Quando a tragédia de Abu Dhabi se abateu sobre o Internacional, de imediato, pensei no meu querido Luís Fernando Veríssimo, veríssimo colorado, e, em como a funda punhalada desferida pelos africanos deve ter sangrado seu silêncio proverbial. Sim, porque sofre mais quem sofre em silêncio. E o Veríssimo é refém e, ao mesmo tempo, abençoado pelo silêncio, que guarda suas palavras para exprimir-se em textos magníficos como o que exprimiu na sua coluna do Estadão do dia seguinte.
Quem não leu, deve ler.
Na sua crônica, Veríssimo fala, com voz dorida, sobre a esperança despedaçada em noventa minutos de jogo.
Mas, isso tudo me remete a uma frase cunhada pelo mestre Rubens Minelli, que reencontrei, lúcido e vigoroso, aos 82 anos de idade, outra noite no Bem, Amigos.
Minelli, um ícone da história do Inter, pelo bicampeonato brasileiro de 75/76, quando o Colorado exibiu um dos maiores times da história do futebol brasileiro cunhou frase lapidar: futebol é momento.
É isso mesmo, futebol é momento. Um momento que você pode estender por longos ou curtos períodos.
E esse negócio de priorizar esta ou aquela competição mais importante, em detrimento da menos importante, soa como algo racional, inteligente, providencial até. Mas, contraria. Infelizmente não é.
Veríssimo expressa em sua crônica a inveja do torcedor catalão, que nunca é surpreendido por passos em falso de seu Barcelona.
Ora, por que? Porque o Barça encara cada jogo, seja no campeonato nacional, seja na Liga dos Campeões, na Copa do Rei, na Copa da Liga, com a mesma convicção, mesmo que, neste ou aquele, use mais ou menos reservas para preservar os titulares para a disputa subsequente.
O Inter, como o Palmeiras na Copa Sul-Americana, e a maioria dos clubes brasileiros em tantas outras competições, costumam jogar todas as suas fichas num só número, dando as costas aos demais.
Futebol é momento. Um momento que se renova a cada rodada, o ano inteiro, numa sequência interminável. Não importam os resultados pontuais. Importa é o cultivo permanente do desejo de vitória. Manter a alma ligada à ideia básica de vencer, sempre.
Quando esse encanto é quebrado pela racionalidade de uma estratégia qualquer, quebra-se o elo da corrente que liga esse time a algo superior, impalpável, à mágica que diferencia o vencedor do perdedor.
E quem paga o pato, no fim das contas, é o Veríssimo e tantos milhões de apaixonados como ele, pelo Inter e todos os outros clubes brasileiros que repetem esse esquema ao infinito.
Mais títulos
Antes de tudo, quero dizer que os clubes eventualmente abençoados pela CBF com os títulos brasileiros extraídos da antiga Taça Brasile do Robertão merecem tudo isso e muito mais, sobretudo quando se trata do Santos de Pelé e cia. o maior de todos em todos os tempos.
Ponto.
Mas, que não tem a menor lógica essa decisão, ah, isso não tem mesmo.
Explico: no caso brasileiro, há duas linhas de sucessões que caminharam e caminham até hoje paralelamente, não sendo lícito confundi-las.
Uma, é aquela que nasce com o Rio-São Paulo, vira Robertão, com as integrações de clubes paranaenses, gaúchos, mineiros, pernambucanos, baianos etc. O Robertão gera a Taça de Prata que, em 71, se transforma no Campeonato Nacional que, em seguida, muda de nome – Campeonato Brasileiro.
Outra linha sucessória é a da Taça Brasil, que hoje é chamada de Copa do Brasil.
Há momentos em que esses dois torneios nacionais correm paralelamente, o que nos dá dois campeões brasileiros no mesmo ano, o que é uma discrepância.
Mas, tudo bem: se quiserem conferir aos campeões da Taça Brasil o status de campeões brasileiros, ainda que criando a duplicidade de títulos, nada mais a obstar, desde que então se confira o mesmo louro a todos os campeões da Copa do Brasil, do seu início até o seu fim futuro.
PS: É preciso explicar que o jornalista Odir Cunha, autor da tal pesquisa que virou pleito de alguns clubes, repete sem parar o mantra de que quem contraria essa tese é torcedor de clubes que, eventualmente, cairiam no ranking das conquistas. Conheço Odir desde seus tempos de foca. É um moço dedicado, de boa índole, mas absolutamente tomado pelo fanatismo clubístico. no caso o Santos.
Como tal, julga que todo mundo é igual a ele. A tal ponto de, quando contrariei sua tese há algum tempo, aqui mesmo, ele me enviou um comentário, tipo chantagem: sei bem qual é o seu time, logo você está contra porque quer defender a prioridade dele. Obviamente, ele queria se referir à minha antiga paixão pelo São Paulo, que nunca escondi. Apenas, se esvaiu com o tempo, essa sutis coisas da vida que ele é incapaz de sequer perceber, cego pela própria paixão.
Uma tremenda bobagem, típica de quem tem um olho só.
A Fifa e os direitos humanos
O presidente da Fifa, Joseph Blatter, acaba de fazer um pedido público, no mínimo, bizarro. O suíço conclama a bicharada a se abster de seus prazeres sexuais durante a disputa da Copa do Mundo no Qatar. Obviamente, por razões religiosas, o que, lá, se confunde com a legislação do país.
Incrível, nessa história, é que essas escolhas de países fora do eixo Europa-América, sempre tiveram como objetivo integrar essas regiões, de forma democrática, através do futebol. Ora, nesse caso, nada mais adequado que a Fifa, em vez de pedir abstinência aos gays, convencesse os dirigentes desses países aceitarem, pelo menos durante o período da competição mundial, os hábitos e costumes dos visitantes.
Lembro que, durante várias décadas, a Fifa puniu a África do Sul pela abjeta lei do Apartheid, justamente porque essa discriminação aos negros fere os princípios dos direitos humanos. E só escolheu a África do Sul como sede do Mundial passado porque essa discriminação foi abolida oficialmente naquele país.
Uma perguntinha: bicha é inferior a negro ou judeu, ou qualquer outro extrato humano que, aqui ou ali, nesta ou naquela época, foi discriminado? Houve um tempo em que nossos crioulos não podiam fazer batucada,e em que os judeus na Europa não podiam usar o quipá, e eram obrigados a mudar seus nomes originais por outros, ditos cristãos, caso contrário, crestavam no fogo eterno da Inquisição. Será que o alvo só mudou de foco.
Ah, sim, antes que confundam meu sobrenome com esse libelo, aviso, amigos e amigas, que sou, sempre fui e serei espada, por inclinação e escolha.