DANÇA DO DIABO 2
A propósito dessa dança de treinadores, inclusive os de méritos indiscutíveis e fama nacional, vale lembrar a confirmação, ao vivo e em cores, de Cuca, outro dia, no Arena Sportv do Cléber Machado, sob o comando de Maurício Noriega, de uma questão por mim levantada: sim, os técnicos brasileiros, diante da sombra da demissão, que é mais ou menos constante, apelam para a retranca, a fim de evitar a derrota fatal.
Ora, como só há um líder, um eventual campeão, no transcorrer da competição nacional, e dez, doze candidatos potenciais, sem falar no grupo que só está lá para evitar o rebaixamento, a imensa maioria dos técnicos estará sempre acuado pela perspectiva de demissão antes do cumprimento do prazo de contrato.
Quando digo que são dez, doze candidatos ao título, é preciso ter uma visão paroquial da questão. De norte a sul deste país, em cada estado, temos de dois a quatro clubes grandes, que assim se consideram pela força de suas respectivas torcidas e por suas tradições regionais, e cujas torcidas e cartolagem exigem a conquista do título, o que se restringe, na prática, a, no máximo, meia dúzia de clubes, sobretudo representantes das zonas, economicamente, mais poderosas: São Paulo, Minas, Rio e Rio Grande do Sul.
Não é por desprezo aos nordestinos, aos catarinas, aos paranaenses, goianos etc., que, a imprensa do tal eixo (antes, era apenas Rio-São Paulo; hoje é Sudeste e Minas) que se debruça mais sobre os clubes desses centros do que os demais. É porque esses clubes estão na vanguarda, em geral.
Quando o Sport cumpria aquela bela campanha, era chamado de Leão Encantado, a Ilha do Retiro de Ilha da Fantasia, e o rubro-negro pernambucano ganhou espaços generosos na imprensa do chamado eixo. É a lei do mercado, a que todos estamos atados – uns mais, outro menos.
Isto posto, voltamos à vaca fria: nesse cenário de tamanha instabilidade para o treinador de futebol em geral, no Brasil, não há lugar para os tais projetos de longo prazo tão decantados por clubes e profissionais do ramo. A não ser projetos com prazo de validez de um ano, no máximo. O resto é conversa mole pra boi dormir.
Se não há projeto, não há estratégia definida. E, se não há estratégia, é aquele vai-da-valsa conhecido. Sai um treinador mais teórico, entra um disciplinador, que, por sua vez, mais à frente, cede seu lugar a uma celebridade, que acaba entregando o cargo a um emergente, e assim la nave va, de norte a sul, mais ou menos à deriva.
Resultado: todos eles, diante de tal instabilidade, tratam de salvar a própria pele. E quem paga o pato é o espetáculo, o jogo jogado nas regras da arte. É retranca pra cá, retranca pra lá, o que acaba deformando até o nível de exigência dos novos torcedores que se vão formando nesse padrão de baixo repertório.
Estes se limitam a exigir vitórias, títulos, o que é impossível para 99 por cento dos times em disputa.
Assim, os técnicos, na sua imensa maioria, sequer podem colocar em prática suas ideias, se é que eles as cultivam.
Peguemos dois exemplos extremos, dos dois mais badalados treinadores brasileiros, um, dono de currículo irrepreensível como técnico de campo; outro, simplesmente, tricampeão brasileiro, um feito inusitado: Luxa e Muricy.
Luxemburgo está aí na praça há vinte anos acumulando títulos, batendo recordes, em vários clubes, mas sob a mesma concepção de um futebol ofensivo, envolvente e tal e cousa e lousa e maripousa. Aliás, por onde andou, sempre repetiu o mesmo discurso nesse sentido. Contudo, ao se ver apertado no Palmeiras, apelou para o sistema com três zagueiros, que ele próprio execrava publicamente.
Muricy, embora desde o Inter apelasse para o mesmo sistema, sempre proclamou seu gosto particular por filé mignon, mas justificava o feijão-com-arroz temperado do São Paulo pela ausência na praça de meias, o que lhe permitiria mudar o esquema, uma meia-verdade, diga-se. E olhe que Muricy teve uma sobrevida no São Paulo fora do comum no futebol brasileiro: três anos e meio. Mas, isso só foi possível pela conquista dos três campeonatos brasileiros seguidos. Quando o time vacilou, caiu.
Resumindo: se não mudarmos essa mentalidade (nisso, incluo mídia, cartoalgem e torcida), nenhum treinador sairá de trás das muralhas. E quem paga o mico é o futebol brasileiro.
PS: O post Dança do Diabo bombou, com mais de duzentos comentários dos internautas, muitos dos quais ofensivos e idiotas, revelando preconceitos e ignorância inauditos, o que é comum neste país de semi-alfabetizados. A esses, me permitam dar o desprezo. Aos que, porém, mantiveram o nível mínimo de civilidade, mas que entenderam a crônica como uma expressão de patriotismo, quero lembrar que rechaço isso logo de cara no texto. O Cruzeiro é Brasil não porque leve a carteira de identidade verde-amarela. É Brasil porque representa a escola brasileria de jogar bola, aquela que conseguiu, ao longo da história, conjugar arte e competividade no mesmo nível. Só isso. Nem de longe suponho que os torcedores dos demais clubes vão torcer pelo Cruzeiro nessa decisão com o Estudiantes. Nem pretendo que isso ocorra. Afinal, a escolha é livre. Tampouco torço para que o Cruzeiro vença por causa do Cruzeiro. E, sim, pelo que ele representa – a verdadeira escola brasileira de jogar bola, a mais completa que o mundo conheceu e reverenciou. Não há nada de patriotismo, ufanismo ou qualquer ismos desses, como deixo claro no texto. Mas, que fazer, se as pessoas só lêem o que querem?
Autor: Alberto Helena jr. - Categoria(s): Campeonato Brasileiro, Clubes brasileiros, Treinadores Tags: Cruzeiro, Ilha do Retiro, Sport

