essa láurea do brasileiro.
OS HERÓIS DO JOGO

Sem dúvida, Júlio César encabeça a lista dos heróis de Rosário, pelas três defesas sensacionais que praticou, duas, cara-a-cara.
Mas, ao seu lado, sem dúvida, Luisão, absolutamente imbatível, por baixo ou por cima. Além do mais, autor do gol que abriu caminho para a vitória. Pensando bem, passo Luisão para o topo da lista.
Seu parceiro, Lúcio, foi outro esteio, enquanto André Santos portou-se de forma tão magnífica, tanto defendendo como apoiando (muito menos do que habitualmente o faz, por força das circunstâncias), que dificilmente perderá a camisa titular para outro qualquer na Copa.
Por fim, Kaká, por ter estado na origem de dois gols e por ter sido o mais lúcido de nossos jogadores, embora longe de suas melhores atuações, o que é natural numa hora dessas. E Luís Fabiano, que, mesmo isolado pelo esquema e pela ausência de Robinho, cumpriu com louvor sua principal função. Ou seja, marcar gols, não um, que já seria de bom tamanho, mas, dois.
Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Seleção Brasileira, Sem categoria
Tags: Argentina, Júlio César, Kaká, Lúcio, Luís Fabiano, Luisão, Maradona, retranca, Zaga brasileira
06/06/2009 - 18:26
Foi uma vitória histórica, dessas para entrar nos almanaques do futebol: depois de trinta e três anos sem conseguir vencer o Uruguai em Montevidéu, metemos 4 a 0 neles, placar, aliás, que poderia ter se multiplicado, se considerarmos que foi pênalti em Luís Fabiano, não marcado pelo juiz, o mesmo Luís Fabiano que teve mais dois gols a seus pés, conjurados pelo goleiro Vieira, autor de um frango tão enorme, no chute longo de Daniel Alves, que daria para alimentar todo o Cone Sul.
Mas, se desviarmos o olhar para a nossa meta, então, veremos que Júlio César foi o grande pilar dessa conquistas, com meia-dúzia de defesas incríveis, além dos dois gols salvos por Daniel Alves, no primeiro tempo.
Esse gol, porém, em vez de se aproveitar da natural depressão que se abateu sobre a Celeste, por um breve momento, recuou, e o Uruguai passou a pressionar. Mesmo assim, aos 35 minutos, Juan foi lá e, em duas cabeçadas certeiras ampliou.
Contudo, só na segunda etapa, quando Luís Fabiano marcou o terceiro gol brasileiro, numa boa trama entre Robinho, Kaká, Elano e o artilheiro, que acertou belo tiro cruzado, sem ângulo, nós conseguimos botar a bola no chão esburacado do estádio Centenário.
E esse foi um fator decisivo para que o Brasil não tocasse a bola melhor e por mais tempo, envolvendo o adversário, ao nosso estilo tradicional. Não o único, porém: a presença de três volantes de contenção também influiu estruturalmente nessa clara dificuldade do time brasileiro ao longo da maior parte do jogo.
Mas, o que ficará para a história é o placar de 4 a 0, raro em confrontos desse tipo, fechado por pênalti sofrido e convertido por Kaká.

OS DESTAQUES
Júlio César, sem dúvida, foi espetacular, porque interveio nos momentos mais críticos, de forma sensacional.
A dupla de zaga – Lúcio e Juan – foram impecáveis, enquanto Daniel Alves fez um gol e salvou outros dois.
No meio-de-campo, Felipe Mello confirmou sua presença, marcando e armando mais do que seus outros dois parceiros de setor – Elano e Gilberto Silva.
Kaká, embora abaixo de suas habituais performances, pontuou jogadas decisivas, e Luís Fabiano foi o mais pontiagudo de nossos atacantes, como sempre, aliás. O diabo é que acabou sendo expulso injustamente, pois pulou sobre o goleiro e perdeu, na sequência, o equilíbrio, cena interpretada erroneamente como tentativa de cavar pênalti, pelo juiz.
E Robinho? Robinho errou passes como todos os demais jogadores em campo, mas ajudou muito (incrível, como as pessoas não vêem isso!) na marcação, roubou bolas preciosas até na área brasileira, deu um passe esperto para Elano, que não soube aproveitar, puxou o contragolpe que resultou no gol de Luís Fabiano, aquele que definiu de vez a vitória, e tal e cousa e lousa e maripousa. A turma, porém, continua atirando pedras no rapaz, dizendo que ele tentou enfeitar cada bola que recebia.
É, como sempre, o chavão imperando sobre a visão e a reflexão.
Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Seleção Brasileira
Tags: Eliminatórias, Júlio César, Seleção Brasileira, Uruguai
29/03/2009 - 20:44
Confesso que, em seis décadas acompanhando jogos da Seleção, quatro por ofício, não me lembro de termos sofrido tal domínio e tamanho sufoco de qualquer outro time do mundo na história.
Nem a Hungria de 54, nem a Holanda de 74, em nenhuma de nossas antológicas derrocadas, revelamos tanto temor, tanta covardia, tanta incompetência para sair da defesa ao ataque, ao menos. Muito menos a Itália, em 82.
O Equador, de início ao fim, tomou conta da bola, dos espaços e do espírito do jogo, criou uma infinidade de chances, mas o desempenho espetacular do goleiraço Júlio César, a trave e as imperfeições nas conclusões dos equatorianos evitaram que saíssemos de Quito com uma goleada histórica.

Aliás, fomos além: arrancamos um empate, com aquele gol de Júlio Baptista, passe de Robinho, numa das raras vezes em que chegamos à área inimiga.
Como, porém, há sempre um fiapo de justiça em qualquer jogo, Luís Fabiano perdeu outra grande chance e Noboa não desperdiçou aquela bola que pingou no rebote na pequena área.
De qualquer forma, se o empate nos favoreceu, sobretudo nessas circunstâncias, foi uma vergonha para o nível que o futebol brasileiro atingiu ao longo de sua história.
RONALDINHO GAÚCHO
Não há quem mais tenha defendido a presença de Ronaldinho Gaúcho na Seleção Brasileira, desde sempre. Mas, jogo a toalha. Rendo-me aos que o querem fora do time nacional, pelo menos enquanto estiver jogando essa bola e com esse espírito leniente, disperso, alheio.
Mesmo porque o baixíssimo rendimento, praticamente ausência em campo, de Ronaldinho Gaúcho nos jogos da Seleção, em geral, sobretudo nos últimos tempos, não me parece mero fruto de falta de ritmo de jogo, processo de recuperação física, nada disso, embora tudo isso também influa.
A sensação que me passa é de absoluta falta de força anímica, vontade mesmo de jogar o que jogava. Fica por ali batendo ponto, como um funcionário relapso e preguiçoso, esperando a hora de sair.
A não ser que Ronaldinho seja vítima de um mal físico oculto, maior, é hora de a Seleção dar-lhe um tempo para reflexão. E oferecer sua vaga a outro qualquer, mesmo sem igual talento, porém, mais disposto a jogar o jogo.
Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Sem categoria
Tags: Dunga, Júlio Baptista, Júlio César, Ronaldinho
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