CALCIO E FUTEBOL
O jogo em si não passa de um caça-níqueis, e as duas equipes que se enfrentarão em Londres não inspiram grandes expectativas de que tenhamos um desses momentos deslumbrantes do futebol.
Mas, Brasil e Itália carregam na alma a rivalidade dos deuses.
O Brasil é pentacampeão do mundo e a Itália tetracampeã. São, pois, nove títulos mundiais em campo. Isso, porém, não basta, pois não são essas similaridades que explicam a profunda rivalidade, mas, sim, as diferenças.
A Itália já praticava o Calcio na Florença de Maquiável, Da Vinci e Michelangelo, lá pelos 1500, Renascença em flor. Por isso mesmo, os italianos torcem o nariz quando os ingleses se apresentam como os inventores do futebol, embora o Calcio medieval pouca relação tinha, segundo os historiadores, com o jogo hoje praticado no mundo todo, sob as regras inglesas estabelecidas basicamente no final do século 19.
Aquelas eram disputas em torno de uma bexiga de boi inflada até mesmo por dejetos, com 22 pelejadores de cada lado e sob um clima de intensa violência, praticamente uma guerra.
Restaram na memória coletiva italiana a expressão Calcio, pra designar futebol, e esse espírito guerreiro, tático, defensivo, herdado talvez daqueles tempos em que a fragmentada Itália em cidades-estados, reinos, cidades-papais, vivia em pé de guerra, e a turma só pensava naquilo: defender seu próprio burgo do ataque vizinho.
Tanto que, para os italianos, uma partida de futebol raramente é chamada de giuoco – jogo, como nos é comum -, que possui um significado mais lúdico, divertido. E, sim, de gara – disputa, competição, rivalidade.
Assim como Calcio, em seu primeiro sentido, é pontapé, coice, não exatamente o que sugere o nosso futebol abrasileirado do inglês foot-ball, pé na bola, numa tradução literal.
Mesmo porque, se os italianos deram os primeiros chutes na Europa e os ingleses organizaram a bagunça, coube aos brasileiros, já no século passado, transformar esse jogo em arte, brilhante combinação entre competição e espetáculo, jogo coletivo e liberdade de criação individual.
É verdade que, a partir dos anos 90, com a globalização, regredimos muito nesse sentido, absorvendo mais o espírito italiano de gara e utilizando menos os ensinamentos deixados pela escola brasileira de jogar bola, embora continuemos sendo o maior produtor de craques do mundo, em quantidade e qualidade.
Portanto, desconfio que o jogo desta terça-feira, em Londres, será mais à italiana do que à brasileira, o que é sempre desagradável aos olhos daqueles que conheceram as diferenças em sua plenitude e agora são obrigados a conviver com as similaridades.
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Autor: Alberto Helena jr. Tags: Brasil, Emirates Stadium, Itália